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Roda Dos Livros

Encontro de Maio

Roda Dos Livros, 30.05.23

“(…) invadida por inspirações enormes e sonhava com os acontecimentos vividos transformando-os em figuras cada vez mais coloridas e bonitas que dentro da minha imaginação se moviam e conversavam (...) e eu era qualquer coisa como um ser estranho e dependente das ordens que aquelas formas ou figuras davam tiranicamente e se eu não lhes respondesse mordiam o cérebro e o coração com dentes de vidro quando a vivência tinha significado e exigia ser vertida numa tela ou num cartão.”

Excerto de «As Primas» de Aurora Venturini

Assim estavam as Rodistas, invadidas por inspirações e ideias soltas e loucas que vertiam sobre a mesa, inundando a reunião, como que conduzidas por mãos tirânicas e cheias de engenhos explosivos 😁 que as mordiam a qualquer tentativa de organização. A Roda é sempre uma azáfama, mas esta reunião ganhou contornos furiosos como se uma claque nos entrasse sala adentro, a toda a velocidade, largando raters sonoros que concorriam com as gargalhadas memoráveis que por ali se foram escutando toda a tarde.

Seriam precisas mãos hábeis de romancista para narrar o mergulho que foi a piscina de ideias desta gente ansiosa por falar, partilhar e recomendar livros umas às outras que não existem regras de cortesia suficientes para aquietar tamanha arte de driblar silêncios. São os anos, mesmo muitos anos de convivência entre estas Mulheres e a sua natureza urbana. Leitoras que aproveitam todos os momentos para ler, para contemplar cada paisagem (e ideia!) como se fosse um último olhar, sem perder uma festa n'um cão no meio do caminho e sentir o peso do pássaro morto, pois sabem que o poema é salvação e faz valer todos os amanhãs.

E é assim, que de cada quarto só seu saem carregadas de ideias e no seu perfeito juízo para mais um encontro, cumprindo o desafio de empilhar sugestões.

Para além da pilha possível, com esses engenhos eletrónicos que não empilham propriamente dito, ainda houve tempo para rebater os lados opostos entre quem gosta e quem não gosta de «A Pediatra», quem se sente dividido perante a leitura de «A História de Roma», no duelo com «Ecologia», embora nesta sessão tenha saído vencedor o conto «Natureza Urbana» também de Joana Bértholo que arrecadou a surpresa da nossa Cristina Delgado, por não apreciar contos. Discutiu-se quem já estranhou e entretanto entranhou no universo de Virginia Woolf e revisitámos alguns dos seus títulos mais difíceis; a expectativa com as novelas de Paco Roca - que pelos visto nada supera «rugas» - e é caso para dizer que mesmo com rugas não há amores como os primeiros 😇. Os livros de Isabela Figueiredo continuam a conquistar rodistas, mas há ainda quem não tenha arriscado, o mesmo acontece com as livros de Rosa Montero, havendo por onde escolher entre os que mais agregam fãs: «A rídicula ideia de não voltar a ver-te» ou o eterno «Louca da casa», no entanto, acreditamos que o recém lançado e agora sugerido, «O perigo de estar no meu perfeito juízo», vá conquistar todos. O mesmo não acontece com «Gente Ansiosa», bem como os restantes títulos de Fredrik Backman, que continuam a separar opiniões.

Saramago e outros Prémios Nobel têm tido o seu lugar de destaque, reaparecendo frequentemente entre as leituras e escolhas, em especial Annie Ernaux, havendo rodistas que andam a consumir todos os seu livros, como quem consome uma saga. Na fantasia e na BD aparecerem novos títulos, uns mais desconhecidos que outros, mas por agora a série Outlander continua a prender leitoras.

Os prémios e os seus ganhadores, mas menos as ganhadoras, trouxeram para cima da mesa alguma da invisibilidade das mulheres nos prémios (e nos júris). Polémicas à parte, as mulheres na escrita ganham terreno a olhos vistos e prova disso é a presença feminina nos destaques de Maio, essencialmente com a «A menina invisível» de Rita Cruz que a Márcia frisou bem: "Leiam, leiam!"

Havemos de ler e entretanto o livro já rodou. Como tantos outros.

Como rodará por certo «O Quarto do Bebé» que pelos vistos se lê à velocidade com que a conversa fluiu e se atropelou neste encontro de um Maio, ameno e bem disposto.

Até Junho!

Encontro de Abril

Roda Dos Livros, 04.05.23

Para abrir mais um encontro, desta vez em tempos de festejos de Liberdade, celebrámos também o aniversário da nossa Célia e o nosso reencontro mensal, por isso, vivam os bolos e outros acompanhamentos que tão bem embalam sugestões de leitura e conversas paralelas.

A Sofia Antunes trouxe-nos a última biografia de José Saramago pela mão de Miguel Real e Filomena Oliveira e quisemos saber o quão acessível seria, o entusiasmo dela disse tudo: "fiquei com imensa vontade de reler os livros que já li e ler outros." Ficou dito!

Com a Renata aprendemos, ou ela bem que tentou ensinar-nos, o que eram neutrinos, para nos recomendar um sugestão explosiva e reivindicativa, «A voz do dono» que explora o quanto podemos - ou não - compreender presenças alienígenas. Ficamos meio banzadas com a explicação científica e talvez nos tenhamos focado mais em uma ou duas pequenas polémicas que destapamos em torno de «Almoço de Domingo» que foi outra das suas sugestões.

Entretanto e por termos alguns membros da Roda a participar no Quiz de Literatura que está a decorrer mensalmente em Alcântara, discutimos, rimos, comentamos e surgiram mais algumas recomendações a propósito do tema de Abril: Prémios Nobel da Literatura e não podia vir mais a calhar a última leitura da Márcia: «Cem anos de solidão». Depois de trocarmos mais umas quantas curiosidades, datas, polémicas e peculiaridades dos referidos Prémios foi a vez de uma obra que está a despertar sentimentos e sensações nos leitores e é óbvio que estamos a falar da sugestão da Ana Marques da Silva: «As Primas» da debutante (embora do alto dos seus mais de 80 anos) Aurora Venturini e temos a certeza que será um livro que será falado em próximos encontros. Para já deixamos termos como: nojo, deficiência, raridades, estranheza e escrita.

Uma descrição que se pode dividir pelas sugestões da Cristiana e da Célia, «No Jardim do Ogre» e «Anomalia», respectivamente, embora por motivos muito dispares.

O livro de Leila Slimani vem confirmar a presença, repetida, desta autora na Roda, sem sombra de dúvida. E tal continuará, não obstante a temática tão diferente entre livros. Ou não, se pensarmos na miséria humana e na fragmentação das personagens femininas.

Por falar em fragmentação, é o que mais encontrámos em «Anomalia», mas o best-seller de Le Tellier não reune unanimidade entre os Rodistas. A Célia gostou e apreciou a premissa que o livro encerra. Ou será, abre?

A sugestão de «Rua Katalin» vem na sequência da Cristiana (Eu!) ter adorado ler Magda Szabo e ter ido, precipitadamente, ler este livro, em busca de uma outra Emerence (e outro Viola), mas aquela senhora foi única e com os seus motivos muito próprios e por isso, até meio, achava que este livro não me conquistaria. Enganei-me. Não encontrei Emerence, mas encontrei uma mão cheia de ingredientes presentes n'A Porta e isso foi suficiente para na releitura do que destaquei ter percebido que é um livro que merece igualmente ser degustado e é lido igualmente em apneia, sofrendo com aquelas personagens que, presas ao passado, apenas sobrevivem no presente.

Sobre muitos outros livros e autores se conversou, sobre escritores, ideias e bloqueios e com muita risada se celebrou - e cantou - um Feliz Aniversário à Célia, pensando já em próximos bolos e aniversários que Maio está à porta, a Feira do Livro de Lisboa e o tempo convidativo a esticar a manta para mais umas iguarias e claro, rodar livros.

Boas leituras!