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Roda Dos Livros

Pão e Amor - Knut Hamsun (Guimarães Editores)

Roda Dos Livros, 30.03.13
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Pão e Amor (Markens Grøde, 1917) também conhecido por Os Frutos da Terra foi a primeira obra de Knut Hamsun publicada em Portugal em 1942 tendo sido a obra com que o escritor norueguês ganhou o Prémio Nobel de Literatura em 1920.Pão e Amor é de tal forma significativa no percurso do escritor na medida em que a terra é apresentada como a principal fonte de riqueza do homem conduzindo à sua realização e felicidade.É perfeitamente visível nesta obra a clara oposição do escritor ao mundo industrializado do ocidente na transição do século XIX para o século XX tendo em conta que o desenvolvimento de um país não pode de todo assentar nas máquinas e no dinheiro não tornando o homem necessariamente mais feliz. O homem é apresentado como um dos elementos da natureza e é nela que deverá conhecer a verdadeira felicidade. Knut Hamsun não descura o papel das cidades comparativamente com o mundo rural na medida em que a cultura da cidade não deixa o homem indiferente à música, ao teatro, à ópera, e até a linguagem e o requinte das pessoas.É notório ao longo da obra que todos aqueles que passam pela cidade tornaram-se pessoas diferentes, menos rudes, mais civilizadas e com vontade de conhecer o resto do país e o mundo, porém, a felicidade só é verdadeiramente encontrada quando os vários personagens regressam ao mundo rural vivendo em comunhão com a natureza.Relativamente ao quadro de pensamento, Pão e Amor abarca duas gerações de pessoas e não deixa de ser interessante as diferentes formas de aplicação da justiça perante casos idênticos, nomeadamente o infanticídio, uma prática comum e aceite em determinados aspetos, o que é curioso que para uma obra publicada inicialmente em 1917, mantém-se não só bastante atual, como simultaneamente na vanguarda de novas ideias quando as comparamos com o nosso atual quadro de valores.Para quem já leu outras obras de Knut Hamsun recentemente publicadas em português, não vai querer certamente perder a oportunidade de ler Pão e Amor que desde 1942 está a aguardar uma nova edição. Diria mesmo, o mundo ocidental está carente por Pão e Amor mais do que nunca, sendo esta uma obra em que o escritor nos está a falar ao ouvido como que profetizando o futuro da nossa civilização.Se a Fome do mesmo escritor ocupa um lugar especial nas estantes lá de casa, esperem até ler Pão e Amor!

Excertos:

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"O homem chega, subindo em direção ao norte. Traz consigo um saco, o seu primeiro saco, cheio de comestíveis e com mais meia dúzia de utensílios dentro. É robusto e rude; tem uma barba ruiva, intonsa; há cicatrizes em seu rosto e suas mãos: testemunhos de trabalho ou de guerra. Talvez se oculte ali para fugir a castigo, ou talvez seja um filósofo que aspire à paz; eis como surgiu o primeiro ser humano no seio dessa pavorosa solidão. Vai, prossegue sempre. Ao seu redor, os pássaros e os bichos da terra. Às vezes murmura algumas palavras de si para consigo: «Oh, meu Deus!»" (p. 17)

"- A ocasião há de voltar. Por agora, forço-os a paralisarem a exploração. Aquela gente não passa de umas crianças. (...) Isto não causará dano ao país, se a mina não andar mais para a frente. Pelo contrário! Os homens aprenderão a cultivar suas terras. Padecerão, porém, os da aldeia; ganharam, aliás, dinheiro demais neste verão último. (...) Como é que a gente dali se havia de resignar a viver tão simplesmente como antes da abertura dos trabalhos da empresa? Tinham-se criado hábitos de comer pão branco, de vestir com mais apuro, de ganhar bons salários; as pessoas tinham-se tornado gastadoras. E eis que o dinheiro se lhes escapava, à maneira de um cardume de arenques que, por fim, se faz ao largo e desaparece! Que fazer, meu Deus, numa penúria assim?!" (pp. 233, 257)no-nb_sml_ 176

"Vê tu o que se dá com vocês na Sellanraa! Conservam perpetuamente diante dos olhos o espetáculo das azuladas serranias. Não se trata de quaisquer novas invenções: trata-se da montanha, que se ergue ali desde a criação do universo, profundamente enraizada no passado. Ela faz-lhes companhia; vocês vivem em comunhão com o céu e com a terra, com essa imensa natureza dotada de raízes indestrutíveis. Vocês não necessitam de utilizar espadas: caminham sem armas, cabeça ao léu, cheios de confiança no mundo que os rodeia. O homem e a natureza não travam combates entre si: estabelecem perfeito acordo. A montanha e a floresta, a planície e o pântano, o céu e as estrelas. Ah! isto não são coisas que se avaliem miseravelmente: não há craveira que as meça. Escuta-me, Sivert! Deves sentir-te satisfeito com a tua sorte. Vocês possuem tudo quanto é preciso para viver, e para atribuir uma finalidade à existência e para inspirar fé. Nascem e multiplicam-se; são necessários à face da terra. Necessários, sim! Nem toda a gente o é! Mantêm a vida, transmitem a vida de geração em geração: é este o sentido da vida eterna." (pp. 300-301)growth-soil-knut-hamsun-paperback-cover-art"- Tanto se me dá, pois, pressa, não tenho nenhuma. Ah! se tu tivesses visto a cara do engenheiro! Ele tinha trazido para aqui um exército de operários e cavalos e máquinas, tinha espalhado dinheiro às mãos cheias, tinha posto tudo de pernas para o ar; inundou a região com o seu dinheiro e, afinal de contas, sem qualquer outro resultado diverso do de ampliar o desastre. Não é o dinheiro que faz falta aqui: o que falta são homens como o teu pai, homens que saibam manejar as avarelas da charrua em vez de arriscarem a fortuna em lances de jogo de dados. Os outros, como esses da mina, não sabem acertar o seu passo com o da vida: querem ir mais depressa, correr, correr, até à catástrofe.  Pretendem penetrar na vida à maneira de cunha; e quando a cunha sente que a pressão é demasiada, ela grita: «Parem! Não posso mais». Mas é já muito tarde! A vida aperta-a e esmaga-a." (p. 302)

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