Se não podes juntar-te a eles, vence-os - Filipe Homem Fonseca (Divina Comédia)
Pela mão da Divina Comédia chegou o primeiro romance de Filipe Homem Fonseca que é uma surpresa. Uma boa surpresa! Com um Menino da Lágrima na capa e um título provocador, Filipe entrega-nos um livro muito especial.
Uma das personagens que se auto-intitula de pessoa boa revela-nos que “Portugal está cheio de crimes violentos, paixões loucas e boa pastelaria.” E eu acrescentaria de bons autores também!
“Quando chegam à idade adulta os portugueses tornam-se um de três tipos de gente: catastrofistas, dissidentes ou boas pessoas.” Mais do que o retrato dos Portugueses, sobressai a profundidade das personagens aparentemente simples, que entregues aos seus pensamentos nos mostram o que sentem, como sentem e o que gostariam de sentir. Texto que nos desafia a pensar, a agir, a equacionar qual o nosso caminho!
“Fuga e procura, ambas exigem afastamento. Mas fugir é fácil, segue-se em frente até encontrar obstáculo, depois contorna-se, supera-se ou desiste-se, continua-se a fugir ou cai-se de joelhos. Já procurar é caminho sinuoso, um pára-arranca. Pode ser circular, pode ser eterno. A procura é a vontade que nos aguenta vivos até amanhã.”
E será que um quadro pode mudar a nossa vida? Moldar-nos a personalidade ou fazer de nós pessoas boas? “Um dia, quando era muito pequeno, perguntei-lhe porque chorava o Menino, se era com medo da arma que estava pendurada ao pé dele. Respondeu-me que não, que o menino chorava porque não tinha uma daquelas. E deixou-me a pensar se as lágrimas do Menino eram porque queria usar arma para matar alguém ou a si próprio.”
“Na altura não percebi, ele é que me contou mais tarde, parou porque viu folhagem a crescer no asfalto. Isto fez-me uma confusão, como quase tudo nele me faz, como é que alguém pára numa auto-estrada por causa de folhas a crescer no asfalto?” Será que algo tão simples e inócuo como uma folhagem a crescer no asfalto pode gerar algo maior que pode mudar o rumo dos acontecimentos? A resposta é positiva e mais uma vez se comprova que todas as acções produzem o seu efeito. Mas o maior efeito é conseguido com a mestria do Filipe em cruzar os acontecimentos e as personagens!
“Centenas de milhares que empunhavam cartazes e gritavam palavras de ordem, frases gastas que eram tudo o que tínhamos. Estávamos convencidos que não podíamos aguentar mais, sem saber que se pode sempre aguentar mais, em especial quando esse mais é viver com menos. (…) À falta de saber como lutar, que palavras gritar, os manifestantes remetiam-se ao silêncio. Uma marcha de vazio pelas ruas de todas as cidades do país, da Europa. Nem uma palavra, só dor.” Quanto mais pode uma nação e o seu povo aguentar? Qual a melhor forma de lutar contra o que nos aflige? Muitas questões, poucas respostas...
“Ouve-se dizer que o Governo vai cair, vamos perder a soberania, vêm para aí os alemães ou seja que lá quem for, para tomar conta da nossa vidinha, mesmo contra a nossa vontade. E os Meninos da Lágrima, tantos que são agora, respondem: que venham, estamos mais do que preparados, andamos há décadas, há séculos, a deixar que tomem conta da nossa vidinha, mas agora acordámos.” Existe um acontecimento específico para cada um de nós que irá despoletar o gatilho para sairmos da inércia. Qual? Descobre-o... A nossa saída será tornarmo-nos todos um Menino da Lágrima ??? Haverá decerto outras saídas, mas temos que agir, todos e cada um de nós, agora!
Eu não resisti e juntei-me a eles… aos que já leram esta belíssima obra e vão aguardar por mais obras do Filipe! :-)

