«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz :: Opinião

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Será possível vencer uma guerra com a música?
Esta é uma premissa interessante e verídica, pois o plano Jazz Ambassadors (CIA) tinha o objectivo de cativar a juventude de Leste para a causa americana. Está na sinopse, não é spoiler, e no último FOLIO Afonso Cruz revelou que este plano fora o ponto de partida para o novo livro. Para mim foi uma novidade, desconhecia tal plano, e fiquei verdadeiramente entusiasmada com o livro.
Agora que o li, o Jazz Ambassadors parece-me muito pequeno e sem graça ao pé de tudo o que o Afonso construiu neste livro. São as pequenas coisas que nascem ao redor do fio condutor que é o plano, que guardo. As frases que reli, permanecendo na mesma página, as reflexões que me seguem, mesmo depois de fechar o livro, a sensação de brincar com os limites, quando se esbate a linha que separa a crueldade da beleza.
Há muito para descobrir nas profundas camadas que as palavras formam nas páginas de Nem Todas as Baleias Voam. Desconfio que não haverá uma releitura igual e, de cada vez, virão novos pontos de vista à superfície.
Há uma cadência de dor que arrepia e, ao mesmo tempo, envolve. Há uma vontade de parar e uma necessidade de prosseguir. É, para mim, mais um livro fantástico do Afonso Cruz.
“- Gostava daquele bar, do Delon, e gostava da sua flor, porque as tulipas raiadas são flores doentes. A sua beleza vem de uma doença. A normalidade nunca fez bem a ninguém, mas a anomalia, aquelas estranhas cores que pintavam as pétalas, como se Van Gogh fosse o autor do Universo, elevavam a flor a um estatuto artístico, era a doença que a fazia mais bela do que o habitual. A arte é uma doença, a humanidade nasceu de um macaco doente, como uma tulipa raiada. Foi um desvio que o levou a erguer-se na savana e a sentar-se mais tarde num bar de Montmartre. Abençoadas doenças, Tristan.
- E não matam?
- Matam, são a coisa mais triste do mundo.” (pág. 254)
Sinopse
“Em plena Guerra Fria, a CIA engendrou um plano, baptizado Jazz Ambassadors, para cativar a juventude de Leste para a causa americana. É neste pano de fundo que conhecemos Erik Gould, pianista exímio, apaixonado, capaz de visualizar sons e de pintar retratos nas teclas do piano. A música está-lhe tão entranhada no corpo como o amor pela única mulher da sua vida, que desapareceu de um dia para o outro. Será o filho de ambos, Tristan, cansado de procurar a mãe entre as páginas de um atlas, que encontrará dentro de uma caixa de sapatos um caminho para recuperar a alegria.”
Companhia das Letras, 2016
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ABERTURA
RELATÓRIO GOULD
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=hQbu3Te_fnM]
EPÍLOGO
MENSAGEM ARQUIVADA
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“Só sobrevivemos numa corda muito fina estendida sobre um abismo. Todo o ser vivo é um equilibrista.”
Afonso Cruz in “O pintor debaixo do lava-loiças”
Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença.
Definição de saúde de acordo com a OMS
Há livros de apreciável valor literário, capazes de proporcionar momentos de leitura de grande prazer, cuja relevância transcende os limites da literatura. Este “Uma dor tão desigual” é um deles. Reúne contos desiguais, únicos na forma e no conteúdo, todos interessantes, tendo em comum a temática da saúde mental.Realidades dentro do real convencional, daquele percepcionado como tal pela grande maioria das pessoas; daquele considerado, sem sombra de dúvida, como verdadeiro e objectivo. As dores destas histórias evocam universos múltiplos que podem existir dentro daquele aspecto esquivo, ainda incompletamente explicado ou não conhecido na sua totalidade, ao qual chamamos consciência. Tal como a Márcia (podem ler o texto dela aqui ), gostei deste conjunto de contos e hesito em destacar uns em detrimento de outros. Todos nos colocam perante pessoas fictícias habilmente construídas e confinadas às suas solidões únicas, aos seus traumas (não o estaremos todos?) e às fracturas das profundezas das suas mentes, perdidas nos seus labirintos mentais e , umas mais do que outras, incapazes de reconhecer e habitar a realidade como aqueles ditos “normais”. Um dos contos evoca as figuras mitológicas de Ariadne e Cassandra as quais não poderiam ser mais apropriadas neste contexto. Cada protagonista destas histórias precisa desesperadamente do seu fio de Ariadne, pessoal e intransmissível, para ajudar a encontrar o equilíbrio no centro de si próprios. Por outro lado, quantos pedidos de ajuda, mais ou menos discretos, mais ou menos histriónicos, tal como as profecias de Cassandra, são desconsiderados, não são escutados, sendo remetidos para a prateleira das “fraquezas de espírito” de alguém aparentemente “bem na vida”?As vidas que povoam estes contos poderiam muito bem ser as dos nossos amigos e conhecidos, as dos nossos vizinhos, as nossas. O estigma e o preconceito são fronteiras quase inultrapassáveis mas aquela que separa o território do equilíbrio mental, ainda que relativo, do da doença poderá não ser mais do que um véu fino e frágil, facilmente rasgável. Um dia poderá ser o meu ou o teu a rasgar-se. Também por isso, este é um livro que merece ser lido.Sinopse: Este livro resulta de um desafio feito a oito autores portugueses para que explorassem as fronteiras múltiplas e ténues que definem a saúde psicológica e o que dela nos afasta. Em estilos muito diferentes, um leque extraordinário de escritores brinda-nos com textos que mostram como qualquer um de nós pode viver momentos difíceis e precisar de ajuda. Estas são histórias de perda, solidão, fraqueza e delírio, mas também de esperança e humanidade. São relatos de gente que podíamos conhecer e talvez conheçamos, histórias íntimas e ricas de homens e mulheres como nós. A área da saúde psicológica está ainda sujeita a muitos preconceitos, que dificultam a procura de ajuda profissional e estigmatizam quem sofre. Pretende-se com este livro combater esses preconceitos, despertar consciências e ajudar a encontrar uma saídaMais para ler


“(… ) as histórias não podem ser engarrafadas sem que se estraguem rapidamente. Têm de andar ao ar livre como os animais selvagens. Temos de as soltar para que possam correr todas nuas.”
Afonso Cruz in “O pintor debaixo do lava-loiças”
Despachemos primeiro os adjectivos habituais, “saídinhos” a correr desalmadamente da omnipresente Caixa de Pandora dos lugares-comuns: maravilhoso, belo e ternurento. Sim, porque este é mais um artigo sobre este pequeno livro, um volume que mais parece um bombom (de chocolate negro, 72% de cacau no mínimo) impecavelmente embrulhado na sua capa tão bem conseguida, e a probabilidade de aparecerem ideias originais para o escrever começa a diminuir, se não mesmo a tender para zero. Também pertinente e de grande actualidade (continuamos na Caixa de Pandora), um livro com capacidade para abrir uma “brecha na consciência” ou, no mínimo, para estremecer algumas mentes, quiçá mais distraídas, que andem por aí. Por isto mesmo, apeteceu-me ir ler para a rua, para um jardim, enfim, para um qualquer lugar ao ar livre, não confinado, para que as palavras de Afonso Cruz pudessem, de algum modo, libertar-se das páginas impressas e espalhar-se em todas as direcções. Para que fossem lidas, ouvidas e sentidas, para que abanassem consciências cujos nomes são compostos de letras mas bem podiam sê-lo por números. Seremos assim tão diferentes dos personagens imaginados pelo autor?Se é verdade que quase tudo no Universo conhecido pode ser representado matematicamente e que isso é fundamental para uma compreensão mais precisa da realidade, também é certa a impossibilidade da redução da extrema complexidade da experiência humana a meros cálculos aritméticos. Mesmo que nos víssemos como polinómios enormes, feitos de incontáveis adições e subtracções, tal como Calvino refere em “Todas as Cosmicocómicas”, parece-me que nunca seríamos capazes de abarcar todas as dimensões da esfera humana, nunca seríamos capazes de nos reduzir a um único denominador comum, caso fôssemos fracções. Há uma infinidade de percepções, sensações, sentimentos, pensamentos e necessidades, subjectivos e objectivos, impossíveis de encarar como números ou transacções económicas e isso é o mais precioso de tudo. Precisamos de arte, como expressão criativa e como pura fruição de prazer estético, tanto quanto necessitamos de comida, água, abrigo ou amor. Há aqui certo paradoxo, pois o que interpreta, traduz e mostra a beleza incomensurável da existência também pode inquietar, agitar, catalizar novos pensamentos e, em última análise, contribuir para mudar aquilo que precisa de ser mudado.Esta é uma história subversiva, uma narrativa contra a torrente do consumismo, do primado do transitório e supérfluo que mantém as “massas” atordoadas e sossegadas para que não pensem, não vejam nem sintam. Para que, algures, os “senhores dos mercados” continuem a acumular riqueza e para que o mundo continue, “alegremente”, a perpetuar padrões de injustiça e violência baseados na ganância e numa certa visão utilitarista da existência.A ler, por todos e com urgência.Excerto:"A poesia, diz-me ele, transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com a absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade.Um poeta é como quem sai do banho e passa a mão pelo espelho embaciado para descobrir o seu próprio rosto.Era isto que ele me dizia. Eu limpava os espelhos na esperança de me sentir assim, tentava desembaciar a vida, como o poeta dizia que tínhamos de fazer, passar a mão pela realidade até vermos um sorriso. Sei que é um trabalho árduo, há demasiado vapo a tornar a vida pouco nítida, desfocada. Mas vou insistir.O poeta dizia que os versos libertam as coisas. Que quando percebemos a poesia de uma pedra, libertamos a pedra da sua "pedridade". Salvamos tudo com a beleza. Salvamos tudo com poemas. Olhamos para um ramo morto e ele floresce. Estava apenas esquecido de quem era. Temos de libertar as coisas. Isso é um grande trabalho."SINOPSEMais para ler

Como é que um livro "tão pequeno" nos pode preencher tanto?
"Tenho milhas a percorrer antes de dormir"... é assim que me sinto no fim da leitura deste livro tão breve, tão rico, tão cheio de sentido. Ponho a tocar "O Homem do Leme" dos Xutos e Pontapés e faz-me tanto sentido esta banda sonora...
Quisesse Afonso Cruz cometer plágio e poderia ter chamado a este livro "O Sentido da Vida", e para mim tudo estaria claro.
"Vamos Comprar um Poeta" foi a minha primeira leitura deste autor que tenho sucessivamente adiado. Cheia de vontade de ser do contra (não gosto nada de unanimidades) e de não gostar (ao contrário de todos os meus amigos da Roda dos Livros, que idolatram o escritor), não consigo... Fico rendida, mais do que à escrita, à forma como transmite as ideias. A economia de mercado, o mundo dos números, uma crítica aos nossos dias... E o desassossego da poesia. A inquietação da alma que move o mundo. O poder transformador do belo expresso em palavras. Inutilistas, ainda bem que persistimos.
"Vamos Comprar um Poeta" abriu-me uma caixa de Pandora (melhor, um frasco, como aprendi em 'As coisas que os homens me explicam'): não vou comprar um poeta, vou dedicar as próximas leituras à poesia.
Belo, muito belo, este livro. Para ler e reler e reler! Na lista dos que não se emprestam!
E no fim... um vazio...
Excertos
"(...) Gostava de ter um poeta, e depois? Há muitos estudos que afirmam que ter um artista, um bailarino, um ator, ou mesmo um poeta, ajuda a combater o stress, a baixar o colesterol mau, o que nos torna cidadãos e profissionais mais produtivos, concentrados e eficazes. Ora bem, nada mais útil do que isso." (...)
"Por acaso, o poeta acha que vegetais e frutas são o mais importante da pirâmide das necessidades?Evidentemente que não.É o quê, então?É a liberdade.
Francamente... " (p. 32)
(...)
"É que antes de adormecer faço abdominais e flexões e alongamentos com a imaginação, para aquecer as articulações e os músculos da fantasia. Não quero ter sonhos com mialgias de esforço." (p. 65)
(...)
"Percebi que estava cada vez mais inutilista e que pensava em coisas só pela sua beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental.Estava cada vez mais esquisita, como dizia o meu irmão." (p. 66)
(...)
"As rugas são as cicatrizes das emoções que vamos tendo na vida." (p. 76)
(...)
"A poesia, diz-me ele, transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com a absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade." (p. 87)
Sinopse
Gostava de ter um poeta. Podemos comprar um?A mãe não disse nada, limitou-se a levantar a louça, quatro pratos de sopa, quatro colheres de sopa e informar os comensais, eu e o meu pai e o meu irmão, de que a carne seria servida de seguida, dentro de trinta segundos. O pai acabou de mastigar um bocado de pão, cerca de treze gramas, moveu os maxilares cinco vezes e inquiriu:Porque não um artista?A mãe disse:Nem pensar, fazem muita porcaria, a senhora 5638,2 tem um e despende três a quatro horas por dia a limpar a sujidade que ele faz com as tintas naqueles objetos brancos.Telas.Isso.Muito bem, disse o pai, compramos um poeta. De que tamanho?
Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.
Caminho, 2016
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Um precioso pequeno livro. Uma lição de vida. Uma reflexão obrigatória nas palavras de uma criança de 12 anos.Uma família e a relação desta com o mundo, e mais importante ainda com o poeta, porque um poeta não faz muita porcaria. E assim entra a cultura no quotidiano desta família e tudo muda.Afonso Cruz brinca com as palavras para se expressar sobre coisas tão serias. E que bem que o faz. Ironia e metáforas num livro que se lê num ápice, e que depois se volta a ler. Um pouco diferente do registo que lhe conhecia. Mais terno, talvez. E com um posfácio que explica muita coisa, para quem se der ao cuidado de ler, e que termina com uma oração difícil de esquecer:"Tenho milhas a percorrer antes de dormir. E não abandonar os poetas nos parques."
A reter:"Dizem que é bom transacionarmos afectos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos ou gerador de renda, há quem acredite - é uma questão de fé -, que nos pode trazer dividendos." (pag. 11/2)Percebi que estava cada vez mais inutilitista e que pensava em coisas só pela sua beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental." (pag. 66)Mais para ler

“Sentava-me frequentemente em frente a uma máquina de escrever e escrevia coisas que deitava fora. Raramente ia além da segunda página. Cheguei mesmo a pensar escrever um livro só com inícios. Inícios de romances. Sempre gostei dos primeiros parágrafos dos livros e até achei que poderia ser uma boa ideia: um livro feito de inúmeros livros que não acabavam, um livro feito de começos. No fundo, um livro como a nossa vida.” Pág. 16.
Partilho um pequeno excerto deste livro. Um dos muitos que poderia partilhar. Mas corria o risco de transcrever o livro. Da mesma forma deixei de sublinhar, ou arriscava-me a começar na primeira palavra e terminar no último ponto final.
Esta Enciclopédia já habita as estantes há algum tempo, se calhar demasiado tempo sem o ter lido, mas é bom saber que ali está (este e outros) quando preciso de uma aposta ganha, quando preciso de um livro que seja só fenomenal. E assim é com os livros do Afonso Cruz, não desiludem e acrescentam-nos, alargam-nos os olhares, principalmente para dentro.
Não quero dizer mais nada, porque não é preciso e porque estará sempre aquém do retorno de um livro como este. Eu adoro as enciclopédias do Afonso Cruz!
Sinopse
“Com reflexões e histórias ignoradas noutras enciclopédias, o volume Arquivos de Dresner aborda, entre outras coisas, o caso de Ezequiel Vala, um maratonista que perdeu uma prova, nas Olimpíadas de 1928, por causa de uma flor (amaryllis/hippeastrum); fala do explorador Gomez Bota, que provou que a Terra não é redonda e descobriu, numa das suas viagens, a entrada para o Inferno tal como Dante a havia descrito; e relata os hábitos dos índios Abokowo, que dão saltos quando dizem palavras como «amor» e «amizade».
Esta é mais uma viagem lúdica pela História, remisturando conceitos, teorias e opiniões e lançando nova luz sobre uma panóplia de assuntos, desde a filosofia à religião, desde o misticismo à ciência.
«Um artista é alguém que, em vez de pintar uma paisagem tal como ela é, faz com que as pessoas vejam a paisagem tal como ele a vê.» (Tsilia Kacev)”
Alfaguara, 2013
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Começo já pelo final quando é dito que são os detalhes que mostram a essência das pessoas. Será que podemos dizer que pela qualidade dos detalhes, pelo cuidado e atenção que o autor coloca no seu texto está a essência da sua escrita?
Se sim, estamos perante uma essência bastante rica e profunda. Cada história que Afonso Cruz traça nunca vem só, são camadas e camadas. As flores não são só flores. As flores são palavras e as palavras têm espinhos, mas antes com espinhos e ter flores e palavras que ter apenas o vazio ou a solidão.
Este flores é um jardim inteiro, são as flores para a alegria e são ao mesmo tempo as flores que se depositam no corpo que se leva a enterrar. São as flores que acompanham a noite da paixão, como as selvagens que crescem e embelezam os campos... mas são também as flores que murcham e secam como os dias resignados à rotina.
«Flores» é metáfora para medo, espinhoso e que pica, mas que desperta e faz o indivíduo agir e corrigir a sua direcção. «Flores» são música, são poesia.. detalhes recheados de música e força que podem corrigir e conseguem salvar o mundo, vencer a guerra, meter um sorriso num rosto triste e só.
«Flores» é a taumaturgia do próprio Afonso Cruz! O poder enigmático e metafórico da sua escrita, simples, mas profunda, que esmaga a rotina e realça a esperança que pode haver em todos os momentos.
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Consigo ver Afonso Cruz nos seus livros. Não desaparece atrás da beleza, da eternidade da sua voz que encontramos em palavras, em letras que não existem quando lemos, que desaparecem através do seu significado, através daquilo que imaginamos ao ler. "Imagine, como que uma voz que nos eleve e aniquila ao mesmo tempo, nascemos e morremos no mesmo instante." (pag. 98) Esta dicotomia de viver/ morrer, amor/ doença, presente nos livros de Afonso é que me incomoda e me desafia a ler e a não gostar da sua maneira cínica de ver o mundo, apesar da forma quase poética e efabulada de contar uma história.
Flores não é sobre botânica. Tem a ver com a a história das irmãs Flores, no Alentejo do século XX, quando o narrador, um jornalista desencantado com a vida, decide ajudar o vizinho, que a sua filha adora, a recuperar as memorias afetivas e a reconstruir a sua vida através de todos os que o conheceram. Um trabalho difícil com muitas contradições porque há quem o ache bom e quem o ache mau. Afinal, é a memoria que nos forma e quando o idoso Ulme perde a memoria devido a uma doença degenerativa perde a identidade, mas não a capacidade de se indignar e sofrer com as tragédias que sabe através dos meios de comunicação, ao contrario do narrador que se busca no espelho, apático "num sonambulismo que a vida acaba por oferecer em conjunto com tantas frustrações".
Grito de revolta contra a rotina porque a vida morre com a rotina e não com a morte. Fugir de uma vida absolutamente sedentária e abraçar a mudança, sem o conforto da banalidade ou um outro olhar para a corrupção quotidiana e a miséria sem indiferença, porque Deus está em todo o lado e não apenas nas igrejas. Flores existem mas precisamos de as ver, cheirar e sentir.
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