«O corpo dela e outras partes» de Carmen Maria Machado :: Opinião
Roda Dos Livros, 26.11.18

As distinções e ovações quase falam sozinhas sobre a qualidade reconhecida à escrita de Carmen Maria Machado, mas a questão que se principal é:
O que é viver no corpo de uma mulher?
Talvez seja preciso pesquisar muito e lutar por entender a body literacy que encerra cada corpo feminino.
Carmen Maria Machado explora cada conto com imprevisibilidade e experimentalismo, tal como se percorresse um corpo com ânsia de o conhecer em todos os seus recantos. É assim que eu leio os seus contos. A voz do corpo, a voz por vezes escondida ou recatada. É também o dar voz às mulheres, pelo seu corpo, pelos seus desejos, pelos seus anseios e preocupações e pelas suas metades, feminina ou masculinas. Carmen Maria Machado assume-se metade diva, metade bruxa. Eu diria antes: metade besta, metade bestial. E é isso mesmo: ser mulher, é ser capaz de numa hora ser uma mulher bestial, e na seguinte uma besta.
Talvez seja preciso ter uma metade mais ligada à fantasia para se gostar destes contos. Talvez! Tudo dependerá muito de cada uma e da realidade de cada quotidiano. E também pelo entendimento que se faz do corpo com que se vive; se o aceitamos ou não. Assumir o corpo é talvez a forma mais rápida de entender o lado selvagem que cada uma tem em si, é aceitar que o humor, as necessidades, as vontades, os sentimentos, as paixões, as falhas... oscilam. E oscilar faz-nos questionar. É aceitar, abraçar cada oscilação como uma força.Pela objectiva, cada vez mais afinada, da crítica cultural-feminista o livro de Machado é um livro político, muito centrado nos temas de hoje, um livro que mistura a realidade com a fantasia, alertando para as caixas e caixinhas que determinam o território feminino, condicionado à masculinidade de uma linguagem espalhada pelo mundo fora. Os críticos têm dificuldade em catalogá-la, chegando até ao rótulo de erótico e pornográfico. Nos oito contos, para além de um experimentalismo constante (a meu ver!), destacamos a forma de narrar que cruza, por palavras da autora, meta-ficção, não-realismo, fantasia, horror e ficção-científica. Tudo unido por uma imaginação recheada de folclore, muito dele proveniente das origens cubanas de Machado. No entanto, o que interessa é o resultado. Todos são contos surreais, abordando constantemente o desejo como um motor poderoso e pequenos padrões, nas personagens, que se repetem e se aproximam à realidade, tão própria, de cada mulher.
