Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Roda Dos Livros

Para ver quem é que anda à Roda * Encontro de Agosto

Efeitocris, 28.08.25

Se me dissessem que em Agosto íamos reunir com casa cheia, um clima ameno e a calma doce da Dona Aveia a guiar a reunião, eu não acreditaria. E porquê?

Ora… porque as reuniões de Verão tendem a ter poucos rodistas e a Dona Aveia anda numa de participação esporádica e muito selectiva, só quando mesmo lhe apetece. Já para não falar das temperaturas de canícula que afastam outros participantes.

E além do mais, a reunião de Agosto chegou antecipada, mas felizmente teve como brinde uma leve brisa que aconchegou uma ou outra sesta, porque afinal o membro canino tem alguma idade e as tardes estivais pedem sempre uma power nap. E afinal, aos chefes tudo é permitido! Certo?

Claro que sim!

Aquele riso patudo derrete-nos os corações. Firmou-se no centro da Roda como quem diz: “A reunião começou, pessoal. Quem fala primeiro? Patrícia, és já tu.”

WhatsApp Image 2025-08-26 at 14.53.09.jpeg

E assim foi. E a Patrícia falou.

E falou de dramas familiares, sagas que estendem a gerações e aventuras fantásticas em Rio Perdido e mais uma vez Blackwater foi alvo das nossas atenções. Mas antes que a conversa se perdesse, a Don Aveia deu uma rosnadela  diplomática e apontou as orelhas… “Não vamos já começar a desordem, pois não meninas?”

WhatsApp Image 2025-08-26 at 14.54.18.jpeg

O que nos faltava mesmo era uma patada destas. Gentil mas determinada. Um convite à ordem pouco regrada que pauta cada Roda.

E mesmo que Blackwater tenha laivos de novela mexicana, não deixamos que os mariachi entrassem e seguimos com uma reunião tranquila e ouvimos a Patrícia nos contar que “Também há rios no céu” e que os livros de Elif Shafak merecem muito ser lidos e aqui a escriba segredou à sua patuda que nunca leu um livro da Shafak… Se calhar devias, disse a Dona Aveia em tom de sugestão, mas para quem a conhece sabe que queria dizer: “Não digas isso a ninguém e vai já corrigir essa lacuna. E no regresso traz biscoitos.”

O inventário podia continuar, mas sorte de um patrão sonolento é que em breve baixa a guarda e deixa a malta em auto-gestão, só assim podemos discutir e afirmar que «O inventário de sonhos» da Chimamanda fica um pouco a dever ao entusiasmo de outrora das suas narrativas africanas e que vamos metendo uns livros pelo meio desta leitura, que é como quem diz que nos sentimos culpadas de o deixar de parte.

A Dona Aveia diminuiu a sua atenção, entrou em modo Pausa e bocejou no colo de recomendações mais serenas… especialmente para ela que não fala russo e quando ouviu a Célia e a Renata discutirem se Tolstoi ou Dostoievski, deu um ar de sua graça com a cauda e fez um arrear estratégico — sinal de que era hora de deixar fluir a conversa sem moderação.

aveia.jpg

Aveia RL - Agosto.jpg

E lá fomos nós, partilhando sugestões, umas tão desvairadas como um resumo de novela juvenil, outras profundas como se publicássemos um tratado filosófico caseiro.

Entre gargalhadas e lampejos de sabedoria, houve quem trouxesse leituras de autores que brincam com estilos, quem comentasse dramas mais sombrios, e quem citasse frases inspiradoras só para adensar o grau de profundidade literária — tudo isso enquanto a Aveia dormiam, ora na sua varanda privada ora na cama fofa e fazia círculos suaves ao nosso redor, passeando-se entre nós como quem garante que é visto, sentido e nunca esquecido… como o fazem certos livros e alguns deles tiveram palco nesta reunião, quem é como quem diz: “James”; “Orbital”, “Boulder”, “Túmulo de Areia”, “As malditas”, “melhor não contar”, “O bom mal”, “Triste Tigre”, “O Paradoxo do Cérebro” ou “As crianças adormecidas”

E se todos estes títulos não bastassem, há ainda a apologia de “Mudar de ideias” agora peneirada no crivo de Julian Barnes, entre mais títulos repetidos e tantos outros de policiais sangrentos e uns quantos títulos de livros-piscina que os roditas tanto gostam. Upa, upa, especialmente no verão para ler à sombra e á beira-mar.

Chegou o momento da pilha de sugestões, desta vez digna de fazer sombra a qualquer outra erguida este ano. Com direito a segura e-coisos cristalinos que quase quase não se fazem notar, esquecendo que estes dispositivos que se auto-intitulam de livros não são sequer capazes de se erguer sozinhos, nespecialmente nestas temperaturas. E sem mais demoras ou referindo quem sugeriu o quê e qual (e entretanto acordamos a patuda), fica a nossa bonita pilha de sugestões para lerem até ao Natal que deve ser quando voltamos duas mãos cheias de gente a animar as tardes da nossa Aveia.

WhatsApp Image 2025-08-26 at 14.54.18 (1).jpeg

WhatsApp Image 2025-08-28 at 13.21.45.jpeg

Apontamentos de leitura – II – Emily St. John Mandel

Ana CB, 20.08.25

 

O primeiro livro que li de Emily St. John Mandel, há cerca de um ano, foi “Estação Onze”. Gostei da escrita e da história, e ficou imediatamente na minha lista de autoras a seguir de perto. Os seus dois livros mais recentes encheram-me ainda mais as medidas, confirmando a minha impressão inicial. Está definitivamente incluída no grupo das minhas escritoras favoritas.

 

ESTAÇÃO ONZE

Estação Onze - 1

 

As relações humanas antes e depois de uma pandemia apocalíptica. A arte como necessária à sobrevivência. Um tema ousado e bem desenvolvido. Escrita fluida e motivadora. O enredo anda para trás e para a frente, estabelecendo aos poucos uma teia de relações entre as personagens principais. Nada está ali por acaso, e não há facilitismos no enredo. Muito bom.

 

O HOTEL DE VIDRO

O Hotel de Vidro - 1

 

Uma história circular sobre várias pessoas envolvidas e/ou afectadas por um esquema Ponzi (inspirado no caso de Bernard Madoff). Um leque de personalidades que se cruzam, cada uma com as suas motivações e angústias. Os acasos que levam a mudanças radicais de vida, ou por vezes a tragédia. As fragilidades humanas. Uma escrita limpa mas cheia de subtilezas, que projecta imagens na nossa mente, sem ser vulgar nem cansativa. Muito bom.

 

MAR DA TRANQUILIDADE

Mar da Tranquilidade - 1

 

Excelente. Uma história tecida de viagens no tempo e interrogações: somos reais ou apenas uma simulação, num mundo virtual gerido por um software? E isso terá de facto alguma importância para nós? Se viajássemos no tempo, seríamos capazes de resistir a não o alterar? O enredo é-nos dado aos pedaços, que são sendo unidos pouco a pouco por uma linha condutora, e o fim consegue surpreender. Tem em comum com “Estação Onze” a ideia de errância, de história que é um patchwork, de inevitabilidade – a interligação entre as personagens explora a perspectiva de que nada acontece por acaso. Curiosamente, numa espécie de spin-off de “O Hotel de Vidro”, envolve algumas personagens secundárias deste livro. Contudo, o pano de fundo da história é completamente diferente, pese embora tudo gire sempre à volta dos sentimentos que nos tornam realmente humanos. Entre estes três livros da autora, é o meu preferido.

 

Encontro de Julho

Patrícia, 14.08.25

roda.jpeg

Juro-vos que podemos mapear os dias mais quentes do ano através dos encontros da Roda dos Livros mas nós somos resistentes ao calor e à preguiça dos dias quentes. E somo-lo porque estas tardes são uma forma de ser um bocadinho mais feliz. E quando somos poucos podemos falar todos de muitos livros, dos que gostámos mais e até daqueles de que não gostámos tanto.

Os livros fazem-nos felizes. Mesmo aqueles que nos fazem perder a fé na humanidade como A revolta do Homem Branco, de Susanne Kaiser, um dos livros que a Cristiana nos trouxe. E para balançar sugeriu-nos também o A morte de uma livreira, de Alice Slater; Desgraça, de J. M. Coetzee e Boulder, de Eva Baltasar e Como amar uma filha, de Hila Bloom.

A Sónia falou-nos das suas impressões sobre o Lobos, de Tânia Ganho; Intermezzo de Sally Rooney e Mrs March de Virginia Feito.

A Célia sugeriu-nos O Covil de Pompeia, de Elodie Harper e Alguém falou sobre nós, de Irene Vallejo mas também falou de Todas As Árvore morrem de pé, de Luísa Sobral, O peso da Culpa, de Hjorth e Rosenfeldt, Eu que não conheci os homens, de Jacqueline Harpman e das Aventuras de Tom Sawer e Huckleberry Finn, livros de Mark Twain.

A Ana CB levou-nos de viagem com o Regresso à Patagónia, de Paul Theroux e Bruce Chatwin. E a esta sugestão juntou outra, O Mar da Tranquilidade de Emily St. John Mandel, de quem também leu o Hotel de Vidro; Pequenas Grandes Mentiras de Liane Moriarti; de Volta a Casa, de Jeanine Cummins e Monstros, de Claire Dederer.

E eu trouxe para a discussão o Cadente, de Mário Rufino (autor que já nos fez, por várias vezes, companhia neste grupo de leitores) e Catarina e A beleza de Matar Fascistas de Tiago Rodrigues.

Boas férias e boas leituras

Apontamentos de leitura - I - “O Pacto da Água”, Abraham Verghese

Ana CB, 13.08.25

 

O PACTO DA ÁGUA

Abraham Verghese

O Pacto da Água

 

Histórias em volta de uma família, e suas ramificações, no sul da Índia (Kerala) entre o final da 1ª Guerra e o final dos anos 70.

Medicina (o autor é médico), arte, culinária, as castas e questões sociais, tradições – tudo se entrelaça para criar uma narrativa fluida e maravilhosa, cheia de sensibilidade e ao mesmo tempo crua, com personagens inesquecíveis e sempre muito humanas, mesmo quando têm um toque de irrealismo. Destinos terríveis, coincidências (ou não), redenção e muito amor.

Uma escrita belíssima, com reflexões e pormenores que me fizeram ter vontade de ir conhecer a região.

Um livro excepcional, incluído sem reticências na lista dos melhores livros que já li até hoje.