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Roda Dos Livros

Dormir melhor é fácil?

Efeitocris, 27.01.26

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Dormir é fácil, dizem eles e eles são médicos. André Ponte e Henrique Prata Ribeiro fizeram um livro cheio de truques e ideias  - que parecem simples - para nos ajudar a dormir melhor. Há dicas para adormecer, há mapas para preencher e estratégias para modelar as ideias quando andamos às voltas na cama, no sofá... pela casa e nem os livros nos salvam das insónias. Será diferente com este?

Este texto é de partilha de algumas dessas ideias, as que mais apreciei. Apreciei ler... pôr em prática nem sempre está assim tão fácil 

QUANDO O SONO FALHA

  • não faça da cama uma sala de reuniões
    • estabeleça antes uma hora para reunir no papel algumas ideias para que possa dizer a si mesmo, no meio da noite, "Isto já está escrito. Agora não são horas para resolver ou organizar.”
  • estabeleça um tempo para voltar a dormir, se não adormecer, levanta-se: "a cama é só para dormir"
    • em vez de ficar às voltas, levante-se e faça uma actividade monótona, tipo dobrar roupa ou ler algo chato  ou colorir padrões... tudo com luz fraca 
  • estabeleça uma hora para dormir e para levantar
    • contrarie a vontade de ir dormir mais cedo, mesmo que tenha sono, para não estragar o seu índice de sono 
  • livre-se da auto-sabotagem
    • contrarie ideias feitas: "Não vou dormir, o dia amanhã vai ser horrível." 
  • criar uma rotina: acordei e não adormeço, levanto-me, contrario ideias catastróficas, faço algo monótono e só volto para a cama com sono 
    • evito: forçar o sono e manter-me na cama como uma luta/obrigação; vigiar o relógio

Depois digam lá se passaram a dormir melhor...

14 anos a dar as boas vindas a cada Ano Novo

Efeitocris, 27.01.26

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Para abrir a época de reuniões em 2026 acendemos catorze velas que representam muitas e muitas páginas viradas, alguns regressos e despedidas, discussões e clube de fãs de autores e títulos que nos ficam a ecoar entre reuniões. Por isso para acompanhar a gulodice desta reunião juntámos todos os livros que tínhamos em mãos, porque todos podem ser sugestões de leitura, pois verdade seja dita os livros apanham-nos por fases e épocas muito diferentes, podendo trazer-nos sensações tão diferentes como opiniões que nos fazem (ou não!) regressar a certos autores.

As lombadas desalinhadas são um excelente retrato deste colectivo. Raramente são uma imagem de total consenso, são antes contornos da convivência e da partilha. Ler juntos ao longo de tantos anos têm-nos mostrado que vamos mudando com o mundo e com os livros, mas também vamos debobrando os contornos que nos definem desde o 1º dia.

As sugestões

Vinte anos de manicómio é uma sugestão para os leitores que se questionam sobre a memória de um país e de um sistema que quis silenciar quem escolheu fugir à norma. Um livro outrora banido que expõe questões incómodas que podem mexer com algumas feridas.

Hamnet, de Maggie O’Farrell, é uma lição sobre como a literatura pode transformar luto em algo belo e por isso é uma sugestão para um leitor sensível e dedicado, com atenção ao detalhe da linguagem, que lê sem pressas e aprecia os silêncios em acompanham cada descrição.

Em Candeia Coração, Banu Mushtaq, a leitura de cada pequena história renova a vontade de recomendá-lo a outros leitores. Mushtaq escreve com precisão e poder, traz para cada história humanidade e dignidade para as vozes menos ouvidas.

Um pouco como O Jardineiro e a Morte, de Georgi Gospodinov, que da intimidade, da perda e do luto, filosofa em excertos que têm tanto de belo como de triste, ajudando o leitor a dizer adeus. Recomendado para quem não se incomoda com a partilha de vulnerabilidades e ler com os olhos rasos d’água.

E na mesma senda podemos fazer a leitura d’A Montanha. José Luís Peixoto tece um fio que une histórias que nunca se esgotam nas pessoas que as contam, insistindo na beleza da subida.

Outros títulos chegam como longas cartas e pergunta-nos como se cuida do caos e da desorganização que de repente nos embrulha a vida. Nesse desarranjo cabe Autismo de Valério Romão e Não Fossem as Sílabas do Sábado de Mariana Salomão Carrara que na imprevisibilidade do que narram, chegam a preocupações transversais a tantas vidas.

Mas talvez a melhor sugestão nesse registo de autenticidade e espanto, seja Pergunta 7 de Richard Flanagan, que podemos dizer que celebrar a curiosidade e brinda o leitor com um livro inclassificável. Portanto, é melhor lê-lo!

Continuando nos livros difíceis de definir é impossível não incluir aqui A Chuva que Lança a Areia do Saara, de Ana Margarida de Carvalho; dizer que é uma narrativa intrincada das vidas rudes, mas caricatas e peculiares, das suas mais recentes personagens é dizer pouco, portanto o melhor é lê-lo com a curiosidade de quem gosta de ser surpreendido.

Para pensar o presente e ser confrontado com a nossa tolerância para com a violência, devemos ler Um dia, todos teremos sido contra isto, de Omar El Akkad. Uma verdadeira chapada de empatia e uma convocatória para a responsabilidade do leitor para se posicionar.

Trilhando um objectivo semelhante, o de alimentar a consciência política e histórica de cada leitor, mas no registo de romance temos A Herança do silêncio, de Gina B. Nahai narrando a consciência histórica do Irão, antes e durante a revolução islâmica. A voz aparentemente silenciada narra um legado poderoso sobre a opressão das mulheres iranianas.

A lista é sempre longa se falarmos de livros que descrevem opressões, Pão Seco de Muhammad Chukri é um deles e traz-nos a miséria de uma infância perdida entre a fome, a droga e o analfabetismo do próprio autor.

E quando A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, volta à mesa, percebemos que alguns debates nunca se esgotam e que este é um livro para ler e reler. Ou melhor dizendo: reler-se!

E relemo-nos muitas vezes uns aos outros nesta quase década e meia de convivência literária.

Que venham mais, mais anos e mais livros e livros, bons e maus… todos ajudam a definir o grupo.

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Pst pst… Nunca Te Esqueças de procurar a beleza e as coisas pequenas que abrilhantam e completam o dia  

Apontamentos de leitura - IV - “O Cérebro Ideológico”, Leor Zmigrod

Ana CB, 08.01.26

 

O CÉREBRO IDEOLÓGICO

Leor Zmigrod

 

Um excelente livro de não ficção sobre fenómenos neurológicos.

Perceber (ou tentar, pelo menos) em que medida o nosso cérebro nos predispõe para determinado tipo de opinião, e o que é que certas orientações ideológicas podem mudar no nosso próprio cérebro.

Pistas da neurociência para compreender melhor as nossas escolhas, sobretudo no plano político, mas que se cruzam com outras áreas da nossa vida.

Psicologia, neurologia e filosofia juntas num livro brilhante, um ensaio que nunca se torna aborrecido, mesmo quando é mais técnico, e que ajuda a compreender melhor o ser humano como entidade complexa mas, quer queiramos quer não, um produto da natureza.

Uma das minhas leituras favoritas de 2025.

 

«O Quinto filho», de Dores Lessing - Opinião

Efeitocris, 02.01.26

Um clássico lido na recta final de 2025 e um pequeno texto para brindar a bons livros para 2026.

Boas leituras  paz, serenidade e fé é o que vos desejo para este novo ano.

"O Quinto Filho" é um romance aclamado de Doris Lessing que funciona como uma fábula sombria sobre a maternidade e a desintegração da vida familiar idealizada. A narrativa segue Harriet e David Lovatt, que, apesar do radicais e loucos anos 60/70, constroem - intencionalmente - uma vida familiar tradicional e conservadora, afastada das mudanças sociais da época. Apelidados por muitos de loucos ou desajustados, as suas escolhas foram sendo acompanhadas por todos e até suportadas pela família, em especial pela casa ídilica que escolheram e onde durante anos e anos existiram grande ajuntamentos familiar, que mesmo fora de época eram frequentados por um rol de gente.

Com os filhos a nasceram um atrás do outro, a casa gigante e os eventos familiares, criaram uma «bolha familiar», um refúgio idílico e uma «família-bunker», como descrito, um sistema de apoio para a «sobrevivência de valores que tinham como certos». Contudo, esta paz era frágil e ilusória.

Mas eles não sabiam!

A harmonia é irrevogavelmente quebrada com a quinta gravidez de Harriet, que é fisica e psicologicamente violenta. Esta «gravidez tormentosa» funciona como o «pronúncio de um fim pouco sorridente». A «bolha» da família perfeita pesa sobre a mãe, que entra num estado de «apneia» constante e numa luta contra todo o tipo de dores. A paz era mesmo frágil e a ilusão de um futuro sem tormentos estava à vista. Ao contrário do esperado, a família acorre a ela em tensão, visível num suposto apoio, constantemente contraditório e conturbado que foi ainda mais notório aquando dos primeiros meses de vida de Ben.

Agora eles sabiam que tudo estava ameaçado, mas não conseguiam aceitar

Assim que nasce, Ben é diferente. Inegavelmente diferente: fisicamente grande, bruto desde o berço, invulgarmente forte e incapaz de se integrar. Um mostrengo (a palavra é da Nobel!). A «natureza atávica, quase neandertal» de Ben representa o lado «primitivo» e as motivações destrutivas que levam a melhor sobre a civilização e a educação. A harmonia passou a viver encerrada, tal como Ben.

À medida que Ben cresce, transforma a «bolha harmoniosa e segura» numa «bolha de isolamento e violência». Essencialmente para Harriet, pois o marido e os outros filhos afastam-se, a família visita-os menos e Harriet luta «a sós» contra um «filho tirano». A sua aparente «frieza» não é uma falha moral, mas uma «resposta de sobrevivência» ao caos e à solidão a que é sujeita. Ao encarceramento.

E o encarceramento é duplo. Mãe e filho vivem isolados numa dinâmica que se revelará doentia e que trará desfechos que poderão atormentar o leitor, no entanto, pela forma como está escrito, a narrativa é uma exploração crua dos limites da compaixão e da responsabilidade parental, onde o sonho choca com a realidade e se transforma num pesadelo interminável, uma realidade que mesmo quando é posta em porta alheia, afecta-os na mesma. (Como não?)

Porém, tudo é narrado com essa frieza e afastamento, que julgo propositado e essa talvez seja a mestria de Lessing. Conseguir-nos de espectadores, esmiuçando a nossa curiosidade, mas sem nos ligar afectivamente às personagens. 

A comparação com «Temos de falar sobre Kevin» é inevitável e dá vontade de o ir reler, do qual recordo a constante tensão e aperto na gargante perante a sociopatia gritante e a violência que parece inata. Saliento que neste «O Quinto filho», essas sensações não são tão intensas, mas o lado enigmático e frio da escrita são o que cativa.