Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Roda Dos Livros

«Eliete» de Dulce Maria Cardoso :: Opinião

Entre cenas da vida normal, as fendas da maturidade e uma família destelhada

Efeitocris, 31.07.25

eliete.webp

A vida de Eliete decorre dentro da normalidade. Vive-se entre jantares, idas ao ginásio, mensagens trocadas com a filha e a mãe, e uma relação conjugal que se cumpre mais por hábito do que por afecto. No entanto, é nesta vida dita “normal” que Dulce Maria Cardoso faz emergir uma inquietação subtil, mas persistente — o ruído da privação. A privação de sentido, de escuta, de possibilidade. A Eliete não é uma mulher em colapso, mas alguém “a perder o pé à vida e a estar ancorada na dúvida”.

A família a que pertence é uma família destelhada, onde ainda sobram algumas telhas. E talvez seja isso a normalidade: viver sob uma estrutura que já teve mais força, mais abrigo, mas que continua de pé, colada por uma argamassa difícil de nomear. O que a mantém? O hábito, o dever, o medo da perda, ou apenas a falta de energia para reinventar tudo? A resposta ficará com cada leitor.

O livro é também sobre as ligações familiares como herança — e como prisão. Eliete vive rodeada de um passado povoado por mortes precoces, como a do pai, cuja ausência deixou um “amor filial sem destino”, uma dor sem pouso. A utilidade da morte, diz-se, é o sofrimento que deixa nos outros. E é isso que se impõe: os fiapos de memórias, colados por cheiros, fotografias, conversas repetidas, e que agora, com a doença da avó — guardiã maior dessa história —, parecem ameaçar desaparecer de vez.

Com uma escrita de precisão sensível e frases incisivas, Dulce Maria Cardoso evita qualquer dramatização. A protagonista move-se com dúvidas reais, inquietações que pertencem a qualquer pessoa — não são “dúvidas de mulher”, nem dramas íntimos exagerados. A autora dá corpo a uma personagem que questiona o papel que desempenha nos outros sem abdicar da procura de um espaço próprio. E, nesse movimento, toca questões fundamentais: como preservar os laços sem nos apagarmos? Como continuar a amar sem nos reduzirmos?

A falta de imaginação, o estar atracada à realidade, são formas de sobrevivência. Eliete não explode — resiste. E essa resistência ganha forma nas suas pequenas rebeliões: permitir-se apaixonar, por exemplo, é permitir-se a sonhar com um futuro, e isso, por si só, é um ato que desequilibra. Porque ao sonhar, Eliete desafia a previsibilidade do quotidiano, esse dia após dia onde tudo parece controlado mas nada é plenamente vivido.

O romance é um inventário de falhas, de silêncios e de tentativas. Mesmo que ela própria não quisesse fazê-lo, lá está “o dedo da mãe” para lembrar tudo o que ficou aquém. E talvez seja nesse entrelaçado de dores e tentativas que o livro mais nos toca — porque reconhecemos ali não só Eliete, mas muitos de nós, a tentarmos viver com as telhas que restam.

"Jantar Secreto" de Raphael Montes - Opinião

Entre a Crítica e o Espetáculo do Horror

Efeitocris, 29.07.25

montes-capa.webp

Raphael Montes, conhecido pelo seu estilo provocador e sombrio, leva-nos em Jantar Secreto a uma narrativa onde o grotesco, o absurdo e a crítica social se entrelaçam. O livro apresenta-se como um thriller macabro, centrado num grupo de jovens que, em (supostas) dificuldades financeiras, decide organizar jantares clandestinos para uma elite disposta a pagar fortunas por um prato incomum: carne humana. No entanto, o que poderia ser apenas uma trama de terror ganha uma camada extra ao roçar questões morais e sociais inquietantes.

A analogia com a exploração animal na indústria alimentícia é evidente: Montes subverte a lógica habitual e, ao inverter os papéis, obriga-nos a questionar a hipocrisia do consumo de carne e até que ponto estamos dispostos a ignorar o sofrimento dos animais quando dele retiramos algum tipo de benefício e prazer.

No entanto, e importa muito destacar, essa crítica, por mais pertinente que seja, corre o risco de ser obscurecida pelo próprio espetáculo de horror que o livro encena, fruto das descrições sordidamente requintadas. Conseguindo, mais uma vez, sublinhar a hipocrisia do consumo de carne animal: isenta de cheiro e imagens do sofrimento dos animais quando a vemos no prato!

As descrições viscerais, muitas vezes gore, não apenas chocam, mas podem também afastar leitores que se sintam desconfortáveis com esse tipo de narrativa. Mais do que provocar reflexão, o horror gráfico pode conduzir à dessensibilização, tornando-se num entretenimento mórbido e até desconexo, afastando uma maior tomada de consciência. Essa desconexão é muito dada pelo tom da narrativa: se, por um lado, há uma tentativa de denuncia social, por outro, a linguagem e a abordagem juvenil do grupo de protagonistas dá um ar quase banal a atos de extrema crueldade.

Outro ponto que ressoa na leitura é a capacidade humana de normalizar atrocidades quando há um ganho envolvido. Jantar Secreto não é apenas um livro sobre canibalismo, clandestinidade e redes de tráfico, mas sobre a frieza e a maldade que podem emergir quando a conveniência se sobrepõe à moralidade.

E é nesse ponto que o livro ainda se torna mais inquietante: não por nos apresentar o horror de forma crua, mas por nos fazer perceber que, em algumas instâncias, a realidade não é assim tão diferente da ficção. E é aceite! A maldade é aceite e justificada.

No final, Jantar Secreto deixa uma questão em aberto: o impacto emocional gerado pela leitura é suficiente para despertar consciência e mudar comportamentos ou trata-se apenas de um choque momentâneo, que se dissipa no ritmo do thriller?

Repensar a maternidade: entre o instinto, o abismo e o silêncio

Efeitocris, 25.07.25

Maternidades em contraluz, leitura comparada entre Boulder, de Eva Baltasar, e Como amar uma filha, de Hila Blum 

maternidade.jpg

As narrativas sobre a maternidade pedem hoje uma leitura crítica que reconheça a sua pluralidade de formas, vínculos e experiências. Não se trata de encontrar respostas, mas de abrir espaço para interrogações: o instinto maternal é mesmo natural? Ou é algo socialmente exigido às mulheres, independentemente do seu desejo ou circunstância?
É nessa zona de fricção que se encontram Boulder, de Eva Baltasar, e Como amar uma filha, de Hila Blum — dois romances que, a partir de vozes e geografias distintas, desconstruem ideias feitas sobre o que significa ser mãe.

Em Boulder, a maternidade surge como algo imposto, não desejado. A protagonista, envolvida numa relação com outra mulher, vê-se arrastada para uma parentalidade que não quer. O seu percurso revela o desconforto que nasce quando se espera que o instinto apareça “naturalmente” — só porque é mulher, só porque ama outra mulher. A linguagem de Baltasar é afiada, condensada, e traduz essa ambivalência: a protagonista tanto acolhe como repele, tanto ama como se ausenta. O livro não oferece reconciliação, mas um retrato cru da mulher que não se reconhece no papel que lhe é atribuído.

No extremo oposto, Como amar uma filha explora a história de Yoella, mãe que sempre quis sê-lo. No entanto, perde o vínculo com a filha, que corta o contacto e a deixa num silêncio irreparável. A partir desse vazio, a narrativa reconstrói a tentativa de “ter feito tudo certo” — proteger, cuidar, amar. Mas a ausência da voz da filha e o olhar obsessivo da mãe levantam uma pergunta difícil: quando é que amar se transforma em vigilância? E o instinto, por mais presente que esteja, basta?

Ambos os romances recusam a visão idealizada da maternidade. Mostram que ela pode ser desconforto, desencontro, cansaço ou excesso. E que o amor, mesmo quando existe, não garante pertença. Ao problematizarem o que é ser mãe — ou não querer sê-lo — Baltasar e Blum contribuem para pensar a maternidade como um território plural, cheio de zonas cinzentas. E isso, hoje, é mais necessário do que nunca.

*

Para ler mais sobre Boulder, clique aqui e sobre Como amar uma filha, aqui. Boas leituras.

«A Mãe e o Crocodilo» de José Gardeazabal :: Opinião

Efeitocris, 24.07.25

De vez em quando apetece revisitar um livro, mesmo daqueles já lidos há um ano ou mais e dedicar-lhes um texto. Hoje foi a vez deste. Já leram? Se não, espero que a minha review vos espicace o suficiente para o lerem.

Dizer que A Mãe e o Crocodilo é um romance é, no fundo, não dizer nada. Porque este livro não se deixa agarrar por categorias comuns, nem por palavras isentas de um sentido duplo. O que temos aqui é uma narrativa onde as palavras tremem, as personagens ao que parece só aprendem a andar para trás, e a realidade... bem, a realidade passa por nós a correr e nem sempre acena. Pior é não saber o que esperar do futuro, pois ele está cheio de sentimentos e saber que: “Há pessoas à espera do futuro para gritar.”

Os sentimentos são um lago. Está escrito. Um lago onde as pessoas se molham até ao pescoço. Mas o narrador está de fora — não sabe nadar. O leitor também não sabe, mas entra. Porque Gardeazabal não escreve para os que sabem nadar. Escreve para os que se vão afundando. Boia-se no absurdo, como quem flutua numa banheira de realidade reciclada e reciclar rima com ressuscitar e a ressurreição do mundo está na mão dos assalariados da fábrica de reciclagem. Os pobres. E os pobres estão sozinhos e precisam de ficção.

Estranho?

Ainda não, porque eu nem falei da mãe ou do crocodilo Benito.

Gardeazabal não escreve para o leitor comum — escreve para o leitor que aceita o desconcerto como ponto de partida. E esse desconcerto não é estético, nem gratuito: é estruturante. Nem que seja de um universo muito próprio, mas que está cheios de semelhanças com o do leitor. E o leitor somos todos nós!

A intriga é cheia de escamas. Grossas. Ancestrais. É com elas que nos desarma e nos impede de aplicar categorias confortáveis, ou ter certezas… um pouco como Vladimir, personagem-narrador quando diz: “Uma luzinha entra pela claraboia. Suspeito de um sol extraordinário do lado de fora. Não saio, para continuar em dúvida."

E não andamos nós, por aí, todos os dias, cheios de dúvidas? Cheios de ficção.

“O amor, para mim, é primeiro imaginação, e depois realidade. Para mim, amar uma mulher é ficção. Ficção e mentira são coisas diferentes, os pobres e os sozinhos precisam muito de ficção.”

A assinatura do autor, para quem já leu obras anteriores, é clara como um crocodilo num quintal: há sempre uma figura estranha a ocupar o lugar do óbvio. Benito, o crocodilo domesticado, aquece-se ao sol tendo nostalgia do que não viveu. O leitor olha, desconfiado, mas fica. Porque sabe — ou começa a saber — que ali, no coração da bizarria, está uma forma de verdade.

“O crocodilo aquece a barriga mole no calor do cimento, a pose de um velho forçado à experiência das trincheiras. No dia seguinte, o gato do vizinho desapareceu. Também se aquecia no cimento, ao lado do crocodilo, e Benito gostava do gato. Olhava-o, sem se mexer, como um avô a imaginar o fim de uma grande guerra.”

Porque na verdade a guerra está à porta, negá-la é não olhar com atenção às diferentes máscaras com que se apresenta, é negar os transparentes.

“Os mais velhos lembram-se, normalização quer dizer que vai morrer gente. Racionalização, que a matança será organizada. Comboios, horários secretos, construções no campo, cães pastores. Ao fundo, o fumo dos mortos. À chegada, a roupa dos nus amontoada em pirâmides frias.”

A narrativa de Gardeazabal não nos dá respostas, antes oferece o desequilíbrio do silêncio, da reflexão que se entranha pelas ideias bizarras que de tanto chamarem à nossa atenção ganham corpo. Ganham realidade.

“A vida depois da morte é parecida com a vida antes da morte, nós sabemos, vivemos aqui. (…) Um ano depois do fim da reciclagem (e já depois do fim da mina) as pessoas pareciam transparentes, de uma maneira má (…) a pobreza perdeu o seu romantismo, não há mais nada a perder.”

 

A Morte de uma Livreira, de Alice Slater :: Opinião

Efeitocris, 22.07.25

Este sábado que aí vem, em plena canícula do fim de Julho, é dia de andar à Roda e desta vez vou antecipar-me e postar a minha opinião para uma das sugestões que irá para a pilha. 

livreira - capa.jpg

“A Morte de uma Livreira” não é um thriller convencional. E ainda bem!

Começa com o típico prólogo enigmático, e segue com uma cadência deliberadamente lenta, onde a intensidade é servida quase em doses homeopáticas (e não esquecer que são quase 400 páginas). A narrativa instala-se no desconforto como atmosfera principal, com o foco na psique obsessiva que desafia expectativas sobre um thriller comum e empurra o leitor para territórios psicológicos mais sombrios, deixando antever um final que faz jus àquela máxima: "os maus voltam sempre!" 😉 A piscadela de olho chega entre referências literárias, reflexões livrescas e turnos na livraria que parecem aligeirar a obscuridade absorvente.

“A minha vida começou realmente quando desisti de tentar integrar-me, quando me instalei em mim própria, como um crocodilo que se afunda num pântano.”

E aí, no lodo, as personagens podem ser desagradáveis, fragmentadas e emocionalmente destruídas, sob tensão, mas desdobram-se num ambiente realista, ainda que com alguns exageros caricaturais. Prova disso é o esforço da autora em detalhar os seus dramas, hábitos, vidas sociais e, claro, o trabalho na livraria — que assume quase o papel de uma personagem. Para dar corpo à rotina numa livraria corporativa, reflexo da experiência pessoal da autora como livreira, ela cria um rol de personagens secundárias que vêm dar sentido e pano de fundo.  A única exceção talvez seja o turno da noite, que só faz sentido para o rumo narrativo que a autora quis seguir. Mas não vou ser picuinhas pois as tensões entre a equipa estão muito bem conseguidas nos diálogos e na frase do plástico bolha 😉 que espelha bem o nível de stress que um trabalho pode gerar.

A obsessão da Roach, num cansaço ósseo que a corrói, supera o simples entusiasmo pelos relatos do true crime: à medida que escala e se transforma em comportamentos extremos — stalking, invasão de privacidade, roubo de objetos pessoais (e mais não digo). Tudo isto motivado por uma ideia distorcida — sublinhe-se: distorcida — de uma “irmandade de sangue” entre ela e Laura, disfarçada, apagada e encerrada no seu trauma e solidão que tanto a abraçam como lhe pesam.

Roach ultrapassa todas as linhas do aceitável, sem qualquer empatia ou entendimento pela experiência das vítimas, que deveriam ser protegidas, e não exploradas. Ser vítima e viver com o trauma não faz de Laura uma normie.

Mas a estranheza de Roach faz dela uma snarky e, poderia o seu humor cortante e sarcástico — típico de uma livreira desencantada e subversiva — ter um tom ácido peculiar e inteligente que nos deixasse groupies mas a sua obsessão fá-la resvalar para uma caricatura assustadora de psicopata e o leitor entre em dilema moral.

“Foi um caso bastante mediático e... Detesto o facto de o meu trauma estar ligado a esta história horrível e de não poder falar de um sem falar do outro. Detesto que o nome dela fique para sempre associado ao homem que a matou e detesto que o mundo só se lembre dela como um capítulo da história da vida dele. Segue-se um longo silêncio e pergunto-me qual deles estará em pulgas para fazer a pergunta inevitável: Mas qual deles? Quem era o serial killer?”

O nível de obsessão desafia a empatia tradicional do leitor, que se vê perante uma personagem perturbada, socialmente desajustada, mas à qual a autora — notoriamente #teamroach — dá todo o espaço narrativo. Torna-a complexa, quase humana, e nunca a condena. No entanto, levanta diversos tópicos para reflexão nas entrelinhas das discussões livreiras. E talvez esse talvez seja um dos lados mais interessantes do livro.

Por trás da obsessão de Roach e da vida quotidiana da livraria esconde-se outro debate, mais estrutural, que ecoa temas anticarcerários e críticos do sistema #ACAB: que narrativas valorizamos, quem lucra com o consumo de tragédia e a quem damos voz nas livrarias? O true crime funciona como mercadoria, e as vítimas — como Laura e a mãe dela — são secundarizadas em favor de uma fascinação mórbida. Laura, em contraste, utiliza a poesia para restaurar humanidade às vítimas, heroicamente recusando-se a cair nesse culto ao criminoso.

Slater não levanta cartazes, mas deixa no ar uma pergunta difícil: será que o fascínio por violência não perpetua exatamente aquilo muitos querem contrariarontar — a exibição do sofrimento como entretenimento e a exploração dos que jamais escolhem ser protagonistas. Não podendo por isso fugir aos tópicos da cultura de cancelamento, a crítica ao consumo voyeurista do true crime e personificar isso em duas mulheres que simbolizam duas escolhas — exploração versus reparação — numa narrativa que convida a pensar além das páginas.

 

Lobos, de Tânia Ganho

Patrícia, 22.07.25

lobos.jpg 

Ler Tânia Ganho é sempre bom. E ler o livro certo na altura certa ainda é melhor.
Lobos agarrou-me nas primeiras páginas e, como vocês caros leitores bem sabem, é isso que procuramos leitura atrás de leitura.
Fiquei um pouco de pé atrás quando me apercebi que também neste livro a doença de Alzheimer ia ser um dos temas focados. Mas, como sempre, há um cuidado na forma como a autora aborda os temas mais sensíveis e aqui vai ao cerne da questão: esta é uma doença que tem um peso enorme em todos, doentes e familiares. Em Helena, o cansaço do cuidador é explícito, em Fedra o medo de ter em si as raízes desta cruel doença é paralisante. E fica um louvor para a forma como são abordadas as várias escolhas que os familiares têm que fazer e as possíveis abordagens à coisa. (tanto para dizer, mas não é o sítio nem a forma).
Três mulheres, Fedra, Helena, Leonor, todas em fuga da sua própria vida encontram-se neste livro para, mais ou menos juntas, recuperarem o controlo e se reinventarem. Também o mundo está em mudança, a viver tempos novos e extraordinários, em plena pandemia. Fedra mergulhou demasiado fundo na miséria humana e precisa de paz e tempo. Helena quase se auto destrói sob o peso das expectativas, suas e dos outros, Leonor, uma menina, descobre da pior forma como a maldade dos outros é capaz de nos destruir a vida.
Mas nem só de mulheres é feito este livro. Stefan é um antigo fotógrafo de guerra que troca o horror da guerra e das pessoas (como o compreendo neste ponto) pela solidão de um centro de recuperação de lobos. Bem, talvez deva dizer que é um centro de recuperação de pessoas, na verdade. E também ele anda à procura de redenção e do seu lugar no mundo.
E depois há os lobos e a forma realista (e maravilhosa) como Tânia Ganho os apresenta. Sem domesticação nem humanização.
Além da história ficam questões que nos fazem pensar e que vão ficando connosco. Eu, como sempre, fico sensível às questões da memória, da doença mental, da depressão, do stress pós-traumático, do medo, da ansiedade. Interessa-me aquilo que as pessoas são, a forma como reagem às situações, o que sentem, como se reinventam. E a autora é muito boa a pôr-nos a pensar.


Este será, certamente, um dos (meus) livros do ano. E foi a minha sugestão na roda dos livros de Junho.


Boas leituras.

Entre purpurinas e sangue: o corpo como espelho partido - leitura comparada entre Maus Hábitos, de Alana S. Portero e As Malditas, de Camila Sosa Villada

Efeitocris, 12.07.25

capas.jpg

Maus Hábitos, de Alana S. Portero, é uma autobiografia disfarçada de ficção, onde se entrelaçam memórias familiares dolorosas com marcas de exclusão social profundas, formando um retrato sombrio de uma época. A repressão da Madrid operária e mais suburbana, pano de fundo para uma juventude trans que cresce entre a violência doméstica e o desprezo público. A segregação do corpo que só encontra soltura nas calles onde se escondem, mas onde também se oferecem e resistem, as que ousam existir à margem.

Portero escreve com crueza sem esquecer o lirismo, mesmo quando descreve o dedo esticado que a catalogava de aberração, por vezes o mesmo dedo com que espalhava purpurina. Maus Hábitos revela a luta contra os outros, mas ainda mais a luta contra si mesma, onde o corpo é centro e ferida. Esse corpo “que não é um erro, mas também não é um milagre”.

Entre os ecos da infância e a prostituição noturna, há uma violência que se repete e um desejo que, mesmo sob ameaça, insiste em brilhar. Uma violência, no corpo, nos hábitos, nos abusos que liga ambos os livros.

As Malditas, de Camila Sosa Villada, parte de coordenadas semelhantes: abandono, marginalização, prostituição;  mas envereda por uma fábula furiosa e mística. Aqui, as travestis – as malditas -  organizam-se tal matilha esfomeada, criam códigos próprios e até fazem justiça com as próprias mãos.

Maus Hábitos esmiúça os escombros íntimos até à verdade dolorosa, As Malditas inventa um universo mágico onde se pode sobreviver sem pedir desculpa. Ambos existem mais na noite, no salto incrivelmente alto de acrílico transparente que é a metáfora perfeita para o equilíbrio periclitante que ambas vivem. Ou sobrevivem.

A vida noturna, nos dois livros, é o último reduto possível. Um lugar onde podem existir, brilhar, fugir ao escrutínio e ao escárnio do dia, aos olhares que as rejeitam e as denunciam como aberrações. Mas a noite é também uma arena onde se repete a violência — “a sombra de não saber qual é verdadeiramente o inimigo”. A casa ou a rua? O pai ou o cliente? A dor ou o desejo? O corpo que pulsa ou o futuro? A noite é o replicar da violência que acompanha os corpos. Define-os!

O travestismo, longe de ser só performance, é armadura, é ritual que as prepara para uma realidade palpável e procurada. Desejada. Uma segunda pele. Mas a pele vai somando idade e estas mulheres não querem apenas sobreviver — querem verdadeiramente existir. Querem brilhar. Na sua transição são diamantes em bruto. E querem brilhar.

Lê-las é espalhar esse brilho. Fica a sugestão. Boas leituras

Encontro de Junho

Patrícia, 11.07.25

20250628_163812.jpg

 

Apenas o amor aos livros e a certeza de que estes encontros são uma espécie de terapia faz com que cinco alminhas enfrentem a canícula para se reunir numa biblioteca e falar de livros e leituras. As férias diminuem a participação mas a Roda dos Livros voltou a reunir em Junho para partilhar livros e leituras, entre gargalhadas e outros assuntos, mais pessoais ou actuais, ou não fosse este grupo também um grupo de amigos. Mas vamos aos livros que é para isso que aqui estamos.

A Renata , que na última roda já tinha começado a ler o Transgressões, de Louise Kennedy (e eu, que confio demasiado na memória e não devia porque...bem, a idade é um estado de espírito e eu há muito que digo que, assim sendo, estou nos oitentas) desta vez sugeriu-o mesmo! 

A Tânia Ganho é uma das escritoras (e tradutoras) mais queridas aqui na roda e os seus livros são sempre lidos e sugeridos por muitas de nós. Ainda não nos esquecemos do Apneia e é com um aperto no coração que falamos dele.  Há livros assim, que nos deixam uma impressão duradoura. Desta vez é o seu mais recente livro, Lobos, que eu (Patrícia) e a Renata lemos e deixamos como sugestão.

A Sónia C. entre os muitos livros que leu destaca o Maus Hábitos, de  Alana Portero mas falou-nos também de livros que geram divisão (e é por isso que o mundo não tomba) no nosso grupo seja pelo tema como no Um amor, de Sara Mesa, ou pelo título, como o Catarina e a beleza de matar fascistas, de Tiago Rodrigues. 

Já todos comprámos livros pelo título mas será que já deixámos de o fazer pelo mesmo motivo? Um título provocador atrai ou afasta leitores?

A Sofia é uma admiradora confessa dos livros do booker prize e a pessoa que conheço que mais livros destas listas leu. (vencedores, short ou long list). Desta vez uma das suas sugestão foi o The Fisherman, de Chigozie Obioma, na shortlist de 2015 e a outra foi Os meus amigos, de Hisham Matar, que (injustamente, na opinão de alguns) não passou à short list de 2024. Falou-nos também de Lingo, de Gaston Dorren, um livro sobre as várias línguas europeias. 

E por falar em livros destacados do booker prize, a Sónia M. pôs na pilha das sugestões o James, de Percival Everett, que esteve na shortlist de 2024 mas também nos falou do De Volta A Casa, de Jeanine Cummins e de alguns livros de Liane Moriarty, como o O segredo do meu marido e o Pequenas grandes mentiras.

Já eu, juntamente com o Lobos, também trouxe o maravilhoso Frankie e o Casamento de Carson McCullers.