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Roda Dos Livros

«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva - Opinião

Roda Dos Livros, 27.08.19

«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva é um livro necessário essencialmente para recordar a maldade inerente à polícia política do Antigo Regime, mas mais do que tudo expor a maldade no feminino, daí que a personagem da PIDE venha na imagem da agente Leninha. No entanto, para deixar maior marca no leitor a autora precisava de ter sido mais crua, fosse com as descrições das personagens, fosse com as longas noites de tortura. Ainda assim é um documento importante e interessante para se pensar a perseguição política e a humilhação a que tantos homens e mulheres foram sujeitados. Em certas partes, a linguagem com um leve toque poético não lhe cai mal, mas distraí o leitor do importante: a violência, o ódio, a injustiça e o clima de medo.
"Como represália, gritaram-lhe que fizesse a estátua: «Agora vais fazer de Cristo». Um dos agentes riu-se e os outros pegaram-lhe nos braços. Laura sentiu um calafrio, uma horrível sensação causada pelo toque das mãos suadas na sua pele. Bastavam poucas horas naquela posição para ficar rígida como um cadáver. (...)
As noites pertenciam às agentes femininas que as impediam de dormir. (...) - Leninha, Odete ou Lourdes - ia batendo com  moeda debaixo da mesa. Aquele ruído tinha o som de um trovão numa penumbra de profundo silêncio."
Há um constante duelo entre Laura e a agente, no entanto, a narrativa segue um outro rumo a partir do momento em entra mais na vida de Leninha e vemos que o seu duelo pessoal, a sua luta é muito anterior à PIDE e compreendemos que o caminho da violência lhe era adivinhável.
"No dia em que Salazar foi a Setúbal e beijou Maria Helena na testa, o seu pai deu uma tareia à mulher."
São nestas descrições de época, retratando as décadas de ditadura e a necessidade de deixar muitas palavras rentes à boca que também vemos o outro lado, o de Laura, a jovem a quem é dada a oportunidade de vir para Lisboa estudar Direito; aqui entra-se na luta e na resistência estudantil, mas também com Laura a autora nos coloca a pensar na sobrevivência e na superação do trauma.
“A vigilância praticada pelos agentes da PIDE era um serviço de Estado Português. O seu propósito secreto era o de que as pessoas deixassem de ter pensamentos para se transformarem numa frágil teia de espírito permeável ao terror.”
Quase no final, o palrar patriótico e a justificação pela lealdade e cumprimento de ordens, juntamente com nenhuma procura por redenção ou perdão, intensifica os traços psicológicos da personagem ligando-a à enorme desumanização de todos os regimes.

na senda dos livros que não terminei de ler - «Crónica de um Vendedor de Sangue» de Yu Hua - Opinião

Roda Dos Livros, 26.08.19

Comecei com bastante entusiasmo a leitura deste tão aclamado autor chinês, no entanto, rapidamente percebi que seria difícil manter a vontade em continuar.Na narração dos acontecimentos é constante a repetição de ideias e é utilizado um tom quase infantil, apesar da dureza que envolve a vida dos personagens.Faço uma pausa e vou ler sobre o autor e a sua obra, há motivos para que escreva assim, supostamente na sua língua de origem funcionará melhor e o próprio também pretende esse registo para que até o público mais jovem chegue aos seus romances e conheça o percurso político e sócio-económico da China.Volto à leitura e sinto, o que parece ser uma necessidade, a de identificar muito bem cada personagem, cada fala, cada atitude, e por isso continua a repetição dos nomes dos personagens, que me cansaram desde as primeiras páginas. Apesar de também para isso existir explicação que se encontram nas notas de tradução.Avancei mais um pouco, queria ficar a conhecer essa realidade tão miserável que pautou o regime de Mao, mas a forma como as provações do povo são descritas e até as metáforas, em conversas muito simples entre Xu Sanguan e o tio ou a esposa continuaram a não me cativar e até a ilegalidade da venda do sangue não tornou a narrativa mais entusiasmante.Gostava de ter avançado na história dos filhos ou da esposa desafiante, pois pelo que leio, existem reviravoltas que dão rumo à história, tornando-a ainda mais negra, mas enquanto esperava e lia, mais exasperava.«A mulher de He Xiaoyong saiu de casa, bateu com as mãos nas coxas e disse:"Um descarada que roubou a semente de outro homem e agora vem aqui de nariz empinado."Xu Yulan respondeu: "Dei à luz três rapazes de seguida, claro que venho de cabeça erguida."A outra mulher disse: "Três filhos de pais diferentes, isso é orgulho para alguém?""Essas miúdas também não parecem ser filhas do mesmo pai.""Só uma porca como tu é que estaria com homens diferentes.""E tu, és diferente? Olha bem para o que tens dentro dessas cuecas, isso é uma mercearia, qualquer um pode entrar."»

«Tudo Aquilo Que Não Lembro» de Jonas Hassen Khemiri - Opinião

Roda Dos Livros, 26.08.19

"O vizinho estica a cabeça, olha por cima da sebe e pergunta‑me quem sou e o que estou aqui a fazer."

É assim que arranca esta narrativa fragmentada, para a qual a capa faz todo o sentido. Um escritor anda em busca de conhecer Samuel, um homem que morrer num trágico acidente. Acidente ou suicídio. Quanto mais ele entrevista e conversa, mais o leitor se pergunta: o que é que estou aqui a fazer? Pergunta essa que vai continuando sem resposta. Bem como conhecermos Samuel ou as outras personagens.

“Quem decide o que é importante e o que é supérfluo? Quanto a mim, quantos mais pormenores te dou, mais pormenores ficam por contar.” Diz a certa parte uma das raparigas que gostava de estar com Samuel, referindo não por o conhecer muito bem, mas que gostava dele pelo efeito que despertava nela. Porém, os detalhes mais interessantes são sobre assuntos avulso que nada têm propriamente que ver com Samuel ou o seu desaparecimento. Ou a certa parte o assunto da imigração e dos refugiados, mas mais importante situações de mulheres vítimas de violência doméstica; dando-nos a perceber que essa realidade em Estocolmo é semelhante à de cá.

"As chamadas continuaram. Eu traduzia para mães que precisavam de saber o porquê de os seus pedidos de apoio terem sido recusados. Haviam homens que queriam recorrer de condenações por agressão. (...) Havia mulheres que contavam que, quando ele guiava bêbedo, ele não as deixava pôr o cinto de segurança; quando eu repetia a comida, ele obrigava-me a comer a comida do gato; (...)Havia mulheres que contavam que ele tinha uma rotina, (...), punha depois determinada canção a tocar e assobiava a melodia ao mesmo tempo que procurava as luvas. (...) Os homens eram advogados de Jämtland, atletas vencedores de medalhas de triatlo (...) os homens era vendedores de fruta sírios, violinistas belgas, alcoólicos de Skäne. Mas os homens não tinham importância nenhuma. (...) Eu queria era ajudar as mulheres."

Foi Laide, a paixão de Samuel, a mulher jovem que se interessa e quer marcar a diferença junto destas pessoas, que me despertou mais interesse, ainda assim é tudo sempre dito por outros, sem acção directa entre as personagens, ou seja, a interacção está toda no passado, recorrendo à memória; há uma ausência de acontecimentos que ultrapassem o encontro para a breve entrevista com o escritor e isso torna-se cansativo, repetitivo. Mesmos alguns acrescentos que são ditos ou deixados a adivinhar sobre Samuel não me motivaram para terminar o livro, senti que a mais de meio livro lido não estava ligada a nada.

«Um estado selvagem» de Roxane Gay - Opinião

Roda Dos Livros, 21.08.19

Há muito que queria ler este livro e há muita mais ainda que não me acontecia ler um livro tão sofregamente, sem parar para pesquisar fosse o que fosse a que o livro apelasse. Li, sublinhando apenas uma frase: "Os úteros das suas mães eram países férteis em si mesmos."

E no final, é a frase que mais me faz sentido para resumir todo o drama que Roxane Gay narra, estão essencialmente em causa as relações familiares e o peso da ligação a um país ainda em estado selvagem. No entanto, é toda a violência exercida sobre Mireille Duval que desperta outro tipo de estado selvagem e um dúvida: pode um ser humano sobreviver a um trauma deste tamanho e reerguer-se!?

Mireille é descendente de haitianos, imigrados nos Estados Unidos da América, no entanto, a certa parte da vida os pais regressaram ao Haiti e fazem uma vida distante da maioria dos haitianos. Num país onde grassa a miséria, a violência e a morte, uma vida próspera e abastada, cheia de gente altiva torna-os num alvo permanente, onde a corrupção e os sequestros pretendem enviar uma mensagem muito clara: ninguém está seguro. Isso torna-se claro, quando de visita ao país, Mireille é raptada e o grupo sequestrador exige um milhão pela sua libertação.

O sequestro desta mulher e os horrores por que passa não são descritos de forma chocante, de forma só a informar do que se passa, são antes descritos morosamente, pensados para encontrar as palavras certas para não descrever de rompante, mas ainda assim estar lá tudo claramente. Não sei se me faço entender, é preciso ler para sentir o nó que nos fica ou os olhos rasos de água. As imagens são fortes, essencialmente pelo sentido da descrição, pelo todo. O leitor percebe, percebe muito bem como Mereille é violada, humilhada, dilacerada, transformada em restos humanos. Percebe, lê, emociona-se e chega a pedir uma pausa.

Entre os relatos de violência, existem viagens ao passado, momentos lúcidos em que Mereille recorda a família, o Haiti, a sua vida e deixa perceber que o Haiti é um local em transformação e não necesariamente para melhor. O sentimento de pertença é complexo e isso também nos é passado pelas descrições que ela faz dos homens que a cercam. Pessoas sem nada, logo sem nada a perder.

"Os bairros de lata são um labirinto interminável de ruas e vielas (...). Os blocos transformam-se numa montanha com escadarias escuras, estreitas e serpenteantes que mantêm tudo unido. Muitas vezes o céu é bloqueado por um emaranhado espesso de fios eléctricos. (...) As mulheres raramente andam sozinhas pelas ruas. Não é seguro, nunca. (...) As ruas estão pejadas de lixo (...) por vezes uma galinha ou uma cabra perdida caminha cuidadosamente pelas ruas.(...) O ar é opressivo, com o cheiro de demasiada gente num espaço reduzido. (...) Corri por estas ruas e pensei: «Este é o Haiti que nunca vi ou conheci.» Era um Haiti que ninguém deveria ter de conhecer."

A dignidade e a humilhação vivem a paredes meias com toda narração da primeira parte, durante o cativeiro de Mireille. Numa segunda parte, tentamos sofregamente responder positivamente à pergunta que dá ritmo a todo o enredo. É nesta busca, também ela desenfreada, por superação e sobrevivência que conhecemos os medos e os fantasmas que perseguirão esta mulher para o resto da sua vida, mas ficamos também a conhecer outra personagem forte, Lorraine. Outra persoangem arrebatadora.

Há mais personagens e mais lados a explorar, o do pai ou da família Duval, que são uma caricatura dos imigrantes abastados que vivem confortavelmente ao lado da pobreza extrema; existe o marido, típico americano dos filmes romântico de Hollywood... todos eles passam as suas agruras, mas nenhum me prendeu a atenção, eu só queria mesmo perceber tudo o que Roxane tinha reservado para Mereille.