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A comunidade rodista aderiu em massa ao encontro virtual para mantermos a conversa livrólica em dia. Via Zoom, entre dificuldades iniciais de som e imagem, lá fomos, um a um, estando prontos para mais um encontro mensal.
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A Cris Rodrigues queixou-se de alguma dificuldade em se concentrar, pois tem vários livro encetados e abandonados à espera de melhores dias, portanto tem ando entretida com novelas gráficas em jeito de biografias. Recomenda muito que leiam, «Bowie, uma biografia» por María Hesse e Fran Ruiz. Tem também andado perdida mais nas referências do que no conteúdo de «Porque Amamos» de Helen Fisher e deixou-nos uma frase para abrir o chat associado à reunião zoom ;)"Sobre o amor, Viriginia Wolf descreveu brilhantemente esse efeito míope, quando disse: «Mas o amor… é apenas uma ilusão. Uma história que compomos na nossa mente acerca de outra pessoa. E sabemos o tempo todo que não é verdade. É claro que sabemos; é por isso que tomamos sempre cuidado para não destruir a ilusão.»"A nossa mulher do teatro, Ana Marques também andou entretida com
histórias aos quadradinhos: «Comer, Beber» de Filipe Melo com ilustrações de Juan Cavia. Leu também «O pai da menina morta» um relato-purga desorganizado em jeito de diário da perda, mas recomenda a leitura só para quando temos a cabeça mais orientada!A sua sugestão são as peças de teatro «Vidas Íntimas / Vida de Artistas» de Noël Coward.Márcia Balsas leu «As aves não têm céu» e «Uma pequena sorte», deliciando-se, mas a volta aos contos foi a sua melhor surpresa e é essa a sua sugestão com «Alguns Humanos» de Gustavo Pacheco.Já a Célia Marteniano leu «A Trégua» de Mario Benedeti que foi uma boa surpresa, juntamente com o habilidoso e
sui generis «O Corpo» de Bill Bryson, porém a sua sugestão recai sobre «A Última carta» de Cecília Ahren falando-nos da densidade do luto mesmo tantos anos após a perde de Gerry no seu eterno «P.S.: I love you»Cristina Delgado deu-nos a conhecer «O avô tem uma borracha na cabeça» com uma explicação peculiar dada por uma criança para a doença de Alzheimer.Muito dentro das suas preferências, a sugestão é «A coragem de Cilka» de Heather Morrisa história verídica de uma sobrevivente de Auschwitz, que depois da "libertação" foi julgada e passou 10 anos num Gulag.O nosso leitor declamador, Jorge Galvão, brindou-nos com o poema que deixamos no final deste post e é essa mesma a sua sugestão, a poesia de António Costa e Silva e Nicolau Santos, junto com «Vamos comprar um poeta» de Afonso Cruz. Destacou ainda que «A morte não é prioritária» é um livro que vale muito a pena e que está expectante com o recente êxito internacional «Milkman».A Isaura Pereira foi outra das rodistas perdida entre livros com bonecos ;) e andou a a ler «Histórias de adormecer para raparigas rebeldes». Com outra das suas leituras, «O Físico» e «Ainda Alice», reabriu-se o debate eterno: livro ou filme? É sempre uma questão difícil.A sua sugestão é «Cisnes Selvagens» pela dimensão histórica e envolvência do leitor.A Vera ficou rendida a «Chuva miúda» e o peso desconcertante das memórias, bem como com o «Aprender a falar com as plantas» e a delicadeza da escrita. Leu também «Laranja de sangue» e associou-o ao êxito «A rapariga do comboio», mas a sua sugestão é «A luz sobre as trevas» para um regressar à Revolução Francesa.A Patrícia Cavaco anda há uns meses (e andará mais) com «As benevolentes» acusando-p de ter umas centenas de páginas que testam a resiliência do leitor, sendo no entanto um livro muito bom e com um arranque monstruoso, duro e que agarra o leitor.A sua sugestão recai em «Ficções» de Jorge Luís Borges, essencialmente pela diversidade e o mundo paralelo de Borges.A Paula Dias surpreendeu-se muito com «O Bom Soldado Švejk» de Jaroslav Hašek que muito a tem divertido nestes dias que parecem ter tanto de absurdo com os episódios narrados no livro.A Ana Borges andou a navegar por viagens sem sair do sofá e de tanto viajar aterrou em terreno nobelizado, trazendo-nos como recomendação «Viagens» de Olga Tokarczuk. Destacou ainda, «O Pianista de hotel»E a Sónia recomenda uma versão moderna e divertida de "Orgulho e Preconceito", por Curtis Sittenfeld, ou seja «Bom Partido», para termos uma ideia de Liz e Darcy como personagens actuais.Mesmo na recta final, a Sofia Antunes, o membro mais recente da Roda dos Livros, leu como quem corre maratonas e brindou-nos com quase duas dezenas de livros, de onde se destacam, para si, três grandes livros: «paz traz paz» de Afonso Cruz, «Mariposa» de Yusra Mardini, que expõe o drama dos refugiados e o já clássico «Um aprazível suicídio em grupo» de Arto Paasilina.
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Foi realmente um encontro diferente mas com a mesma mancheia de sugestões, sejam elas de leituras ou de outras dinâmicas também tão necessárias nesta época mais confinada em que o tempo parece estender-se de forma diferente.Entre várias sugestões fica um poema, um
documentário, uma
série, um
jogo e a dica ;) vejam teatro online no
D. Maria ou no
Teatro Aberto.*O MEU PAÍS JÁ NÃO EXISTE – Nicolau SantosEu nasci num país que já não existe.Agora tenho dois países.O país onde vivo é o país onde nasci.Mas o país onde nasci já não é o país onde nasci.É outro país embora tenha o mesmo nome do país onde nasci.E o país onde vivo é agora o meu país.O país onde vivo não me faz esquecer o país onde nasci.Mas o país onde nasci é agora outro país.E por isso no país onde vivo procuro o país onde nasciPorque no país onde nasci tudo era possívelE não há nenhum país onde tudo seja possível.É por isso que o país onde eu nasci já não existe.E é por isso que o país onde vivo é o pais possível.E o país onde nasci tem agora o mesmo nomeMas é outro paísE lá já nada é possível.Quando eu morrerGostava de voltar ao país onde eu nasciE onde tudo era possívelPorque no país onde vivo nem tudo é possívelE o país onde eu nasci já não existe.O meu país era o país dos flamingos.O país onde vivo é o país das cegonhas.Eu já vi flamingos no país onde vivoMas nunca vi cegonhas no país onde nasci.No país que agora é o país onde nasciNão sei o nome dos pássarosQue sobreviveram à longa chuva de balas tracejantesE à noite escura das hienas.Só sei que esses pássaros tem olhos cegosE voam desnorteados à procura do futuro.Quando eu voar sei exactamente para onde vou.Para sul, a caminho do meu país.Talvez vá sozinho, talvez em bando,Ainda não sei, nem isso importa.Só sei que quando voar vou a procura do meu país perdidoQue eu sei que ainda existe algures a sul.E nessa altura, quando o encontrarEscolho o penhasco mais altoDonde melhor se aviste a imensidão do mare a vastidão da terraFaço lá o meu confortável e derradeiro ninhoE passarei o resto dos meus diasDesmedidamenteDesmesuradamenteDesbragadamenteFelizPor ter reencontrado o país onde nasci.