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Roda Dos Livros

Crónica de uma reunião imaginária

Ou o encontro de Novembro

Efeitocris, 25.11.25

O trio aproximou-se da biblioteca depois de um almoço preguiçoso ao sol. A Dona Aveia atrasou-as tanto quanto pode… parece que estava a adivinhar que esta reunião de Novembro não aconteceria. Entre olfatar aqui e ali, abanava o rabito, conquistando sorrisos e demorando a Isa e a Cris.

— Estou convencida de que a esplanada devia ser património imaterial do nosso clube. — sugeriu uma delas, entrando na biblioteca.
— Será que já está alguém à nossa espera? — a pergunta era do mais retórica que pode haver, sabiam que não deveriam vir muitas rodistas, mas o segurança que lhes abriu a porta disse logo que «Não! Eram as primeiras”»

A sala estava vazia e fria e rapidamente se acomodaram ao sol. A Dona Aveia aproveitou para se estender e preparar a sesta. Facilmente se põe a ressonar como se o mundo inteiro fosse um sofá confortável.

Sentaram-se, ainda embaladas na conversa que vinha da rua, mas começando a depositar livros na mesa.

— Então? – disse a Isa, tirando da bolsa Daytripper —vens com artilharia pesada, ao ver os livros da Cris: Kilomba, DiAngelo e Paglia… estás a preparar alguma tese ou quê?

Riram-se. Ambas sabiam que são livros destes, temáticos e suculentos, que dão sempre para ampliar as conversas e apimentar os tópicos extra.


— Acredita, depois destas três leituras, sinto-me com mais dúvidas ainda, mas como já tinha começado, no mês passado, com as leituras do wokismo de Mcworth e do feminismo pela Wittig, achei muito bom para desarranjar ainda mais as ideias. Mas olha, gostei… e não gostei. Foi assim uma confusão, um misto de emoções e ideias.
— Mas também é bom quando os livros nos dão isso, certo?

— Tem dias. — e riram.

— Mas o que gostei mesmo e quero dar destaque é o da Paglia. Consegue formar imagens brutais com meia dúzia de palavras… «Provocações» é um autêntico roteiro de músicas, imagens e momentos ao longo de mais de vinte anos. Muito bom.

A Isa mexeu nas novelas gráficas e soube logo que a Cris estaria a pensar que Daytripper teria algo a ver com cães, já são amigas a esse ponto para saberem ler alguns trejeitos sem que venham com uma palavra agarrada.

— Olha que o Daytripper, de Fábio Moon, também mexe um pouquinho com a gente, com estas formas alternativas de viver e reviver de Brás de Oliva Domingos. 

A Cris fez um aceno de quem compreende demasiado bem aquele sentimento. E acrescentou:
— E cruza bem com Joyce, de certeza.

— Sim! E foi uma porta para descodificar a obra de Joyce. Mas a minha sugestão é mesmo Lampedusa: Ir e Não Chegar.
— É duro?

— Tive momentos que fui respirar ao terraço.

E ficaram em silêncio, mas foram logo interrompidas pelo ressonar com convicção da Dona Aveia. E deram por elas a olhar aos relógios e a perceberem que não vinha mais ninguém. O clube hoje pertencia-lhes😉 e partilharam uma foto com a Patrícia. 

— Sabes, acho que não vem mesmo mais ninguém. — disse a Isa, ajeitando os cabelos quentes do sol.

— Acho que somos mesmo só nós.

Lá fora, o sol estava apetecível. E num olhar compreenderam-se. Por hoje estava feito. 
A Dona Aveia abriu um olho, ergueu a cabeça e olhou para a porta como quem desafia um: Vamos passear?

— Vamos! – e já arrumavam o espaço.

— Bora! – confirmou a Cris, gerando um salto imediato na Dona Aveia.

*

E a reunião, tal como sempre, começou antes de começar. Nas conversas, nas trocas de mensagens, nas partilhas de livros entre qualquer outra conversa real ou virtual…ou mesmo sem quórum para reunir oficialmente. Porque a Roda é isto, uma conversa interminável há já mais de uma década. Mas é sempre melhor com os Encontros mensais. Portanto, que venha Dezembro e que venha mais gente. Que a Roda faz falta a todos. Sem excepção!

Sugestões

- PROVOCAÇÕES de Camile Paglia

- LAMPEDUDA, ir e não chegar de Ana França 

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Encontro de Outubro/2025

Célia, 02.11.25

O sábado chuvoso que encontrámos no passado dia 25 não foi suficiente para nos afastar de mais uma tarde de conversas em torno dos livros. Aliás, há mesmo quem ache que o tempo chuvoso e frio (ainda não muito) é o mais propício a estas sempre animadas tertúlias.

Desta vez, a chuva não foi só lá fora porque a casa estava cheia, incluindo um novo leitor canino, desta vez a fofa Trufa, que distribuiu lambidelas e simpatia. 

Fui eu a abrir as hostilidades, destacando "Fome", de Roxane Gay, e "Prisioneiros da Geografia", de Tim Marshall. Ultimamente, ando mais virada para as leituras de não ficção e estes dois foram os que mais me marcaram de entre os últimos lidos. "Fome" é um relato cru e visceral sobre o trauma e a obesidade, provando que Roxane Gay é excelente seja a escrever ficção ou não ficção. "Prisioneiros da Geografia" é um livro que permanece atual, mesmo após 10 anos decorridos sobre a sua publicação original e considerando que a geopolítica é uma questão em permanente alteração.

A Sónia foi a cliente que se seguiu, e recomendou-nos "Inyenzi ou as Baratas", de Shcolastique Mukasonga, um livro que trouxe uma visão impactante sobre o massacre do Ruanda nos anos 1990. Outra leitura referida, infelizmente não com um impacto tão forte, foi o clássico "A Morte de Ivan Ilitch".

De seguida, "A Coroa" de Sigrid Undset não deslumbrou a Renata mas serviu para que as rodistas presentes percebessem a diferença entre as palavras percursor, precursor e percussor, provando que podemos sempre ver o copo meio cheio! "Por Dentro do Chega" foi também um livro bastante falado nesta Roda, tendo as leitoras presentes sugerido que fosse consumido em doses homeopáticas. A Renata recomendou-nos "Gaza está em toda a parte", de Alexandra Lucas Coelho, um livro de crónicas acompanhadas de fotos que a autora coligiu após viagens recentes ao local.

A Vera deixou-nos imensas recomendações, com particular destaque para "Dei-te os olhos e viste as trevas", de Irene Solá (que título fantástico!) e "A chuva que lança areia do Saara", de Ana Margarida de Carvalho. Também a Cristina Delgado, que faz magia e consegue ler pelo menos sete livros ao mesmo tempo , nos deixou imensas sugestões, com destaque para "Eu Tituba, Bruxa... Negra de Salem", de Maryse Condé, uma ficção histórica sobre esta personagem real.

A Fernanda partilhou connosco a sua paixão por Elizabeth Strout, cuja obra ainda continua a descobrir, tendo-nos recomendado "Amy e Isabelle" e "Abide With Me". Tem também andado a descobrir a obra da Nobel coreana Han Kang, com "A Vegetariana", "Atos Humanos" e "Lições de Grego". Não esquecer os textos de Eduardo Galeano em "O Caçador de Histórias", um livro difícil de catalogar em que se alternam contos, crónicas, memórias, poesia e micro-ficção.

A Márcia estava a terminar e a gostar muito de "O que podemos saber", o livro mais recente de Ian McEwan, uma espécie de distopia com um pendor mais literário e filosófico, que promete fazer-nos refletir sobre o que andamos a fazer ao nosso mundo atualmente e no legado que deixaremos a gerações futuras. Claro que todas adorámos também ouvir a Márcia falar sobre os livros que começou e não terminou .

A Ana Borges recomendou-nos em especial "O Cérebro Ideológico", de Leor Zmigrod, um livro de não ficção que promete explicar com fundamento científico porque é que somos mais ou menos propensos a aderir a determinados dogmas.

Para finalizar, as recomendações das nossas Sofias: a Sofia Antunes falou-nos de "The Inheritance of Loss" (A Herança do Vazio), de Kiran Desai, um livro que venceu o Booker Prize em 2006 e que aborda os efeitos do colonialismo e do pós-colonialismo na Índia; a Sofia Castro deixou-nos com a recomendação de "Imperatriz" de Pearl S. Buck, uma biografia ficcionalizada da última imperatriz chinesa, Cixi.

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Em novembro há mais!