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Li este livro de um
fôlego. Todo seguido. Não por serem só 100 páginas, nem por ser um policial empolgante - devo dizer que consegui atravessar todo o livro sem a menor curiosidade sobre quem seria o assassino. Não, não sofro de apatia patológica. O que se passa é que o enredo policial foi o que aqui menos me interessou. No entanto, gostei muitíssimo do livro e não tenho a menor dúvida em recomendá-lo com toda a convicção. Porquê? Porque, sob a capa de uma história policial, a autora tece aqui os retratos de várias personagens, tanto a nível psicológico como sociológico, com uma precisão cirúrgica e, ao mesmo tempo, uma sensibilidade desarmante. É impossível não identificarmos os traços de algumas delas com alguém que conhecemos; é impossível resistirmos à tentação de ler só mais um capítulo para descobrirmos só mais uma personalidade descrita com realismo, muita humanidade e alguma ironia.
Talvez seja também a estrutura escolhida para o livro que o torna impossível de largar. Os capítulos em que as personagens se auto-caracterizam, através de um diálogo que mantêm com um interlocutor invisível, são intercalados com capítulos retirados do diário da vítima do assassinato. Assim, é-nos mostrada apenas metade da identidade de cada um: enquanto, dos possíveis perpetradores do crime, conhecemos a imagem que dão de si a quem com eles contacta, sem nos ser permitido mergulhar no seu íntimo, já no que diz respeito à vítima é-nos aberta a porta para os seus pensamentos mais recônditos, aqueles que admite apenas perante si mesma, mas nunca a vemos interagir com ninguém, faltando-nos portanto saber como se apresenta perante o mundo. Esta dualidade de apresentações foi, a meu ver, uma opção muito inteligente; e, combinada com a magistral escrita da autora, deixa-nos, da primeira página até à última, com uma vontade irresitível de ler mais e mais.
Infelizmente, este livro não teve a divulgação que merecia e não só passou despercebido como, neste momento, já nem sequer se encontra disponível nas livrarias. Foi-lhe ainda atribuída uma capa feia e apagada, capaz de repelir a atenção até do leitor mais interessado. Cabe-nos, pois, a nós, como leitores, chamar a atenção para a sua existência e não deixar que outros sejam privados da possibilidade de o ler. O livro tem página no facebook (www.facebook.com/TodosOsDiasSãoMeus), por isso sugiro desde já que façam como eu e encomendem um exemplar à autora. Não se vão arrepender.
Excertos
"Mas olhe que foi uma coisa feita com cuidado. À hora do jantar, num elevador, podia ter sido apanhado. Que eu para mim foram os cranianos. Uma pouca-vergonha, a senhoria com a ganãncia de ganhar dinheiro ir alugar o rés-do-chão a dez galfarros que ninguém sabe quem são. Deve receber pouco, deve, e não passa recibos quase de certeza, isso, isso é que a Polícia havia de investigar, essa escandaleira. O senhor já viu? Parecem umas vigas, aqueles olhos metem medo, muito azuis, não são boa gente. E depois longe da terra, todos sozinhos, quem é que diz que não violaram a moça? Bonita não era, mas a fome é negra, não é o que dizem? E os homens, bom, não são esquisitos, qualquer burra de saias lhes serve, quando não vão para outras coisas, que com essa estrangeirada nunca se sabe, isto agora está o mundo roído dos ratos, chove nele como na rua, já dizia a minha mãe, coitadinha, se cá voltasse morria outra vez. Ah não foi violada? Pois olhe, sempre pensei. Mas para mim foram eles, mais que certo." (págs. 12-13).
"Não leve isto para a política, mas, com tantas liberdades, os miúdos hoje são muito menos livres do que naquele tempo. Sim, têm telemóveis quando mal sabem falar, têm computador e internet quase sem saberem escrever, e dão-se com gente cuja existência os pais nem sequer imaginam, mas não sabem o que é passar tardes inteiras a jogar à bola lá fora, sem ter um adulto sempre em cima a vigiá-los. Agora não podem sair nem para comprar uma dúzia de ovos do outro lado da rua, não conhecem os vizinhos, e acabam por se fechar para o mundo. Era dentro dos prédios que se diluíam as diferenças sociais, que os filhos do professor se davam com os da porteira. Diga-me lá, isto é liberdade? Para onde foram todas as crianças que davam vida a esta cidade? Deixaram-me aqui, a mim e aos outros, à espera da morte, sem o consolo de ouvir as suas gargalhadas prontas, a sua vozearia que enchia de vida o bairro inteiro. Se calhar o senhor nem dá por isso. Mas eu tenho muito tempo para pensar, e tudo em que penso me faz sentir mais só." (págs. 57-58).
"Na vida as pessoas são tudo menos coerentes e conseguiram surpreender-me sempre - pela negativa. Os livros existem porque alguém concebeu uma intriga com princípio, meio e fim, com peripécias e um desenlace. A vida real pode arrastar-se indefinidamente por intrigas mesquinhas, completamente desprovidas de interesse, e sem outro fim à vista que não a morte." (pág. 60).
Editorial Estampa, 2012.