Encontro de Junho


No passado sábado, contrariando as tendências de fuga ao calor, lá foram as Rodistas, munidas de leques, ventoinhas, roupita leve, pé descalço e alguns livros 😜🤓 para reunir em mais um encontro de celebração. Que celebrámos? O do costume. A risada, a amizade, a galhofa e neste encontro, a chegada do calor, embora na biblioteca estivesse o fresco bom das tocas 👌
Por isso, as altas temperaturas que lá fora desanimaram qualquer leitor-fã de parques, jardins e locais estivais não nos impediram de muito conversar, animadamente como de costume, e recomendar livro atrás de livro. Apesar de os livros, aqueles em papel, com lombada e palpáveis, estarem a escassear, coisa que preocupa a pessoa atrás da redacção deste post, que muito aprecia a bonita foto de uma bem abastada pilha de livros. Livros físicos, em papel, daqueles com corpo e alma como nos diz Will Schwalbe em Os livros do final da tua vida.
“Uma das muitas coisas que adoro em relação a livros encadernados é a sua pura existência física. Os livros eletrónicos vivem longe da vista e do coração, mas os livros impressos possuem corporeidade, presença. (…) Muitas vezes procuro livros eletrónicos, mas eles nunca vêm atrás de mim. Fazem-me sentir, mas não os consigo sentir a eles. São almas sem carne, sem textura, sem peso.”
A verdade é que os livros em forma de máquina vêm aí, aliás, já cá estão e têm cada vez mais adeptos e isso é conversa recorrente nas nossas reuniões. Já restam poucos, os que ainda não se converteram 🙄 por isso a 📚 tem cada vez mais este aspecto. E obriga-me a perguntar: máquinas inteligentes não deviam amparar-se sozinhas?

Mas não, ficam ali a amparar-se às esquinas do livros, amputando-os das arestas que os caracterizam e que tacteamos, em busca delas na mala e nos sossegam, por sabermos que em qualquer momento de pausa, lá estará o livro para nos fazer companhia. Claro, a máquina-livro, vulgo dispositivo de leitura, também. Se tiver pilha 🤫
Não liguem, o tom deste texto é obra do calor, é que na minha toca está abafado. Mas até nisso, o livro me serve de leque. Ora tentem lá fazer do e-coiso um abanico 😈 (aguardo os comentários, servidos nas brasas, a estas partes do texto deste encontro).
E sem mais demoras, aqui ficam as sugestões. Resumidamente, claro.
Neste mês, muito as leitoras cirandaram a dor, o luto, a violência, o sofrimento e a fragmentação, mas sem esquecer de encontrar a frincha por onde passa a luz. Falamos é claro de «Um cão no meio do caminho», mas poderíamos referir-nos a «Olhando o sofrimento dos outros» ou até mesmo a «Dor fantasma» ou à road trip como metáfora das fases de luto que encontramos em «Filho da mãe» ou do lado psicológico da violência de que sentimos falta em «Leme», mas encontrámos em «Amor estragado».
Existe uma ligação entre as temáticas dos livros, os seus enredos, tanta que por vezes parece que os protagonistas dialogam e se superam na narrativa seguinte. Buscamos temas difíceis, mas esperamos encontrar redenção e um escolha por outro caminho com a coragem de superar convenções. Mesmo que essa coragem seja um relato de sangue e sofrimento, como o tão recomendado «O pintor de batalhas» ou ainda outros títulos que chegámos à conclusão que se tornam melhores ainda por, no final, nos obrigarem a reler o princípio, como que redescobrindo e resignificando o que acabámos de ler.
Falámos de outros títulos que também se cruzam, embora usando formas diferentes de passar a mensagem, é o caso de «A criada» e «Limpa»; «O quarto do bebé» e «Uma Mulher com Cancro, um Psicólogo e uma Virgem Entram num Death Café» e ainda «A cura da Cicuta» e «A devoradora de pecados», onde a reinvenção e a identidade exigem outro caminho, podendo a escrita ser um desses trilhos sinuosos que traz até ao leitor as entranhas de todo o sofrimento e é aí que as opiniões dividem os leitores.
O leitor ganhar (ou não!) ligação, sensibilidade e empatia para o tema depende muito da forma como o texto nos chega e inevitavelmente regressámos a títulos como os de Paulina Chiziane ou outros que têm andado nas mãos dos Rodistas, como é o caso de «As primas», «Quem sabe», «Leme» ou o próprio «Malaquias», hoje sugestão, mas que não arrecada consenso, como outro bastante badalado, «Subitamente, sós."
Resta dizer que um leitor nunca está só nos seus ódios, sejam eles a determinada escrita, enredo ou uma personagem em particular.
E fica por esclarecer, que já não me lembro como ocorreu, mas em algum ponto a conversa virou, falava-se em almas mortas (e não eram as dos e-books) e na eterna questão: como, quando, onde e por quem, começar a ler os clássicos russos? Dostoievski ou Tolstoi?
A que a Renata e a Ana Marques acrescentaram: "então e Gogol ou Turguêniev? E os contos de Tchekhov?"
A reunião não terminou aqui, mas quase, até que habilmente alguém falou em férias e leituras propícias para férias. Ou então ir ao bingo e fazer linha, mas afinal era uma linha de livros lidos, estrategicamente organizados numa quadrícula temática... houve risadas, esgares e narizes franzidos e rapidamente a conversa voltou aos policiais, às novelas gráficas, às expectativas defraudadas e aos tons moralistas de alguns autores. É a Roda a ser ela mesma e subitamente chegámos ao fim!