Crónica de uma reunião imaginária
Ou o encontro de Novembro
O trio aproximou-se da biblioteca depois de um almoço preguiçoso ao sol. A Dona Aveia atrasou-as tanto quanto pode… parece que estava a adivinhar que esta reunião de Novembro não aconteceria. Entre olfatar aqui e ali, abanava o rabito, conquistando sorrisos e demorando a Isa e a Cris.
— Estou convencida de que a esplanada devia ser património imaterial do nosso clube. — sugeriu uma delas, entrando na biblioteca.
— Será que já está alguém à nossa espera? — a pergunta era do mais retórica que pode haver, sabiam que não deveriam vir muitas rodistas, mas o segurança que lhes abriu a porta disse logo que «Não! Eram as primeiras”»
A sala estava vazia e fria e rapidamente se acomodaram ao sol. A Dona Aveia aproveitou para se estender e preparar a sesta. Facilmente se põe a ressonar como se o mundo inteiro fosse um sofá confortável.
Sentaram-se, ainda embaladas na conversa que vinha da rua, mas começando a depositar livros na mesa.
— Então? – disse a Isa, tirando da bolsa Daytripper —vens com artilharia pesada, ao ver os livros da Cris: Kilomba, DiAngelo e Paglia… estás a preparar alguma tese ou quê?
Riram-se. Ambas sabiam que são livros destes, temáticos e suculentos, que dão sempre para ampliar as conversas e apimentar os tópicos extra.
— Acredita, depois destas três leituras, sinto-me com mais dúvidas ainda, mas como já tinha começado, no mês passado, com as leituras do wokismo de Mcworth e do feminismo pela Wittig, achei muito bom para desarranjar ainda mais as ideias. Mas olha, gostei… e não gostei. Foi assim uma confusão, um misto de emoções e ideias.
— Mas também é bom quando os livros nos dão isso, certo?
— Tem dias. — e riram.
— Mas o que gostei mesmo e quero dar destaque é o da Paglia. Consegue formar imagens brutais com meia dúzia de palavras… «Provocações» é um autêntico roteiro de músicas, imagens e momentos ao longo de mais de vinte anos. Muito bom.
A Isa mexeu nas novelas gráficas e soube logo que a Cris estaria a pensar que Daytripper teria algo a ver com cães, já são amigas a esse ponto para saberem ler alguns trejeitos sem que venham com uma palavra agarrada.
— Olha que o Daytripper, de Fábio Moon, também mexe um pouquinho com a gente, com estas formas alternativas de viver e reviver de Brás de Oliva Domingos.
A Cris fez um aceno de quem compreende demasiado bem aquele sentimento. E acrescentou:
— E cruza bem com Joyce, de certeza.
— Sim! E foi uma porta para descodificar a obra de Joyce. Mas a minha sugestão é mesmo Lampedusa: Ir e Não Chegar.
— É duro?
— Tive momentos que fui respirar ao terraço.
E ficaram em silêncio, mas foram logo interrompidas pelo ressonar com convicção da Dona Aveia. E deram por elas a olhar aos relógios e a perceberem que não vinha mais ninguém. O clube hoje pertencia-lhes😉 e partilharam uma foto com a Patrícia.
— Sabes, acho que não vem mesmo mais ninguém. — disse a Isa, ajeitando os cabelos quentes do sol.
— Acho que somos mesmo só nós.
Lá fora, o sol estava apetecível. E num olhar compreenderam-se. Por hoje estava feito.
A Dona Aveia abriu um olho, ergueu a cabeça e olhou para a porta como quem desafia um: Vamos passear?
— Vamos! – e já arrumavam o espaço.
— Bora! – confirmou a Cris, gerando um salto imediato na Dona Aveia.
*
E a reunião, tal como sempre, começou antes de começar. Nas conversas, nas trocas de mensagens, nas partilhas de livros entre qualquer outra conversa real ou virtual…ou mesmo sem quórum para reunir oficialmente. Porque a Roda é isto, uma conversa interminável há já mais de uma década. Mas é sempre melhor com os Encontros mensais. Portanto, que venha Dezembro e que venha mais gente. Que a Roda faz falta a todos. Sem excepção!
Sugestões.
- PROVOCAÇÕES de Camile Paglia
- LAMPEDUDA, ir e não chegar de Ana França

