«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva - Opinião

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mais para ler

Mais para ler

"O vizinho estica a cabeça, olha por cima da sebe e pergunta‑me quem sou e o que estou aqui a fazer."
É assim que arranca esta narrativa fragmentada, para a qual a capa faz todo o sentido. Um escritor anda em busca de conhecer Samuel, um homem que morrer num trágico acidente. Acidente ou suicídio. Quanto mais ele entrevista e conversa, mais o leitor se pergunta: o que é que estou aqui a fazer? Pergunta essa que vai continuando sem resposta. Bem como conhecermos Samuel ou as outras personagens.
“Quem decide o que é importante e o que é supérfluo? Quanto a mim, quantos mais pormenores te dou, mais pormenores ficam por contar.” Diz a certa parte uma das raparigas que gostava de estar com Samuel, referindo não por o conhecer muito bem, mas que gostava dele pelo efeito que despertava nela. Porém, os detalhes mais interessantes são sobre assuntos avulso que nada têm propriamente que ver com Samuel ou o seu desaparecimento. Ou a certa parte o assunto da imigração e dos refugiados, mas mais importante situações de mulheres vítimas de violência doméstica; dando-nos a perceber que essa realidade em Estocolmo é semelhante à de cá.
"As chamadas continuaram. Eu traduzia para mães que precisavam de saber o porquê de os seus pedidos de apoio terem sido recusados. Haviam homens que queriam recorrer de condenações por agressão. (...) Havia mulheres que contavam que, quando ele guiava bêbedo, ele não as deixava pôr o cinto de segurança; quando eu repetia a comida, ele obrigava-me a comer a comida do gato; (...)Havia mulheres que contavam que ele tinha uma rotina, (...), punha depois determinada canção a tocar e assobiava a melodia ao mesmo tempo que procurava as luvas. (...) Os homens eram advogados de Jämtland, atletas vencedores de medalhas de triatlo (...) os homens era vendedores de fruta sírios, violinistas belgas, alcoólicos de Skäne. Mas os homens não tinham importância nenhuma. (...) Eu queria era ajudar as mulheres."
Foi Laide, a paixão de Samuel, a mulher jovem que se interessa e quer marcar a diferença junto destas pessoas, que me despertou mais interesse, ainda assim é tudo sempre dito por outros, sem acção directa entre as personagens, ou seja, a interacção está toda no passado, recorrendo à memória; há uma ausência de acontecimentos que ultrapassem o encontro para a breve entrevista com o escritor e isso torna-se cansativo, repetitivo. Mesmos alguns acrescentos que são ditos ou deixados a adivinhar sobre Samuel não me motivaram para terminar o livro, senti que a mais de meio livro lido não estava ligada a nada.
Mais para ler

Há muito que queria ler este livro e há muita mais ainda que não me acontecia ler um livro tão sofregamente, sem parar para pesquisar fosse o que fosse a que o livro apelasse. Li, sublinhando apenas uma frase: "Os úteros das suas mães eram países férteis em si mesmos."
E no final, é a frase que mais me faz sentido para resumir todo o drama que Roxane Gay narra, estão essencialmente em causa as relações familiares e o peso da ligação a um país ainda em estado selvagem. No entanto, é toda a violência exercida sobre Mireille Duval que desperta outro tipo de estado selvagem e um dúvida: pode um ser humano sobreviver a um trauma deste tamanho e reerguer-se!?
Mireille é descendente de haitianos, imigrados nos Estados Unidos da América, no entanto, a certa parte da vida os pais regressaram ao Haiti e fazem uma vida distante da maioria dos haitianos. Num país onde grassa a miséria, a violência e a morte, uma vida próspera e abastada, cheia de gente altiva torna-os num alvo permanente, onde a corrupção e os sequestros pretendem enviar uma mensagem muito clara: ninguém está seguro. Isso torna-se claro, quando de visita ao país, Mireille é raptada e o grupo sequestrador exige um milhão pela sua libertação.
O sequestro desta mulher e os horrores por que passa não são descritos de forma chocante, de forma só a informar do que se passa, são antes descritos morosamente, pensados para encontrar as palavras certas para não descrever de rompante, mas ainda assim estar lá tudo claramente. Não sei se me faço entender, é preciso ler para sentir o nó que nos fica ou os olhos rasos de água. As imagens são fortes, essencialmente pelo sentido da descrição, pelo todo. O leitor percebe, percebe muito bem como Mereille é violada, humilhada, dilacerada, transformada em restos humanos. Percebe, lê, emociona-se e chega a pedir uma pausa.
Entre os relatos de violência, existem viagens ao passado, momentos lúcidos em que Mereille recorda a família, o Haiti, a sua vida e deixa perceber que o Haiti é um local em transformação e não necesariamente para melhor. O sentimento de pertença é complexo e isso também nos é passado pelas descrições que ela faz dos homens que a cercam. Pessoas sem nada, logo sem nada a perder.
"Os bairros de lata são um labirinto interminável de ruas e vielas (...). Os blocos transformam-se numa montanha com escadarias escuras, estreitas e serpenteantes que mantêm tudo unido. Muitas vezes o céu é bloqueado por um emaranhado espesso de fios eléctricos. (...) As mulheres raramente andam sozinhas pelas ruas. Não é seguro, nunca. (...) As ruas estão pejadas de lixo (...) por vezes uma galinha ou uma cabra perdida caminha cuidadosamente pelas ruas.(...) O ar é opressivo, com o cheiro de demasiada gente num espaço reduzido. (...) Corri por estas ruas e pensei: «Este é o Haiti que nunca vi ou conheci.» Era um Haiti que ninguém deveria ter de conhecer."
A dignidade e a humilhação vivem a paredes meias com toda narração da primeira parte, durante o cativeiro de Mireille. Numa segunda parte, tentamos sofregamente responder positivamente à pergunta que dá ritmo a todo o enredo. É nesta busca, também ela desenfreada, por superação e sobrevivência que conhecemos os medos e os fantasmas que perseguirão esta mulher para o resto da sua vida, mas ficamos também a conhecer outra personagem forte, Lorraine. Outra persoangem arrebatadora.
Há mais personagens e mais lados a explorar, o do pai ou da família Duval, que são uma caricatura dos imigrantes abastados que vivem confortavelmente ao lado da pobreza extrema; existe o marido, típico americano dos filmes romântico de Hollywood... todos eles passam as suas agruras, mas nenhum me prendeu a atenção, eu só queria mesmo perceber tudo o que Roxane tinha reservado para Mereille.
Mais para ler