Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Roda Dos Livros

Encontro de Outubro

Roda Dos Livros, 28.10.24

E tão bom que ele foi.

Bom mesmo! Tão bom que ninguém deu pelo tempo passar e nem precisou se distrair com fotografias 😉 E foi tão verdade que a hora de reunir a pilha apanhou-nos de surpresa e é mesmo a única foto de mais encontro à Roda dos Livros. E é pena, senão iam ver as nossas bonitas canecas, os chás, as bolachas e todas essas gulodices que marcam - definitivamente - a entrada no Outono. 🍂🍁 😉

Portanto, decididos os sabores do chás e os lugares de cada uma (há sempre umas mais encaloradas e uma certa brisa para quem gosta do ruído lá fora) e recebida uma convidada, a Sónia, foi tempo de começar a partilhar. Partilhar as não-recomendações, entenda-se. É que os «não gosto» e os "acabados na força da raiva" (Obrigada, Elisa! Adorei a expressão) andam a ganhar terreno. É que isto de insistir e dar hipóteses para ver se a história vira ou "terminei só para poder falar mal" tem ganho adeptas e podíamos até compor um baralho ou fazer um jogo de dardos. E que risota ia ser!

Sendo assim, saltando a pilha inexistente - mas já estivemos mais longe de fazer uma pilha também para as não-recomendações (sem nomear e depois vocês que adivinhem) - vamos à pilha que interessa, embora saibamos que isto das recomendações tem muito que se lhe diga, pois na Roda vamos rápido do amor ao ódio. Se há uma que diz que adorou é bem capaz de existirem logo duas a abanar a cabeça e a atropelarem-se entre factos e argumentos para reclamar: "como é que és capaz?"

Verdade, verdadinha, nós gostamos mesmo é de uma discussão mais acesa e de falar de livros, todos os livros e todos os temas que vão dar aos livros e que dos livros saem, por isso, aqui fica a pilha de sugestões deste mês.

 

A convidada, a Sónia, trouxe «O da Joana» de Valério Romão, um autor que há muito que não estava em destaque, mas é bem capaz de voltar a estar com esta redescoberta da série «Paternidades falhadas». Recomendou também "As Malditas" (que a Vera também aprovou).

A Elisa regressou e com ela veio «Caderno de memórias coloniais» e uma das suas favoritas, Irene Némirovsky, desta vez com «O vinho da solidão».

A Vera esteve de recomendadora de serviço (quem manda faltar) e encheu-nos o colo de sugestões, são elas: "Caviar com sardinhas", "Salvo o meu coração tudo está bem", "A Forasteira" e ainda "A guardiã" (mas menos recomendada). Dos autores de cá do nosso cantinho, salientou o mais recente trabalho de David Machado e Possidónio Cachapa. Ainda assim, a sua sugestão recaiu em "O livro das despedidas" de Velbor Colic, um nome até agora desconhecido.

A Delgado trouxe duas sugestões de peso, embora por razões totalmente díspares, um pela crueza da escrita e a brutalidade do tema, "A zona interdita" de Mary Borden e o outro por ser de uma autora acarinhada na Roda, a caríssima Du Murier que com "O outro eu" arrebatou completamente a atenção da Delgado que se atrasou nos últimos dias por estar agarrada aquela dupla identidade. ;)

Em transcendências também andou a Renata com a escrita de Yaa Gyasi e até estabeleceu algumas comparações entre o livro e os tempos actuais com a leitura de algumas passagens.

Com outras passagens andou entretida a Isa revendo partes de um futuro possível nas palavras de Kjersti Annesdatter Skomsvold com o seu "Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou", ainda assim escolheu «A cor do hibisco» de Chimamanda Ngozi Adichie que reúne o consenso das Rodistas.

A Cristiana (eu!) acabei - como bem disse a Elisa - "na força da raiva" «As Herdeiras» de Aixia de La Cruz e recomendo a leitura só para debatermos umas ideias sobre um par de coisas, porque a sugestão mesmo é o novo livro d'A Biblioterapeuta «Ler para viver» que ainda deu lugar a algum debate ou não fosse a farmácia literária de cada um ser melhor que a do vizinho 😉

E como tem de existir sempre um e-coiso, coube à Patrícia recomendar «As três mortes de Lucas Andrade», livro que anda a dar que falar nas últimas rodas. Também na força da raiva a Patrícia terminou «O outro vale» e não há muito mais a dizer.

E sabem que mais, o final do ano está quase aí à porta e não tarda temos a sala inundada de bolos!

 

«A Malnascida» de Beatrice Salvioni - Opinião

Roda Dos Livros, 08.10.24

O livro «A Malnascida» de Beatrice Salvioni relata “uma daquelas histórias passadas de boca em boca entre as mães que descansam à sombra, tagarelando ao ritmo do abanar dos leques. Uma daquelas histórias que se alimentam de palavras emprestadas, sussurradas às escondidas.”

Pronunciar o nome de Maddalena, A Malnascida era pior que revistar os escrínios alheios. Pronunciar o seu nome era chamar a má sorte. A pequena era pior que feitiço ou mau olhado, olhá-la era pedir para sentir o hálito quente da morte. Nas suas brincadeiras junto ao rio, entre rapazes, trazia o diabo no corpo, entranhado na sujidade que a caracterizava, mas isso não era motivo para Francesca a repudiar, antes pelo contrário. Nem que fosse por desafio à mãe e vontade de pertencer a algo mais que laçarotes e rendas imaculadas de ir à igreja.

“Esbarrar uns nos outros e dar murros, esfregar os joelhos no fundo limoso e sentir a lama negra que se enfiava entre os dedos e se colava os cabelos fez de mim um ser de carne. Era feita de pele e sangue, nódoas negras e ossos. E ângulos e gritos. Estava viva. Com os Malnascidos, podia dizer pela primeira vez “Estou aqui», sentindo todo o peso dessa afirmação.”

Se a base deste romance é o crescimento de cada uma delas e desta amizade, o pano de fundo é uma Itália à beira da guerra com a Etiópia e Mussolini e ecoar em todas as rádios. Os homens a partilhem para a guerra e as mães destas duas meninas com preocupações muito opostas, personificando mais do que as classes sociais que representam, elas revelam os papéis da mulher nas suas mais variadas interpretações quando educam, seja por dedicação e proximidade, seja por alheamento e opressão.

A Itália está cheia de fendas e as famílias também. Cheias de arestas e cicatrizes. Embora a agenda política do fascismo e a das manifestações anti-italianidade sejam importantes neste romance, eu preferi a familiaridade das casas, da frutaria, a praça e o rio ou o cheiro dos guisados e do lodo… É esse lado, quase de intimidade a cada cena que mais me cativou neste livro.

“- Não devias tê-la feito descer connosco ao Lambro. Não devias. (…)

- Eu Não queria - justificou-se. - Foi ele, eu não queria.

- Vão magoar-se. Talvez caiam e os ossos vos saiam pelos joelhos. Ou talvez os ratos do rio vos comam os dedos dos pés. Ou saltem o portão e os picos de ferro vos entrem na barriga.

Avançou para Matteo. Ele recuava.

- É só uma mulherzita? (…)

- És um miúdo invejoso - disse Madalena, continuando a aproximar-se.

Ele desviou-se. Foi então que lançou um grito. Um grito agudíssimo, horripilante. Caiu, enroscou-se, com as mãos à volta de uma perna e revirando-se no meio da terra com os gansos a grasnarem alto à roda dele. Tinha um prego espetado na planta do pé, o Sangue salpicava tudo.”

É um relato rico e bem estruturado, que não esquece ninguém. Homens, mulheres e crianças; o país e a família, a igreja e a educação estão estereotipados, mas amplamente representados e isso conquista desde cedo o leitor, pois nunca conseguimos ficar indiferentes. E ainda que focado nas mulheres, os rapazes desempenham um papel crucial, são as interações com eles que moldam a dinâmica social do grupo.

É um livro feito de gestos, gritos, toques desajeitados, mas carinhosos; discussões, conselhos, maternidade e matrimónio, poder e opressão, desobediência e coragem, violência e amizade. É um grito pela aceitação e a fragilidade feita força, mas eu nunca fui capaz de deixar de o comparar à famosa tetralogia de Elena Ferrante, mesmo não tendo ficado fã nem avançado além do segundo livro.

10 miúdas e dois cães

Roda Dos Livros, 07.10.24

O tempo é relativo e foi numa tarde de Outubro que se deu o encontro de... Setembro. A verdade é que o formalismo não é uma característica nossa o que, aliás, se vê nos posts que não publicamos neste blog, pelo que fazer um encontro de Setembro em Outubro é absolutamente aceitável. O que nos falta em formalismo e perseverança na escrita de posts, sobra-nos na vontade de ler e o tempo reservado para os encontros mensais parece sempre pouco para o entusiasmo com que partilhamos leituras. Claro que os primeiros minutos do encontro são sempre reservados à nobre arte do "pôr a conversa em dia", fundamental num grupo que já se conhece há muito. Para além dos livros, também nos une o amor pelos animais e a Dona Aveia e o Nero são mais que membros honorários deste grupo, são membros de pleno direito, tenho a certeza que, à sua maneira, são tão amantes de literatura como qualquer uma de nós.

Os primeiros livros que a Sofia nos trouxe foram o Eve, How the female body drove 200 million years of human evolution, de Cat Bohannon e o Matrescence, da Lucy James, que marcaram o ritmo de uma roda onde a mulher foi um tema transversal, com o Útero, da Leah Hazard, o Os rostos, de Tove Ditlevsen (sugestão da Cristiana), Histórias de Mulheres casadas, de Cristina Campos, as Serviçais, de Kathryn Stockett (trazidos pela Isa) ou o A mulher-casa de Tânia Ganho (Patrícia) que voltou a estar numa pilha de sugestões.

Quando alguém diz que leu o livro do mês, do ano, quiçá da vida toda a gente arrebita a orelha. Desta vez coube ao maravilhoso Os miseráveis, de Victor Hugo a distinção e toda a gente concordou com a Célia, que também nos falou de outros livros, como o Atos humanos, de Han Kang ( o que nos levou a uma discussão sobre tradução e revisão), O meu pai voava, de Tânia Ganho (ou como por vezes encontramos os nossos sentimentos escritos por outras mãos) e o O caderno de memórias coloniais, da Isabela Figueiredo. E aproveitou para sugerir a todos o Apologia do Ócio, de Robert Louis Stevenson.

A Márcia trouxe-nos YOGA, de Emmanuel Carrère, uma oportunidade para reflectir sobre saúde mental, a crise dos refugiados ou, por exemplo, suícidio. Ainda leu Friends, Lovers, and the Big terrible Thing, a Biografia De Matthew Perry, que tem sido lida e elogiada por várias pessoas deste grupo.

A Sónia elegeu o A Educação dos Gafanhotos, de David Machado, como sugestão mas trouxe também os livros de Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer e As melhoras da Morte que, à boa maneira deste grupo, deslizaram pela mesa para rodar para outra leitora que os quer ler nos próximos tempos.

A Renata anda em releituras de uma das grandes séries de Fantasia dos últimos tempos (afinal o próximo volume do Stormlight Archives sairá no original ainda este ano) mas teve tempo para se deliciar com o Planície, de Jhumpa Lahiri, livro que há muito estava na sua lista de desejos e falar um pouco de O Messias de Duna, de Frank Herbert, a sua leitura actual. Tenho para mim que despertou curiosidades.

A Ana CB dedicou-se às séries policiais este mês com o Ponto Zero e Cortina de Fumo, da dupla Jørn Lier Horst e Thomas Enger e A Consequência, de Yrsa Sigurdardóttire, o livro que está na pilha para representar a série DNA, a sugestão desta leitura. Mas nas leituras da Ana, ainda constam O Vício dos livros de Afonso Cruz e A Guardiã de Yael Van Der Wouden.

As sagas familiares também estiveram em destaque neste sábado com o Do not say we have nothing, de Madeleine Thien (Sofia) e O Pacto da Água, de Abraham Verghese (Patrícia).

Por aqui não partilhamos só livros mas amigos e foi por isso que a Raquel nos fez companhia nesta tarde. A sua primeira sugestão na Roda dos livros foi o Os vencedores, de Fredrik Backman. Na verdade ela quis mesmo sugerir toda a série que culmina neste livro.

A Isa, enquanto nos falava das suas leituras que incluem os A rede Púrpura e Nina de Carmen Mola, Um Animal Selvagem de Joel Dicker e A livraria da Colina, de Alba Donati é a autora da frase do dia. Sobre um livro que não consigo nomear disse, com muita graça, ser "genial ou idiota". Quem nunca se deparou com um livro desses só pode andar a ler pouco, ali, naquela mesa toda a gente se identificou.

Cruzámos livros com livros (A mal Nascida, de Batrice Salviori (Cris) com o Amiga Genial, de Elena Ferrante) e livros com filmes (Os rostos com Camille Claudel, interpretado pela Binoche). Fizemos apostas para o nobel que está quase a ser anunciado e algumas de nós concordámos que a grande probabilidade é ser nomeado alguém de quem nunca ouvimos falar. E que gostávamos que um/a escritor/a de fantasia ou novela gráfica ganhasse mas que isso não vai acontecer.

Boas leituras, voltamos daqui a pouco.