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Roda Dos Livros

Encontro de Novembro e o entusiasmo dos reencontros

Roda Dos Livros, 30.11.22

O dia de Sábado começou com um sol magnífico e trouxe-nos excelentes reencontros e a possibilidade de conhecer membros mais recentes que ainda não tinham estado fisicamente nas reuniões.

Reencontrámos a nossa Sónia Maia, bastante fã da escrita de Lídia Jorge e de Michel Houellebecq e por isso mesmo era incontornável que as suas sugestões de regresso à Roda não fossem dois dos mais recentes títulos desses autores. «Misericórdia» leva o leitor numa viagem por uma cabeça geriátrica muito lúcida enquanto em «Seratonina» a viagem é mais conturbada com um personagem em estado depressivo. O que abriu muito bem a conversa e a forma como as leituras e os temas se cruzaram: a superação, a sobrevivência, as diferentes formas de luto e os flagelos actuais (e outros intemporais) que entram literatura adentro, como é o caso no relato muito vívido e absorvente de «Vista Chinesa» que foi uma das sugestões da Joana Fernandes.

Este livro de Tatiana Salem Levy lançou a conversa numa outra direcção - autoras brasileiras - que têm conquistado a nossa atenção, cujo os livros se revelam de grande impacto e ficam a ressoar cá dentro, são elas: Giovana Madalosso com «Tudo pode ser roubado», Tati Bernardi com «Depois a Louca Sou Eu» e o mais recente título de Andrea Del Fuego, «A Pediatra» que parece vir a ganhar mais fãs entre os rodistas. Os livros referidos têm conseguido mexer com as emoções dos leitores e dentro desse registo voltou a falar-se de Pilar Quintana com «A Cadela» e quem já leu «Os Abismos» recomenda tanto ou mais.

E a lista dos livros a ler aumenta significativamente a cada encontro e depois deste mais ainda, já que os Rodistas não se inibiram de trazer mais do que uma sugestão, por isso, acrescenta-se ainda: «Castro Laboreiro, entre Brandas e Inverneiras» num périplo por costumes de outrora que ainda resistem na figura de três mulheres que Luísa Pinto nos dá a conhecer. Por falar em périplo, «Os Perigos do Imperador» de Ruy Castro cruzam História e ficção, tal como «Um bailarino na Batalha» de Hélia Correia que é talvez a sugestão da Joana de maior destaque, seja pelo evento a que se refere (o qual ela não revelou) seja pela sagacidade com que a autora escreve.

A conversa e as referências cruzam-se e atropelam-se e ganham uma nova direcção com DISCÓRDIA, de Nani Brunini, uma narrativa visual que integra a colecção de livros silenciosos da Pato Lógico e vos convidamos a espreitar neste breve trailer.

Um livro só com ilustração e sem uma palavra fez-nos pensar nas diferenças entre BD, Novela Gráfica, narrativa gráfica, biografia gráfica e a panóplia de definições para livros que se tornam mais apelativo à leitura pela qualidade gráfica e as características dos desenhos que, só por si, contam uma história e alimentam o enredo.

E claro, mais uma vez, as novelas gráficas fazem parte das sugestões, sejam os dois tomos de «Os Trilhos do Acaso» de Paco Roca, sobre uma brigada durante a Segunda Grande Guerra, seja a repetente «Balada para Sophie» e a mais recente descoberta «Neve nos bolsos». Na de Paco Roca a Cristina Delgado destaca a forma como o uso da cor contrasta com as ilustrações a preto e branco, fazendo pela cor os saltos cronológicos da história. Enquanto que a Ana Marques destaca o quão ternurentos se tornam os dramas por detrás das ilustrações de Filipe Melo e de Kim, estando ambas as novelas ligadas a períodos conturbados na Europa.

Acompanhando o que se passa no mundo e também cá dentro, tivemos duas biografias de músicos vanguardistas: António Variações e Jorge Palma, cujo o cruzamento de factos e curiosidades fizeram as delícias da Elisa Santos e da Catarina Graça, respectivamente. Foi incontornável tecer alguns comentários sobre o quão estas biografias podiam estar mais divulgadas e até actualizadas especialmente numa época em que as biografias estão em voga e constantemente nos escaparates.

E como as sugestões em cima da mesa nem sempre são suficientes, a conversa sobre António Variações levou-nos ainda à biografia gráfica composta por Bruno Horta e Helena Soares que capta muito bem a própria preocupação estética do artista, como também se consegue ver no filme com Sérgio Praia e Filipe Duarte.

Nas sugestões de visionamentos, a Cristiana referiu à Sónia um episódio do «Primeira Pessoa», a propósito de «Misericórdia», onde Fátima Campos Ferreira entrevista Lídia Jorge e à Ana Marques sugeriu «A outra margem» também com Filipe Duarte a propósito de enredos ternurentos.

Quase a chegar ao fim, a nossa sessão ainda teve lugar para alguns revivalismos no retorno a obras de Saramago ou ainda mais atrás, aos policiais de Agatha Christie, bem como revisitar algumas obras de João Tordo a propósito do destaque para «Naufrágio» que mais uma vez traz antigos personagens à boca de cena, como a Elisa explicou.

A Cristiana recomenda ainda a leitura de «Ensaio sobre a Lucidez» e partilhou algumas ideias sobre o tom mais sarcástico mas ainda assim humorístico que o livro tem, diferenciando-o do tom que recorda de «Ensaio sobre a Cegueira» (o filme!) e assume algum cansaço com os capítulos longos e algumas descrições do Nobel. Intercalou esta leitura com «Silêncio» de Susan Cain, mas ainda é cedo para tecer mais comentários.

Por último, mas com todo o destaque que merece, «Terra Americana» de Jeanine Cummins, que continua a reunir consenso e a arrecadar fãs entre os Rodista. E desta vez não será excepção. Somos até capazes de apostar que um Top 3 das próximas leituras entre os Rodistas sejam: Misericórdia, Um bailarino na Batalha e provavelmente Terra Americana. É aguardar por Dezembro!

A recuperar o tempo perdido * Encontro de Outubro

Roda Dos Livros, 02.11.22

Podemos dizer que o ano entrou na recta final. O relógio voltou a ser mexido, as folhas já caem, alguns casacos e peúgas acompanham os Rodistas e as agendas alinham-se para fechar o ano com os eventos aguardados.

A conversa esteve animada. Haviam paixões no ar, umas mais simples que outras, outras exóticas e de amor à terra (e às goiabas), outras tantas bizarras e frias como a neve e ainda algumas com pó, confinadas a secretismos mais fantasiosos que bem podiam acabar em crimes sangrentos e lugares desfeitos.

Tarde de mar calmo que fluiu entre sugestões e muitos bordados (daqueles de converseta boa e muita risada) à mistura. E com os livros já se sabe, são como a dança: ou temos par ou dançamos sozinhos. É que nisto de ler novelas gráficas (ou histórias ao quadradinhos) não há consenso, tal como com os Prémios, as estórias e as Histórias (especialmente na 2ª Guerra), os policias violentos ou as descrições realistas que nos tiram o sono.

Felizmente temos livros para todos os gosto e que dão este belo empilhamento.

A Cristina Delgado regressou a uma das suas temáticas de eleição, leu e destacou - Todos os Lugares Desfeitos - a tão aguardada sequela do bestseller mundial O Rapaz do Pijama às Riscas. Podia muito bem ter destacado a autora Susana Piedade com o seu Três Mulheres no Beiral, romance finalista do prémio Leya, que se encontra a ler e a gostar bastante, mas como se voltou a falar em Leila Slimani, incluiu nas suas sugestões os dois primeiros livros da trilogia desta saga familiar da franco-marroquina que dá ao leitor a sua perspectiva de imigrante e a difícil aculturação nos Estado Unidos.

Regressa-se muitas vezes a esta autora pelas opiniões diversas, e até contraditórias, que o seu Canção Doce surte entre os rodistas, nomeadamente a Patrícia que tem uma perspectiva menos abonatória e que gera sempre novas e boas conversas com quem leu recentemente esse bestseller. No entanto, este mês a Patrícia andou perdida entre os mundos da fantasia de Philip Pullman e o universo próprio da BD de Filie Melo e Juan Cavia e novamente fomos dar às séries e as adaptações a que os livros levam.

Entre a Renata e a Ana foi referida a repetente Joana Bértholo, que tem novo livro, História de Roma, que tem despertado curiosidade entre aqueles que leram Ecologia e que reúne consenso pelo detalhe e o trabalho minuciosa da autora, compondo um cenário quase dantesco. Os últimos contos da Nobel Tocarcsuk e o policial A Floresta dos Espíritos são as sugestões de cada uma, respectivamente, onde destacam o lado bizarro que ambos os livros exploram, juntamente com a Natureza.

O Jorge ficou a conhecer o trabalho minucioso e emocionante de Erick Larson em O Esplendor e a Infâmia, mas também gostou bastante do novo romance de João Pinto Coelho. Não esquecendo o Ian McEwan de quem estava a ler, O fardo do amor.

A Cristiana e Cristina Matos muito em acordo e contentes por terem gostado de Uma paixão simples da mais recente prémio Nobel, a qual a Cristina deixou como sugestão, ao passo que a Cristiana revelou resistência às novelas gráficas, mas apreciou bastante o traço expressivo de Marjane Satrapi, da qual recomenda a leitura e degustação de Bordados, mas sem esquecer a leitura intensa que foi A Neve e as Goiabas de NoViolet Bulawayo, de quem gostava de ter mais livros traduzidos e que livros como este estivessem mais tempo em destaque.