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Roda Dos Livros

Repensar a maternidade: entre o instinto, o abismo e o silêncio

Efeitocris, 25.07.25

Maternidades em contraluz, leitura comparada entre Boulder, de Eva Baltasar, e Como amar uma filha, de Hila Blum 

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As narrativas sobre a maternidade pedem hoje uma leitura crítica que reconheça a sua pluralidade de formas, vínculos e experiências. Não se trata de encontrar respostas, mas de abrir espaço para interrogações: o instinto maternal é mesmo natural? Ou é algo socialmente exigido às mulheres, independentemente do seu desejo ou circunstância?
É nessa zona de fricção que se encontram Boulder, de Eva Baltasar, e Como amar uma filha, de Hila Blum — dois romances que, a partir de vozes e geografias distintas, desconstruem ideias feitas sobre o que significa ser mãe.

Em Boulder, a maternidade surge como algo imposto, não desejado. A protagonista, envolvida numa relação com outra mulher, vê-se arrastada para uma parentalidade que não quer. O seu percurso revela o desconforto que nasce quando se espera que o instinto apareça “naturalmente” — só porque é mulher, só porque ama outra mulher. A linguagem de Baltasar é afiada, condensada, e traduz essa ambivalência: a protagonista tanto acolhe como repele, tanto ama como se ausenta. O livro não oferece reconciliação, mas um retrato cru da mulher que não se reconhece no papel que lhe é atribuído.

No extremo oposto, Como amar uma filha explora a história de Yoella, mãe que sempre quis sê-lo. No entanto, perde o vínculo com a filha, que corta o contacto e a deixa num silêncio irreparável. A partir desse vazio, a narrativa reconstrói a tentativa de “ter feito tudo certo” — proteger, cuidar, amar. Mas a ausência da voz da filha e o olhar obsessivo da mãe levantam uma pergunta difícil: quando é que amar se transforma em vigilância? E o instinto, por mais presente que esteja, basta?

Ambos os romances recusam a visão idealizada da maternidade. Mostram que ela pode ser desconforto, desencontro, cansaço ou excesso. E que o amor, mesmo quando existe, não garante pertença. Ao problematizarem o que é ser mãe — ou não querer sê-lo — Baltasar e Blum contribuem para pensar a maternidade como um território plural, cheio de zonas cinzentas. E isso, hoje, é mais necessário do que nunca.

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Para ler mais sobre Boulder, clique aqui e sobre Como amar uma filha, aqui. Boas leituras.