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Roda Dos Livros

Uma História de Amor e Trevas - Amos Oz

Roda Dos Livros, 21.08.16

umahistoriadeamoretrevasQuando a lista de livros por ler é grande, acontecem os inevitáveis adiamentos. Uma História de Amor e Trevas era, possivelmente, das minhas leituras mais adiadas. Veio cá para casa há tempo suficiente para o meu olhar se cruzar com a sua lombada dezenas de vezes. Nos meus olhos sempre a promessa de lhe pegar em breve. Demorou algum tempo. Anos, pronto, que outras leituras se atravessaram na frente das suas mais de seiscentas páginas.

Este é mais um livro para o qual criei expectativas elevadíssimas. Penso que quanto mais adiava a sua leitura, mais elevava a fasquia, colocando-o nos píncaros. Acho que todo o leitor tem a visão do livro perfeito, aquele verdadeiramente inesquecível e completo. Para mim este livro assumiu esse papel. Não há qualquer motivo específico para isso acontecer, talvez um palpite levado ao extremo, uma premonição, uma fantasia. Seja como for, devia tê-lo lido há mais tempo, teria evitado estas especulações e poderia, quem sabe, tê-lo apreciado mais.

Seja como for, e para que fique bem claro, o livro é excepcional e Amos Oz escreve que é obra. Lê-se com enorme prazer e o interesse aumenta (obviamente) por se tratar de uma autobiografia. Talvez eu estivesse à espera de saber mais sobre Oz adulto, a sua entrega à escrita e evolução enquanto escritor. Mas é na voz de Amos menino que nos chega a história da sua família e, consequentemente, a história da criação do Estado de Israel.

Aprendi muito. Na verdade, era assustadoramente ignorante e, se por um lado, as descrições são, talvez, demasiado exaustivas, por outro permitiram-me captar todos os detalhes.

Ainda não vi o filme adaptado deste livro, mas sei que se foca na mãe de Amos. Na realidade, no livro o autor também o faz. A relação com a mãe é fundamental e a sua morte marcou as escolhas de Amos de uma forma irremediável. Se numa primeira fase a revolta o fez voltar as costas à literatura, o tempo cimentou os ensinamentos e as memórias da família, que se entregava à cultura e ao saber com uma intensidade ímpar.

Gostei muito, mas queria ter gostado mais. Tem, a meu ver, páginas a mais. Curiosamente soube-me a pouco.

Sinopse

“Farsa e dor, história e humanidade integram este retrato mágico de um escritor que testemunhou o nascimento de uma nação.

Amor e trevas são duas poderosas forças que se cruzam e acompanham a história de Amos Oz, que nos guia numa fascinante viagem ao longo dos 120 anos de história da sua família e dos seus paradoxos.Um relato impregnado de ruído e fúria, nostalgia, perda e solidão. Em busca das raízes remotas da sua tragédia familiar, Amos Oz desvenda segredos e "esqueletos" de quatro gerações de sonhadores, intelectuais, homens de negócios fracassados, reformistas, sedutores antiquados e rebeldes ovelhas negras. Uma ampla galeria de grotescos, patéticos, ingénuos, trágicos e extravagantes personagens, homens e mulheres, todos eles participantes do cocktail genético e das circunstâncias quase surrealistas do nascimento do homem que um inevitável momento de revelação transforma em romancista.

Um relato escrito na primeira pessoa por um homem que testemunhou o nascimento do seu país e que viveu na íntegra a sua turbulenta história. Celebridades históricas materializam-se em personagens autênticos, de David Ben-Gurion, um dos fundadores do Estado de Israel, ao lendário líder das organizações clandestinas e primeiro-ministro Menahem Begin, passando pelo gigante da poesia hebraica moderna, Saul Tchernichovsky , ou o laureado com o Nobel de Literatura, S. Y. Agnon.”

Asa, 2007

Tradução de Lúcia Liba Mucznik

Tantos livros, tão pouco tempo...

Roda Dos Livros, 01.05.16

CírculosO tempo é um capataz implacável; os minutos, as horas e os dias escorrem por nós como água através das mãos, imparáveis. Os momentos dedicados à leitura são preciosos e invariavelmente “roubados” à grande trituradora da rotina quotidiana. Por isso, prefiro sempre ler em detrimento de escrever sobre as minhas leituras. Assim, resolvi fazer um “post” diferente; em vez de um, inclui três livros, aparentemente sem nada em comum, a não ser o enorme prazer proporcionado pela sua leitura. Referi-los-ei pela ordem cronológica em que os li sem qualquer hierarquia de preferência.

1 – “Duna” de Frank Herbert (edição da colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica do jornal Público)

Capa_Duna volume1.indd

Capa_Duna volume2.inddNós, humanos, somos feitos de muitas coisas; de ossos, carne e sangue, de emoções e percepções, de pensamentos e memórias. Também somos feitos de linguagem, de palavras, de nomes. Catalogamos e classificamos tudo, nada existe sem ter uma designação, um rótulo. Contudo, apesar da sua reconhecida utilidade, os rótulos são frequentemente redutores porque compartimentalizam, separam, fazem distinções que impõem limites que nem sempre nos permitimos ou escolhemos ultrapassar. “Ficção Científica” é um destes rótulos que afasta muitos leitores, uma desculpa para menorizar injustamente um género literário que nada tem de inferior. Aliás, penso que a boa literatura não tem género. Há obras extraordinárias e medíocres em todos os tipos de livros e a ficção científica inclui exercícios de escrita e de imaginação absolutamente brilhantes. “Duna” é seguramente um deles. O mundo criado por Frank Herbert é rico em detalhes e credível, as personagens são complexas e a história está bem concebida. A narrativa tem múltiplos níveis, tem alguns aspectos filosóficos e dilemas pessoais mas também tem acção e tecnologias imaginadas, no entanto plausíveis e talvez possíveis à data em que o autor a situa, cerca do ano 10.000. As viagens espaciais, por exemplo, quem sabe? Hoje ainda estamos a dar os primeiros passos para tal mas talvez venham a ser uma realidade do dia-a-dia no futuro. Assim, lanço aqui o desafio a quem ainda não leu “Duna” e a quem acha que não gosta de ficção científica: atravessem este portal e vejam por si próprios. Arrisco a dizer que não se arrependerão. Espero...

2- “O meu Michael” de Amos OzAO

Cabe aqui uma pequena confissão: Amos Oz é um dos meus autores favoritos. Aprecio imenso a forma como a sua escrita magnífica traduz e transforma o quotidiano e as vidas de pessoas comuns em histórias memoráveis capazes de nos envolverem e tocarem profundamente. A protagonista deste romance, Hannah, é uma personagem extremamente complexa, uma mulher cuja vida está longe de a preencher e que possui uma imaginação muito activa e um mundo interior rico povoado pelas suas leituras de adolescência. Hannah vive atormentada pelo desfasamento entre a realidade e o seu mundo imaginado, entre os seus deveres para com a família e a sua necessidade de aventura e de romance. Há uma tensão fortíssima ao longo de toda a narrativa que nos prende e, muitas vezes, nos tira o fôlego. Tudo se passa ao longo da década de 1950, nos primeiros anos após a fundação do Estado de Israel, em Jerusalém onde as marcas da guerra que levou à formação deste país estão ainda muito presentes. Uma viagem no espaço e no tempo que nos agarra inexoravelmente.

3- “Se não agora, quando?” de Primo Levi

Senãoagora_quandoEste foi o meu primeiro encontro com a obra de Primo Levi. Não creio que seja o último. Gostei mesmo muito desta história de coragem e resiliência indómitas. Gostei de tudo: da escrita e do desenrolar da narrativa, dos “personagens-cebola” cheios de camadas para desvendar e de aprender sobre o contexto histórico desse tempo. Um tempo em que na Europa se viveram dias que mais parecem saídos de uma ficção distópica; realidades tão obscenamente atrozes e cruéis que poderiam ser o produto de uma qualquer imaginação tortuosa. Mas foram reais, dolorosamente reais. Algumas pessoas foram capazes de reagir de modo diferente da maioria e resistiram corajosamente, lutaram para preservar as suas vidas e a sua dignidade. Este livro traz-nos essas pessoas, as suas forças, dúvidas e fraquezas e, acima de tudo, a sua enorme vontade de viver apesar de, à sua volta, tudo se ter desmoronado. Claro que as vidas criadas pelo autor são fictícias mas foram baseadas em histórias reais e é impossível ficar indiferente a elas.Conclusão: o que une estes três livros? Formas de escrever cativantes, o confronto dos seres humanos consigo próprios, com as suas forças e fraquezas e com a coragem de prosseguir vivendo; a importância da imaginação para nos ajudar a continuar o nosso caminho, sobretudo em alturas de adversidade. E, claro, muito prazer na sua leitura.

"Judas" de Amos Oz

Roda Dos Livros, 10.03.16

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“Quando era criança, queria crescer e ser um livro. Não um escritor, mas um livro: podiam-se matar pessoas como formigas. Escritores também. Mas os livros, mesmo que os destruíssem sistematicamente, restaria sempre algum exemplar perdido nalguma prateleira, no fundo de alguma estante esquecida de uma biblioteca longínqua, em Reiquejavique, Valladolid ou Vancouver.”

Amos Oz in “Uma História de Amor e Trevas”

“Caminho para a liberdade com o corpo amarrado pelos meus próprios pensamentos”

Márcia Balsas in “Tempo vazio” (“Desassossego da Liberdade”)

Antes de mais, uma declaração de interesses: Amos Oz é um dos meus autores favoritos. Deixei-me cativar irremediavelmente pela sua escrita através de “Uma história de amor e trevas” que ocupa um lugar destacado na minha estante mental de leituras memoráveis. Aprecio imenso a forma como este autor constrói as suas personagens frequentemente ambíguas e vulneráveis, tanto física como psicologicamente, e também a sua capacidade para contar histórias embebidas numa certa atmosfera do quotidiano. Um quotidiano quase sempre ensombrado pela violência resultante do longo conflito entre Israel e a Palestina impondo assim um confronto em primeira mão com o ódio, a morte e a dor da perda irremediável dos que habitam os nossos afectos. Em “Judas” tudo isto está muito presente sentindo-se também uma atmosfera de impasse, de uma tensão quase sufocante, que atormenta Samuel, Atalia e Gershom, essencialmente recolhidos em casa durante o inóspito Inverno de Jerusalém mas sobretudo presos nos seus universos mentais, incapazes de esquecer e prosseguir. Dos três apenas Samuel parece ter ainda uma certa esperança de algum tipo de redenção pois, apesar de rejeitado pela namorada e incompreendido pelos pais, acaba por perceber que tem de sair daquela casa de modo a procurar uma solução para o seu próprio impasse. Este é não apenas profissional mas também pessoal pois, mais do que acabar a sua tese sobre as relações entre judeus e cristãos e sobre o papel de Judas no aparecimento do Cristianismo, Samuel procura o sentido da realidade e o seu lugar no seu mundo. No final, o impasse, tal como o conflito Israel-Palestina, permanece mas há uma janela de esperança que se abre porque Samuel decide finalmente iniciar a sua busca.

A escrita de Amos Oz continua como sempre, ou seja, maravilhosa, acutilante, irónica e corajosa e o capítulo sobre Judas é brutal e comovente. A forma como o autor aborda o tema da traição e o usa para ilustrar o facto incontornável de que tudo nesta existência pode e deve ser visto por múltiplos ângulos e não apenas por aquele que é mais imediato ou mais fácil é brilhante. Subtilmente, é-nos mostrado que o fim da violência e do ódio só pode acontecer através do respeito e da aceitação do outro e que tal é fulcral para todos. Sem isso, resta apenas uma espiral de morte imparável até que deixe de haver alguém para prosseguir esse ciclo vicioso.

Excertos:

“Sobre tudo aquilo pairava o silêncio de uma noite fria de Inverno. Não era um silêncio do género dos silêncios transparentes, que nos chamam e incitam a juntar-nos a eles, antes um silêncio indiferente, antigo, um silêncio que pairava de costas para nós.”

“E digo-lhe ainda, apesar de tudo o que lhe disse antes, que abençoados sejam os que têm sonhos e maldito seja aquele que lhe abre os olhos. Pois ainda que os sonhadores não nos salvem, nem eles nem os seus discípulos, a verdade é que sem sonhos e sem sonhadores a maldição que pesa sobre nós será sete vezes maior. Graças aos sonhadores talvez nós, os lúcidos, sejamos um pouco menos empedernidos e desesperados do que seríamos sem eles.”

“O verdadeiro mal consiste em que, no fundo dos seus corações, os oprimidos sonham em tornar-se opressores daqueles que os oprimiram. Os perseguidos aspiram a ser perseguidores. Os escravos a serem senhores.”

“A vida é uma sombra que passa. Tal como a morte. Só a dor não passa. Continua para sempre.”

Sinopse: O mundo do jovem Samuel Ash está a entrar em colapso: a namorada abandona-o, os pais declaram falência e ele vê-se obrigado a procurar trabalho, abandonando os estudos na universidade e interrompendo a sua tese de doutoramento - um tratado sobre a figura de Jesus aos olhos dos judeus. Nesse momento de desespero, Samuel encontra refúgio e emprego numa antiga casa de pedra situada num extremo de Jerusalém. Durante algumas horas diárias, a sua função é servir de interlocutor a Gershom Wald, um septuagenário com uma vasta cultura. Mas aí mora também Atalia Abravanel, uma mulher enigmática e sensual. Na aparente rotina da sua nova morada, o tímido Samuel sente uma progressiva agitação causada pelo desejo que Atalia desperta nele, mas também pelos mistérios que o rodeiam: Quem é realmente Atalia? O que a liga a Gershom? Quem é o dono da casa onde vivem? Que histórias escondem aquelas paredes? Ao mesmo tempo, Samuel retoma a pesquisa para a sua tese, e a misteriosa e maldita figura de Judas Iscariote - a suposta encarnação da traição e da maldade - vai absorvendo-o irremediavelmente.

 

"Cenas da Vida de Aldeia" de Amos Oz

Roda Dos Livros, 14.05.13

“Cenas da Vida de Aldeia” não tem o formato clássico de um romance; é antes um conjunto de episódios da vida de várias pessoas, habitantes de Tel Ilan, cujas existências se cruzam ao longo dos respectivos quotidianos. A escrita, despojada mas irrepreensível ,de Amos Oz traduz em palavras alguns momentos e pedacinhos das vidas dos personagens, quase como se fossem instantâneos fotográficos ou pequenos filmes. Estes são desconcertantes, inquietantes, sendo alguns até algo surrealistas, como se estivéssemos perante uma realidade alternativa. É-nos dado a conhecer um pouco das circunstâncias da vida dos personagens mas as suas histórias não têm um verdadeiro fim. Ficam como que suspensas, congeladas, como um filme que encravou numa cena; ficam num impasse. A última história, da qual esperávamos obter pelo menos algumas respostas, em nada nos ajuda. Pelo contrário, descreve-nos um cenário terrivel e desolador de um local onde é impossível viver com dignidade.

Gostei muito deste livro, não só pelas histórias invulgares que nos oferece, mas também porque me parece que se presta a uma outra leitura: poderá entender-se como uma grande metáfora descrevendo o impasse terrível a que chegou o conflito entre Israel e a Palestina; um confronto para o qual não parece haver fim à vista e daí as histórias inacabadas. Por outro lado, o horror da realidade descrita no último conto é como que uma antevisão do que poderá acontecer àqueles territórios, caso israelitas e palestinianos não consigam encontrar uma solução para viverem lado a lado de forma pacífica. Claro que esta é apenas uma interpretação muito pessoal e, como tal, passível de ser discutida e criticada. Nada sei das reais intenções do autor quanto a esta questão.

“ (…) De vez em quando preciso de um bocado de chocolate, a fim de mitigar um pouco a escuridão da vida, e ela esconde-me o chocolate como se seu fosse um ladrão, acrescentou tristemente, na terceira pessoa, como se Raquel não estivesse ali. Não percebe nada. Pensa que é gulodice. Não e não! Preciso de chocolate porque o corpo deixou de fabricar doçura. (…)”

“ Que bela melodia! É comovente! disse o velho. Recorda-nos o tempo em que ainda existia alguma afeição entre os homens. Mas hoje não tem sentido tocar coisas dessas, é anacrónico, as pessoas estão-se completamente nas tintas. Acabou-se. Os corações estão selados. Os sentimentos mortos. As pessoas só se dirigem aos outros por interesse egoísta. O que resta? Se calhar resta apenas essa melodia melancólica, uma espécie de testemunho da desolação dos corações.”

Acerca de livros e de uma “História de Amor e Trevas” de Amos Oz

Roda Dos Livros, 26.02.13

9789724150017Os livros são como as pessoas: conhecemos inúmeros ao longo da nossa vida, uns deslizam rápida e indiferentemente para os confins da memória sem deixar qualquer impressão consciente duradoura enquanto que outros incomodam-nos, perturbam-nos e roubam a nossa tranquilidade desenhando um certo rasto amargo que, em regra, procuramos esquecer através da imersão noutro livro. E depois há aqueles que nos deslumbram, nos arrebatam num belo turbilhão mágico e nos fazem quase levitar na delicada elegância das suas palavras. Quando abrimos um livro assim estamos, ainda sem o saber, a iniciar um percurso ao mundo fabuloso da arte de escrever, riscando uma marca indelével no nosso âmago, um encantamento sob o qual passamos a viver. Ao atingir este ponto, todas as palavras nos parecem inadequadas e insuficientes para o descrever. Há umas semanas atrás encontrei, por puro acaso (ou talvez não...), um livros destes. Estava numa estante da Biblioteca itinerante e o seu título espicaçou a minha curiosidade: “Uma história de amor e trevas”. O nome do autor, Amos Oz, soava vagamente familiar, já tinha ouvido falar dele algures mas não conhecia a sua obra. Peguei no livro e trouxe-o para casa. O que se passou a seguir foi o deslumbramento que tentei descrever acima com as minhas palavras mais que imperfeitas.

“Uma história de amor e trevas” é simultaneamente uma autobiografia e um relato histórico mas pessoal do nascimento do Estado de Israel. Amos Oz conta-nos a história da sua família e a sua própria história cujas alegrias e dores se entrecruzam com aquelas do conturbado processo da criação deste país. Por vezes hilariante, outras profundamente triste e sofrida, mas nunca indiferente ou desinteressante, a escrita sublime de Oz guia o leitor numa viagem emocionante e inesquecível. Ler este livro foi, para mim, percorrer um caminho em direcção a um lago de águas profundas e silenciosas onde, paradoxalmente, não fazem falta as palavras. Termino citando uma das minhas passagens preferidas desta obra:

“Em contrapartida, livros era coisa que não nos faltava, ocupavam as paredes todas, no corredor, na cozinha, na entrada, e até nos vãos das janelas e sei lá onde. Milhares de livros em todos os cantos da casa. Dir-se-ia que os homens iam e vinham, nasciam e morriam, mas que os livros eram eternos. Quando era criança, queria crescer e ser um livro. Não um escritor, mas um livro: podiam-se matar pessoas como formigas. Escritores também. Mas os livros, mesmo que os destruíssem sistematicamente, restaria sempre algum exemplar perdido nalguma biblioteca longínqua, em Reiquejavique, Valladolid ou Vancouver.”