«A Mãe e o Crocodilo» de José Gardeazabal :: Opinião
De vez em quando apetece revisitar um livro, mesmo daqueles já lidos há um ano ou mais e dedicar-lhes um texto. Hoje foi a vez deste. Já leram? Se não, espero que a minha review vos espicace o suficiente para o lerem.

Dizer que A Mãe e o Crocodilo é um romance é, no fundo, não dizer nada. Porque este livro não se deixa agarrar por categorias comuns, nem por palavras isentas de um sentido duplo. O que temos aqui é uma narrativa onde as palavras tremem, as personagens ao que parece só aprendem a andar para trás, e a realidade... bem, a realidade passa por nós a correr e nem sempre acena. Pior é não saber o que esperar do futuro, pois ele está cheio de sentimentos e saber que: “Há pessoas à espera do futuro para gritar.”
Os sentimentos são um lago. Está escrito. Um lago onde as pessoas se molham até ao pescoço. Mas o narrador está de fora — não sabe nadar. O leitor também não sabe, mas entra. Porque Gardeazabal não escreve para os que sabem nadar. Escreve para os que se vão afundando. Boia-se no absurdo, como quem flutua numa banheira de realidade reciclada e reciclar rima com ressuscitar e a ressurreição do mundo está na mão dos assalariados da fábrica de reciclagem. Os pobres. E os pobres estão sozinhos e precisam de ficção.
Estranho?
Ainda não, porque eu nem falei da mãe ou do crocodilo Benito.
Gardeazabal não escreve para o leitor comum — escreve para o leitor que aceita o desconcerto como ponto de partida. E esse desconcerto não é estético, nem gratuito: é estruturante. Nem que seja de um universo muito próprio, mas que está cheios de semelhanças com o do leitor. E o leitor somos todos nós!
A intriga é cheia de escamas. Grossas. Ancestrais. É com elas que nos desarma e nos impede de aplicar categorias confortáveis, ou ter certezas… um pouco como Vladimir, personagem-narrador quando diz: “Uma luzinha entra pela claraboia. Suspeito de um sol extraordinário do lado de fora. Não saio, para continuar em dúvida."
E não andamos nós, por aí, todos os dias, cheios de dúvidas? Cheios de ficção.
“O amor, para mim, é primeiro imaginação, e depois realidade. Para mim, amar uma mulher é ficção. Ficção e mentira são coisas diferentes, os pobres e os sozinhos precisam muito de ficção.”
A assinatura do autor, para quem já leu obras anteriores, é clara como um crocodilo num quintal: há sempre uma figura estranha a ocupar o lugar do óbvio. Benito, o crocodilo domesticado, aquece-se ao sol tendo nostalgia do que não viveu. O leitor olha, desconfiado, mas fica. Porque sabe — ou começa a saber — que ali, no coração da bizarria, está uma forma de verdade.
“O crocodilo aquece a barriga mole no calor do cimento, a pose de um velho forçado à experiência das trincheiras. No dia seguinte, o gato do vizinho desapareceu. Também se aquecia no cimento, ao lado do crocodilo, e Benito gostava do gato. Olhava-o, sem se mexer, como um avô a imaginar o fim de uma grande guerra.”
Porque na verdade a guerra está à porta, negá-la é não olhar com atenção às diferentes máscaras com que se apresenta, é negar os transparentes.
“Os mais velhos lembram-se, normalização quer dizer que vai morrer gente. Racionalização, que a matança será organizada. Comboios, horários secretos, construções no campo, cães pastores. Ao fundo, o fumo dos mortos. À chegada, a roupa dos nus amontoada em pirâmides frias.”
A narrativa de Gardeazabal não nos dá respostas, antes oferece o desequilíbrio do silêncio, da reflexão que se entranha pelas ideias bizarras que de tanto chamarem à nossa atenção ganham corpo. Ganham realidade.
“A vida depois da morte é parecida com a vida antes da morte, nós sabemos, vivemos aqui. (…) Um ano depois do fim da reciclagem (e já depois do fim da mina) as pessoas pareciam transparentes, de uma maneira má (…) a pobreza perdeu o seu romantismo, não há mais nada a perder.”