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Roda Dos Livros

«Todos os Dias são Meus» de Ana Saragoça :: Opinião

Roda Dos Livros, 28.11.18

"Sempre li muito. Não me lembro de mim em pequena sem um livro por perto - o que deve querer dizer que a minha vida consciente só começou quando descobri a leitura. Os livros afastavam-me do que me rodeava, das colegas que faziam troça de mim, da realidade melhor-que-a-de-muita-gente-mais-ainda-assim-bastante-desoladora da minha infância.

Ao longo dos anos fui-me recolhendo mais e mais nos livros. Recebi todos os rótulos possíveis: empinada, marrona, bicho-do-mato, (...) acabaram todos por me deixar em paz, arrumando-me na prateleira das caixas-d'óculos vagamente apalermadas. O resultado foi uma grande liberdade interior, que é a minha riqueza maior até hoje."

Esta é a voz da "razão", rotula-se a si mesma e apresenta-se através das páginas de um livro resgatado ao lixo. A solidão impera e a estranheza também.

A voz do professor, agora reformado, nostálgico e desamparado completa essa solidão e o abandona à rememoração e imaginação.

O rebuliço do prédio, não menos só, pertence a dois miúdos inquietos, mas só, sem outra companhia para brincadeiras a não ser um elevador acompanhado do vómito diário do cão nervoso da porteira.

A porteira, regateira, é um autêntico jornal de caserna, enche a sua solidão com o sobe e desce com que nos dá a conhecer a vida dos vizinhos. A vida que ela acha que eles têm. E é aí que tudo se torna mais digno de investigação. Conhecer a solidão de uns pelo espelho da solidão de outros e resolver o enigma do cadáver no elevador.

"Naquela noite chamei o elevador e ele veio. Ignorei o deslize da pobre máquina e desci as escadas. A luz do patamar estava acesa, a porta fechada. Sentei-me no último degrau, alimentando uma vaga esperança de que ela se tivesse enganado, mas lá no fundo sabia que acabara tudo.

Tudo o quê? Não me pergunte. O meu luto começou naquele dia, e enterrei-a no dia em que a mataram. Sei que foi assassinada, sei que é uma vítima, sei que ninguém merece morrer assim, mas que quer? Foi como se ela me tivesse fechada a porta na cara mais uma última vez."

Um enredo mirabolante que espalha personagens e vidas que se assumem como tentáculos, sugam o leitor e viciam-no até atingir a última página. Isto sem esquecer as gargalhadas, a inteligência e uma análises incisiva às coisinhas tipicamente portuguesas.

Quando fores mãe, vais ver - Ana Saragoça

Roda Dos Livros, 12.04.16

9789896573911Quando dei por mim estavam várias pessoas a olhar e eu quase sem conseguir conter o riso em plena sala de espera do consultório médico. Foi assim durante praticamente toda a leitura desta jóia literária que se faz de "Pérolas do Folclore Materno".

Uma regresso à infância ou talvez não, porque tal como a mãe da Ana também a minha ainda hoje recorre a muitas destas expressões e e também para a minha mãe ainda não cresci, apesar de já ter um filho adulto...

Mas mais do que ouvir, também eu dou por mim a repetir algumas destas pérolas. Melhor, já as ouvi repetidas pelo meu filho a um primo mais novo... Enfim... A tradição perpetuar-se-á e ainda bem.

Revi-me inteiramente nas palavras da Ana Saragoça e senti o livro como meu.

Um livro que se lê de uma rajada.

Recomendo, recomendo, recomendo!

Excertos

"Meus amigos, a agressão passiva é uma arte. Uma arte que as mães praticam com uma destreza inigualável. Digam lá, quantas vezes se sentiram desesperados com coisas que ouviram às vossas mães, sem no entanto conseguirem pegar numa ponta para lhes poderem responder à letra? É tremendo, não é? Se o Conselho de Segurança da ONU fosse constituído apenas por mães, nunca haveria governantes zangados: apenas muito, muito desiludidos uns com os outros.O que responder, por exemplo, àquela admoestação que todos ouvimos quando não queríamos comer o que tínhamos no prato? Sim, o inevitável...

Com tanta criança a passar fome em África..." (p. 41)

(...)

"Eu avisei-te

Vá, quem nunca a disse que atire a primeira pedra. (...) Juntamente com a pérola vinha sempre uma expressão entre triste e resignada, como se eu fosse um caso perdido que deusnossosenhor lhe tinha dado como castigo de algum pecado desconhecido. Era o inefável:

Tu não me ouves...

Percebem a genialidade desta farpa? É que não era preciso ter avisado nada antes. Todas as desgraças que me aconteciam, todas as que lhe aconteciam e até algumas que aconteciam ao mundo, quiçá mesmo a fome em África, resultavam da minha recusa sistemática em acatar toda e qualquer palavra que saísse dos sábios lábios maternos. (...)" (p.44/46)

(...)

"E os gatos! As premonições desastrosas desde o início da gravidez devido a termos cinco gatos em casa! (...)Quando por fim veio ao mundo um mocinho perfeito apesar da gataria, começou a preocupação seguinte: os pêlos. «Lá em Viana morreu um bebé porque lhe entrou um pêlo de gato para os pulmões» (...) Quando preciso de saber alguma coisa procuro na fonte que nunca me deixou ficar mal: os livros. (...) não resisti a contar à minha mãe que tinha lido que o melhor remédio para prevenir a asma era dar todos os dias à criança uma colherinha de pêlos de gato. O clarão de pânico que lhe atravessou o olhar até perceber que era brincadeira foi delicioso." (p.97)

Sinopse

«Criar filhos exige doses gigantescas de paciência, estoicismo, resistência e imaginação. Ao cabo de milénios desempenhando primordialmente esse papel, as mulheres de todo o mundo acabaram por desenvolver um léxico quase comum, um glossário de frases feitas que todas ouviram às mães,e todas juraram que nunca repetiriam aos filhos - com os resultados que se conhecem.

«O vocabulário das mães é verdadeiramente um colar, mas não de pérolas. É mais daqueles a que se vão acrescentando penduricalhos ao longo da vida, sem nunca retirar nenhum. O folclore materno tem frases certeiras em todas as áreas e para todas as fases de crescimento dos filhos: infância, adolescência e idade adulta - embora, para as mães, o conceito de idade adulta nos filhos seja altamente discutível. E, claro, com a chegada dos netos, nunca perdem uma oportunidade de nos inundar de novo com a sua imensa sabedoria...»

Mãe há só uma

Mas cada uma contém em si toda a diversidade do mundo!

 

Planeta, 2013

Todos os dias são meus, de Ana Saragoça

Roda Dos Livros, 01.02.15

todososdiassaomeus
O truque é escrever o suficiente para vos acicatar a curiosidade e vos fazer ir procurar, comprar e ler este livro mas escrever apenas esse suficiente. Porque expectativas elevadas são o que mais estraga a leitura de um livro. E este livro merece ser apreciado e acarinhado. Por isso estão a ver o meu problema, não é?
Não vos quero estragar a leitura e contar-vos demais, não vos posso falar da ex-porteira cusca todos os dias que tem um cão que enjoa no elevador, mas só para baixo que para cima não há crise,  Não vos posso falar do engenheiro com dois filhos que também gostam de brincar no elevador onde, por acaso, morreu uma miúda sobre quem toda a gente tinha uma teoria mas que ninguém conhecia realmente.
Não vos posso contar que nestas pouquíssimas páginas se esconde um retrato hilariante de tanta gente que conhecemos e uma tristeza imensa, que faz doer a alma.
 Não vos posso contar tanta coisa... porque quem ler este livro merece ser surpreendido como eu fui e apreciar a leitura da primeira à última página.
Mas pronto, posso dizer-vos que este é um policial, que tem um toque de comédia, negra mas comédia. Mas que também tem um toque de solidão, de desespero.
E posso dizer-vos para irem ler este livro e para descobrirem a Ana Saragoça, uma maruja do Colectivo Nau.

“Todos os dias são meus” de Ana Saragoça

Roda Dos Livros, 11.08.14

 

todososdiassaomeus

A leitura de “Todos os dias são meus” estava, para mim, associada à sombra algo inquietante de expectativas muito elevadas. Daqui resultam normalmente dois desfechos antagónicos; ou se leva com um frustrante balde de água glacial na cara ou se fica deslumbrado perante o talento do autor e perante a história que nos é oferecida. Neste caso verificou-se, sem qualquer resquício de dúvida, a segunda hipótese. Ufa! Agora já se respira mais fundo e o ar que preenche os pulmões traz consigo uma leveza bem como uma grande alegria de ter satisfeito a compulsão para a leitura com mais um livro memorável e cativante. Um pequenino mas gigantesco livro, um verdadeiro livro-ostra, pois a sua capa, um grande exemplo do cúmulo da discrição, importante em muitas situações na vida mas não no que aos livros diz respeito, não permite antever a pérola nele contida. Lida num ápice, esta pérola, não branca nem totalmente negra mas sim marmoreada de branco e negro, dá-nos o privilégio de rirmos e de nos emocionarmos com aquela maneira de ser que é tão portuguesa, tão obviamente nossa. Este romance encerra em si múltiplas leituras e diversos ângulos que nos remetem para a sociedade portuguesa, actual e não só, e fá-lo quase sempre no tom ligeiro de quem brinca com o leitor. Absolutamente brilhante e original é o modo como a história nos é contada: na primeira pessoa, apenas com acesso às palavras ditas por um dos interlocutores de um dado diálogo, deixando ao leitor a tarefa de imaginar o que diria o outro participante. A excepção são os capítulos intitulados “Razão”, palavra susceptível a várias interpretações e genialmente escolhida.Ana Saragoça faz parte de uma nova geração de escritores portugueses que, na minha humilde opinião de mera leitora, está a revitalizar de modo brilhante a nossa tradição literária e que merecem ser lidos e acarinhados pelo público. E, a propósito disto, relembro aqui outro enorme talento das nossas letras, Afonso Cruz:“Encheremos o mundo de coisas preciosas, serão tantas que os homens passarão por elas julgando-as banais.” in “Para onde vão os guarda-chuvas”As coisas preciosas estão aí, á nossa volta e á nossa espera. Quem tem olhos para ver, veja e deixe-se deslumbrar.

Excertos:“ Da Polícia? Se é por causa do cão, fiquem sabendo que a culpa não é minha. Então, moro num quinto andar e o cão enjoa no elevador? Deito fora o bicho? As pessoas não têm compreensão nenhuma. Pois eu desço com o bicho, pelas escadas não posso ir, que não tenho pernas para isso, já bem basta descer ao andar de baixo, desço com o bicho no elevador, ele vomita, quando chego lá baixo tenho de esperar que ele acabe o serviço para voltar para cima e ir buscar água e esfregona para limpar aquilo não é? Que culpa é que eu tenho se eles chamam sempre o elevador enquanto eu ainda estou na rua?”

“ Faço hoje quarenta anos.Nasci há quarenta anos, filha de um homem sem nome e de uma menina-mulher. Nunca quis saber estes pormenores, limitei-me a tropeçar neles e a arrumá-los no fundo da minha gaveta do não-quero-saber.”

“ Os livros existem porque alguém concebeu uma intriga com princípio, meio e fim, com peripécias e um desenlace. A vida real pode arrastar-se indefinidamente por intrigas mesquinhas, completamente desprovidas de interesse, e sem outro fim à vista que não a morte.”

Todos os Dias São Meus - Ana Saragoça

Roda Dos Livros, 04.08.14

 

Li este livro de umtodososdiassaomeus fôlego. Todo seguido. Não por serem só 100 páginas, nem por ser um policial empolgante - devo dizer que consegui atravessar todo o livro sem a menor curiosidade sobre quem seria o assassino. Não, não sofro de apatia patológica. O que se passa é que o enredo policial foi o que aqui menos me interessou. No entanto, gostei muitíssimo do livro e não tenho a menor dúvida em recomendá-lo com toda a convicção. Porquê? Porque, sob a capa de uma história policial, a autora tece aqui os retratos de várias personagens, tanto a nível psicológico como sociológico, com uma precisão cirúrgica e, ao mesmo tempo, uma sensibilidade desarmante. É impossível não identificarmos os traços de algumas delas com alguém que conhecemos; é impossível resistirmos à tentação de ler só mais um capítulo para descobrirmos só mais uma personalidade descrita com realismo, muita humanidade e alguma ironia.

Talvez seja também a estrutura escolhida para o livro que o torna impossível de largar. Os capítulos em que as personagens se auto-caracterizam, através de um diálogo que mantêm com um interlocutor invisível, são intercalados com  capítulos retirados do diário da vítima do assassinato. Assim, é-nos mostrada apenas metade da identidade de cada um: enquanto, dos possíveis perpetradores do crime, conhecemos a imagem que dão de si a quem com eles contacta, sem nos ser permitido mergulhar no seu íntimo, já no que diz respeito à vítima é-nos aberta a porta para os seus pensamentos mais recônditos, aqueles que admite apenas perante si mesma, mas nunca a vemos interagir com ninguém, faltando-nos portanto saber como se apresenta perante o mundo. Esta dualidade de apresentações foi, a meu ver, uma opção muito inteligente; e, combinada com a magistral escrita da autora, deixa-nos, da primeira página até à última, com uma vontade irresitível de ler mais e mais.

Infelizmente, este livro não teve a divulgação que merecia e não só passou despercebido como, neste momento, já nem sequer se encontra disponível nas livrarias. Foi-lhe ainda atribuída uma capa feia e apagada, capaz de repelir a atenção até do leitor mais interessado. Cabe-nos, pois, a nós, como leitores, chamar a atenção para a sua existência e não deixar que outros sejam privados da possibilidade de o ler. O livro tem página no facebook (www.facebook.com/TodosOsDiasSãoMeus), por isso sugiro desde já que façam como eu e encomendem um exemplar à autora. Não se vão arrepender.

 

Excertos

 

"Mas olhe que foi uma coisa feita com cuidado. À hora do jantar, num elevador, podia ter sido apanhado. Que eu para mim foram os cranianos. Uma pouca-vergonha, a senhoria com a ganãncia de ganhar dinheiro ir alugar o rés-do-chão a dez galfarros que ninguém sabe quem são. Deve receber pouco, deve, e não passa recibos quase de certeza, isso, isso é que a Polícia havia de investigar, essa escandaleira. O senhor já viu? Parecem umas vigas, aqueles olhos metem medo, muito azuis, não são boa gente. E depois longe da terra, todos sozinhos, quem é que diz que não violaram a moça? Bonita não era, mas a fome é negra, não é o que dizem? E os homens, bom, não são esquisitos, qualquer burra de saias lhes serve, quando não vão para outras coisas, que com essa estrangeirada nunca se sabe, isto agora está o mundo roído dos ratos, chove nele como na rua, já dizia a minha mãe, coitadinha, se cá voltasse morria outra vez. Ah não foi violada? Pois olhe, sempre pensei. Mas para mim foram eles, mais que certo." (págs. 12-13).

 

"Não leve isto para a política, mas, com tantas liberdades, os miúdos hoje são muito menos livres do que naquele tempo. Sim, têm telemóveis quando mal sabem falar, têm computador e internet quase sem saberem escrever, e dão-se com gente cuja existência os pais nem sequer imaginam, mas não sabem o que é passar tardes inteiras a jogar à bola lá fora, sem ter um adulto sempre em cima a vigiá-los. Agora não podem sair nem para comprar uma dúzia de ovos do outro lado da rua, não conhecem os vizinhos, e acabam por se fechar para o mundo. Era dentro dos prédios que se diluíam as diferenças sociais, que os filhos do professor se davam com os da porteira. Diga-me lá, isto é liberdade? Para onde foram todas as crianças que davam vida a esta cidade? Deixaram-me aqui, a mim e aos outros, à espera da morte, sem o consolo de ouvir as suas gargalhadas prontas, a sua vozearia que enchia de vida o bairro inteiro. Se calhar o senhor nem dá por isso. Mas eu tenho muito tempo para pensar, e tudo em que penso me faz sentir mais só." (págs. 57-58).

 

"Na vida as pessoas são tudo menos coerentes e conseguiram surpreender-me sempre - pela negativa. Os livros existem porque alguém concebeu uma intriga com princípio, meio e fim, com peripécias e um desenlace. A vida real pode arrastar-se indefinidamente por intrigas mesquinhas, completamente desprovidas de interesse, e sem outro fim à vista que não a morte." (pág. 60).

 

Editorial Estampa, 2012.

 

 

 

Todos os Dias são Meus - Ana Saragoça

Roda Dos Livros, 03.08.14

todososdiassaomeusÉ perigoso ter expectativas altas. Mas como não as ter com a forma como este livro me foi apresentado? Numa sessão da Roda dos Livros, com a presença de alguns autores do Colectivo NAU, Ana Saragoça ofereceu-nos uma interpretação do primeiro capítulo do seu livro, “Todos os Dias são Meus”.

A Porteira que todos ficámos a conhecer, remeteu-me para a comédia. Mais uma coisa perigosa. Pois eu acho piada a muita coisa mas o verdadeiro humor é algo difícil de criar, mais fácil é fazer chorar do que rir. Rir a sério, com vontade. Nessa tarde chorámos a rir.

Fiquei com a ideia de um livro cómico, bem escrito e bem descrito, que saber escrever é importante, mas descrever é fundamental. E já não é nada pouco. Agora, depois de ler o livro, confirmo o talento da autora para o registo humorístico e caracterização brilhante de personagens.

É inevitável que a Porteira, mesmo sem nome, não nos lembre de alguém que conhecemos, vimos, ou simplesmente ouvimos falar. Brilhantes e inesquecíveis monólogos, supostamente diálogos. Sabemos que a Porteira se dirige sempre a alguém mas não há discurso, o que faz com que Ana Saragoça seja, para mim, o mais recente génio da (boa) utilização da pontuação.

E quando as expectativas altas são largamente ultrapassadas? Olho para este livrinho pequeno (cem páginas, tamanho de livro de bolso e capa pró feioso) e não páro de fazer a mim própria duas perguntas: como se consegue dizer tanta coisa com tão poucas palavras, e como é possível que este livro não seja divulgado? Até vou mais longe, toda a gente devia ser obrigada a ler “Todos os Dias são Meus”! Deviam, sim. Deviam ficar todos convencidos que íam passar umas horitas a ler um livro leve, passado num prédio, com intrigas típicas de uma vizinhança estranha (não são todas?), com abordagens hilariantes a um cão que vomita no elevador. E depois de estarem bem convictos de terem em mãos uma leitura leve para acompanhar com pipocas, seria como se se deixassem cair pelo fosso do elevador da vida real.

E foi essa sensação de abismo, de cair do chão que tinha como certo, que me fez chegar a esse ponto maravilhoso e raro que se resume na simples frase “isto ainda me saíu melhor que a encomenda”! Literalmente. Pois que como todas as coisas boas são raras, este teve de ser encomendado directamente à Editora. Acho que a Estampa não sabe o que é divulgação e marketing, honestamente não percebo porquê esconder este tesouro.

E pronto, afinal o livro não é cómico. É um policial! Uma das moradoras aparece morta no elevador do prédio, o mesmo onde o cão da porteira vomita. E onde também o Engenheiro e a namorada passam uns bons momentos de prazer físico…olha, afinal o livro é erótico, enganei-me outra vez…e depois há a reflexão da vítima (antes de morrer) sobre a vida, a solidão e a sensação de não pertencer a lugar nenhum… ai que afinal isto é um drama assim para o filosófico!

Eu não sei o que é. Mas sei que é bom. Muito bom!

Uma escrita de qualidade irrepreensível. Um livro do qual achava que já sabia tudo e que se revelou uma fabulosa surpresa.

Imperdível! Leiam!

 “Olhar para as janelas das casas ensinou-me muito. Vi que as pessoas são realmente muito parecidas umas com as outras, e que eu sou gritantemente diferente. Mesmo quando havia discussões e gritaria, eu conseguia retirar sempre das visões uma sensação de grande aconchego, de pertença.” (Pág. 33);

“Sempre li muito. Não me lembro de mim pequena sem um livro por perto – o que deve querer dizer que a minha vida consciente só começou quando descobri a leitura. Os livros afastavam-me de quem me rodeava, das colegas que faziam troça de mim, da realidade melhor-que-a-de-muita-gente-mas-ainda-assim-bastante-desoladora da minha infância. (…) , acabaram todos por me deixar em paz, arrumando-me na prateleira das caixas d’óculos vagamente apalermadas. O resultado foi uma grande liberdade interior, que é a minha riqueza maior até hoje.” (Pág.59);

Sinopse

“Um prédio. Uma morte. Um mistério. Não se trata, porém, de um romance de pretexto policial. É verdade que há polícias e testemunhas - sobretudo testemunhas - e alguns suspeitos. Mas Todos os Dias são Meus é um extraordinário retrato do Portugal profundo, com os seus tiques, os seus ressentimentos, os seus ridículos.”

Editorial Estampa, 2012

"Quando Fores Mãe, Vais Ver" de Ana Saragoça

Roda Dos Livros, 01.02.14

O livro ideal para se fazer figura de idiota públicamente. Isto claro está, se ao lerem em transportes públicos se exprimirem fácilmente por expressões faciais (e até sons) compatíveis com o tipo de leitura. quandoforesmaevaisver

Eu, supunha que a minha mãe, uma ribatejana típica com muita personalidade e energia, era sui generis, mas descobri através desta breve leitura que afinal ela preconiza um padrão, em que o uso e abuso de certas pérolas do folclore materno que acompanharam o meu crescimento são correntes na vida de outros. E mais, eu adoptei inconscientemente, na maioria dos casos, enquanto noutros por diversão, algumas dessas expresões para o quotidiano da vida dos meus filhos.

O meu tempo de mãe é substancialmente diferente e as condições externas e instrinsecas também o são, mas o cuidado e a preocupação com o bem estar e equilibrio dos nossos filhos, assim como a vontade de fazer o nosso melhor como mães mantêm-se. Os meus pais tiveram infâncias difíceis e duras, em que não se puderam dar ao luxo de estudar tanto quanto gostariam, mas hoje somos pais mais instruídos e informados, e muitos com uma melhor qualidade de vida, e ainda assim utilizamos avisos, ameaças, cuidado e muito, muito carinho e amor com um léxico comum de frases feitas em que em muitas delas se perdeu o seu significado no tempo mas não o seu sentido.

Este livrinho que se lê rápidamente é hilariante.Perfeito para quebrar de leituras mais pesadas ou esquecer as agruras da vidas e ainda redimensionar tudo. Uma pequena preciosidade que me deixou enlevada e deliciada, como bem imaginou a minha amiga Cristina que mo emprestou.

Sinopse:

Criar filhos exige doses gigantescas de paciência, estoicismo, resistência e imaginação. Ao cabo de milénios desempenhando primordialmente esse papel, as mulheres de todo o mundo acabaram por desenvolver um léxico quase comum, um glossário de frases feitas que todas ouviram às mães, e todas juraram que nunca repetiriam aos filhos - com os resultados que se conhecem.

O vocabulário das mães é verdadeiramente um colar, mas não de pérolas. É mais daqueles a que se vão acrescentando penduricalhos ao longo da vida, sem nunca retirar nenhum. O folclore materno tem frases certeiras em todas as áreas e para todas as fases de crescimento dos filhos: infância, adolescência e idade adulta - embora, para as mães, o conceito de idade adulta nos filhos seja altamente discutível. E, claro, com a chegada dos netos, nunca perdem uma oportunidade de nos inundar de novo com a sua imensa sabedoria...»

Quando Fores Mãe Vais Ver de Ana Saragoça - Opinião

Roda Dos Livros, 09.01.14
Querem um livro super divertido para intercalar com leituras mais pesadas? Uma leitura que se faz em pouco mais de uma hora? Em que não param de sorrir ou mesmo gargalhar? Em que comentam: "Ai, que eu já disse isto!"?Com um humor muito próprio, Ana Saragoça, consegue de uma forma perspicaz, juntar muitas frases que todas as mães dizem e que juraram nunca o fazer... contando alguns momentos reais por que passou ou passa. Revemos-nos em muitos deles, como mães ou como filhas, e isso permite que a boa disposição se instale em nós. Um hino à alegria mas também um hino ao amor das mães que com as suas preocupações chegam ao ponto de exagerar, não deixando de ter razão, muitas das vezes!Deixo um pequenino excerto que vos vai fazer sorrir. Passa-se quando a forma de vestir de um filho não é exactamente aquela que uma mãe gostaria..."Hão-de dizer que a tua mãe é uma porca!Serei lerda, admito, mas demorei anos a perceber o que esta frase queria dizer. Mesmo quando percebi, a ideia não se encaixou muito bem dentro da minha cabeça. A noção de alguém olhar para mim na rua ou na escola e imediatamente fazer juízos de valor sobre a higiene da minha mãe era demasiado rebuscada. Em primeiro lugar porque eu não estava suja. Em segundo porque ninguém esperava que uma adolescente fosse lavada pela mãe. Eu lavava-me sozinha desde os oito anos (...)"Não acham uma delícia? O livro está cheiinho de um humor maravilhoso que me fez andar com um sorriso interior todo o dia...Terminado em 29 de Dezembro de 2013Estrelas: 5* (essencialmente pela boa disposição com que fiquei ao terminar a leitura!)Sinopse

Criar filhos exige doses gigantescas de paciência, estoicismo, resistência e imaginação. Ao cabo de milénios desempenhando primordialmente esse papel, as mulheres de todo o mundo acabaram por desenvolver um léxico quase comum, um glossário de frases feitas que todas ouviram às mães, e todas juraram que nunca repetiriam aos filhos - com os resultados que se conhecem.

 

O vocabulário das mães é verdadeiramente um colar, mas não de pérolas. É mais daqueles a que se vão acrescentando penduricalhos ao longo da vida, sem nunca retirar nenhum. O folclore materno tem frases certeiras em todas as áreas e para todas as fases de crescimento dos filhos: infância, adolescência e idade adulta - embora, para as mães, o conceito de idade adulta nos filhos seja altamente discutível. E, claro, com a chegada dos netos, nunca perdem uma oportunidade de nos inundar de novo com a sua imensa sabedoria...»