(de)Roda dos chás


O encontro de novembro foi aromatizado de gengibre e laranja, urtiga e funcho e camomila, talvez por isso esta mancheia de rodistas reuniu de forma calma e ordeira, sem esquecer as gargalhadas comuns e uma ou outra piadola que balança qualquer tom sério. Mesmo com um arranque marcado por livros cujos enredos envolvem famílias disfuncionais e até violentas, não obstante a fantasia e o amor que os une.

Foi tão doce o sossego no qual a nossa conversa decorreu que embalou a Dona Aveia grande parte do tempo. Aposto que sonhava com livros de receitas de biscoitos e roteiros de passeios pelo campo. Levantou-se para se mostrar na arte do espreguiçanço e claro está, pedir festas! De seguida, compôs melhor o seu palácio de mantas fofas e quentes e dormiu, embalada pelas nossas sugestões.

A Ana Marques vinha surpreendida pela vida familiar disfuncional narrada por Jeannette Walls em O Castelo de Vidro pela fuga aos moldes da sociedade e o desejo de quebrar todas as regras de alguns progenitores, o que conduziu inevitavelmente a conversa para o filme O Capitão Fantástico ou outro livro, Uma Educação. Tudo enredos que expõem ideias de educações alternativas e de como isso a certa parte choca de frente com a norma, as regras, as leis da dita sociedade ocidental e capitalista.
Com o que a Ana chocou também foi com as expectativas com Jon Fosse, o último prémio Nobel e logo num registo que tanto aprecia, a escrita para teatro, considerando que dificilmente volta ao autor. E como é hábito, sempre que se fala em gerir expectativas a conversa diverge e desta vez Taylor Jenkins Reid foi o alvo. A Célia e a Ana têm lido o que foi publicado da autor após o aclamado Daisy Jones e pelos vistos não está a correr tão bem. O que nos leva a uma questão repetida: quando as editoras publicam obras anteriores (e menores!) a uma que foi um grande sucesso, não arriscam a perder leitores?
Entre serem lamechas, pirosos ou entediantes, os adjectivos vão sendo vários para caracterizar alguns livros nas carreiras de determinados autores e nas recomendações do Jorge, que recaíram em Arturo Perez-Reverte, aconteceu o mesmo. Perante a leitura de Sidi, enfadonha e repetitiva, felizmente há para contrabalançar o Italiano que, esse sim, foi uma leitura envolvente e muito capaz na perícia do autor em investigar e criar um ambiente de guerra recheado de detalhes verídicos e ainda assim alinhá-los muito bem com uma ficção cativante.
Cativantes foram as leituras da Renata que com as suas descrições entusiastas colocou os restante rodistas interessados em Kindred de Octavia E. Butler, seja pelo enlace fantástico seja pelo enredo que nos pareceu deveras genuíno na forma de abordar temas tão na ordem do dia. Outra das suas sugestões foi Redenção de Richard Wagamese e é curioso como a linha que cose estas duas leituras é a da salvação e a das relações humanas, embora as situe em planos distintos.
É realmente a Renata a ser ela mesma e trazer-nos sempre novidades a todos os níveis e não ficou por aí, pois ainda nos brindou com o universo de Stanislaw Lem, recordando A voz do Dono, já apresentado em outra Roda, como nos falou da sua leitura actual, Memórias encontradas numa banheira e da mestria do autor para fugir à denúncia óbvia (totalmente a evitar em épocas de escuridão totalitária) usando do humor e da criatividade em pequenas pérolas literárias.
A Célia trouxe para cima da mesa as longuíssimas séries, algumas que a acompanham por anos e anos, como a da sua sugestão de mangá, One Piece ou a já reincidente Outlander. E ficamos a degustar ideias (e motivos) para acompanharmos personagens e enredos anos a fio, numa familiaridade que é um aconchego. Claro está que nesta conversa era inevitável falar de séries, autênticas sagas que já mesmo que não as acompanhemos somos bem capazes de as ficar a ver só a título de fofoca para ver quem anda com quem. Falamos da Anatomia de Grey e outras primas, e então? 😏 ou de séries com imensas temporadas das quais até já lemos os livros 🤷♀️

Lá fora a noite já tinha invadido a tarde, mas trouxe-nos a Ana Borges e as sugestões continuaram com a Cris a recordar a brilhante, embora escura e de temática difícil, narrativa de Margaret Atwood em A história de uma serva, especialmente por estarmos a reunir no dia 25 de Novembro, data na qual se celebra a Luta pela erradicação da violência contra as mulheres. Luta essa que tem tocado muitas das nossas escolhas, sejam elas mais ou menos literárias (sim, sim, também falámos d'A Criada), pois o que importa é que a mensagem passe e se gerem oportunidades de sensibilização e de discussão. Também por isso, a outra sugestão recai sobre O Sexo das Mulheres, um registo fragmentado e caótico, mas incisivo de Anne Akrich que merece ser alvo de mais leituras.
Por falar em livros fragmentados, caóticos e de pendor sexual, a sugestão da Cristina Matos não podia encaixar melhor. O escuro que te ilumina de José Riço Direitinho voltou a surgir na Roda e em boa hora, tanto por ser um livro que divide opiniões, como ser outro que vem quebrar um género de escrita (e enredos) a que os autores nos habituam e que depois nos faz adorar - ou detestar - uma obra que se afasta desse registo de que tanto gostámos.
A dividir opiniões também estão os livros de Carla Madeira, seja pelo enredo ou pelo jeitinho da sua escrita, levando à eterna questão: conteúdo ou forma? O que mais nos conquista?
Dentro dessa temática do conteúdo, chega-nos outra novidade a do conteúdo não-purgado do Diário de Anne Frank e no quanto isso pode ou não alterar a experiência e a percepção que nos fica da leitura, mesmo quando se tratam de livros lidos há 20 ou 30 anos. Pois é, já vamos todos tendo idade para ter lido certos livros há 30 anos. Alguns de nós até mais. Que privilégio é poder ouvir essas partilhas.
Outra sugestão da Isaura é o relato de Trevor Noah em audiolivro, onde o autor narra a sua própria história, Eu sou um crime, livro que integra constantemente a nossa pilha de sugestões. Mas também poderia colocar Amor estragado de Ana Bárbara Pedrosa ou Não contes a ninguém de Gregg Olsen, cujas narrativas têm situações de violência que espelham arrepiantemente a realidade. Um detalhe curioso que a Isaura acrescentou é que a mãe deste Não contes a ninguém, faz a mãe de O Castelo de vidro parecer uma boa mãe.
Continuando no registo de policial e de suspense, foi a vez da Ana Borges dar as suas contribuições por andar perdida entre fiordes e outras geografias nórdicas, desta vez regressando à série de Yrsa Sigurdardottir que adoçou com o último livro de Sarah Addison Allen, Outros Pássaros. Destaca ainda. Jardim Encantado. e diz-nos que tapemos as capas com uma boa vestimenta e nos deixemos envolver com personagens cativantes e enredos bem engendrados que esta autora consegue ter.
Por fim, fica a sugestão de um miminho clássico para darmos importância à beleza das pequenas coisas e à simplicidade que devemos trazer para dentro das nossas vidas, por isso a sugestão da Borges é o O Tao do Pooh e o Tau da Sabedoria.
