Encontro de Fevereiro

Para espantar o frio nada como uma boa conversa, bem acesa, sobre livros, autores e suas decisões narrativas. Não obstante ;-) o ruído, foi uma tarde muito agradável.


Se a Antunes (Sofia) começou por cascar num ou noutro detalhe, que a fez dar por perdido o tempo dedicado à leitura de, «Toda a Gente Nesta Sala um Dia Há de Morrer», salientando a fraca qualidade da escrita bem como decisões face à personagem que retiram credibilidade aos cenários em que se move. Por outro lado, e aí é que está a sua recomendação, a grande Almudena Grandes compõe uma narrativa extremamente aliciante para o leitor que pretende desvendar este «A Mãe de Frankenstein» expondo a forma como o regime de Franco encarou e teorizou a doença mental e a própria segregação da mulher da sociedade espanhola.
E a conversa ainda mal tinha começado e já estalava a polémica, «A Pediatra» de Andrea del Fuego está a dividir as Rodistas, embora, por enquanto, a team pediatra esteja a ganhar :P no entanto, a polémica prende-se com as fronteiras técnicas que pode ou não arruinar, logo às primeiras linhas, a veracidade da personagem. Questões técnicas à parte, debatem-se questões éticas, traços de psicopatia e o lado irónico e extremamente divagante da tal pediatra que já começa a ser comparada à ama de «Canção Doce».
A discussão é interminável e as noções de normalidade não ganham consenso. Talvez cheguem com a Primavera e novas opiniões, pois a polémica gerou curiosidade em mais rodistas.
Cheia de curiosidade ficou a Pereira de Castro (também Sofia) ao ouvir a Cristiana falar em músculos do adeus e rir à gargalhada com as «confissões de uma quarentona na m*rda» - ATENÇÃO - o uso do asterisco, e não da vogal, é da total responsabilidade da autora, uma vez que nas nossas reuniões muito se pragueja e até abunda um certo fluxo palavroso 8-) Esperemos que as confissões tragam mais umas quantas gargalhadas, já que o livro está bem escrito e sem grandes pretensões, coisa que por vezes sabe bem e relaxa os músculos.
A Cristiana trazia ainda duas outras sugestões que coincidiam com as da Sónia, alimentando a concordância com quem leu e espicaçando a curiosidade a quem ainda não o fez, são elas: «Um cão no meio do caminho» e «Velhos Lobos» que têm em comum a capacidade de ambos os autores escreverem sobre sentimentos e solidão e fazerem-nos gostar de personagens que aparentemente não teriam nada que os pudesse eternizar. Para além disso, foram capazes de escrever livros que se elevam face aos seus anteriores, superando-os e fazendo-nos gostar ainda mais de os ler.
A conversa ia amena e fluía entre sagas familiares, o nosso Alentejo profundo, mezinhas e rezas, os livros bem escritos que embalavam os leitores, ou outros que, à força de alimentarem volume atrás de volume, se perdiam em detalhes ou repetiam estruturas e acabavam a cansar-nos. Entre considerações outros livros foram sendo destacados: «Pátria» de Fernando Aramburu que a Patrícia andou a ler e gostou muito (livro que até agora reúne total consenso) ou «A Catedral do Mar» que a Joana devorou noite adentro e enquanto o diz algumas cabeças anuem em consentimento. Efeito idêntico consegue J. K. Rowling, que é como quem diz Robert Galbraith ao escrever policiais e daí o destaque da Ana Borges e da Célia.
Mas como a conversa estava a ficar morna, nada como acrescentar alguma elegância ao ouriço, total anomalia, só pode! E estala a discussão, pois claro, desta vez sobre coerências, finais abertos, volte-faces, preconceitos, anomalias e normalidade. E se a coisa já estava sumarenta, juntámos-lhe ainda toda uma saga sobre sofrimento e miséria (do «Uma pequena vida») e a eterna questão entre redenção e superação. Mesmo a calhar ainda caem mais duas sugestões em cima da mesa: «Mendigos e Altivos» e «Gente Ansiosa»
Melhor era impossível, até os títulos nos caracterizam bem :roll: Mesmo quando temos sessões com contornos do fantástico e bandas sonoras que só existem na cabeça dos leitores, estamos bem, afinal andamos neste world building há dez anos!



