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Roda Dos Livros

O Processo Violeta, de Inês Pedrosa

Roda Dos Livros, 24.03.19

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Violeta, uma professora, envolve-se com um aluno, Ildo. Ana Lúcia, professora, vive o seu drama pessoal após ter sido violada por outro aluno. Clarisse, jornalista, persegue a história de Violeta e Ildo, enquando vive uma gravidez com a qual não se consegue conciliar. Paulina, mãe de Ildo, tenta sobreviver às consequências de uma verdade revelada.

Inês Pedrosa não nos facilita a vida e tenta obrigar-nos a olhar para os nossos próprios preconceitos (principalmente aqueles que insistimos que não existem). Apesar de nos transportar para os "loucos e maravilhosos" anos 80, é dos temas fracturantes da sociedade actual actual que este livro trata. Mas não é (ou não deveria ser) sempre assim na literatura?

Como olhar para a relação entre um miúdo e uma adulta? Aos 14 anos é-se miúdo ou adulto? O tema "consentimento", discutido até à exaustão nas tascas actuais (aka redes sociais) tem um lugar de destaque neste livro. Amor ou abuso?

E quem acha que, com 14 anos, Ildo não tem maturidade para consentir num relacionamento como vê o miúdo, exactamente com a mesma idade, que viola Ana Lúcia?

E Violeta? Abusada ou abusadora? Mulher apaixonada ou infantil?

Este livro, cheio de histórias de mulheres, obriga-nos a rever as convicções com que olhamos a sociedade actual. Não tenho dúvidas que, por isso, por ser uma história de mulheres que se atreve a pôr em causa limites e convicções estabelecidas será um livro mal visto, polémico e muito criticado. Aliás, já o é.

Por mim, gostei bastante. Não concordo sempre com as opiniões da autora que oiço regularmente no programa Páginas Tantas e no O último apaga a luz. Nem sequer concordo com tudo o que escritora (parece-me) quis transmitir com este livro. Mas isso não me impediu de o ler, de pensar e de formar as minhas próprias conclusões. Este é um bom ponto de partida para uma excelente discussão. E se há coisa que reconheço e respeito neste livro é que nele se ouve a voz da Inês Pedrosa em cada página...

Quando leio um livro, tento sempre separar o escritor das suas personagens e tento não o procurar em cada página. Claro que neste livro isso foi completamente impossível. Afinal, já ouvi "uma ou duas" daquelas histórias contadas na primeira pessoa pela escritora. Foi inevitável passar o tempo a pensar "quem é quem" no Insubmisso. E gostei do olhar crítico ao jornalismo...

Foi bom, muito bom rever Clarisse e Ana Lúcia, curiosamente duas personagens dos dois únicos livros que já li da Inês Pedrosa (Os íntimos e Desamparo). Gosto destas novas vidas dos personagens, gosto de os encontrar nas páginas de outros livros.

Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho

Roda Dos Livros, 23.03.19

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Um livreiro cego, que vai coleccionando amantes que lhe lêem em voz alta. Um escritor de sucesso que precisa de ajuda para escrever o derradeiro livro da sua vida.

O regresso ao passado leva-nos, pela mão do livreiro, do escritor e da editora,  à história de três amigos, Yankel, Eryk e Shionka. "Preciso de um preâmbulo de pureza, tem de haver crianças. Uma coisa tão virginal como um conto de fadas (...) As últimas páginas vão ser obscenas (...) A inocência é crucial. Sem ela nenhum leitor aceita o absurdo do desfecho".

A história dos três amigos vai confundir-se com a história de uma cidade, um circulo perfeito, dividida entre judeus e cristãos, num equilibrio periclitante.

No manicómio da rua Mazur, coexistiam os loucos (Depois havia Kasia, a irmãzinha de Florian, tirada da rua poucos dias depois dele. Era uma catraia, a mais nova do hospício, e nunca se conformara por ali estar: aquilo era para loucos e o seu mal estava nos olhos, não na cabeça. No lugar de pessoas, via animais, e então? (...) No círculo perfeito, só os cães eram cães e as crianças crianças.) e, durante a ocupação russa, os presos. E mais tarde... bem, para o saberem têm que ler o livro.

Numa estrutura muito semelhante ao do Sarah Gross, o autor volta a fazer-nos saltar entre dois tempos da mesma história, permitindo-nos respirar antes de mergulhar naquele obsceno desfecho.

A capacidade para o mal é algo exclusivo do ser humano e é dessa capacidade que trata este livro. A forma como somos capazes de nos distanciar dos outros, de os desumanizar a tal ponto que não existir qualquer empatia, qualquer identificação, que nos impeça de matar, de torturar, de destruir.

Mas este livro também fala de amor. Do que somos capazes de fazer por amor. E de confiança. E de amizade.

Há livros que lemos e esquecemos rapidamente. Há livros que levamos algum tempo a esquecer. E depois há livros que nos magoam de tal forma que deixam uma marca permanente.

Já o Perguntem a Sarah Gross me tinha magoado q.b e é um livro que recomendo sem reservas. Este Os loucos da Rua Mazur vai deixar, desconfio, marcas permanentes. Vou esquecer os nomes das personagens, vou esquecer parte do enredo mas nunca vou esquecer o horror, a tristeza, a revolta que este livro provocou.

Percebo perfeitamente todos quantos preferem o Sarah Gross a este Os loucos da Rua Mazur. Pessoalmente, prefiro este.

A saga de Alex 9: A guardiã da Espada, de Bruno Martins Soares

Roda Dos Livros, 22.03.19

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Deixem-me começar por dizer que não gosto da capa e não gosto da referência ao George Martin  Português. Estas duas coisas quase me fizeram passar ao lado deste livro. Resolvi dar-lhe uma oportunidade porque quero começar a ler mais ficção científica e fantasia portuguesa. E depois da acabar de ler o primeiro livro da trilogia (esta edição contém os 3 livros, o que é uma excelente ideia) não me arrependo.

Em primeiro lugar deixem-me contextualizar este livro: foi publicado (e muito bem, no meu ponto de vista) numa colecção "Teen". É um livro pequeno, direccionado a adolescentes e é o início de uma saga de ficção científica. É um livro de construção do mundo. Ou, neste caso de mundos. 2 para ser mais precisa.

Uma das coisas que me atraiu, que considero extremamente relevante e importante é que o herói desta jornada é uma mulher. É importante para meninas e meninos que haja alternativa ao comum herói. Claro que há sagas em que a personagem principal/heroína é uma mulher mas, neste caso, a heroína é apresentada como uma lutadora, uma protectora, na verdade uma máquina de guerra. Outra coisa que me deliciou foi a total ausência de romance. Ah, como gostei disso. E sim, eu sei que ficou a ideia de um romance, que isso vai mudar nos próximos volumes mas não faz mal. Eu não sou contra todo e qualquer romance (euzinha, casada e feliz que sou). Só sou contra a inevitabilidade do romance. O romance, a existir, será secundário. Mesmo quando o amor se desenvolver e se intrometer no caminho, a minha aposta é que não será um amor romântico tradicional.

Achei a apresentação dos mundos (a terra futurista - a parte sci-fi deste livro - e a terra medieval - deve ser daqui que vem a comparação com o Martin) muito bem conseguida. Quem lê este género de livro sabe que a primeira impressão é sempre de confusão e resistência mas a transição de "estou a ler um livro de fantasia" para "estou a viver esta aventura com a Alex" é rápida e natural.

Para já prefiro não falar muito acerca desta história que está, claramente, incompleta.

O tabuleiro está montado, cada personagens tem o seu lugar. As primeiras alianças estão feitas. Para o bem e para o mal, os lados estão escolhidos (e claro que se espera ainda algumas surpresas neste aspecto mas a coisa não teria piada de outra forma) e os dados estão lançados.

Quem me dera ter tido este livro nas mãos quando tinha 15 anos.

A última ceia, de Nuno Nepomuceno

Roda Dos Livros, 21.03.19

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A frase de Pablo Picasso "Os maus artistas copiam. Os bons roubam" ganha toda uma outra dimensão assim que percebemos a ousadia do autor que decidiu roubar um quadro.

Eu sei que isto não é uma trilogia (pelo menos é o que o Nuno diz) mas a minha expectativa era que este livro se debruçasse na terceira "religião do livro" , o Cristianismo, uma vez que do Islamismo o autor tinha tratado no "A célula adormecida" e  do Judaísmo no "Pecados Santos". Ora, como iria o Nuno fazer isso era algo que me deixava na expectativa uma vez que o que não falta por aí são thrillers baseados em teorias, dos mais diversos géneros, relativas às personagens mais marcantes do Cristianismo. E o Nuno resolveu... roubar um quadro. Claro que não podia ser um quadro qualquer, ele tinha que escolher logo o "A última ceia".

Como leitora, impressionou-me a pesquisa que, uma vez mais, se torna visível a cada página. E a forma como toda essa informação nos é transmitida, sem nos maçar, nem nos aborrecer. Não conhecendo muito de arte (nem da comum quanto mais da sacra) agradeci o que aprendi e que essa ignorância não me impedisse de apreciar o decorrer da história.

Este é um livro diferente dos anteriores. Não é tanto o "quem" mas sim o "como" e o "porquê" que nos levam a ler página após página.

A sinopse prometia-nos um romance. E um assalto. E uma história que não nos deixasse pôr este livro de lado. Claro que, quando começamos a ler um livro destes, estamos conscientes que vamos ser enganados. E depois do que o Nuno fez no "Pecados Santos", eu já não confio nas personagens criadas por ele (desculpa Nuno mas é verdade) pelo que estou de pé atrás a cada momento.

O autor não roubou apenas um quadro (ou três, sequer). Como podemos ver pelas notas finais (que são, como o Nuno me disse, "como o nome indica, para ler no fim e não no início") também roubou vários acontecimentos à realidade. E isso fez-me olhar para determinados acontecimentos com outros olhos (a verdade é que não há ficção literária que bata a realidade).

Eu sei que não vos falei da história, não é? Mas a verdade é que não vos quero estragar o prazer da leitura deste livro.

Uma nota final para um reencontro. O Afonso Catalão, apesar de não ser protagonista desta história, tem um papel aqui. E o Afonso é o meu personagem favorito de todos os livros do Nuno. Foi bom, muito bom, ver como ele (e a Diana) reagiram aos acontecimentos do livro "Pecados Santos". Uma das coisas que me irrita sobremaneira neste género de livros é que, na maioria das vezes, os acontecimentos passados, sejam ou não traumáticos, ficam no passado assim que são "resolvidos". Felizmente isso não acontece aqui. O Afonso está nestas páginas com todas as dores que trouxe do passado. E isso deu-lhe, uma vez mais, uma dimensão real.

Acho que fica apenas por dizer, se é que não o perceberam já, que gostei muito deste livro.

A mão esquerda das trevas, de Ursula K. Le Guin

Roda Dos Livros, 20.03.19

 

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Escrito em 1969, por Ursula K. Le Guin que com ele ganhou o Nebula e o Hugo, faz parte do ciclo Hainish mas lê-se perfeitamente a solo.

Andava com vontade de pôr as mãos neste livro há muito mas há livros que nos fogem. Começo já por vos dizer que gostei muito mas que preciso relê-lo. Há livros assim, que precisam ser lidos e relidos. Posso dizer-vos que assim que o terminei voltei a ler os primeiros capítulos.

Não sei do que estava à espera (sou leitora de fantasia mas não sou grande leitora de Ficção cientifica - estou a mudar isso) mas não era disto. E ainda bem.

Esta é a história de Genly Ai, nativo do planeta terra, que vai em missão (em nome do Ecuménio - o orgão governativo interplanetário) para Gethen (ou Inverno), um planeta que, tal como o nome indica, vive numa era glaciar.

A missão? Convencer as nações daquele planeta a juntarem-se ao ecuménio e assim estabelecerem, com os restantes 84 planetas, relações comerciais, de partilha de tecnologia e de comunicação. Não há invasões nem as haverá: um único homem é enviado como prova disso. Tempo é coisa que não falta ao Ecuménio (afinal o planeta mais próximo está a 17 anos-luz de Inverno).

Assim, temos Genly Ai a tentar convencer Karhide (principal região de Gethen) a juntar-se à coligação interplanetária de forma a que Orgoreyn e as restantes regiões do planeta lhe sigam o exemplo. Desde o início que o principal apoiante de Genly é Estraven que não só acredita nele como apoia a sua causa junto do rei. Mas na véspera da audiência com rei de Karhide, Estraven retira-lhe o apoio...

Gethen, para além de ser um planeta inóspito e gelado, tem a peculiaridade de que os seus habitantes são andróginos e apenas uma vez por mês entram em Kemmer, um período de sexualidade activa onde podem assumir o género feminino ou masculino. A vivência destes períodos de sexualidade activa é de tal forma aberta que não há crime sexual em Inverno. E o incesto é permitido.

Uma pausa para reflectir um bocadinho nisto. Um ser que pode ser mãe de um filho ( quando engravidam assumem 9 meses de género feminino) e pai de outro.

Aquilo que mais chocou Genly quando chegou a este planeta foi precisamente esta questão. Como se relacionar com outro ser que não é homem nem mulher mas ambos simultaneamente?

Quais são as consequências sociais desta androginia?

Ursula K Le Guin pensou esta sociedade e estes seres. E nós, leitores? Como os conseguimos imaginar? Em primeiro lugar é simples, nós temos uma palavra para isto mas na prática é muito mais difícil: só temos os pronomes ELE e ELA para usar  e nenhum deles é neutro por isso, queiramos ou não, usamos o pronome pessoal MASCULINO para cada um dos habitante de Gethen. Para além disto (patente em cada página deste livro) temos a associação de características masculinas e femininas extremamente estereotipadas - várias vezes temos Genly a dizer que viu características femininas em Estraven ou no Rei - sejam doçura ou vontade de mexericar, por exemplo.

Uma das partes menos conseguidas do livro que, ainda assim, é uma excelente reflexão sobre igualdade e identidade de género (não consegui não fazer alguns paralelismos com o livro Orlando, da Virginia Woolf), é que todas as relações em Gethen (a não ser que eu tenha perdido alguma coisa, o que é possível) são heterossexuais - se em Kemmer, duas pessoas sentem atracção, uma manifesta-se como mulher, outra como homem. Isto torna-se bastante mais relevante na parte final do livro.

A escritora tenta imaginar uma sociedade sem tensão sexual, nem que o sexo ou o género, interfira nas decisões e na sociedade e isso é extremamente interessante.

Os jogos políticos também são uma constante ao longo do livro mas não se tornam uma questão tão proeminente como tudo o resto. Como todas as dualidade que são expostas ao longo destas páginas: mulher/homem, Luz/Trevas, confiança/traição, amizade/solidão, vida/morte.

Até aqui falei-vos, muito superficialmente, das questões que saltam à vista, que estão na capa e contracapa e em qualquer sítio onde se fale deste livro. Falta uma. Falta aquela que é, para mim, o verdadeiro tema deste livro, aquele que sobra depois de retiradas todas as camadas superficiais, as políticas, de género, culturais ou sociais: amizade. Por que a jornada de Genly Ai não pode ser dissociada da jornada de Estraven.

«Numa casca de noz» de Ian McEwan - Opinião

Roda Dos Livros, 19.03.19

"O útero, ou este útero, não é um lugar tão mau quanto isso; assemelha-se ao túmulo, «agradável e privado», num dos poemas favoritos do meu pai.

Eu sei. Os sarcasmos não ficam bem a um nascituro."

Um nascituro "de pernas para o ar dentro de uma mulher" é o narrador deste relato ácido, peculiar e humorístico. O narrador-feto tem uma presença omnipresente e um lugar privilegiado garantindo-lhe saber dos acontecimentos em primeiríssima mão. McEwan consegue, com descrições brilhantes das personagens e de alguns acontecimentos, envolver o leitor nesta massa insólita e alimentar a sua curiosidade, apesar do tem banal do adultério.
"(...) Ouvi dizer uma vez e registei: um parolo de cérebro embotado. As minhas perspectivas tornam-se sombrias. A existência dele impede as minhas legítimas reivindicações a uma vida feliz ao cuidado dos dois progenitores. (...)
E o Claude, como uma mosca volante (...) Nem sequer é um oportunista colorido, nem apresenta o mais leve indício do patife sorridente, (...) insípido para além da invenção, e de uma banalidade tão requintadamente trabalhada como os arabescos da Mesquita Azul."
Juntamente com Claude, Trudy a desleal, é a mãe deste narrador e congeminam um crime passional: matar John, marido, irmão e pai deste narrador ainda por nascer.
Sim, leu bem, tal como em «Hamlet»  A mãe tem um caso com o cunhado, o irmão do marido. Tudo nesta noz tem traços de tragédia clássica. Aliás, o marido, é um poeta falhado, um ser envolto em neblinas de tristeza que declama o seu amor sob a forma antiquada de um soneto. Por outro lado, Claude, é um palerma, um parolo, um néscio, podendo-lhe ser atribuído título de bobo da corte.
Mas voltemos ao narrador, já que tudo à sua volta é caótico, desde os planos a que assiste à casa imunda onde a mãe e o tio habitam ou o seu mundo amniótico bem regado a copos de vinho que facilmente passam o ponto da degustação e podcasts sombrios que o vão educando para o estado do mundo.
"Todas as fontes concordam que a casa é imunda. Só lugares-comuns a definem bem: delapidada, a descascar-se, a desmoronar-se. A geada por vezes gela e torna rígidas as cortinas do Inverno; com as grandes chuvadas, os esgotos, como bancos de confiança, devolvem os depósitos com juros (...9"
Melhor que o argumento é a maneira como McEwan o expõem ao leitor. É brilhante a acidez e humor negro com que o descreve, deixando o adultério e até o crime para segundo plano, conferindo ao narrador preocupações existenciais e avaliações criticas do que o rodeia.
"Portanto, estamos sozinhos, todos nós, até eu, cada um a percorrer uma estrada deserta, transportando ao ombro, numa trouxa atada a um pau, os esquemas e os diagramas para um progresso inconsciente.É um peso excessivo para suportar, demasiado sinistro para ser verdade. Porque havia o mundo de ser apresentar sob uma forma tão dura?"
O narrador é requintado e pejado de carácter, é um ser critico, mordaz e necessariamente dramático:
"Que me envenenem ao teu lado em vez de me entregarem em qualquer sítio.
Típica auto-complacência de terceiro trimestre (...) Se a hipocrisia é o único preço, compro a vida burguesa e considero o preço barato. (...) e o meu direito é ao amor de uma mãe e é absoluto. Não vou dar aval às suas maquinações de abandono. O exilado não serei eu, mas ela. Vou atá-la com esta corda fina, pressioná-la, no dia do meu nascimento, com o olhar atordoado de recém-nascido e um lamento de gaivota solitária para lhe arpoar o coração."
Esta visão ampliada da realidade, proporcionada pela membrana reveladora é constantemente conseguida com ironia e erudição, ou não fosse a linguagem de McEwan o melhor deste romance ao conseguir dar a este personagem-narrador-feto-provocador camadas e camadas e personalidade.
"Nem toda a gente sabe o que é ter o pénis do rival do nosso pai a centímetros do nariz. Nesta última fase, deviam pensar em mim e conter-se. Se não em nome do parecer clínico, pelo menos por cortesia. Fecho os olhos, cerro as gengivas, apoio-me às paredes uterinas. (...) a cada movimento de êmbolo, receio que ele vá investir, perfurar o meu cérebro de ossos tenros e semear nos meus pensamentos a sua essência, a nata transbordante da sua banalidade. (...)
Como um sapo a copular, ele cola-se-lhe às costas. Em cima dela, agora dentro dela, e bem fundo. É muito pouco o que da minha mãe traiçoeira me separa do pretenso assassino do meu pai."

Encontro de Março

Roda Dos Livros, 11.03.19

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Março, marçagão, tarde de Verãoe uma pilha de livros que não nos cabe numa mão! Casa cheia para receber algumas novidades deste primeiro trimestre de 2019, mas muitas outras sugestões que não se prendem aos livros dos escaparates. Ainda assim, a conversa foi acesa quando se tocou nos temas que o novo livro de Inês Pedrosa traz à discussão: "O processo violeta" gerou discórdia e a conversa alongou-se. Também gerou e há-de continuar a gerar discórdia autores queridos e desejados de uns e quase odiados por outros, isso, e os géneros literários, mais ou menos literários, (conversa para horas) mas são esses despiques que mantêm a roda a girar. Pilha de MarçoRL9-3.jpgSugestões de:Renata Carvalho: «Homens de pó» António Tavares e «Tordo Arado» Itamar Vieira JuniorPatrícia Cavaco: «Os loucos da Rua Mazur» João Pinto CoelhoRui Gonçalves: «Eliete» Dulce Maria CardosoAna Borges: «Conversas de manhã e de tarde» Naguib MahfouzCélia Marteniano: «O homem das castanhas» de Soren SveistrupCristina Delgado: «A sombra do passado» de Nocila ScotiVera Sopa: «Sobe a maré negra» de Margaret DrabbleFernanda Palmeira: «A história de um caracol que descobriu a importância da lentidão» Luís SepúlvedaCris Rodrigues: «As três vidas» João TordoAna Marques: «Sempre vivemos num castelo» de Shirley JacksonAna Delfino: «A lista dos teus desejos» Grégoire Delacourt

«Onze tipos de solidão» de Richard Yates :: Opinião

Roda Dos Livros, 06.03.19

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Banda sonora para aumentar o efeito deste livro: Bill Evans & Chet Baker - The Legendary SessionsYates escreve de forma assombrosa. Ao longo de onze contos tipifica um pouco de todo o tipo de solidões. A laboral, a escolar, a militar, a de ausência de um parceiro, a de um amor não correspondido, a da falta de um objectivo ou até a da escrita, entre outras. As suas descrições, breves mas acutilantes, caracterizam pessoas e lugares, emoções e atitudes com uma capacidade que chega a abalar o leitor. São onze relatos, todos eles diferentes, mas onde as pessoas tocam facilmente a realidade e até se podem assemelhar ao leitor.
"Ele chegou cedo e sentou-se na última fila - de costas muito direitas, os pés cruzados sob a carteira e as mãos entrelaçadas exactamente sobre o centro do tampo, como se a simetria o pudesse tornar menos visível..."
Esta ideia de simetria versus invisibilidade cativou-me e não mais me largou. Mas muitos são os contos que marcam, aliás, eu diria que todos eles nos marcam, nem que seja com uma frase brilhante que descreve algo de uma forma que parece que nunca antes vimos.
"Por toda a Unidade Sete deambulavam homens à procura de mãos para apertarem."
E é assim. Parece simples, mas numa frase Yates caracteriza e revira todo um conto, mexendo com as emoções do leitor e revelando solidões.
"(...) mas foi o facto de o rosto dele ter assumido um ar que lhe era assustadoramente familiar, o mesmo rosto que ele, Banhas Platt, toda a sua vida tinha mostrado aos outros: assustado, vulnerável e terrivelmente dependente, tentando sorrir, um olhar que dizia «Por favor não me deixes só»."
Sós é o que estão todas as personagens destes onze contos, todos eles espelhando solidões muito diversas e que se expressam de maneiras tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão carregadas de angústia, máscaras, raiva, falhanços e falsas relações humanas, mas ainda assim, os contos estão carregados de gestos de amizade, amor, bons momentos e histórias donas de um humor particular e por vezes traçado numa só linha. Isso, e as descrições brilhantes.
"(...) a caminhar, o seu traseiro parecia flutuar como se fosse uma desajeitada entidade distinta que lhe seguia o rasto."
"A senhora Snell tinha provavelmente sessenta anos, era uma mulher alta e magra, com cara de homem, e as suas roupas, senão mesmo os seus poros, pareciam exalar sempre aquela essência seca de aparas de lápis e pó de giz que era o cheiro a escola."
É extraordinária esta capacidade de retratar alguém com meia dúzia de palavras. A sua escrita chega a ser enérgica, pois o ritmo de leitura não quebra e ainda assim sentimos a solidão e o desespero das personagens, no entanto, é a forma de descrever que prima pela distinção.
"(...) Finney com o sorriso imbecil que por vezes se vê nos ajuntamentos de gente que olha boquiaberta para um acidente na rua e Sobel, tão inexpressivo como a morte."
"Ele parecia determinado a gostar do trabalho. Até trouxe uma pequena fotografia da família - uma mulher cansada a sorrir com desdém e dois filhos pequenos - e pregou-a ao tampo da secretária (...) Mais ninguém alguma vez deixara ficar coisa mais pessoal do que uma caixa de fósforos (...)"
Todos os contos têm particularidades interessantes, mas confesso que «O Sofredor» arrebatou-me, pensar em alguém que havia nascido para sofrer e apreciava esse papel e o desempenhando grande parte da vida, para ser um bom perdedor, deixa qualquer um a pensar.
"Quando Walter Henderson tinha nove anos, durante algum tempo pensou que o auge do romance era cair morto (...)
Ninguém conseguia igualar o abandono com que ele atirava o corpo mole pela ladeira abaixo. (...)
Não havia certamente como negar que o papel de um bom perdedor tinha sempre exercido sobre ele uma atracção desmedida."
No conto «Os dados estão lançados» também fiquei a pensar na dualidade da vida militar e na solidão que pode ser ter e defender uma patente e Yates deixa-nos a pensar ainda mais nisto quando no mesmo parágrafo refere duas ideias tão díspares como estas:
"(...) Reese recusava fazer-se afável. Era o seu único defeito, mas era um grande defeito, porque o respeito não pode durar muito sem afeição (...)
Reese racionava a bondade da mesma forma que racionava água: podíamos apreciar o valor de cada gota (...) mas nunca tivemos o suficiente (...), para matar a sede."