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Roda Dos Livros

Encontro de Fevereiro

Roda Dos Livros, 26.02.23

Para espantar o frio nada como uma boa conversa, bem acesa, sobre livros, autores e suas decisões narrativas. Não obstante ;-) o ruído, foi uma tarde muito agradável.

Se a Antunes (Sofia) começou por cascar num ou noutro detalhe, que a fez dar por perdido o tempo dedicado à leitura de, «Toda a Gente Nesta Sala um Dia Há de Morrer», salientando a fraca qualidade da escrita bem como decisões face à personagem que retiram credibilidade aos cenários em que se move. Por outro lado, e aí é que está a sua recomendação, a grande Almudena Grandes compõe uma narrativa extremamente aliciante para o leitor que pretende desvendar este «A Mãe de Frankenstein» expondo a forma como o regime de Franco encarou e teorizou a doença mental e a própria segregação da mulher da sociedade espanhola.

E a conversa ainda mal tinha começado e já estalava a polémica, «A Pediatra» de Andrea del Fuego está a dividir as Rodistas, embora, por enquanto, a team pediatra esteja a ganhar :P no entanto, a polémica prende-se com as fronteiras técnicas que pode ou não arruinar, logo às primeiras linhas, a veracidade da personagem. Questões técnicas à parte, debatem-se questões éticas, traços de psicopatia e o lado irónico e extremamente divagante da tal pediatra que já começa a ser comparada à ama de «Canção Doce».

A discussão é interminável e as noções de normalidade não ganham consenso. Talvez cheguem com a Primavera e novas opiniões, pois a polémica gerou curiosidade em mais rodistas.

Cheia de curiosidade ficou a Pereira de Castro (também Sofia) ao ouvir a Cristiana falar em músculos do adeus e rir à gargalhada com as «confissões de uma quarentona na m*rda» - ATENÇÃO - o uso do asterisco, e não da vogal, é da total responsabilidade da autora, uma vez que nas nossas reuniões muito se pragueja e até abunda um certo fluxo palavroso 8-) Esperemos que as confissões tragam mais umas quantas gargalhadas, já que o livro está bem escrito e sem grandes pretensões, coisa que por vezes sabe bem e relaxa os músculos.

A Cristiana trazia ainda duas outras sugestões que coincidiam com as da Sónia, alimentando a concordância com quem leu e espicaçando a curiosidade a quem ainda não o fez, são elas: «Um cão no meio do caminho» e «Velhos Lobos» que têm em comum a capacidade de ambos os autores escreverem sobre sentimentos e solidão e fazerem-nos gostar de personagens que aparentemente não teriam nada que os pudesse eternizar. Para além disso, foram capazes de escrever livros que se elevam face aos seus anteriores, superando-os e fazendo-nos gostar ainda mais de os ler.

A conversa ia amena e fluía entre sagas familiares, o nosso Alentejo profundo, mezinhas e rezas, os livros bem escritos que embalavam os leitores, ou outros que, à força de alimentarem volume atrás de volume, se perdiam em detalhes ou repetiam estruturas e acabavam a cansar-nos. Entre considerações outros livros foram sendo destacados: «Pátria» de Fernando Aramburu que a Patrícia andou a ler e gostou muito (livro que até agora reúne total consenso) ou «A Catedral do Mar» que a Joana devorou noite adentro e enquanto o diz algumas cabeças anuem em consentimento. Efeito idêntico consegue J. K. Rowling, que é como quem diz Robert Galbraith ao escrever policiais e daí o destaque da Ana Borges e da Célia.

Mas como a conversa estava a ficar morna, nada como acrescentar alguma elegância ao ouriço, total anomalia, só pode! E estala a discussão, pois claro, desta vez sobre coerências, finais abertos, volte-faces, preconceitos, anomalias e normalidade. E se a coisa já estava sumarenta, juntámos-lhe ainda toda uma saga sobre sofrimento e miséria (do «Uma pequena vida») e a eterna questão entre redenção e superação. Mesmo a calhar ainda caem mais duas sugestões em cima da mesa: «Mendigos e Altivos» e «Gente Ansiosa»

Melhor era impossível, até os títulos nos caracterizam bem :roll: Mesmo quando temos sessões com contornos do fantástico e bandas sonoras que só existem na cabeça dos leitores, estamos bem, afinal andamos neste world building há dez anos!

Dizer Olá a 2023 e festejar 10 anos disto de rodar livros

Roda Dos Livros, 06.02.23

PARABÉNS A NÓS!

São dez anos, dez anos a encher o saco de livros para, uma vez por mês, ir à biblioteca. Com sorte, um ou outro evento e os rodistas juntam-se mais vezes ainda. Não esquecendo, é claro, os anos híbridos de pandemia que mesmo assim demonstraram que é possível rodar livros a partir de casa com o rabo no sofá.

E por isso, cá estamos nós desde 2013, quando a Biblioteca dos Olivais nos deu uma casa - à qual talvez possamos regressar para um encontro dedicado à nostalgia - mas no regresso à normalidade foi a vez da Biblioteca dos Coruchéus nos receber de braços abertos e foi aí que mais uma vez nos dedicamos a beberetes e livros.

E bolo, é claro!

E muita risada, mantinhas pelas costas, livros espalhados pela mesa e muita conversa paralela - a política, o ambiente, a corrupção, as notícias, o frio... tudo serviu para intervalar com fatias de bolo, chá e frutos secos (que nós também somos fit!) até arrancarmos propriamente com as sugestões de leituras. Mas assim que arrancámos não poderíamos pedir melhor abertura:

"Não tenho gosto nenhum por cabras. Das humanas, entenda-se!"

Posto isto, estava mais do que aberta a reunião onde tanto se fala do que devemos ler como se especula com muito entusiasmo e até alguma teatralização o que não gostámos de ler, mas estamos desejosas que mais alguém leia (e não goste, claro!) só para podermos purgar mais um pouco a má língua.

Por isso, entre velhotes, sapiens e sombras, espiões, guerras e guerrilhas, corações perdidos ou partidos, feminismo, futuro, ditadores e novelas gráficas, não faltou a menstruação, as memórias e outros encontros ou acontecimentos para comporem mais uma pilha de sugestões com as leituras que nos acompanharam neste arranque de 2023.

Renata: Os nossos corações Perdidos de Celeste Ng e Ferry de Daijmilia Pereira de Almeida

Sofia: As Velhas de Hugo Mezena e O homem que gostava de cães de Leonardo Padura

Ana Marques: O árabe do futuro de Riad Sttouf e Morro da favela de André Diniz e ainda O Acontecimento da mais recente Prémio Nobel, Annie Ernaux, sem esquecer o ensaio As Invisíveis, Histórias Sobre o Trabalho de Limpeza de Rita Pereira Carvalho

Cristina Matos: O Encontro de Natascha Brown, Oh, William de Elizabeth Strout (também destacado pela Cristiana) e O Consentimento de Vanessa S.

Cristina Delgado: Afirma Pereira de Tabucchi e Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo e ainda Minha Sombria Vanessa de Kate Elizabeth Russell

Ana Borges: Sapiens de Yuval Noah Harari e Crepúsculo em Itália de DH Lawrence

Patrícia Cavaco: Um casamento Americano de Tayari Jones, Um Lugar ao Sol seguido de Uma Mulher de Annie Ernaux e ainda A Aldeia das Almas Desaparecidas de Richard Zimler

Cristiana: Não é só sangue de Patrícia Lemos, Biografia do Língua de Mário Lúcio Sousa e Intimidades de Katie Kitamura