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Roda Dos Livros

«Uma mulher desnecessária» de Rabih Alameddine :: Opinião

Roda Dos Livros, 04.09.20

"Aaliya, a sublime, a louca."


Aaliya, a mulher desnecessária. Aaliya a mulher não religiosa, mas crente no poder dos livros, na salvação pela palavra, pela Literatura. 
Aaliya a caprichosa, a rebuscada, a livreira, a tradutora, a mulher desemparelhada do seu tempo, da sociedade que a envolve e ainda assim uma mulher tão necessária ao futuro irreconciliável entre realidade e ficção.

"Gosto de homens e mulheres que não encaixam bem na cultura dominante, ou, como Álvaro de Campos lhes chama, estrangeiros aqui como em toda a parte, casuais na vida como na alma. Gosto de outsiders, fantasmas a errar em salas cobertas de teias de aranha no castelo maldito de ter que viver.""Incomodou-me, a vida toda, eu não ser igual a toda a gente. Durante anos, consegui convencer-me de que era especial, de que ser diferente era uma escolha. (...) Sou única, um indivíduo, não simplesmente idiossincráticas, mas extraordinária. Considerava o meu individualismo uma virtude, que me protegia e estados de espírito colectivos e insanidades, que me ajudava a elevar-me acima das correntes rápidas da família e da sociedade. A ideia reconfortava-me. Só que agora não está a resultar. E não é só de agora. Já lá vai algum tempo que não consigo muralhar o meu coração como deve ser. (...)Não me saí tão bem como Gustave. Os meus muros não são estanques. Ao longo dos anos, surgiram brechas irregulares. (...)Pessoa, que conhecia a alienação ainda melhor do que Flaubert, escreveu: «Mais terrível do que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.» Que dom para as palavras tem este poeta, que domínio das imagens."


Que dom tem também Rabih Alameddine para escrever como se fosse uma mulher, ler-lhe a alma e as ânsias, expondo particularidades e a solidão numa extensão incrível que nos deixa boquiabertas perante tal transparência e intensidade. Domínio tem também de um enredado de citações, referências, livros, quadros, poemas, filmes e tanto mais que torna este livro um manual de consulta obrigatória, para além de brindar o leitor com uma personagem fabulosa que é esta tradutora não oficial, uma mulher que se muralha e resguarda na melodia do árabe, trabalhando assim livros intemporais que são a sua melhor companhia.

"Não há nostalgia tão intensa como a saudade do que nunca existiu."

Este livro está pejado de solidão e de pequenas esperanças que morrem muito cedo, deixando um vazio  assustador que quase parece obrigatório à condição feminina naquele colosso geográfico condicionado pela sociedade patriarcal e o esmagamento pelas tradições religiosas, a Beirute muçulmana para uma mulher com mais de setenta anos, no entanto Aaliya, a resiliente, contraria o obstrucionismo enraizado e persiste no inútil, pensando e citando Pessoa.


"Ora, poderão querer saber porque é que me empenho tanto nas traduções, se depois as encaixoto (...). Pois bem, o meu empenho prende-se com o processo e não com o produto final (...)Mas não só. No Livro do Desassossego, Pessoa escreve: «A única atitude digna de um homem superior é o persistir tenaz de uma actividade que se reconhece inútil, o hábito de uma disciplina que se sabe estéril, e o uso fixo de normas de pensamento filosófico  metafísico cujo a importância se sente nula.»"

É sem dúvida um desassossego que sentimos a certa parte deste livro ao acompanhar a vida desta mulher, que ao sabor dos seus relatos, nos revela o passado e, tudo num espaço de poucos dias perto do final do ano, quando, por norma, acaba uma tradução e há a euforia de escolher um novo projecto para começar mais um novo ano. Mas o desassossego maior chega com um acontecimento, uma viragem, um encerrar de um capitulo, uma cena muito intensa, palpável, rica em imagens e cheiros, que sendo levada a palco, ali, acontecendo debaixo dos nossos olhos, arrancaria, por certo, lágrimas aos espectadores.

"A minha alma é um brinquedo e roer do destino. A minha sina persegue-me como um batedor experiente, como um caçador malévolo, morde-me e não me larga. Encontro outra vez o que eu pensava ter deixado para trás. Serei sempre um fiasco, no passado, no presente e para sempre. Falhar outra vez. Falhar pior*. Assisto ao desmoronamento da minha vida.

*(Nota da tradutora Tânia Ganho) Alusão às famosas palavras de Samuel Beckett: «Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor» 

Com esta palavras encaminhamo-nos para o fim do livro, mas também pesando o lado redentor dos livros e o ressignificar das memórias. Um livro poderoso!


«Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos» de Olga Tokarczuk :: Opinião

Roda Dos Livros, 02.09.20

"1
E, agora, tende cuidado!
Certa vez, tendo escolhido um Caminho perigoso,
um Homem justo caminhou com Humildade 
pelo Vale da Morte."
 

Em jeito de premonição assim começa «Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos», alertando para a Morte e trazendo consigo uma conclusão: o caminho pernicioso com que o Homem tem marcado a sua passagem pela Terra terá de ter os dias contados. A Natureza é divina e superior e precisa reafirmar a sua posição.

"(...) São as estrelas e os planetas que estabelecem a ordem, o céu é o padrão segundo o qual surge o modelo da nossa vida. (...) Nada será capaz de escapar a esta ordem.
É preciso ter olhos e ouvidos bem abertos, associar os factos. Ver semelhanças onde os outros só vêem diferenças (...) E, ainda, não esquecer que o mundo é uma grande rede, um todo, e que não há nada que exista isoladamente. Que todo o fragmento do mundo, incluindo o mais pequeno, se encontra ligado a outros de acordo com uma complicada Correspondência Cósmica, difícil de deslindar pelas mentes comuns.
(...) A sua geração tem Plutão na Balança, o que enfraquece a capacidade de estar alerta. E acham-se capazes de equilibrar o inferno, mas não creio que o consigam fazer. (...) A realidade envelheceu, tornou-se senil, pois está sujeita às mesmas leis que todos os organismos vivos - o envelhecimento. Tal como as células do corpo, os seus componentes mais pequenos, os sentidos, também sucumbem à apoptose. A apoptose é uma morte natural, causada pelo cansaço e esgotamento da matéria. Em grego, a palavra significa «queda das pétalas». O mundo perdeu as suas pétalas."
A mensagem final é clara, mas a forma como a Prémio Nobel encontrou para conduzir o leitor é extremamente rebuscada e genuína pois encontra a sua voz na narradora Janina Duszejko, uma anciã que questiona o autismo testosterónico masculino, a tristeza genuína da Natureza e vê tudo tendenciosamente negro e meio desfocado como se olhasse a realidade por um caco de vidro fosco, orientado pelo alinhamento dos planetas e as cartas astrológicas que lhe permitem conhecer as pessoas e os eventos à sua volta.

"Tenho de tomar cuidado. Só agora me atrevo a confessar: não sou grande astróloga, infelizmente. No meu carácter existe um certo defeito, que tende a obscurecer a imagem da configuração dos planetas (...). Vejo como nos mexemos às cegas num perpétuo Crepúsculo. Vejo-nos como escaravelhos capturados em caixas por uma criança cruel. É fácil danificar-nos, ferir-nos, despedaçar a nossa existência extravagante e engenhosamente fabricada. Tudo isto eu interpreto como anormal, terrível e ameaçador. Só vejo Catástrofes. Mas se, no início, está a Queda, será possível cair ainda mais abaixo?"

É sem dúvida um livro extravagante, recheado de pequenas pérolas que conquistam o leitor, seja pelas considerações ou as brilhantes descrições da natureza envolvente e até as análises astrológicas que confundem o leitor. Mas superior mesmo é a condução do enredo por uma terra pedregosa e fria, onde a luz da lanterna que alumia a Escuridão se vai extinguindo fechando assim o ciclo da premonição inicial, a inevitabilidade da Morte!

Excertos:

 "Tenho uma Teoria. Acredito que aconteceu uma coisa terrível: o nosso cerebelo não foi devidamente ligado ao cérebro, e esta talvez tenha sido a maior falha da nossa programação. Fomos mal concebidos. Por conseguinte, o nosso modelo deveria ser substituído. (...)
Temos um corpo que é como uma bagagem incómoda. (...) A única Ferramenta, tosca e primitiva, com que nos brindam à laia de prémio de consolação foi a dor."
"- Podereis argumentar que não passa de um Javali - continuei. - Mas que dizer daquela enxurrada de carne que vem do matadouro e cai diariamente sobre a cidade como uma incessante chuva apocalíptica? (...) O mundo é uma prisão cheia de sofrimento, construída de modo que, para se sobreviver, seja preciso infligir dor a outros. Ouvistes? (...) desiludido com o que eu estava a dizer, se pôs a trabalhar; por isso, passei a dirigir-me apenas ao Caniche: - Que mundo é este? Um mundo transformado em almôndegas, salsichas, em tapete estendido junto à cama, em caldo feito de ossos de outro ser..."
"- Que vai ser de nós? - perguntou dramaticamente.
- Tem medo que os Animais nos matem também a nós?
Estremeceu.
- Não acredito na sua teoria. É absurda.
- Pensei que a senhora, como Escritora, tivesse imaginação e capacidades visionárias, e não se fechasse a ideias que, à primeira vista, possam parecer improváveis. Devia saber que tudo o que somos capazes de imaginar é uma imagem da verdade - concluí, citando Blake (...)"

«Estou viva, estou viva, estou viva» de Maggie O'Farrell :: Opinião

Roda Dos Livros, 01.09.20

"Respirei fundo e ouvi o bater do meu coração.
Estou viva, estou viva, estou viva."
Sylvia Plath, A Campânula de vidro
 

Respire fundo também o leitor, pois vai precisar. Este livro reúne 17 episódios onde a ameaça de morte foi uma possibilidade, uma constante e um pensamento ao longo da vida de O'Farrell. Nesses textos, que fluem como um romance, o leitor sente-se impelido a avançar, dono de uma curiosidade mórbida, pela proximidade de alguns episódios ou simplesmente por ser um livro muito bem conseguido, quer pela escrita escorreita, quer pela frieza com que certas palavras nos atacam e mexem com a nossa sensibilidade. Estranho? Talvez. Talvez seja mais fácil sentir enquanto se lê, por isso, leia este livro.

Para já, pense nisto: de quantos atropelamentos fugimos nós ao longo da vida? Desses "foi quase" dos quais saímos ilesos, avançamos como se nada me pudesse tocar, nada de mal pudesse acontecer, desde que eu pudesse continuar em frente, continuar a correr, continuar em movimento.

"(...) o avião que não apanhámos, o vírus que nunca inalámos, o atacante com que nunca nos cruzámos, o caminho que não tomámos. Estamos, todos nós, a deambular num estado de ignorância inocente, a pedir tempo emprestado, a aproveitar os dias, a escapar aos destinos, a escapar por uma nesga, sem saber quando será dado o golpe. Como escreve Thomas Hardy sobre Tess Durbeyfield: «Havia outra data... a da sua própria morte; um dia que se ocultava, invisível, entre todos os outros dias do ano, sem dar sinal ou fazer som quando ela passava por ele, a cada ano; e ainda assim estava inteiramente presente. Quando seria?»"

Quando seria? Como seria? Que parte do corpo atacaria?

Dividido em 17 episódios que atacam partes dispares do seu corpo, Maggie O'Farrell começa por se sentir ameaçada no pescoço, marca essa que nunca a abandonará, no entanto, a ameaça, a sentença de morte prematura chega ainda mais cedo em 77, quando ainda miúda se chegam a conclusões assustadoras que irão encaminhar decisões e experiências futuras, no entanto, o espírito fugidio e escapista da autora talvez tenham sido determinantes para partes do corpo que surgem mais adiante e as conclusões que partilha com os leitores.

"Vivi grande parte da minha vida perto do mar: sinto a sua atração, sinto-lhe a falta se não o vir regularmente, se não caminhar à beira-mar, se não mergulhar, se não respirar o seu ar. (...) Desde criança que nado sempre que posso, mesmo na água mais fria. É, na minha opinião, uma experiência muito reconfortante. Nos seus Sete Contos Góticos, Karen Blixen escreveu: «Conheço uma cura para tudo: água salgada... de uma forma ou de outra. Suor, ou lágrimas, ou o mar salgado.»"

Para além de considerações muito acertadas, existem boas referências e um ritmo imenso que prende o leitor a cada página, junto com descrições muito vívidas e partilhas muito transparentes, diria até de uma raridade genuína.

"Sou a única abstémia de chá da minha família. Acho que eles o consideram uma perversão incompreensível. Para mim, o chá sabe a restos secos de relva, bolor de folhas diluído, composto húmido misturado com um toque de fluídos corporais bovinos. Nunca o consegui suportar."

"Está alguma coisa a mexer-se dentro de mim, nas profundezas dos canais em espiral do meu estômago, algo com garras, com presas, com intenções malévolas. (...) É como se tivesse engolido um demónio."

São vários os demónios que sugam a energia a esta autora, um deles é o da rotina, da doença ou da normalidade, para combatê-los, escreve e viaja, só isso é capaz de fazer frente à inquietude borbulhante que nunca a abandona.

"Depois de ter percorrido o Mediterrâneo em 1869, Mark Twain disse que viajar era «fatal para o preconceito, a intolerância e a mesquinhez."

Ler este livro também tem algo de fatal, é uma valente viagem, recheada de sabedoria e partilha que de certeza, tocarão no âmago de algumas memórias pessoais.

*

Uma descoberta que este livro me trouxe foi o podcast «Contos Não Vendem» de Joana Neves, tradutora deste livro. Um dos episódios traz-nos o conto "O Que Veio Salvar-me", de Virgilio Piñera, lido por Manel Moreira que faz muito bem a ponte para o tema da morte, especialmente para o conto «Corpo Inteiro» neste livro de O'Farrell.

Vale a pena ouvir, aqui.