«Eliete» de Dulce Maria Cardoso :: Opinião
Entre cenas da vida normal, as fendas da maturidade e uma família destelhada

A vida de Eliete decorre dentro da normalidade. Vive-se entre jantares, idas ao ginásio, mensagens trocadas com a filha e a mãe, e uma relação conjugal que se cumpre mais por hábito do que por afecto. No entanto, é nesta vida dita “normal” que Dulce Maria Cardoso faz emergir uma inquietação subtil, mas persistente — o ruído da privação. A privação de sentido, de escuta, de possibilidade. A Eliete não é uma mulher em colapso, mas alguém “a perder o pé à vida e a estar ancorada na dúvida”.
A família a que pertence é uma família destelhada, onde ainda sobram algumas telhas. E talvez seja isso a normalidade: viver sob uma estrutura que já teve mais força, mais abrigo, mas que continua de pé, colada por uma argamassa difícil de nomear. O que a mantém? O hábito, o dever, o medo da perda, ou apenas a falta de energia para reinventar tudo? A resposta ficará com cada leitor.
O livro é também sobre as ligações familiares como herança — e como prisão. Eliete vive rodeada de um passado povoado por mortes precoces, como a do pai, cuja ausência deixou um “amor filial sem destino”, uma dor sem pouso. A utilidade da morte, diz-se, é o sofrimento que deixa nos outros. E é isso que se impõe: os fiapos de memórias, colados por cheiros, fotografias, conversas repetidas, e que agora, com a doença da avó — guardiã maior dessa história —, parecem ameaçar desaparecer de vez.
Com uma escrita de precisão sensível e frases incisivas, Dulce Maria Cardoso evita qualquer dramatização. A protagonista move-se com dúvidas reais, inquietações que pertencem a qualquer pessoa — não são “dúvidas de mulher”, nem dramas íntimos exagerados. A autora dá corpo a uma personagem que questiona o papel que desempenha nos outros sem abdicar da procura de um espaço próprio. E, nesse movimento, toca questões fundamentais: como preservar os laços sem nos apagarmos? Como continuar a amar sem nos reduzirmos?
A falta de imaginação, o estar atracada à realidade, são formas de sobrevivência. Eliete não explode — resiste. E essa resistência ganha forma nas suas pequenas rebeliões: permitir-se apaixonar, por exemplo, é permitir-se a sonhar com um futuro, e isso, por si só, é um ato que desequilibra. Porque ao sonhar, Eliete desafia a previsibilidade do quotidiano, esse dia após dia onde tudo parece controlado mas nada é plenamente vivido.
O romance é um inventário de falhas, de silêncios e de tentativas. Mesmo que ela própria não quisesse fazê-lo, lá está “o dedo da mãe” para lembrar tudo o que ficou aquém. E talvez seja nesse entrelaçado de dores e tentativas que o livro mais nos toca — porque reconhecemos ali não só Eliete, mas muitos de nós, a tentarmos viver com as telhas que restam.