Setembro e uma mão cheia de leitores
Numa tarde quente ainda a cheirar a verão (felizmente!), a Roda parecia encolhida. Éramos cinco e mal enchíamos uma mesa. Mas cinco é uma mão cheia ou mancheia e tal como as mãos que nos guiam nos gestos mais simples ou nos sustentam nos mais complexos, foram esses cinco leitores os suficientes para abraçar tantos temas e sentimentos como livros que abarcaram o mundo inteiro. Claro que foram - e são sempre 😄 – mais os livros que os dedos das mãos.
Isso é certo e maravilhoso nos nossos encontros mensais.
Então vamos lá saber mais sobre essa mão cheia de livros.
O polegar, símbolo de aprovação, ergueu-se para todos, é claro, mas talvez o like maior vá para «Leitura Fácil» de Cristina Morales por ser uma narrativa sui generis, carregada de vozes peculiares e talvez possamos até dizer que tem um impacto militante e tantos são os seus temas que não há dedos suficientes para apontar todas as questões que o livro levanta com brutalidade e “bastardismo”.
Esticando o indicador, deixamos que aponte para «Racismo Woke» de John McWhorter, cheio de interpelações ao leitor e alertas. Um livro indicador de polémicas e pedidos de atenção — para o uso das palavras, para as camadas do ativismo identitário e para os lugares de luta anti-racista e todas as polémicas envolvendo o tema.
Entre o polegar e o indicador, formou-se o gesto 👌. E ali encaixou-se «Uma mulher desnecessária» e outro não lhe poderia tomar o lugar. A obra de Rabih Alameddine obriga a unir esses dois dedos num sinal de excelência, que nos levou a pensar no quanto é envelhecer invisível. É uma narrativa de resistência através da leitura e dos livros, uma lição sobre cooperação e vizinhança e sobreviver nas franjas da sociedade.
Com ligação directa ao coração ou no anelar podemos colocar vários dos livros falados durante o encontro. «O caminho do sal»; «Portugal hoje, o medo de existir»; «Lucy» ou ainda «As crianças adormecidas». Os sentimentos e seus desdobramentos, raízes, traumas e liberdade, tudo ecoa e encaminha para a memória colectiva e a afectividade. Por isso, no dedo das alianças, compromissos e promessas escondem-se vozes contida, intensidades e superações, mas também gritos de denúncia e manifestos.
Restando ainda o mindinho, pequeno e essencial para o equilíbrio, traz-nos detalhe e minucia, por isso «Líbano – uma biografia», «Um país sem amor» e «The story of a heart» que, à primeira vista, são livros discretos, mas completam histórias com História, sustentando temas densos sem alarde ou exageros.
Mas onde encaixar «Reencontros» de Fred Uhlman ou os já repetentes «Lobos» de Tânia Ganho e «O relatório Brodeck» de Philippe Claudel? Livros que escorregam entre os dedos, inquietos e que resistem ao encaixe. Falam de medo, exploram fábulas, denunciam a violência, engrandecem a resistência e exploram realidades que arrepiam. São narrativas que cabem na palma da mão, mas com facilidade esmiúçam o mundo à sua volta.
Então, sem mais demoras e deste encontro com anatomia simbólica, eis a pilha de recomendações.

Foram 5 dedos 5 leitores e um gesto essencial: abrir a mão e estender o que se leu ao outro. E mesmo que sejamos poucos, quando há escuta, há um mundo a descobrir.