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Roda Dos Livros

Entre purpurinas e sangue: o corpo como espelho partido - leitura comparada entre Maus Hábitos, de Alana S. Portero e As Malditas, de Camila Sosa Villada

Efeitocris, 12.07.25

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Maus Hábitos, de Alana S. Portero, é uma autobiografia disfarçada de ficção, onde se entrelaçam memórias familiares dolorosas com marcas de exclusão social profundas, formando um retrato sombrio de uma época. A repressão da Madrid operária e mais suburbana, pano de fundo para uma juventude trans que cresce entre a violência doméstica e o desprezo público. A segregação do corpo que só encontra soltura nas calles onde se escondem, mas onde também se oferecem e resistem, as que ousam existir à margem.

Portero escreve com crueza sem esquecer o lirismo, mesmo quando descreve o dedo esticado que a catalogava de aberração, por vezes o mesmo dedo com que espalhava purpurina. Maus Hábitos revela a luta contra os outros, mas ainda mais a luta contra si mesma, onde o corpo é centro e ferida. Esse corpo “que não é um erro, mas também não é um milagre”.

Entre os ecos da infância e a prostituição noturna, há uma violência que se repete e um desejo que, mesmo sob ameaça, insiste em brilhar. Uma violência, no corpo, nos hábitos, nos abusos que liga ambos os livros.

As Malditas, de Camila Sosa Villada, parte de coordenadas semelhantes: abandono, marginalização, prostituição;  mas envereda por uma fábula furiosa e mística. Aqui, as travestis – as malditas -  organizam-se tal matilha esfomeada, criam códigos próprios e até fazem justiça com as próprias mãos.

Maus Hábitos esmiúça os escombros íntimos até à verdade dolorosa, As Malditas inventa um universo mágico onde se pode sobreviver sem pedir desculpa. Ambos existem mais na noite, no salto incrivelmente alto de acrílico transparente que é a metáfora perfeita para o equilíbrio periclitante que ambas vivem. Ou sobrevivem.

A vida noturna, nos dois livros, é o último reduto possível. Um lugar onde podem existir, brilhar, fugir ao escrutínio e ao escárnio do dia, aos olhares que as rejeitam e as denunciam como aberrações. Mas a noite é também uma arena onde se repete a violência — “a sombra de não saber qual é verdadeiramente o inimigo”. A casa ou a rua? O pai ou o cliente? A dor ou o desejo? O corpo que pulsa ou o futuro? A noite é o replicar da violência que acompanha os corpos. Define-os!

O travestismo, longe de ser só performance, é armadura, é ritual que as prepara para uma realidade palpável e procurada. Desejada. Uma segunda pele. Mas a pele vai somando idade e estas mulheres não querem apenas sobreviver — querem verdadeiramente existir. Querem brilhar. Na sua transição são diamantes em bruto. E querem brilhar.

Lê-las é espalhar esse brilho. Fica a sugestão. Boas leituras