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Roda Dos Livros

«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva - Opinião

Roda Dos Livros, 27.08.19

«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva é um livro necessário essencialmente para recordar a maldade inerente à polícia política do Antigo Regime, mas mais do que tudo expor a maldade no feminino, daí que a personagem da PIDE venha na imagem da agente Leninha. No entanto, para deixar maior marca no leitor a autora precisava de ter sido mais crua, fosse com as descrições das personagens, fosse com as longas noites de tortura. Ainda assim é um documento importante e interessante para se pensar a perseguição política e a humilhação a que tantos homens e mulheres foram sujeitados. Em certas partes, a linguagem com um leve toque poético não lhe cai mal, mas distraí o leitor do importante: a violência, o ódio, a injustiça e o clima de medo.
"Como represália, gritaram-lhe que fizesse a estátua: «Agora vais fazer de Cristo». Um dos agentes riu-se e os outros pegaram-lhe nos braços. Laura sentiu um calafrio, uma horrível sensação causada pelo toque das mãos suadas na sua pele. Bastavam poucas horas naquela posição para ficar rígida como um cadáver. (...)
As noites pertenciam às agentes femininas que as impediam de dormir. (...) - Leninha, Odete ou Lourdes - ia batendo com  moeda debaixo da mesa. Aquele ruído tinha o som de um trovão numa penumbra de profundo silêncio."
Há um constante duelo entre Laura e a agente, no entanto, a narrativa segue um outro rumo a partir do momento em entra mais na vida de Leninha e vemos que o seu duelo pessoal, a sua luta é muito anterior à PIDE e compreendemos que o caminho da violência lhe era adivinhável.
"No dia em que Salazar foi a Setúbal e beijou Maria Helena na testa, o seu pai deu uma tareia à mulher."
São nestas descrições de época, retratando as décadas de ditadura e a necessidade de deixar muitas palavras rentes à boca que também vemos o outro lado, o de Laura, a jovem a quem é dada a oportunidade de vir para Lisboa estudar Direito; aqui entra-se na luta e na resistência estudantil, mas também com Laura a autora nos coloca a pensar na sobrevivência e na superação do trauma.
“A vigilância praticada pelos agentes da PIDE era um serviço de Estado Português. O seu propósito secreto era o de que as pessoas deixassem de ter pensamentos para se transformarem numa frágil teia de espírito permeável ao terror.”
Quase no final, o palrar patriótico e a justificação pela lealdade e cumprimento de ordens, juntamente com nenhuma procura por redenção ou perdão, intensifica os traços psicológicos da personagem ligando-a à enorme desumanização de todos os regimes.

«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz :: Opinião

Roda Dos Livros, 18.04.19

princípio de Karenina ou a imperfeição que é querer medir a felicidade. 
"A imperfeição salvar-me-ia com igual intensidade e na mesma medida com que me faria sofrer"
É nesta medida dúbia, tendo na imperfeição a salvação, que um homem narra a sua história, numa longa carta de apresentação, à filha que não viu crescer. Explicando-lhe "uma orientação invisível e subtil das nossas vidas através dos afectos", mas também o drama de ter medo do desconhecido e como isso limita o tamanho do mundo; mundo esse sempre estrangeiro como o das mulheres que mais amou.
Essa aversão ao estrangeiro, as costas voltadas ao infinito que é uma janela aberta e toda as fronteiras que mais parecem muralhas, são heranças que cedo sabemos lhe terem ficado do pai. Heranças angustiantes, marcadas por sentimentos fortes que o sufocaram durante décadas.
"Lembro-me muito bem dessa refeição em que o Dr. Vala disse à mesa que as batatas vinham da América do Sul. As emoções, positivas ou negativas, são uma máquina de impressão. Todos os acontecimentos tendem a desvanecer-se, mas a emoção grava-os na pedra da realidade, da nossa realidade (...) O cheiro das batatas cozidas estragava-me o nariz, (...). Olhei de soslaio para o meu pai, tentando perscrutar alguma reacção sua que confirmasse aquilo que eu acabara de perceber, a imoralidade de certa comida que mastigávamos e engolíamos (...)
- O que é que se passa? O menino está pálido.
Estava, efectivamente. Como se enfia na boca uma coisa de tão longe, com um oceano pelo meio, como se mastiga aquela distância toda?"
É essa distância, difícil de mastigar e, mais ainda de engolir, que o assombrou a vida inteira. Vida essa falsamente protegida pela imponência dos muros da moralidade, pregada entre gerações como estandarte contra o Mal.
"Um herói ou um santo só existe se confrontado com o Mal, só existe depois de emergir ileso da barbárie, e eu queria ser um santo como os que ouvia na missa e admirava nos nichos de pedra e nos frescos da igreja."
Para além dos santos, também a mãe vivia encerrada nesses nichos. Temente, ausente e de poucas palavras, constantemente esmagada entre a forte personalidade do marido e "a necessária encenação social que nos mantém coesos enquanto comunidade".
São entre estas personagens e outras pontuais que vamos conhecendo a história deste homem e de uma mulher vinda de geografias longínquas. Conhecemos-lhe o amor e os medos e questionamos atitudes de decisões de quem esteve mais perto de uma felicidade maior e a deixou fugir. Será mesmo assim?
Este, como todos os livros de Afonso Cruz, faz-nos olhar para dentro. São frases pequenas, que parecem simples e que nos arrebatam, puxando-nos para dentro, numa tentativa de perceber mais o que metemos para fora.
E a certa altura, numa conversa entre miúdos, concluímos que onde não há flores há caminho E que o medo nos pode fazer coxos da cabeça, deformando-nos. E que mesmo deformados encontramos um atalho para a vida.

«Pão de Açúcar» de Afonso Reis Cabral - Opinião

Roda Dos Livros, 19.12.18

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"(...) soube que me oferecia tudo o que eu procurava: a colisão de mundos em perigo, o conflito dos intervenientes com ele no centro, a problematização do corpo, as consequências da miséria, essa palavra que já não se usa mas ainda se aplica, o equilíbrio entre o desespero e a esperança. Quer dizer, nada de especial. "
É em conversa com um interveniente das zonas sujas, Rafael Tiago, que Afonso Reis Cabral parte para esmiuçar a ideia central deste «Pão de Açúcar». A morte violenta de Gisberta, facto verídico (Porto, 2006), confere a este romance o lado mais negro de uma sociedade que alimenta e faz crescer crianças que se tornam adolescentes desajustados e desapegados de valores ficam muito aquém dos desejados.
"(...) A bicicleta ainda não se tornara real, faltava dá-la a conhecer. Assim é com desgraças e felicidades, partilhamo-nas para mediar a emoção. Mas então pensei, qual alegria qual tristeza, era só sucata despejada com outras porcarias. Calei-me porque achei ridículo, angustiante também, que o lixo de um fosse o entusiasmo de outro."
É no meio do lixo e da doença que uma amizade frágil e intermitente se dá, satisfazendo necessidades de atenção de ambas as partes e reciclando os restos de uma bicicleta, entretanto, entre visitas, a violência e os ânimos exaltam-se e resultam na morte de um transsexual seropositivo e sem abrigo.
"Ela meteu a ponta do indicador no arroz, experimentou um bocado, e depois já punha a mão inteira, já dizia «Está quente!», engolindo com gozo e fazendo os gemidos de quando o ser humano é bicho. (...) Ávida de limpar o lado dela, não reparava na minha cautela. Apesar de contente por vê-la satisfeita, a imagem da doença babada para a panela fez-me nojo. (...) Contudo, o nojo persistia como as tareias que se apanham na infância e nos deixam o corpo dorido até ao fim da vida."
O cenário não podia ser mais degradante e é em si uma personagem que sublinha a critica social, alertando para um problema que persiste em tantas cidades de norte a sul do país; prédios abandonados aos quais os interesses económicos ou os imbróglios jurídicos não deram seguimento e que são focos promotores de miséria.
"(...) O esqueleto não dava hipermercado. (...)"
"As ratazanas foram as primeiras. Ainda as obras decorriam e já elas se aninhavam nos cantos. (...) À noite, os ocupantes dormiam em barracas improvisadas com caixotes, toros, cartões, plásticos e colchões. Melhor dito, dormiam em lares com toques de luz a conquistar o cimento. A ruína sobrevivia à frustração e sublinhava-se: era só gente a dormir. (...) Para ser útil, não bastava abrigar pedintes, segredos, porrada, troca de seringas, orgasmos e gestos brandos. Não, para ser útil, havia que inaugurar um parque de estacionamento."
O livro é rico nas cenas de convívio entre os jovens e no Pão de Açúcar com Gisberta, mas também dá saltos temporais que levam o leitor a conhecer as duras realidades que ali chocam. Os capítulos oscilam entre o presente de Rafael como mecânico, o lar/abrigo onde os jovens foram criados e a pensão onde Gisberta se prostituía, bem como momentos específicos de algumas daquelas vidas.
"A determinado momento, a Gi passou-lhe a mão pelo cabelo e ele aceitou a carícia com uma naturalidade que eu nunca igualaria. A naturalidade de quem lida desde pequeno com travestis. Para mim foi como levar uma flechada na cabeça: ser assim afagado era mais do que muita gente podia esperar da vida."
Entre alimentar Gisberta e auxiliar Rafael no arranjo da bicicleta, outros episódios acontecem entre os restantes jovens, ainda assim, e mesmo o leitor sabendo o fim, não parece existir nada de decisivo para que a violência ocorra e persista dia após dia. Talvez as circunstâncias, o acaso, a revolta, a desesperança e a solidão... Talvez. Mas isso e muita falta de carinho.
"Dali veríamos as coisas de outra maneira, os problemas ficariam na cave. Os dela, a morte que a comia por dentro, que a obrigava a abdicar a cada dia; os meus, saber que a necessidades de a ajudar só fazia sentido por ambos não termos mais ninguém."

«Salvação» de Ana Cristina Silva - Opinião

Roda Dos Livros, 07.12.18

"Não grito menos, talvez grite mais baixinho, não choro menos, mas talvez as minhas lágrimas se tenham tornado menos silenciosas. Pela aritmética passaram seis meses desde a morte de Sofia, pelas minhas contas não passou nem um dia.""Salvação" é um livro de recolhimento na morte e de superação pela escrita. Ou do processo de criação de personagens com as quais se reconstrói um sentido para a perda, o luto, mas também o perdão."Eu e David Negro recolhemo-nos na morte da mulher amada e tornámo-nos um só. Esta absorção de um no outro explica que tenha conseguido escrever um capítulo num único mês como se a minha personagem tivesse pegado na minha mão e redigisse por mim as frases."Colonizado pela dor, o narrador deste livro dedica-se a preencher os seus dias com a escrita de um romance, um novo livro imposto pelo mulher que acabou de falecer, um pedido feito estratégia para que ele supere o luto.Dividido em pouco mais de doze meses, acompanhamos os capítulos de "O Livro", escrito também sobre o luto e a perda de uma filha, onde o protagonista David Negro expõe as suas mágoas, memórias e reflexões. Ao mesmo tempo, em capítulos que são as fases de luto do narrador, vamos sabendo mais da sua vida com Sofia e do seu dia-a-dia lutando pela superação."Desde que a minha mulher morreu o meu luto tornou-se num dilúvio que não deixa espaço para mais nada. A dor não é um local iluminado (...) Mas neste momento, sinto que a jornada de David Negro se transforma num dever que vai para além do pedido de Sofia, ainda que esse percurso não esteja, nem nunca possa estar, separador dela. Até porque é minha intenção apontar o dedo ao deus a que ela tanto rezou e aprisioná-lo numa rede de acusações."No longo corredor que é o luto e no qual não é possível passar a correr, o narrador embrenha-se numa complexa rede de memórias, no sofrimento e na culpa, sem esquecer acusações e dúvidas, onde Deus tem um papel decisivo, mas a História e o seu curso também. A forma como "O Livro" percorre séculos, o rumo dos eventos chega até aos actuais e as inquietações ancestrais são equiparadas às de hoje: as crises de fé e de valores e as consequências no ser humano. E assim, desta forma, Ana Cristina Silva cava ainda mais fundo o fosso do abandono e da culpa, retratando muito bem o lado emotivo dessa pressão psicológica."Continuo a falar com a minha mulher, mas lentamente a morte de Sofia vai deixando de ser a medida de todas as coisas. (...) Se a dor tivesse assas e batesse, diria que o seu movimento se foi tornando mais suave (...) Porém, o sofrimento do luto não voa, apenas pulsa por dentro (...) tanto assim que só vivo para me afundar na memória dos tempos felizes."Se retirássemos os capítulos que dizem respeito à escrita de "O Livro", a maneira como a autora relata a perda e a dor é de tal forma emotiva e insistente que traz o leitor para o sofrimento do narrador, tornando a leitura quase aflitiva. E quero com isto dizer que é extraordinária essa capacidade, pois não acho que caia na repetição, mas sim aumentando a densidade psicológica do personagem."(...) Em cada intervenção, ele alcança um novo patamar de profundidade, frases empolgadas, quase poéticas - como se existisse uma estética da morte (...)"Também seguindo uma estética da morte, associada à própria estética de fé e crença, "O Livro" transforma-se num romance histórico que denuncia e relembra o fanatismo religioso do século XVII e o liga aos eventos violentos actuais para os quais o próprio escritor se sensibiliza quando o luto lhe permita se ligar novamente à realidade que o rodeia: a morte no espectro do fanatismo jihadista."Há um momento em que tenho o mais absurdo dos pensamentos: talvez estivesse a ver repetidamente o mesmo grupo de pessoas a sofrer o mesmo atentado (...) Como se aquelas pessoas não tivessem individualidade, como se se tivessem convertido num borrão desfocado de um ecrã, como se a morte se tivesse tornado uma banalidade."

«Dormir com Lisboa» de Fausta Cardoso Pereira :: Opinião

Roda Dos Livros, 20.02.18

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Apesar da capa bastante apelativa que este livro tem, não resisti a esta foto que encontrei numa das minhas pesquisa e que o emoldura muito bem. E merece.

Conheci a Fausta Cardoso Pereira aquando do seu primeiro livro sobre a peregrinação a Santiago de Compostela e mais tarde li, com bastante entusiasmo, o seu primeiro romance, «O Homem do Puzzle».

Este livro é igualmente um puzzle. As peças são desaparecimentos. Os encaixes que falham são as decisões e inacções de um Governo boquiaberto com a fome de Lisboa por pessoas.

Ambos os romances partem do insólito e são pautados por episódios até plausíveis que degeneram em eventos com traços de fantástico. O insólito dá origem a metáforas para buscas muito transversais a todos nós: reencontros, descobertas, necessidade de ordem e a procura de equilíbrio. Se o primeiro se centrou mais no individuo, este procura analisar a relação de um povo com a sua cidade e de um Governo, pejado de personagens caricatas, confuso e alheado com o estado de sítio que se instalou.  

«Dormir com Lisboa» não é centrado numa personagem ou num evento, mas antes na relação com Lisboa. No que ela transmite, pede e dá àqueles que a amam, a visitam ou a vivem de muito perto, todos os dias, testemunhas da sua História e evolução, mas também dos constantes ataques que lhe fazem, fragmentando e descaracterizando-a.

Excertos:

"Trazia ainda a ânsia de respirar o Tejo para perceber se estaria insonso ou salgado, e sentir-se pequenina na distância que separa as margens. Queria olhar as pedras da calçada, mais ou menos quadradas, mais ou menos do mesmo tamanho, peças de um puzzle que não encaixam muito bem porque a separá-las cresce musgo e erva daninha."

"Lisboa era indiferente ás discussões entre quem lhe tratava da crise. Assistindo a tudo isto, ela convencera-se de que o Grupo de Crise é que estava em crise, pois tratava-se de um conjunto de pessoas cujas dúvidas eram as únicas certezas, mesmo quando queriam dar a ideia que a situação , imprevisível e perigosa, estava controlada e sabiam o que fazer."

"Enquanto a dona Emília Gualter falava, o Inspector percorria-lhe o rosto e o corpo em busca de sinais que denunciassem os seus noventa anos. Reparou nas pontas do cabelo grisalho (...) nos dentes brancos que o fizeram questionar se seriam dela ou placa, no pescoço sempre levantado, incapaz de se curvar ao amarrotado que seria de esperar (...) nas costas direitas como as de uma bailarina. Não havia ali noventa anos; apenas a continuação interrupta de uma forma de senhora."

“O retorno” de Dulce Maria Cardoso :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.03.17

Li este livro em 2015 enquanto visitava Munique e me desloquei ao campo de concentração de Dachau. Foi interessante, e não deixa de ser bizarro, a ligação entre algumas coisas que li, vi e senti, tanto ao ler o livro, como ao visitar o campo. A memória realmente deve ser alimentada para que determinados eventos, que marcaram toxicamente a história de um país, não se percam na fraca e limitada memória colectiva das gerações vindouras.

"Estavam lá retornados de todos os cantos do império, o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber."

«O Retorno» de Dulce Maria Cardoso regressa aos tempos da descolonização quando chegam a Lisboa cerca de meio milhão de pessoas, a precisar de alojamento, trabalho, comida e integração numa sociedade diferente daquela que deixaram nas ex-colónias. Neste caso em particular, Angola, de onde Rui e a família saíram. Rui, de quinze anos, é o narrador deste retorno, com ele e pelos seus olhos assistimos a esta situação que se degradava de dia para dia, enquanto o processo revolucionário tentava ganhar o seu lugar.

"A culpada de a mãe ser assim é esta terra. Sempre houve duas terras para a mãe, esta que a adoeceu e a metrópole, onde tudo é diferente e onde a mãe também era diferente. O pai nunca fala da metrópole, a mãe tem duas terras mas o pai não. Um homem pertence ao sítio que lhe dá de comer a não ser que tenho um coração ingrato (...)"

O regresso é pautado por sentimentos de desconfiança, mas de esperança, de humilhação, mas de saudades. Há amor de diversas formas, um amor à terra que os viu crescer, um outro que os liga a uma terra que os acolhe, o amor entre irmãos... há tantas formas de amor, como de revolta num livro terno, mas duro, divertido, mas também recheado de episódios negros desta nossa história tão recente.

"(...) mas o João Comunista não é comunista, chamam-lhe assim por estar sempre a dizer que o império era uma vergonha, que devíamos ter vergonha por termos subjugado inocentes durante tantos séculos. Já houve macas enormes à conta disso, (...), o Sr. Serpa só gritava, que os de cá digam isso é uma coisa mas você devia ter juízo e vergonha nessa cara."

"(...) os que lá trabalhavam para o estado não estão nos hotéis, têm a vida arranjada, foram colocados nalgum sítio ou reformaram-se, alguns até têm trabalho e reforma. São recompensados como se tivessem estado no inferno enquanto nós somos tratados como se tivéssemos de ser castigados."

O hotel que os recebe e a respectiva directora sofrem transformações que acompanham o mesmo tipo de mudanças que estão a acontecer com as famílias acolhidas. A revolução não se faz só na rua, as atitudes e as opiniões reaccionárias estão ali e talvez ali sejam tão ou mais precisas, de modo a devolver dignidade e esperança aqueles que ali estão. Estão, mas estão como se estivessem sem chão e tecto, sentem-se injuriados e sem perspectivas e isso a autora consegue muito bem relatar pelas constante acção atrás de acção e simultânea reacção.

"Mas o que fazem é gastarem horas a lembrar-se do que perderam, se me ponho a pensar no que lá ficou dou um tiro na cabeça, acho que já ouvi cada um deles nesta conversa pelo menos uma vez.

Os homens também querem arranjar trabalho para mostrar aos mangonheiros da metrópole de que massa os retornados são feitos, se conseguimos construir terras como as que fomos obrigados a deixar também conseguimos mudar o atraso de vida que a metrópole é."

O relato de Dulce Maria Cardoso é bastante sentido, diria assim, com muita coisa preto no branco, tipicamente como se vê com os olhos dos nossos 15 ou 16 anos, com as ideias a fervilharem e a pedirem conselhos, mas a quererem toda a liberdade que com essa idade se anseia, isto tudo junto com o clima de instabilidade e transformação social e uma série de ideais que aparecem em conversas que deixam dúvidas e das quais também se fazem piadas.

O conteúdo é assim bastante rico e abre espaço para inúmeras reflexões, tanto para quem viveu esse período do Verão Quente de 75, como retornado ou não ou quem, como eu, apenas o estudou nos manuais na escola. É igualmente interessante ler este livro e ver a série portuguesa "E depois do adeus" que a RTP passou, julgo, que entre o final de 2014 e o início de 2015.

«Cartas Vermelhas» de Ana Cristina Silva :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.03.17

Carol, nascida em Cabo Verde, forma a sua identidade política, de ideais comunistas, enquanto estuda e vive a sua juventude em Lisboa, algum tempo depois já mãe, vê-se obrigada a deixar a filha num colégio russo para levar a cabo as suas missões partidárias. Os anos decorrem, os amores chegam e partem e a militância comanda-lhe os sonhos e a vida. Agora é tempo de reencontro, mas já passaram mais de 20 anos.

"O meu propósito não era modificar o passado, tão-pouco configurá-lo numa versão benigna, favorecendo-me através da descrição das circunstâncias que limitaram as minhas escolhas. No fundo, apenas desejava que reconhecesses como eu fora arrojada nesse tempo em que imaginava um novo mundo onde a felicidade dos homens viesse a ser saciada."

"Só a paixão detém poderes para anular as distâncias. Só esse estado fulminante faz com que o amor se perca de toda a racionalidade."

Sem modificações ou versão benigna, viajamos com Carol pelo seu passado, relatado através da sua memória, não para trazer de volta os anos que se perderam entre mãe e filha, mas para relatar o que foi a sua vida nos cerca de 20 anos de ausência na vida uma da outra. Desde a infância em Cabo Verde, até aos anos em Lisboa, e às missões pelo estrangeiro, tudo vai sendo relatado ao longe de capítulos que demonstram a escrita cuidada e equilibrada de Ana Cristina Silva.

"O povo de Cabo Verde não era formado por gente, mas por silhuetas famintas que se moviam lentamente. Mas os miseráveis da Cidade da Praia (...) em vez de chorarem lágrimas crepusculares, quando a luminosidade do dia declinava, preferiam entoar cânticos festivos na praia, ao som de tambores."

Do amor a um povo e a uma cultura que sempre desinquietou Carol, rapidamente passamos à admiração pelas palavras visionárias que a fizeram abraçar a causa comunista. E também abrir espaço a novas aventuras e amores que a consumiam com o fogo da paixão, mas também a lucidez de uma mulher que se desejava independente.

"O discurso dele ia ao encontro do que sempre procurara em Cabo Verde e nunca descobrira. A justiça da doutrina inspirava-a. Ele não se exprimia como quem dá lições, mas como um verdadeiro visionário."

"Aquele beijo constituiu para Carol a verdadeira origem da autoconsciência do seu poder de mulher. Apesar da inexperiência, intuíra que, como em certos livros, no amor há sempre um que ama e outro que é amado..."

Avançamos enredo adentro com as várias identidades que Carol assumiu, mas aceitamos desde logo que a política e as suas aventuras e desventuras são o foco central do livro, as paixões, os homens, os amigos, os militantes, os destinos, são meros veículos para conhecermos esta mulher que agora se apresenta, por via da ficção, à filha Helena. A narrativa espelha uma certa angústia e um tom distante, mas, a meu ver, em busca de reconhecimento pelo percurso que traçou.

"Ao relembrar o que aconteceu, puxa-se o fio de um novelo cuidadosamente enrolado. Um romance favorece uma história coerente, conseguindo atenuar a incongruência de certas acções, abrindo caminho para escolhas plausíveis que ficam bem numa narrativa, mas que na vida real revelam consequências devastadoras. Se confiarmos no texto, fico mais parecida com uma criatura mais fiável e corajosa."

«A avó e a neve russa» de João Reis :: Opinião

Roda Dos Livros, 15.02.17

Em estreia absoluta na publicação de autores portugueses a Elsinore traz-nos João Reis e este seu romance de tom (só tom!) infantil «A avó e a neve russa».

Seguimos Russkiy (diminutivo nada xenófilo!!!) na sua saga por salvar a família, o que implica nada mais nada menos, que racionalizar nos seus dez anos de idade, uma ida ao México a fim de salvar a avó Babushka, sobrevivente do acidente nuclear de Chernobly.

"(...) e é assim que quero ser quando for adulto: mais seguidor da racionalidade do que das emoções, para não sofrer."

Há toda uma geografia peculiar e mascarada da realidade, assim como num sonho-meio-acordado em que vive este rapaz de conhecimentos quase enciclopédicos, mas dono da ingenuidade e da inocência de quem, mesmo misturado e vítima de algumas dificuldades, vê ainda o mundo pelos olhos próprios da infância. Mas, sem nunca esquecer o peso de querer ser um «homenzinho».

"Quando se é velho, o sangue não chega às extremidades, e é necessário exterminar os pés com uma serra, ou os velhos ficam vegetais na cabeça, o que tem lógica se virmos os desenhos do corpo: o coração está sempre ao centro."

"Ontem, antes de a Babushka ter o ataque de tosse que a fez dobrar-se em metade que é, tão pequenina..."

Perante a constatação do avanço da doença, o menino não entende a passividade da medicina, mas não baixa os braços. Recorre à filosofia, aos filmes, aos livros e a um rol de personagens que complementam muito bem toda a narrativa e justificam, digamos assim, a panóplia de ideias que lhe povoam a cabeça.

"Há que pensar em tudo muito bem pensado, e admira-me que o Matt não saiba estas coisas. Mas ele não tem televisão e não vê filmes, por isso, até se percebe que não saiba o essencial da vida."

Esse essencial da vida, que reestruturamos à medida que vamos com esta personagem pelo avançar dos dias enquanto não neva e ficamos a pensar nas ideias simples, mas bem recheadas com as quais se perde a caminhar e a pensar na vida. E nisso João Reis quase nunca perde o rótulo inicial, o tom meio infantil e inocente é constante no discurso deste descente de quem veio do frio das neves russas.

"Um dia, quero também tirar uma fotografia a preto e branco, cheia de sombras e de luzes, para parecer misterioso e os meus filhos e netos e descendentes imaginarem aquilo que fui quando já não se lembrarem de quem eu era na realidade, e assim me tornar interessante e importante."

Continuo a dizer que apesar do tom infantil e que por vezes nos faz soltar uma risada aqui e ali, há toda uma mão cheia de reflexões que nos fazem parar para pensar. Este é um livro no qual pegamos e temos dificuldade em largar. Apegamo-nos ao personagem e queremos viver com ele emoções que cruzam fronteiras e atravessam culturas.

"Ao dar um passo após o outro, tenho pena de que na cidade das partes suplentes não existam olhos menos tristes e pulmões mais fortes."

Uma dor tão desigual :: Opinião

Roda Dos Livros, 17.01.17

contosOs contos povoaram o meu final de 2016 e alguns deles atravessaram o ano e continuam comigo, é o caso do conto «Jogo honesto» de Nuno Camarneiro que se encontra nesta colectânea. «Uma dor tão desigual» propõe-se a abordar a saúde mental, explorando as inúmeras fronteiras e as dificuldades associadas à depressão, solidão, demência ou até ao estigma que é a procura por ajuda profissional.A colectânea reúne contos de oito autores portugueses, todos eles muito diferentes na forma e no conteúdo e de outra forma não podia ser, pois só assim espelha a diversidade que compõe a complexidade da mente humana.De Richard Zimler fica-me um tango e um certa tristeza, mas também a resiliência:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=djJGEWeeNUo&w=420&h=315]

*

De Patrícia Reis em «A impossibilidade de ser livre» a assustadora realidade.

"Não sei como definir o bem, esse estado de bonomia apesar das agruras e penas duras da vida."

*

De Camarneiro fica-me quase tudo, já que foi o meu conto favorito, mas a imagem que fiz na minha cabeça é a de um homem mixando comprimidos e anotando percentagens e probabilidades como se fosse o euro milhões e não uma tentativa de suicídio. É macabro, mas é brilhante e embora um cenário muito negro.

"Os pensamentos e as emoções desviados como trânsito de uma via impedida, orientados para a frente, para o futuro, para novas possibilidades que conseguia imaginar e até cumprir. E eu sempre a vi partir, transtornado, preso a tanta coisa, parado num engarrafamento sem fim à vista."

 *

Na «Chameada de pássaros» por Maria Teresa Horta (MTH) reencontrei «Meninas» e toda a desafeição materna que pauta os contos de MTH, um desamparo próprio de cada um quando caminha, constantemente atrás dos seus próprios passos, dos passos dos seus entes queridos, aqueles que nunca consegue atingir.

"Sem conseguir explicar a si mesma aquela sensação de excesso que de súbito a cumpre, fazendo-a sentir-se a mais onde quer que esteja, sem pertencer a parte algum, nem caber em nenhum lugar. Desafeiçoada ao disfarce da vida."

*

Pegando nas palavras de MTH, há mais desafeiçoados do disfarce da vida dentro desta colectânea.  Nos contos de Afonso Cruz (AC) ou de Gonçalo M. Tavares (GMT) encontramos os desafeiçoados do costume, desiguais dos demais, tão cheios de histórias e filosofias, tentado assim apontar um caminho alternativo... talvez o da literatura, da filosofia e até o da religião.

"O avarento ao não prescindir de coisa alguma, da maior à mais insignificante, abdica de tudo, pois não desfruta de nada." AC

No conto de Afonso Cruz há uma outra ideia na qual fico a pensar. Os buracos, umbigos de coisas por preencher, não falhas, não rachaduras ou defeitos, mas uma incompletude passível de ser preenchida, colada a outro, ornamentada, trabalhada, lembrou-me esta imagem e ensinamento japonês:

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Neste mini manifesto filosófico pelas insignificâncias como mote para toda a ressurreição possível e um exercício criativo que é levantar-se um ser humano danificado. Foi assim que vi, esse desejo de unir a individualidade de cada um, mas sem deixar de olhar para ela como o que é digno de partilharmos com os outros.

Ou ainda a brilhante ideia de GMT de termos na cabeça, no topo dela, o caminho para a salvação e a ligação que ele faz com a imagem de um menino de 7 anos a acenar aos aviões como que pedindo ajuda para saber qual era o mapa, é simplesmente maravilhosa.

*

No conto de Dulce Maria Cardoso (DMC), a quem foi muito bom retornar ;) não me saiu da cabeça um certo regresso a um livro desigual, «O meu irmão» de Afonso Reis Cabral e a temática da família, deixando sempre a questão: "Até que ponto nos define a família? essas outras metades de nós?"

"Não dava sequer conta da repulsa que o irmão causava aos outros. Mas chega sempre o momento em que se repara no olhar deles, e depois nunca mais deixa de se reparar, chega sempre o momento em que o olhar dos outros fica a contaminar o nosso como um vírus maligno."

DMC explora um outro lado também bastante inquietante e muito presente, o dos medos:

"O medo e a curiosidade são vigiados e reprimidos como doenças, em vez de serem tratados como sobras da infância."

Há ainda a ideia de ver e ser visto, pensando nas personagens que desempenhamos aos olhos dos outros, como que construindo todo um enredo só através de um cruzamento de olhares.

"Afinal, talvez eu não conhecesse bem o meu amigo de há tantos anos. Era então tristemente verdade que não há maior nem mais intransponível distância do que a que existe entre duas pessoas, pensar que se conhece é um disparate."

*

Do conto «Jaca» de Joel Neto, para além da história em si, retiro uma passagem que acho extremamente actual e até preocupante:

"Quer dizer, está a chegar a idade, não? (...)«Há uma idade idade para cada doença. Aos seis são disléxicos e aos oito hiperactivos, aos doze têm Asperger e aos quinze sintomas de autismo. E, antes de finalmente serem apenas deprimidos, aos dezoito são bipolares e aos vinte e três esquizofrénicos, não é assim?»"

Julgo que a frase resume muito bem o que se passa com a sociedade actual e a forma como se encara tanta a adolescência e a entrada na vida adulta, como a banalidade da possível doença psíquica. Daí que talvez, mais tarde, seja tão difícil pedir ajuda.

«Hotel» de Paulo Varela Gomes :: Opinião

Roda Dos Livros, 14.01.17

pvg-hotelApetece-me começar logo por dizer que «Hotel» foi uma das grandes leituras de 2016 e que o recomendo pelo brilhantismo que encontramos na escrita de Paulo Varela Gomes, mas também pelo intrincado artístico que encontramos no dito hotel, que é muito mais que um antigo palacete acastelado e propriedade de Joaquim Heliodoro que, brotado milionário recentemente deseja que as obras sejam capazes de o transformar numa peça de arte para a qual o leitor se dispõem, com muito gosto e admiração, a olhar e a querer conhecer, durante todo o livro.

"Era dele, dele!, aquela enorme casa, um mundo de recantos e desníveis, de portas e postigos, de passagens e escadas, de corredores e impasses, por onde podia, se quisesse, andar livremente, cosido às paredes como um espião, ou todo-poderoso como um fantasma, onde podia abrir todas as portas, deitar-se em todas as camas, repousar em todos os sofás, refrescar-se em todas as casas de banho, olhar para o seu feio corpo em todos os espelhos."

Para além da arquitectura e de uma certa adoração aos ornamentos e ao detalhe, existe todo um lado carnal e de retoque erótico que vai alimentando uma curiosidade no leitor, especialmente pelas preferências escopofílicas de Heliodoro. Cedo ficamos a perceber o seu desejo incontrolável de observar. Percorremos corredores, subimos e descemos escadas juntamente com este personagem longilíneo e leptossómico, na ânsia de, entre coisas não ditas e lições de arquitectura, possamos compreender o jogo erótico que se poderá esconder por detrás de tão misterioso espelho.

"(...) e tudo se decidiu num intervalo de tempo, mas também num lugar preciso, uma casa, porque a escopofilia, diferentemente de outras orientações sexuais, resulta directamente das características do espaço que separa o olhador do objecto olhado, do modo como a luz ilumina certos lugares e se afasta de outros (...), quer dizer, a escopofilia é uma pulsão arquitectónica e arquitectada, a ponto de o lugar (...) adquirir uma intensidade erótica que subsiste muito para além do olhar."

Paulo Varela Gomes escreve prodigiosamente, o impacto da linguagem e o poder de inúmeras descrições conferem à narrativa toda uma outra dimensão e profundidade, tal como a Joaquim Heliodoro. O enredo não avança durante inúmeros capítulos, mas no entanto toda a erudição alimenta o leitor com curiosidades e conhecimentos que se tornam suculentos e completam muito bem a acção.

"Disse ao casal, o seu fascínio quase hipnótico pelo exercício da erudição, uma espécie de arte de memória e da minúcia, nas suas palavras, uma arte ao mesmo tempo de arquivista e de presciente (...). O erudito é aquele que faz melhor uso do arquivo da memória. (...)

(...) a remissão para autores ou fontes não prova nada, só prolonga a espiral do conhecimento, vertiginosa e sem destino, sem fixação possível."

É com Heliodoro, Margaret, Laszló Batory e Manuela que andamos nesta espiral, que se prolonga num livro maravilhosamente hábil, inteligente, delirante, intrincado e divertido que ora esconde, quase que por pudor, ora desvenda e explica de forma enciclopédica e explícita e vai mimando o leitor, tornando-o ele mesmo num voyeurista dissimulado, mas viciado nos pequenos alarmes que se vão acendendo à medida que o mistério avança.

"O observador começa por ser confrontado com uma porta muito velha, perfurada por dois orifícios, através dos quais só uma pessoa de cada vez pode aceder à vista, uma função privada característica do voyeurismo. (...) os lábios do seu sexo estão mesmo em frente da abertura da parede. Todo o dispositivo está construído de modo rudimentar, mas a figura poderia ser interpretada como vítima de um crime..."

Se quisermos podemos ainda olhar a este hotel, com os seus quartos e corredores, dignos de desencontros e conjugações que entre si permitem diversas orientações ou atalhos para o enredo. O enredo é a vida. O hotel é a vida de Joaquim Heliodoro, a obra que um homem pensa, desenvolve e na qual toma parte, um legado, um feito para observação e contemplação póstuma. Em paralelo com estas conclusões, mais para o final do livro, existe um capítulo fabuloso que encerra em si, exactamente, esta noção de que a vida é uma combinação de desencontros e conjugações.