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Roda Dos Livros

«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva - Opinião

Roda Dos Livros, 27.08.19

«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva é um livro necessário essencialmente para recordar a maldade inerente à polícia política do Antigo Regime, mas mais do que tudo expor a maldade no feminino, daí que a personagem da PIDE venha na imagem da agente Leninha. No entanto, para deixar maior marca no leitor a autora precisava de ter sido mais crua, fosse com as descrições das personagens, fosse com as longas noites de tortura. Ainda assim é um documento importante e interessante para se pensar a perseguição política e a humilhação a que tantos homens e mulheres foram sujeitados. Em certas partes, a linguagem com um leve toque poético não lhe cai mal, mas distraí o leitor do importante: a violência, o ódio, a injustiça e o clima de medo.
"Como represália, gritaram-lhe que fizesse a estátua: «Agora vais fazer de Cristo». Um dos agentes riu-se e os outros pegaram-lhe nos braços. Laura sentiu um calafrio, uma horrível sensação causada pelo toque das mãos suadas na sua pele. Bastavam poucas horas naquela posição para ficar rígida como um cadáver. (...)
As noites pertenciam às agentes femininas que as impediam de dormir. (...) - Leninha, Odete ou Lourdes - ia batendo com  moeda debaixo da mesa. Aquele ruído tinha o som de um trovão numa penumbra de profundo silêncio."
Há um constante duelo entre Laura e a agente, no entanto, a narrativa segue um outro rumo a partir do momento em entra mais na vida de Leninha e vemos que o seu duelo pessoal, a sua luta é muito anterior à PIDE e compreendemos que o caminho da violência lhe era adivinhável.
"No dia em que Salazar foi a Setúbal e beijou Maria Helena na testa, o seu pai deu uma tareia à mulher."
São nestas descrições de época, retratando as décadas de ditadura e a necessidade de deixar muitas palavras rentes à boca que também vemos o outro lado, o de Laura, a jovem a quem é dada a oportunidade de vir para Lisboa estudar Direito; aqui entra-se na luta e na resistência estudantil, mas também com Laura a autora nos coloca a pensar na sobrevivência e na superação do trauma.
“A vigilância praticada pelos agentes da PIDE era um serviço de Estado Português. O seu propósito secreto era o de que as pessoas deixassem de ter pensamentos para se transformarem numa frágil teia de espírito permeável ao terror.”
Quase no final, o palrar patriótico e a justificação pela lealdade e cumprimento de ordens, juntamente com nenhuma procura por redenção ou perdão, intensifica os traços psicológicos da personagem ligando-a à enorme desumanização de todos os regimes.

«Salvação» de Ana Cristina Silva - Opinião

Roda Dos Livros, 07.12.18

"Não grito menos, talvez grite mais baixinho, não choro menos, mas talvez as minhas lágrimas se tenham tornado menos silenciosas. Pela aritmética passaram seis meses desde a morte de Sofia, pelas minhas contas não passou nem um dia.""Salvação" é um livro de recolhimento na morte e de superação pela escrita. Ou do processo de criação de personagens com as quais se reconstrói um sentido para a perda, o luto, mas também o perdão."Eu e David Negro recolhemo-nos na morte da mulher amada e tornámo-nos um só. Esta absorção de um no outro explica que tenha conseguido escrever um capítulo num único mês como se a minha personagem tivesse pegado na minha mão e redigisse por mim as frases."Colonizado pela dor, o narrador deste livro dedica-se a preencher os seus dias com a escrita de um romance, um novo livro imposto pelo mulher que acabou de falecer, um pedido feito estratégia para que ele supere o luto.Dividido em pouco mais de doze meses, acompanhamos os capítulos de "O Livro", escrito também sobre o luto e a perda de uma filha, onde o protagonista David Negro expõe as suas mágoas, memórias e reflexões. Ao mesmo tempo, em capítulos que são as fases de luto do narrador, vamos sabendo mais da sua vida com Sofia e do seu dia-a-dia lutando pela superação."Desde que a minha mulher morreu o meu luto tornou-se num dilúvio que não deixa espaço para mais nada. A dor não é um local iluminado (...) Mas neste momento, sinto que a jornada de David Negro se transforma num dever que vai para além do pedido de Sofia, ainda que esse percurso não esteja, nem nunca possa estar, separador dela. Até porque é minha intenção apontar o dedo ao deus a que ela tanto rezou e aprisioná-lo numa rede de acusações."No longo corredor que é o luto e no qual não é possível passar a correr, o narrador embrenha-se numa complexa rede de memórias, no sofrimento e na culpa, sem esquecer acusações e dúvidas, onde Deus tem um papel decisivo, mas a História e o seu curso também. A forma como "O Livro" percorre séculos, o rumo dos eventos chega até aos actuais e as inquietações ancestrais são equiparadas às de hoje: as crises de fé e de valores e as consequências no ser humano. E assim, desta forma, Ana Cristina Silva cava ainda mais fundo o fosso do abandono e da culpa, retratando muito bem o lado emotivo dessa pressão psicológica."Continuo a falar com a minha mulher, mas lentamente a morte de Sofia vai deixando de ser a medida de todas as coisas. (...) Se a dor tivesse assas e batesse, diria que o seu movimento se foi tornando mais suave (...) Porém, o sofrimento do luto não voa, apenas pulsa por dentro (...) tanto assim que só vivo para me afundar na memória dos tempos felizes."Se retirássemos os capítulos que dizem respeito à escrita de "O Livro", a maneira como a autora relata a perda e a dor é de tal forma emotiva e insistente que traz o leitor para o sofrimento do narrador, tornando a leitura quase aflitiva. E quero com isto dizer que é extraordinária essa capacidade, pois não acho que caia na repetição, mas sim aumentando a densidade psicológica do personagem."(...) Em cada intervenção, ele alcança um novo patamar de profundidade, frases empolgadas, quase poéticas - como se existisse uma estética da morte (...)"Também seguindo uma estética da morte, associada à própria estética de fé e crença, "O Livro" transforma-se num romance histórico que denuncia e relembra o fanatismo religioso do século XVII e o liga aos eventos violentos actuais para os quais o próprio escritor se sensibiliza quando o luto lhe permita se ligar novamente à realidade que o rodeia: a morte no espectro do fanatismo jihadista."Há um momento em que tenho o mais absurdo dos pensamentos: talvez estivesse a ver repetidamente o mesmo grupo de pessoas a sofrer o mesmo atentado (...) Como se aquelas pessoas não tivessem individualidade, como se se tivessem convertido num borrão desfocado de um ecrã, como se a morte se tivesse tornado uma banalidade."

«Cartas Vermelhas» de Ana Cristina Silva :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.03.17

Carol, nascida em Cabo Verde, forma a sua identidade política, de ideais comunistas, enquanto estuda e vive a sua juventude em Lisboa, algum tempo depois já mãe, vê-se obrigada a deixar a filha num colégio russo para levar a cabo as suas missões partidárias. Os anos decorrem, os amores chegam e partem e a militância comanda-lhe os sonhos e a vida. Agora é tempo de reencontro, mas já passaram mais de 20 anos.

"O meu propósito não era modificar o passado, tão-pouco configurá-lo numa versão benigna, favorecendo-me através da descrição das circunstâncias que limitaram as minhas escolhas. No fundo, apenas desejava que reconhecesses como eu fora arrojada nesse tempo em que imaginava um novo mundo onde a felicidade dos homens viesse a ser saciada."

"Só a paixão detém poderes para anular as distâncias. Só esse estado fulminante faz com que o amor se perca de toda a racionalidade."

Sem modificações ou versão benigna, viajamos com Carol pelo seu passado, relatado através da sua memória, não para trazer de volta os anos que se perderam entre mãe e filha, mas para relatar o que foi a sua vida nos cerca de 20 anos de ausência na vida uma da outra. Desde a infância em Cabo Verde, até aos anos em Lisboa, e às missões pelo estrangeiro, tudo vai sendo relatado ao longe de capítulos que demonstram a escrita cuidada e equilibrada de Ana Cristina Silva.

"O povo de Cabo Verde não era formado por gente, mas por silhuetas famintas que se moviam lentamente. Mas os miseráveis da Cidade da Praia (...) em vez de chorarem lágrimas crepusculares, quando a luminosidade do dia declinava, preferiam entoar cânticos festivos na praia, ao som de tambores."

Do amor a um povo e a uma cultura que sempre desinquietou Carol, rapidamente passamos à admiração pelas palavras visionárias que a fizeram abraçar a causa comunista. E também abrir espaço a novas aventuras e amores que a consumiam com o fogo da paixão, mas também a lucidez de uma mulher que se desejava independente.

"O discurso dele ia ao encontro do que sempre procurara em Cabo Verde e nunca descobrira. A justiça da doutrina inspirava-a. Ele não se exprimia como quem dá lições, mas como um verdadeiro visionário."

"Aquele beijo constituiu para Carol a verdadeira origem da autoconsciência do seu poder de mulher. Apesar da inexperiência, intuíra que, como em certos livros, no amor há sempre um que ama e outro que é amado..."

Avançamos enredo adentro com as várias identidades que Carol assumiu, mas aceitamos desde logo que a política e as suas aventuras e desventuras são o foco central do livro, as paixões, os homens, os amigos, os militantes, os destinos, são meros veículos para conhecermos esta mulher que agora se apresenta, por via da ficção, à filha Helena. A narrativa espelha uma certa angústia e um tom distante, mas, a meu ver, em busca de reconhecimento pelo percurso que traçou.

"Ao relembrar o que aconteceu, puxa-se o fio de um novelo cuidadosamente enrolado. Um romance favorece uma história coerente, conseguindo atenuar a incongruência de certas acções, abrindo caminho para escolhas plausíveis que ficam bem numa narrativa, mas que na vida real revelam consequências devastadoras. Se confiarmos no texto, fico mais parecida com uma criatura mais fiável e corajosa."

A segunda morte de Anna Karénina, de Ana Cristina Silva

Roda Dos Livros, 09.04.14

A Segunda Morte de Anna KaréninaUm livro dividido em dois. Não sei o levou a escritora a uni-los mas essa ligação ténue não foi para mim suficiente. Mais que um livro, foram dois contos que li.

A primeira parte conta-nos a história de Rodrigo, um oficial Português na primeira grande guerra. As cartas que Rodrigo escreve a Eduardo e que este deixa no seu túmulo revelam um homem que poucos conheceram, revelam a verdade da mentira que este homem viveu. Por outro lado são um testemunho da presença Portuguesa na 1º Guerra Mundial, coisa que tantas vezes temos tendência a esquecer.

Das duas partes deste livro esta foi a de que gostei menos. Não gostei especialmente de Rodrigo e o pouco que conheço do início do século XX fez-me ter muitas dúvidas relativamente à possibilidade de alguém “pensar” daquela forma. Parece-me um discurso demasiado atual pontuado por algumas indicações do quão fechada e preconceituosa era a sociedade na época.

A escritora uniu as histórias de Rodrigo e de Violante através de um “pormenor” comum a ambos (convenhamos que serem mãe e filho neste caso é apenas um pormenor de somenos importância) e umas cartas encontradas num túmulo. Ora esta foi a parte que mais me incomodou neste livro: um jazigo de família é aberto inúmeras vezes, é visitado amiúde (naquela época muito mais do que hoje) além de que é referido que o jazigo ainda tem espaço para mais 3 cadáveres, tornando difícil que o caixão esteja de alguma forma num espaço fechado pelo que não me parece que a probabilidade de tais cartas serem encontradas seja pequena. Ora considerando o conteúdo das cartas tudo isto se torna inverosímil e este subterfúgio encontrado pela escritora para unir as cartas torna-se ridículo.

A segunda parte do livro conta-nos a história de Violante, uma atriz fabulosa, uma mulher apaixonada, impetuosa e vibrante. Confesso que adorei Violante. Leria muito mais páginas acerca deste mulher. Gostei do toque final que a escritora deu a esta parte. Li estas páginas quase de uma assentada, achei que o ritmo desta parte foi muito diferente do da primeira parte e muito mais do meu agrado. Contar-vos mais alguma iria estragar a leitura, por isso não o faço.

No geral gostei do livro, mais um que li graças à Roda dos Livros (deixo-vos aqui o link para outras opiniões sobre esta mesma história.

 

 

 

O Rei do Monte Brasil de Ana Cristina Silva

Roda Dos Livros, 09.01.14

Edição/reimpressão: 2012

Páginas: 168

Editor: Oficina do Livro

ISBN: 9789895560042

Li há pouco tempo o último livro desta escritora e, como fã que sou da sua escrita, não podia deixar passar esta obra. Gostei de conhecer um pouco melhor Mouzinho de Albuquerque e o rei moçambicano Gungunhana.

O livro é escrito, maioritariamente, a duas vozes: a de Mouzinho e a do régulo africano, Gungunhana. Contam-nos, ambos, as suas versões dos factos, ao jeito de confidência. As suas (possíveis) memórias quando o tempo se escoa e as suas vidas estão a chegar ao fim.

Não sou adepta, muito sinceramente, de monólogos pois fazem-me dispersar muito rapidamente. Isso aqui não aconteceu talvez porque o que foi narrado, os pensamentos que poderiam pertencer aos protagonistas se misturaram muito bem com os factos históricos. E mais uma vez as barbaridades cometidas, tanto por um como por outro, chocaram-me e fizeram-me pensar nas inúmeras histórias de horror que a História possui!

Para quem nunca leu Ana Cristina não aconselho esta livro para primeira leitura. Adorei "As Fogueiras da Inquisição", as "Cartas Vermelhas" e "A Segunda Morte de Anna Karenina". O meu palpite seria começarem por aí...

Sinopse

Em finais do século XIX, o oficial de cavalaria Joaquim Mouzinho de Albuquerque interna-se, ao serviço do rei D. Carlos, no coração de África com o objectivo de subjugar as tribos à administração colonial portuguesa; para isso, porém, queima aldeias inteiras, mata os insubmissos e, desobedecendo a ordens superiores, captura com espectacularidade o detentor de um império vastíssimo, Gungunhana, que traz para Portugal como troféu e acaba exilado nos Açores até ao fim dos seus dias.

Apesar de recebido pelo povo e aclamado pela imprensa como um herói da pátria, a crítica ao comportamento pouco ético de Mouzinho nos corredores do Paço, a indiferença do governo em relação aos seus planos para África e a paixão nunca abertamente confessada por D. Amélia acabam por levá-lo ao suicídio. Mas, se a notícia escandaliza o País, a verdade é que é lida com entusiasmo e sentimento de justiça por um Gungunhana já velho e destroçado, que passa os dias escondido na floresta do Monte Brasil, o local que encontrou na ilha Terceira… que mais se assemelha à terra dos seus antepassados. Com uma alternância de vozes narrativas que nos oferecem duas versões muito distintas do mesmo conflito, O Rei do Monte Brasil explora as memórias dos seus protagonistas às vésperas da morte, ilustrando-nos sobre a sua infância, as suas paixões marcantes, as atrocidades para as quais encontram sempre justificação e, de certa forma, a reflexão sombria sobre a decadência e a glória perdida.

A Segunda Morte de Anna Karenina - Ana Cristina Silva

Roda Dos Livros, 03.01.14

250_9789897410963_a_segunda_morte_de_anna_karenina   O último romance lido em 2013. Procuro as palavras certas para definir o tanto que este romance me surpreendeu e agradou. A sinopse é explícita sobre a história mas não sobre o requinte e a eloquência das palavras que a autora consegue utilizar de forma sublime para revelar estados de alma. 

Não sou tão hábil no uso das palavras, mas não deixo de me maravilhar quando alguém consegue captar a natureza de sentimentos fortes capazes de mudar o rumo da vida e compor personagens credíveis e sofridas. Intemporais e imutáveis neste romance de época que aborda a questão da homossexualidade, bem como a capacidade de amar incondicionalmente para além de todas as interdições e ainda o cíume, o orgulho e o medo que tudo deita a perder.

Um drama com o muito que é exposto por Rodrigo nas cartas enviadas a Eduardo, e  em que visualizamos os portugueses na 1ª Guerra Mundial.

Uma tragédia no reencontro de Violante com o marido Luis Henrique, 25 anos depois de uma dupla traição, infidelidade e tentativa de assassinato, que me recordou vagamente o confronto de dois amigos quarenta anos depois devido a uma paixão pela mesma mulher em "As velas ardem até ao fim" de Sándor Máraí, possívelmente pela intensidade das emoções ainda sentidas e recalcadas e tensão latente nesse reencontro.

O abandono de um filho é devastador para Violante, uma mulher habituada a representar no palco e na vida.

Um bom romance de uma autora a reter. Um prazer de ler!

Sinopse:

Violante tinha, desde criança, um talento raro para a representação e, com a ajuda de Luis Henrique, um grande actor com quem acabou por se casar, tornou-se uma das mais aplaudidas actrizes portuguesas do princípio do século XX. Contudo, os que a vêem brilhar e afirmar o seu génio no palco dos maiores teatros nacionais desconhecem o terrível segredo que minou a sua vida e levou para longe o marido numa noite que podia ter acabado em tragédia. Agora, que Violante visita, longe da multidão, o jazigo de Rodrigo - um jovem oficial português caído na guerra das trincheiras em França -, espera finalmente sentir o desgosto da mãe que não chegou a ser, mas descobre que o filho que não criou carregava, afinal, no peito um peso tão grande ou maior do que o seu. E, com o espectro das recordações que essa revelação desencadeia, regressa também inesperadamente o próprio Luís Henrique, desejoso de obter, ao fim de tantos anos, a resposta que Violante não lhe pôde dar. O problema é que, numa conversa entre dois actores de excepção, nunca se sabe exactamente o que é verdade. A Segunda Morte de Anna Karénina é um romance sobre o amor sem limites, a traição e os custos da vingança - e também uma obra arrojada sobre as tensões homossexuais reprimidas, sobre as vidas desperdiçadas de tantos portugueses na Primeira Guerra Mundial e sobre as diferenças - se é que existem - entre o teatro e a vida real.

A Segunda Morte de Anna Karénina - Ana Cristina Silva

Roda Dos Livros, 01.12.13

A Segunda Morte de Anna Karénina“A Segunda Morte de Anna Karénina” agarrou-me nas primeiras páginas. Fiquei presa à narrativa e à história de Rodrigo. Apesar desta ser a história de Violante, foi Rodrigo, o seu filho morto que me conquistou. A voz de Rodrigo chega pelas cartas que escreveu ao amante durante a I Grande Guerra. A dor e o conflito interior de ser homossexual no início do século XX em Portugal é um tema extremamente bem exposto e explorado, para mim, sem dúvida o ponto forte deste livro.

Com Rodrigo a autora aborda dois grandes temas. Um deles é a homossexualidade no contexto familiar, o preconceito, o medo e a vergonha de assumir, bem como as formas de encobrir a verdade através de um casamento dito normal e de uma vida conjugal de fachada. O outro é a participação de Portugal na I Guerra Mundial. Uma participação tão sofrida quanto esquecida, a que Ana Cristina Silva deu a devida importância e soube conjugar com a luta interior de Rodrigo. A solidão e mágoa de Rodrigo por ser abandonado por Eduardo, desiludido por sentir que não é correspondido na vontade de aceitar e viver este amor, conciliado com o pavor da guerra e as descrições das condições nas trincheiras, compõem um cenário de horror físico e mental muito bem conseguido.

Para mim, a partir deste ponto, foi como se o livro fosse perdendo força. A vida de Violante é deveras interessante mas banal quando comparada com a dor e a força de Rodrigo. Não me lembro nunca de me acontecer gostar de tal modo de uma personagem secundária, que a personagem principal e todo o propósito do livro fossem para mim perdendo o interesse até ao final. Mas assim aconteceu. Depois de Rodrigo a história da menina de província que se torna a diva do teatro em Lisboa pareceu-me banal. O decrescente interesse dissipou a minha atenção, o que nitidamente se notou no final, que sinceramente não estou certa de ter percebido.

Um livro que vale pelo seu início. Um começo brilhante que infelizmente o final não acompanhou.

“Nas trincheiras os homens andam sempre enregelados e sujos. Não há sujidade mais impertinente do que a lama que transforma a pele e os uniformes numa massa castanha e enrugada. Os soldados nunca levantam a cabeça nestas geleiras sombrias, inclinam-na apenas, embrulhados em mantas encharcadas. O tamanho do mundo está assim reduzido aos túneis escavados nas entranhas da terra, nos quais mal se respira e cujas fronteiras são definidas por sacos de areia. A vida prossegue dentro destas tocas. Ninguém precisa que lhes digam quem são, nestas circunstâncias, os animais acossados.” (Pág. 79)

“Voltava para o meu quarto muito tarde. Os meus pensamentos desenvolviam-se na penumbra até o fogo arrefecer na lareira. Lisboa inteira já dormia, enquanto eu recordava como sentira um arrepio de excitação perante este ou aquele cavalheiro. Lembrava-me da forma como dançavam e tentava imaginar motivos que os fizessem mover-se na minha direcção. De seguida, recuava, horrorizado. Em vez de me tentar libertar pela força da renúncia e da fé, consolava-me a ideia do suicídio como um sedativo acalma um homem atormentado pela insónia. De pé, dava voltas e mais voltas, abria a janela, suportando a nortada gélida que soprava das profundezas da noite.” (Pág. 82)

Sinopse

“Violante tinha, desde criança, um talento raro para a representação e, com a ajuda de Luís Henrique, um grande actor com quem acabou por se casar, tornou-se uma das mais aplaudidas actrizes portuguesas do princípio do século XX. Contudo, os que a vêem brilhar e afirmar o seu génio no palco dos maiores teatros nacionais desconhecem o terrível segredo que minou a sua vida e levou para longe o marido numa noite que podia ter acabado em tragédia. Agora, que Violante visita, longe da multidão, o jazigo de Rodrigo - um jovem oficial português caído na guerra das trincheiras em França -, espera finalmente sentir o desgosto da mãe que não chegou a ser, mas descobre que o filho que não criou carregava, afinal, no peito um peso tão grande ou maior do que o seu. E, com o espectro das recordações que essa revelação desencadeia, regressa também inesperadamente o próprio Luís Henrique, desejoso de obter, ao fim de tantos anos, a resposta que Violante não lhe pôde dar. O problema é que, numa conversa entre dois actores de excepção, nunca se sabe exactamente o que é verdade.A Segunda Morte de Anna Karénina é um romance sobre o amor sem limites, a traição e os custos da vingança - e também uma obra arrojada sobre as tensões homossexuais reprimidas, sobre as vidas desperdiçadas de tantos portugueses na Primeira Guerra Mundial e sobre as diferenças - se é que existem - entre o teatro e a vida real.”

Oficina do Livro, 2013

A Segunda Morte de Anna Karénina, de Ana Cristina Silva

Roda Dos Livros, 14.11.13

Edição/reimpressão:

2013

Páginas:

224

Editor:

Oficina do Livro

Fui à apresentação do livro de Ana Cristina na Livraria Barata. Estava gente em pé. Gostei de ver a casa cheia. Como gosto de ler os livros desta escritora.

Todos eles, talvez devido à sua formação em Psicologia, possuem personagens com um carisma próprio, uma força interior que nos impele a tomar o seu partido ou, pelo contrário, a odiá-los, quase. São detentores de variadíssimos sentimentos que expõem sem pejo e nos quais nos revimos. Amor, ódio, angústia, alegria, descontentamento. Os personagens entregam-se a nós, confessam-se e partilhamos, eles e nós leitores, tanto as suas alegrias como as tristezas que frequentam os seus corações.Este livro senti-o como um desabafo de Violante, a personagem principal. É, também, um hino ao amor. Em qualquer dos sexos, sem falsos preconceitos. A guerra, ela sim, é suja e dura. Essa sim deve ser considerada como algo aberrante e fora do normal.Ana Cristina sabe expressar-se através dos personagens que cria de uma forma que nos deixa rendidos. A história é construída para depois, no final, a pormos em causa, a reformularmo-la completamente. Isso agrada-me. Os fins felizes e "certinhos" deixar-me-iam insatisfeita se existissem nos livros desta autora. Ela quer-nos dar mais que isso. Devemos aproveitar, portanto!SinopseViolante tinha, desde criança, um talento raro para a representação e, com a ajuda de Luis Henrique, um grande actor com quem acabou por se casar, tornou-se uma das mais aplaudidas actrizes portuguesas do princípio do século XX. Contudo, os que a vêem brilhar e afirmar o seu génio no palco dos maiores teatros nacionais desconhecem o terrível segredo que minou a sua vida e levou para longe o marido numa noite que podia ter acabado em tragédia. Agora, que Violante visita, longe da multidão, o jazigo de Rodrigo - um jovem oficial português caído na guerra das trincheiras em França -, espera finalmente sentir o desgosto da mãe que não chegou a ser, mas descobre que o filho que não criou carregava, afinal, no peito um peso tão grande ou maior do que o seu. E, com o espectro das recordações que essa revelação desencadeia, regressa também inesperadamente o próprio Luís Henrique, desejoso de obter, ao fim de tantos anos, a resposta que Violante não lhe pôde dar. O problema é que, numa conversa entre dois actores de excepção, nunca se sabe exactamente o que é verdade.A Segunda Morte de Anna Karénina é um romance sobre o amor sem limites, a traição e os custos da vingança - e também uma obra arrojada sobre as tensões homossexuais reprimidas, sobre as vidas desperdiçadas de tantos portugueses na Primeira Guerra Mundial e sobre as diferenças - se é que existem - entre o teatro e a vida real.