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Roda Dos Livros

«O Quinto filho», de Dores Lessing - Opinião

Efeitocris, 02.01.26

Um clássico lido na recta final de 2025 e um pequeno texto para brindar a bons livros para 2026.

Boas leituras  paz, serenidade e fé é o que vos desejo para este novo ano.

"O Quinto Filho" é um romance aclamado de Doris Lessing que funciona como uma fábula sombria sobre a maternidade e a desintegração da vida familiar idealizada. A narrativa segue Harriet e David Lovatt, que, apesar do radicais e loucos anos 60/70, constroem - intencionalmente - uma vida familiar tradicional e conservadora, afastada das mudanças sociais da época. Apelidados por muitos de loucos ou desajustados, as suas escolhas foram sendo acompanhadas por todos e até suportadas pela família, em especial pela casa ídilica que escolheram e onde durante anos e anos existiram grande ajuntamentos familiar, que mesmo fora de época eram frequentados por um rol de gente.

Com os filhos a nasceram um atrás do outro, a casa gigante e os eventos familiares, criaram uma «bolha familiar», um refúgio idílico e uma «família-bunker», como descrito, um sistema de apoio para a «sobrevivência de valores que tinham como certos». Contudo, esta paz era frágil e ilusória.

Mas eles não sabiam!

A harmonia é irrevogavelmente quebrada com a quinta gravidez de Harriet, que é fisica e psicologicamente violenta. Esta «gravidez tormentosa» funciona como o «pronúncio de um fim pouco sorridente». A «bolha» da família perfeita pesa sobre a mãe, que entra num estado de «apneia» constante e numa luta contra todo o tipo de dores. A paz era mesmo frágil e a ilusão de um futuro sem tormentos estava à vista. Ao contrário do esperado, a família acorre a ela em tensão, visível num suposto apoio, constantemente contraditório e conturbado que foi ainda mais notório aquando dos primeiros meses de vida de Ben.

Agora eles sabiam que tudo estava ameaçado, mas não conseguiam aceitar

Assim que nasce, Ben é diferente. Inegavelmente diferente: fisicamente grande, bruto desde o berço, invulgarmente forte e incapaz de se integrar. Um mostrengo (a palavra é da Nobel!). A «natureza atávica, quase neandertal» de Ben representa o lado «primitivo» e as motivações destrutivas que levam a melhor sobre a civilização e a educação. A harmonia passou a viver encerrada, tal como Ben.

À medida que Ben cresce, transforma a «bolha harmoniosa e segura» numa «bolha de isolamento e violência». Essencialmente para Harriet, pois o marido e os outros filhos afastam-se, a família visita-os menos e Harriet luta «a sós» contra um «filho tirano». A sua aparente «frieza» não é uma falha moral, mas uma «resposta de sobrevivência» ao caos e à solidão a que é sujeita. Ao encarceramento.

E o encarceramento é duplo. Mãe e filho vivem isolados numa dinâmica que se revelará doentia e que trará desfechos que poderão atormentar o leitor, no entanto, pela forma como está escrito, a narrativa é uma exploração crua dos limites da compaixão e da responsabilidade parental, onde o sonho choca com a realidade e se transforma num pesadelo interminável, uma realidade que mesmo quando é posta em porta alheia, afecta-os na mesma. (Como não?)

Porém, tudo é narrado com essa frieza e afastamento, que julgo propositado e essa talvez seja a mestria de Lessing. Conseguir-nos de espectadores, esmiuçando a nossa curiosidade, mas sem nos ligar afectivamente às personagens. 

A comparação com «Temos de falar sobre Kevin» é inevitável e dá vontade de o ir reler, do qual recordo a constante tensão e aperto na gargante perante a sociopatia gritante e a violência que parece inata. Saliento que neste «O Quinto filho», essas sensações não são tão intensas, mas o lado enigmático e frio da escrita são o que cativa.

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