1º encontro de 2021 ou a estranha forma de celebrar 8 Janeiros à Roda dos Livros


A reunir desde 2013 a nossa Roda dos Livros celebrou, confinada e um tanto contrariada, este aniversário à distância, já que a realidade não dá para maiores criatividades.
Por isso, não houve as habituais festividades à roda da mesa, com acepipes e copos de vinhos (ou canecas de chá!) e nem sequer uns bombons para serem degustados entre trocas de olhares cúmplices e culposos devido a dietas tontas. Todos estes pequenos prazeres nos parecem agora longínquos, menos tontos e que muita saudade nos deixam. Não tarda nada estamos é a "celebrar" (e celebrar é totalmente desajustado) um ano de reuniões em formato zoom que ajudam a passar o tempo e a diminuir a distância e nos permitem manter o grupo no funcionamento adaptado, mas não são a mesma coisa que a galhofa a que nos habituámos.
A nossa Isabel leu e recomendou a "sua" Ana Teresa Pereira, com o mais recente «Os perseguidores», uma autora que nos regressar a casa ou assim diz se sente a Isabel quando volta às narrativas desta prolífera autora portuguesa. As suas sugestões também passaram por «Apneia» de Tânia Ganho e o eterno «Anna Karenina», mas o seu destaque vai para a novidade «O infinito no junco» de Irene Vallejo.
A Vera leu uma das sugestões da Cris Rodrigues, «Sempre estrangeira» e sublinhou o conteúdo estranho, intrincado e caótico que reina no seio familiar da família daquela personagem, deixando o leitor meio à deriva entre a ficção e a dura realidade. Já a Cris andou perdida entre outros meandro que misturam realidade e ficção, mas em outras latitudes e que mantêm o lado caótico e tóxico das relações familiares. A sua sugestão foi «Fica comigo» de Ayóbàmi Adebàyó que narra a complexa teia da maternidade na sociedade nigeriana.
A Cris Delgado destacou «Quando eu era invisível» um testemunho real, o de Martin Pistorius, que é um grito profundo de luta e coragem de quem conseguiu sair da doença e de um silêncio de mais de uma década. Um relato impressionante, embora muito duro de ser lido, emocionando inevitavelmente os leitores. Leu ainda «Aaron Klein» de Paulo José Miranda que também andou a ser lido pela outra Cris, a Rodrigues, que leu «A doença da Felicidade», um exercício narrativo que explora a ideia da felicidade como doença neurológica, onde a hierarquia sanitária das pessoas as condena ou não ao estado de alucinação que é a doença de ser feliz, pelo meio explora certas receitas que podem ser um caminho para a felicidade ou até o peso do medo nesse caminho sem retorno que é a felicidade.
A Célia navegou para outros mundos com «A Irmandade do Anel» de Tolkien, mas não foi só ela que navegou outras galáxias, já que a Sofia referiu os contos «A volta do parafuso» e «A ferra na selva», de Henry James que têm a sua dose de fantasia e terror.
Claro que a Sofia nas suas infindáveis e numerosas leituras leu desta vez mais poesia e contos, destacando assim «7 Casas Vazias» relatos muito peculiares de Samantha Schweblin ou a incontornável e surreal Ali Smith com o seu mais recente romance publicado por cá «Como ser uma e outra». Ainda assim, o seu destaque mensal vai para «Sob céus vermelhos» que rivaliza com «Cisnes Selvagens» de Jung Chang,mas perspectivando a história da China das novas gerações e por uma voz jovem, Karoline Kan.
A Renata andou em escavações por pérolas portuguesas e leu Hélia Correia que aborda no seu mais recente romance « Um bailarino na batalha» a questão da imigração, numa escrita irrepreensível que dá ao leitor um olhar metafórico sobre o tema. Leu também «A gata e a fabula» de Fernanda Botelho, abrindo assim terreno para futuras "descobertas". A sua sugestão foi «O idiota» de Dostoiévski que pouco mais nos disse do que: "é um livro que só se pode descrever com hipérboles." E ficou tudo dito!
Algures no meio de tantas sugestões e conversas paralelas (que apesar disso estamos já muito mais controlados, frutos dos micros silenciados a que estas reuniões obrigam, para que o ruído não se torne insuportável) ficou no ar a sugestão para «Já não me deito em pose de morrer» de Cláudia R. Sampaio e «O Regresso, A terra entre mim e o meu pai» de Hisham Matar que já são difíceis de associar a quem os recomendou e na sequência de que outros livros estes surgiram, mas como são duas sugestões que nos parecem particularmente de interesse, também aqui ficam neste elenco que já vai longo.
A Paula tem as suas leituras entre receitas e prescrições, pois para grandes males, grandes remédios, e de certeza que uma Farmácia Literária tem muitos medicamentos ao dispor dos mais variados leitores e seus problemas, por isso tem estado a degustar «A pequena farmácia literária» de Elena Molinie talvez num próximo encontro tenha receitas para nos prescrever.
A Ana B. e a Márcia, para além dos seus destaques, recomendaram novamente «Terra Alta» de Javier Cercas, que já vem a ser, repetidamente destacado, e pelos vistos continuará. A propósito de narrativas com traço histórico e policial, recordou-se também «O leitor de cadáveres» uma vez que foi uma das leituras da Ana B. mas há alguns anos foi um livro bastante lidos entre os rodistas. A Ana referiu ainda «Comboio para o Paquistão» como uma viagem que estava a ser interessante de se ler. E a Márcia destacou «Os anos» aguardando que o livro se revelasse de acordo com as expectativas.
A Patrícia deu destaque a «Book Love» de Debbie Tung que no seu tom cómico é um objecto coleccionável para viciados em livros. Quase no mesmo registo, «Mary John» volta a ser comentado e está a tornar-se um favorito e foi a Ana Marques que desta vez o leu e leu também: «Temos de falar sobre Kevin», um livro que dá sempre polémica pelo seu conteúdo e a aridez da narrativa e «Consentimento» de Vanessa Springora que é outro com conteúdo polémico e muito actual (ou intemporal?), onde também a escrita e a forma crua do que é dito desperta diversos sentimentos no leitor. Aliás, ambos os livros dariam para um encontro só em torno dos temas que exploram e das emoções que despertam.
A Joana leu «O crime do Padre Amaro» que a par com os contos de Henry James e os russos mostram que cada vez mais os clássicos estão na ordem do dia e espalhados por todos os leitores.
Até à próxima e boas leituras.