«Pão de Açúcar» de Afonso Reis Cabral - Opinião


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Aqui estou! Estou aqui!As mesmas duas palavras. Sentidos tão opostos.Aqui estou, aceita, sacrifica.Estou aqui, afirma-se, destaca-se.
O novo romance de Foer, após onze anos de interregno, acerta em cheio no leitor e pede-lhe que se renda. Que aceite as atitudes, os sentimentos, as emoções, as decisões e as peripécias da família Bloch face a todas as necessidades da vida familiar, por vezes irreconciliáveis com as exigências do mundo actual.
"A parte de dentro da vida tornou-se muito mais pequena do que a de fora, o que criou uma cavidade, um vazio. Por isso o bar mitzvá parecia tão importante: era o último fio de um laço prestes a romper-se. (...)O rabi entrelaçou os dedos, mesmo como um rabi.- Há um provérbio hassídico que diz: «Quando corremos atrás da felicidade, fugimos da satisfação.»"
Talvez a família Bloch corresse atrás do barulho do tempo. Daquele zumbido de fundo, banda sonora de uma grande parte da vida em que ainda: pai, mãe e filhos convivem em puro ambiente de partilha.Julia, Jacob, Sam, Max, Benjy e Argus, o cão; compõem uma família prestes a atingir duas décadas de história, mas a história deles tem ligações mais ancestrais, o judaísmo e a luta em Israel são personagens maiores que determinam tradição, conceito de família e noção de lar. E é essa vida de fora que tanto povoa a de dentro, que criou um fosso entre todos eles e os demais familiares que os rodeiam. Talvez se brinque às aparências, cumprindo rituais e forçando ligações e assim se vá jogando com sentimentos, numa constante ocultação do ressentimento e das necessidades tão próprias de cada um.
"Tudo era outra coisa sublimada: a proximidade doméstica tornara-se distância íntima, a distância íntima tornara-se vergonha, a vergonha tornara-se resignação, o ressentimento tornara-se auto-defesa. Julia pensara várias vezes que, se ao menos conseguissem seguir o fio até à origem da ocultação, poderiam chegar a encontrar a abertura."
Encontrar a abertura dar-lhe-à abertura para superar o que os separa? Serão os danos, entre familiares, recuperáveis com o passar dos anos? Ou apenas se aprende a esconder melhor o que nos incomoda? E por quanto tempo se aguenta esse esconde-esconde? E os outros, notarão?
Foer diz-nos que sim. Os filhos reparam, a família desconfia e os casais sabem que algo não está bem, mas avançam. «T-B-I-S-T-O-P-A-S-A-R-A-» é o nome de um dos capítulos deste romance, em jeito de prenúncio ou de aviso. Existem várias formas se superação, talvez só seja preciso encontrar o tempo certo para cada um.
"Tentava não repara nas vidas deles, mas era impossível ignorar a quantidade de vezes que o pai adormecia a ver a ausência de notícias, como a mãe se retirava para ir podar as árvores dos modelos arquitectónicos, como o pai agora se servia de sobremesa todas as noites, como a mãe dizia ao Argus que «precisava de espaço» quando ele a lambia, como o pai mudara a palavra-passe do iPad, (...) o fim do contacto visual."
É nessa ausência de contacto visual que deixamos de ver o outro e também de olhar para nós mesmos. Jacob e Julia são personagens interessantes, com complexos e medos transversais a todos nós. Ela com a necessidade de obter nos filhos um escudo, uma desculpa que a tudo dá justificação. Ele com a necessidade de ter e dar atenção, criou laços diferentes, mais flexíveis, mas nem por isso mais íntimos. Ambos se chocam e sentem ciúmes, girando em torno de dois grandes temas: os filhos e o facto de serem judeus, talvez para camuflar o desconforto da vida íntima.
"Ficou à porta até ouvir Benjy respirar fundo. Jacob era um homem que recusava o conforto, mas permanecia à porta quando outros teriam partido há muito. Ficava sempre à porta de casa até muito depois de o carro que levava os miúdos à escola ter partido. tal como ficava à janela até a roda traseira da bicicleta de Sam desaparecer na esquina. Tal como ficava a ver-se a si mesmo desaparecer."
"As armas enterradas na terra de Jacob e Julia não eram tão inofensivas como isso (...)Os rituais domésticos estavam suficientemente enraizados para lhes permitir evitarem-se de forma fácil e discreta. (...) Ela dava o pequeno-almoço aos miúdos, ele tomava duche (...), ela levava os miúdos até ao carro e ia até à rua Newark para ver se vinham carros a descer o monte, ele fazia marcha-atrás."
Duas décadas de feridas demasiado rombas para matar, mas suficientes para equacionar a inautenticidade da vida e representar o espectáculo do divórcio. Nas entrelinhas resta-lhes compreender o barulho do tempo de cada um.
"Demorou algum tempo (...) a perceber do que é que ele estava a falar. O frigorífico estava a ser arranjado, por isso faltava, na cozinha, aquele zumbido omnipresente e quase imperceptível. (...) Esse era o barulho do tempo dele.O meu pai ouvia ataques.Julia ouvia as vozes dos miúdos.Eu ouvia silêncios.Sam ouvia traições e o som de produtos da Aplle a ligar.Max ouvia os ganidos de Argus.Benjy era o único suficientemente jovem para ouvir a casa."
Encarar diferenças, limitações, profundidade das atitudes, necessidade de diversão, de espaço, de conforto ou de um abraço pode diminuir o desgaste próprio da vida e equilibrar melhor a rotina dos dias. «Aqui estou» tem alusões à Bíblia e à Tora, fala do luta dos Judeus, chama à atenção para a guerra eterna em Israel, satiriza e discute a causa, mas acima de tudo é um livro sobre o íntimo de cada um e a compaixão necessária para que a resignação não supere a vida.
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"Às vezes penso que as nossas vidas são como submarinos: sensíveis às mudanças de pressão e constantemente em perigo de meter água."
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«Sê como o gelo, transparente, e retém tudo no teu interior.»
É nesta demanda de reter tudo no seu interior que se situa a exploração que o leitor irá abraçar ao ler este «Irmão de gelo». Kopf explora os pólos, as obsessões brancas, os sentimentos e o tanto que fica por dizer. Não por falta de palavras para se expressar, mas por existirem congelamentos que o crescimento aumenta e escurece; atrapalhando a transparência que esclarece, que une... A demanda do gelo é épica.
"Apontamentos de exploração II:
Épica I
É possível uma épica que não seja imperialista, desportiva ou totalitária?
Épica II
Não há em toda a história familiar uma luta territorial? Espaços domésticos e afectos como territórios por conquistar."
A épica desta narrativa é a luta territorial. Perseguir o nosso espaço, conquistá-lo à família, à sociedade. Às vezes até a nós mesmo, interiormente, numa luta com os vários "eus" que nos habitam.
Não é esclarecedor? Não, não é. Mas que o leitor não comece este livro em busca de esclarecimentos.
Aceite antes a viagem sabendo que o naufrágio pode acontecer a qualquer momento e que nem sempre a bóia de salvação está acessível. Sim, são metáforas. Exactamente. Este é um livro dissolvido em metáforas. Com ideias tão lúcidas quanto o branco virgem da neve, mas igualmente míopes como essa mesma neve que cega e afugenta pelo perigo que representa.
Espero até aqui ter consigo dar a entender que «Irmão gelo» é uma exploração por significados para o próprio leitor. É um olhar para dentro mesmo estando a olhar às análises feitas por outra mão que não a nossa, quando discorre e se alonga com a escrita, como um processo de mediação insaciável, uma terapia constante e absorvente.
"Raiva e degelo
Passeio nos Pirinéus
(...)
Numa família onde a mãe está sempre a trabalhar, o pai não está presente e se tem um irmão autista, mais vale entreter-se sozinho. (...)
A neve é sempre neve, e é uma maneira de manter o vínculo com este lugar inventado que tento cercar através da narração e cujo centro espero conquistar um dia. (...)
Pergunto-me se depois de todos estes anos de estudo, de trabalho e relações amorosas mais ou menos falhadas, me poli ou me desgastei. O que resta de mim é uma jóia ou uma pedrinha?"
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