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Roda Dos Livros

Encontro (virtual) de Março

Roda Dos Livros, 31.03.20

A comunidade rodista aderiu em massa ao encontro virtual para mantermos a conversa livrólica em dia.  Via Zoom, entre dificuldades iniciais de som e imagem, lá fomos, um a um, estando prontos para mais um encontro mensal.

rlzoom

A Cris Rodrigues queixou-se de alguma dificuldade em se concentrar, pois tem vários livro encetados e abandonados à espera de melhores dias, portanto tem ando entretida com novelas gráficas em jeito de biografias. Recomenda muito que leiam, «Bowie, uma biografia» por María Hesse e Fran Ruiz. Tem também andado perdida mais nas referências do que no conteúdo de «Porque Amamos» de Helen Fisher e deixou-nos uma frase para abrir o chat associado à reunião zoom ;)"Sobre o amor, Viriginia Wolf descreveu brilhantemente esse efeito míope, quando disse: «Mas o amor… é apenas uma ilusão. Uma história que compomos na nossa mente acerca de outra pessoa. E sabemos o tempo todo que não é verdade. É claro que sabemos; é por isso que tomamos sempre cuidado para não destruir a ilusão.»"A nossa mulher do teatro, Ana Marques também andou entretida com histórias aos quadradinhos: «Comer, Beber» de Filipe Melo com ilustrações de Juan Cavia. Leu também «O pai da menina morta» um relato-purga desorganizado em jeito de diário da perda, mas recomenda a leitura só para quando temos a cabeça mais orientada!A sua sugestão são as peças de teatro «Vidas Íntimas / Vida de Artistas» de Noël Coward.Márcia Balsas leu «As aves não têm céu» e «Uma pequena sorte», deliciando-se, mas a volta aos contos foi a sua melhor surpresa e é essa a sua sugestão com «Alguns Humanos» de Gustavo Pacheco.Já a Célia Marteniano leu «A Trégua» de Mario Benedeti que foi uma boa surpresa, juntamente com o habilidoso e sui generis «O Corpo» de Bill Bryson, porém a sua sugestão recai sobre «A Última carta» de Cecília Ahren falando-nos da densidade do luto mesmo tantos anos após a perde de Gerry no seu eterno «P.S.: I love you»Cristina Delgado deu-nos a conhecer «O avô tem uma borracha na cabeça» com uma explicação peculiar dada por uma criança para a doença de Alzheimer.Muito dentro das suas preferências, a sugestão é «A coragem de Cilka» de Heather Morrisa história verídica de uma sobrevivente de Auschwitz, que depois da "libertação" foi julgada e passou 10 anos num Gulag.O nosso leitor declamador, Jorge Galvão, brindou-nos com o poema que deixamos no final deste post e é essa mesma a sua sugestão, a poesia de António Costa e Silva e Nicolau Santos, junto com «Vamos comprar um poeta» de Afonso Cruz. Destacou ainda que «A morte não é prioritária» é um livro que vale muito a pena e que está expectante com o recente êxito internacional «Milkman».A Isaura Pereira foi outra das rodistas perdida entre livros com bonecos ;) e andou a a ler «Histórias de adormecer para raparigas rebeldes». Com outra das suas leituras, «O Físico» e «Ainda Alice», reabriu-se o debate eterno: livro ou filme? É sempre uma questão difícil.A sua sugestão é «Cisnes Selvagens» pela dimensão histórica e envolvência do leitor.A Vera ficou rendida a «Chuva miúda» e o peso desconcertante das memórias, bem como com o «Aprender a falar com as plantas» e a delicadeza da escrita. Leu também «Laranja de sangue» e associou-o ao êxito «A rapariga do comboio», mas a sua sugestão é «A luz sobre as trevas» para um regressar à Revolução Francesa.A Patrícia Cavaco anda há uns meses (e andará mais) com «As benevolentes» acusando-p de ter umas centenas de páginas que testam a resiliência do leitor, sendo no entanto um livro muito bom e com um arranque monstruoso, duro e que agarra o leitor.A sua sugestão recai em «Ficções» de Jorge Luís Borges, essencialmente pela diversidade e o mundo paralelo de Borges.A Paula Dias surpreendeu-se muito com «O Bom Soldado Švejk» de Jaroslav Hašek que muito a tem divertido nestes dias que parecem ter tanto de absurdo com os episódios narrados no livro.A Ana Borges andou a navegar por viagens sem sair do sofá e de tanto viajar aterrou em terreno nobelizado, trazendo-nos como recomendação «Viagens» de Olga Tokarczuk. Destacou ainda, «O Pianista de hotel»E a Sónia recomenda uma versão moderna e divertida de "Orgulho e Preconceito", por Curtis Sittenfeld, ou seja «Bom Partido», para termos uma ideia de Liz e  Darcy como personagens actuais.Mesmo na recta final, a Sofia Antunes, o membro mais recente da Roda dos Livros, leu como quem corre maratonas e brindou-nos com quase duas dezenas de livros, de onde se destacam, para si, três grandes livros: «paz traz paz» de Afonso Cruz, «Mariposa» de Yusra Mardini, que expõe o drama dos refugiados e o já clássico «Um aprazível suicídio em grupo» de Arto Paasilina.

pilhaPrint-Zoom

Foi realmente um encontro diferente mas com a mesma mancheia de sugestões, sejam elas de leituras ou de outras dinâmicas também tão necessárias nesta época mais confinada em que o tempo parece estender-se de forma diferente.Entre várias sugestões fica um poema, um documentário, uma série, um jogo e a dica ;) vejam teatro online no D. Maria ou no Teatro Aberto.*O MEU PAÍS JÁ NÃO EXISTE – Nicolau SantosEu nasci num país que já não existe.Agora tenho dois países.O país onde vivo é o país onde nasci.Mas o país onde nasci já não é o país onde nasci.É outro país embora tenha o mesmo nome do país onde nasci.E o país onde vivo é agora o meu país.O país onde vivo não me faz esquecer o país onde nasci.Mas o país onde nasci é agora outro país.E por isso no país onde vivo procuro o país onde nasciPorque no país onde nasci tudo era possívelE não há nenhum país onde tudo seja possível.É por isso que o país onde eu nasci já não existe.E é por isso que o país onde vivo é o pais possível.E o país onde nasci tem agora o mesmo nomeMas é outro paísE lá já nada é possível.Quando eu morrerGostava de voltar ao país onde eu nasciE onde tudo era possívelPorque no país onde vivo nem tudo é possívelE o país onde eu nasci já não existe.O meu país era o país dos flamingos.O país onde vivo é o país das cegonhas.Eu já vi flamingos no país onde vivoMas nunca vi cegonhas no país onde nasci.No país que agora é o país onde nasciNão sei o nome dos pássarosQue sobreviveram à longa chuva de balas tracejantesE à noite escura das hienas.Só sei que esses pássaros tem olhos cegosE voam desnorteados à procura do futuro.Quando eu voar sei exactamente para onde vou.Para sul, a caminho do meu país.Talvez vá sozinho, talvez em bando,Ainda não sei, nem isso importa.Só sei que quando voar vou a procura do meu país perdidoQue eu sei que ainda existe algures a sul.E nessa altura, quando o encontrarEscolho o penhasco mais altoDonde melhor se aviste a imensidão do mare a vastidão da terraFaço lá o meu confortável e derradeiro ninhoE passarei o resto dos meus diasDesmedidamenteDesmesuradamenteDesbragadamenteFelizPor ter reencontrado o país onde nasci.

Roda em tons de Carnaval

Roda Dos Livros, 11.03.20

Em vésperas de convívios foliões e carnavalescos, os rodistas reuniram-se uma vez mais para a tão habitual pilha mensal de sugestões.Apesar de vivermos tempos de Carnaval a conversa esteve tudo menos ligeira, os temas mais marcantes e transversais às leitura de muitos dos membros da Roda estiveram ligados ao luto; à violência e a subjugação feminina; às famílias disfuncionais e até à eutanásia. Valeram-nos a certo ponto os contos de Mário Henrique Leiria para nos perdermos em aventuras com bodes em repartições das finanças ou, e já nem sei a que propósito, especulações sobre pontos que estabelecem a diferença entre tricot e crochê.Verdade seja dita que não aprendemos a tricotar, mas numa coisa chegámos a consenso, o de entregar os otimistas de Rebecca Makkai ao bode comedor voraz de processos das finanças.E sem mais demoras, até por termos reunido a 22/2 e este texto tardar em sair do forno, aqui ficam algumas das sugestões do mês de Fevereiro:

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A Isaura voltou atrás, quase aos clássicos e leu «Cisnes Selvagens» salientando questões femininas na evolução da História de um país e também no mundo, bem como a sua outra sugestão, «Mulheres sem nome».A Márcia também não se afastou das questões feministas e recomendou «A vida sonhada das boas esposas» falando-nos da subjugação feminina no casamento e aos filhos. Também leu «O Manuel do bom fascista», mas não ficou convencida. O que a arrebatou totalmente foi o policial negro da recém nobelizada: «Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos».O Jorge que anda a ler a «A morte não é prioritária», uma biografia de Manuel de Oliveira, trouxe para recomendar os «Contos do Gin Tonic» de onde nos leu, brilhantemente, "Julião e o Bode" e tanto nos divertiu.A Sofia, nossa convidada repetente, falou e emocionou-nos com: «O pai da menina morta», falando do luto e da perda de um filho. Recomendou também «Uma educação» que expõe um pouco da vida dos mórmons e os condicionalismos associados. E ainda «Quando tudo se desmorona» sobre a vida guerreira dos Ibo na Nigéria e que talvez tenha sido o livro que mais a arrebatou neste último mês de leituras.A Ana destacou "Como educar para o feminismo" da já recorrente Chimamanda, mas também um romance mais ligeiro (ou não) «A nossa vida em sete dias» sobre uma família em isolamento, ou quarentena, e muito se enquadra nos tempos que se vivem; não explorando os vírus, mas sim o quanto se pode aprender sobre nós mesmos e a nossa família, se à mesma casa estivermos confinados, dia após dia, ao longo de uma semana.A nossa querida Isabel, há muito desaparecida das nossas lides de tertúlias, voltou para a nossa beira e trouxe «A assassinada da Roda», destacando o brilhante conteúdo histórico e a investigação envolvida para compor este romance sobre a última mulher executada em Portugal, relacionado com os expostos da Roda.A Célia recomenda muita «Uma pequena sorte» de Cláudia Piñero, livro já anteriormente destacado na Roda, como um livro marcante. Leu também a «A agenda vermelha» que não a arrebatou, leitura que a Isabel resumiu como sendo lamechas.A Cris e a Vera leram e são unânimes na avaliação de «As aves não têm céu» como um livros sufocante e fragmentado sobre a culpa que sente um pai quando perde um filho e a dor e o luto que não se supera. A Vera leu ainda «Chuva miúda» que recomenda sem quaisquer reservas. E a Cris volta aos assuntos feministas com «A história de uma serva», que saiu recentemente em versão novela gráfica, como um excelente completo ao livro de Atwood, salientando que o grafismo das ilustrações espelham muito bem os detalhes das descrições, até das mais abstractas.