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Roda Dos Livros

Afinal quando é que termina o Verão?

Roda Dos Livros, 23.09.23

Já estamos naquela época em que só queremos as malhas, as bolachas com compota caseira, as peúgas galhofeiras e as feiras com castanhas. Certo? Certo!

E assim, falando sobre o tempo, abrimos mais uma Roda como quem abre um frasco de compota. Alegres, entusiasmadas e com a conversa atrasada, a ganhar tons e texturas exóticas e adocicadas, que até deu para começar a compor um dicionário urbano (só não nos peçam as entradas), enquanto tricotávamos ideias e gargalhadas.

E ouvíamos especialistas em odores e sabores.

Mas sabemos que ele tem tias favoritas e há segredos que só partilha com algumas delas.

Mais sossegadas das emoções iniciais, trocas e baldrocas, acertos de linhas e cores e lá demos início aos trabalhos, clarificando definições e afinando as letras correctas para que as entradas do tal dicionário urbano batessem certas e esta será a única que constará neste registo para que não se firam suscetibilidades. A culpa toda foi da Palmeira, junto com as linhas e os frascos, trouxe um livro até então desconhecido, Guncle - As Regras do Tio de Steven Rowley. Ao anotar Gunkle, a Cris, auto-denominada escriba de serviço (Eu!), é uma pessoa a quem por vezes falha o inglês e escreveu tio com K e quando foi ao dicionário moderno, vulgo google, saber a definição de gunkle ficou boquiaberta com tais definições que nada convinham ao tio do livro, pessoa cujo o encargo eram duas crianças e um cão. E logo um cão!

Foi uma tarde atarefada entre livros e definições, carpetes e métodos de lavagem das mesmas com a língua e estratégias para se conseguir certos afazeres com a mão esquerda. Afazeres tão sérios como a escrita, pois claro. Ou o tapar das raízes brancas. E escrevendo lá conseguimos o tom sério para acertar nas sugestões.

Por isso, temos de vos dizer que, se na Roda anterior a Márcia estava encantada com a escrita e a obscuridade dos cenários de Emmanuel Carrére, nesta, a Ana Marques não parece muito convencida e pergunta se justifica avançar. No entanto, estão ambas em sintonia com o deslumbramento pela escrita de Deborah Levy. Como está em sintonia quem lê Sou um crime de Trevor Noah. Desta vez foi a Márcia.

A propósito de sintonia, também os títulos de uns nos fazem lembrar de outros e perante a sugestão da Sofia de um novo livro de Rebecca Solnit, de quem apreciámos muito As coisas que os homens me explicam e Esta distante Proximidade e deixamos também como sugestão.

Existem sugestões que nem sabemos bem de onde nos chegam mas que nos arrebatam e tem sido assim com quem lê A Menina Invisível e a traz novamente à Roda, destacando a escrita e a mestria do enredo. Desta vez foi a Patrícia. Porém e contrariando a maioria, já não recomendou assim tanto, Dor Fantasma e o mesmo se passa com as novidades csi'zescas de Javier Cercas que com a trilogia do inspector que só lia os Miseráveis, especialmente a sequela, não está a arrecadar elogios. A Ana Borges e a Vera discordam e gostam desta reviravolta que o autor deu à sua carreira. A Cris só leu o primeiro e também gostou.

Falando em espanhóis que não desiludem, Javier Marias está bem cotado com os seus fantasmas, delírios e mulheres em ambientes de verão (e não só) em Não mais amores. E como os livros são como as cerejas, entretanto já a conversa ia nos contos da Atwood e em outros livros escritos por mulheres, como os de Jokha Alharthi e de Sasha Marianna Salzmann, destacando-se No Ser Humano Tudo Tem de Ser Belo e claro, Rapariga, Mulher, Outra de Bernadine Evaristo.

E não sei se foi neste seguimento que anotei uma frase de Steinbeck "Estar vivo a sério é ter cicatrizes", mas estava nos apontamentos e os apontamentos, ou melhor, os papeizinhos onde tomo notas são coisas esquivas que se perdem entre outras tão ou mais esquivas que me dão muito trabalho a encontrar, por isso, acho que ninguém leu Steinbeck para este encontro, mas fica bonito citar um clássico.

Por falar em clássicos mais que uma Rodista anda na saga dos nomes nos épicos russos, desta vez com Guerra & Paz, tanto a Célia como a Sofia referiram essa trabalheira, mas que em tudo compensa pela obra em si.

E só para terminar, quando é um clássico é um clássico? Por já o termos lido há 30 anos, como é o caso de A Lua de Joana ou por ser um autor de quem lemos tanta coisa e que constantemente nos acompanha há anos e anos? Seja ele McEwan, Agualusa, Atwood, Marias ou Pessoa...