O meu irmão, de Afonso Reis Cabral

Um desabafo de que fiquei “em estado de choque” quando acabei de ler este livro e que talvez nunca me apetecesse falar sobre ele acicatou a curiosidade de alguns. No nosso país, onde o prémio LEYA tem um destaque imenso (devido ao montante do prémio e ao marketing envolvido) é inevitável que haja uma imensa curiosidade relativamente às obras vencedoras.
Parti para esta leitura sem sequer ter lido a sinopse do livro e sabia apenas que era um livro sobre a relação de dois irmãos. Um tinha síndrome de down, o outro não.
Quando comecei a ler o livro (em versão eletrónica e ainda antes da versão em papel estar à venda – parabéns LEYA por ter posto à venda a versão eletrónica antes da versão física) não ia à espera do que encontrei.
Para poder escrever sobre a minha relação com este livro não consigo evitar SPOILERS, pelo que, se ainda não leram o livro, sugiro que parem de ler aqui, reclamações posteriores não serão aceites.
Num livro cuja ação saltita entre um presente numa aldeia do interior de Portugal e vários momentos no passado conhecemos, na primeira pessoa, a relação de um homem com o seu irmão que sofre de síndrome de Down. É inevitável estabelecermos uma ligação diferente com os dois irmãos. Ao longo da maioria das páginas do livro duas personalidades distintas vão-se dando a conhecer e Miguel, com todas as limitações inerentes à sua doença, é uma personagem fascinante. O seu amor incondicional por Luciana, as suas reações que fazem absoluto sentido no seu mundo, a sua relação com os pais e com o irmão são tudo aquilo que esperava deste livro. Não conheço de perto esta síndrome mas gostei do que li.
Mas foi a personagem do narrador que me fascinou. O percurso escolhido, as reações, os sentimentos ao longo do crescimento numa família que, necessariamente, vivia em redor daquele que mais necessitava e que acabou por condicionar (ou no mínimo ajudar a moldar) irremediavelmente a personalidade deste homem foram-me deixando cada vez mais desconfortável.
A espiral de loucura foi o que mais me chocou.
O que está escrito e o que não está (nunca me esqueci que aquela era a versão do narrador) e que me levou a questionar o poder da loucura, da inveja, do ciúme, da maldade e do amor.
Esta é, como sempre, uma visão muito pessoal de um livro que gostei de ler e que não me foi, de todo, indiferente. Acho que esta minha dificuldade em escrever sobre o livro é o maior elogio que lhe posso fazer. Afinal nunca gostei de livros muito fáceis.
(e notaram que consegui escrever tudo sem referir a idade ou a família do autor? É que, sinceramente, isso não interessa mesmo nada)
