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Roda Dos Livros

«Pão de Açúcar» de Afonso Reis Cabral - Opinião

Roda Dos Livros, 19.12.18

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"(...) soube que me oferecia tudo o que eu procurava: a colisão de mundos em perigo, o conflito dos intervenientes com ele no centro, a problematização do corpo, as consequências da miséria, essa palavra que já não se usa mas ainda se aplica, o equilíbrio entre o desespero e a esperança. Quer dizer, nada de especial. "
É em conversa com um interveniente das zonas sujas, Rafael Tiago, que Afonso Reis Cabral parte para esmiuçar a ideia central deste «Pão de Açúcar». A morte violenta de Gisberta, facto verídico (Porto, 2006), confere a este romance o lado mais negro de uma sociedade que alimenta e faz crescer crianças que se tornam adolescentes desajustados e desapegados de valores ficam muito aquém dos desejados.
"(...) A bicicleta ainda não se tornara real, faltava dá-la a conhecer. Assim é com desgraças e felicidades, partilhamo-nas para mediar a emoção. Mas então pensei, qual alegria qual tristeza, era só sucata despejada com outras porcarias. Calei-me porque achei ridículo, angustiante também, que o lixo de um fosse o entusiasmo de outro."
É no meio do lixo e da doença que uma amizade frágil e intermitente se dá, satisfazendo necessidades de atenção de ambas as partes e reciclando os restos de uma bicicleta, entretanto, entre visitas, a violência e os ânimos exaltam-se e resultam na morte de um transsexual seropositivo e sem abrigo.
"Ela meteu a ponta do indicador no arroz, experimentou um bocado, e depois já punha a mão inteira, já dizia «Está quente!», engolindo com gozo e fazendo os gemidos de quando o ser humano é bicho. (...) Ávida de limpar o lado dela, não reparava na minha cautela. Apesar de contente por vê-la satisfeita, a imagem da doença babada para a panela fez-me nojo. (...) Contudo, o nojo persistia como as tareias que se apanham na infância e nos deixam o corpo dorido até ao fim da vida."
O cenário não podia ser mais degradante e é em si uma personagem que sublinha a critica social, alertando para um problema que persiste em tantas cidades de norte a sul do país; prédios abandonados aos quais os interesses económicos ou os imbróglios jurídicos não deram seguimento e que são focos promotores de miséria.
"(...) O esqueleto não dava hipermercado. (...)"
"As ratazanas foram as primeiras. Ainda as obras decorriam e já elas se aninhavam nos cantos. (...) À noite, os ocupantes dormiam em barracas improvisadas com caixotes, toros, cartões, plásticos e colchões. Melhor dito, dormiam em lares com toques de luz a conquistar o cimento. A ruína sobrevivia à frustração e sublinhava-se: era só gente a dormir. (...) Para ser útil, não bastava abrigar pedintes, segredos, porrada, troca de seringas, orgasmos e gestos brandos. Não, para ser útil, havia que inaugurar um parque de estacionamento."
O livro é rico nas cenas de convívio entre os jovens e no Pão de Açúcar com Gisberta, mas também dá saltos temporais que levam o leitor a conhecer as duras realidades que ali chocam. Os capítulos oscilam entre o presente de Rafael como mecânico, o lar/abrigo onde os jovens foram criados e a pensão onde Gisberta se prostituía, bem como momentos específicos de algumas daquelas vidas.
"A determinado momento, a Gi passou-lhe a mão pelo cabelo e ele aceitou a carícia com uma naturalidade que eu nunca igualaria. A naturalidade de quem lida desde pequeno com travestis. Para mim foi como levar uma flechada na cabeça: ser assim afagado era mais do que muita gente podia esperar da vida."
Entre alimentar Gisberta e auxiliar Rafael no arranjo da bicicleta, outros episódios acontecem entre os restantes jovens, ainda assim, e mesmo o leitor sabendo o fim, não parece existir nada de decisivo para que a violência ocorra e persista dia após dia. Talvez as circunstâncias, o acaso, a revolta, a desesperança e a solidão... Talvez. Mas isso e muita falta de carinho.
"Dali veríamos as coisas de outra maneira, os problemas ficariam na cave. Os dela, a morte que a comia por dentro, que a obrigava a abdicar a cada dia; os meus, saber que a necessidades de a ajudar só fazia sentido por ambos não termos mais ninguém."

"Extremamente alto e incrivelmente perto" de Jonatham Safran Foer :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.12.18

Resultado de imagem para "Extremamente alto e incrivelmente perto" de Jonathan Safran Foer

Mais de anos separam os romances "Extremamente perto e incrivelmente alto" de "Aqui estou", mas eu não não precisei sequer de um mês para devorar ambos os livros. A escrita de Foer é altamente marcante. O autor cria narrativas entrecortadas no tempo, que fazem o leitor sentir-se à deriva. Afinal o foco dos seus romances é a família e quantas vezes os dramas familiares não são isso mesmo: um imenso mar onde tudo choca, tudo balanceia e se revolve, aguardando por marés mais calma, mais apaziguadoras.
"As palavras já se tinham esgotado quando conheci a tua mãe, talvez tivesse sido isso a tornar o nosso casamento possível, ela nunca teve de me conhecer."
A sensação de não conhecer perdura no leitor por muito tempo, diria até que navegamos sem rumo por mais de uma centena de páginas. A dificuldade de ligar as histórias e saber quem é quem parece propositada, só Oskar nos vai encaminhando e puxando para o presente. E mesmo assim, a forma acelerada e complexa como funciona a sua cabeça, em modos de quase-cientista, ajuda a compor uma autêntica sinfonia com toda a restante família.
"As minhas botas estavam tão pesadas que me senti contente por haver uma coluna por baixo de nós. Como podia uma pessoas tão solitária ter vivido tão perto de mim durante toda a sua vida? (...)
Isso fez-me começar a perguntar-me se haveria outras pessoas tão solitárias assim tão perto. Pensei em «Eleanor Rigby» (título de uma canção dos Beatles). É verdade, de onde vêm todos eles? E onde pertencem?"
 A solidão é uma constante. É uma tempestade avassaladora. Oskar perdeu o pai no atentados do 11 de Setembro e a sua luta é tentar sentir-se mais perto dele, todos os dias. Oskar não o quer esquecer, não se quer desfazer de objectos do pai, não quer que a mãe prossiga com a sua vida. E mais, quer desvendar um mistério por detrás de uma chave misteriosa. E isso levá-lo-à a confrontar-se com a solidão dos outros, as suas emoções mais retraídas e a crescer em mais direcções do que aquelas em que já cresceu para a sua pouca idade de onze anos.
"Outra coisa que também me surpreendeu foi o caixão não estar fechado à chave, nem sequer pregado com pregos. A tampa só estava assente em cima dele (...). Isso não me pareceu bem. Mas, por outro lado, quem iria abrir querer abrir um caixão? Abri o caixão. Fiquei outra vez surpreendido, embora, mais uma vez, não devesse ter ficado. (...) Ou talvez ficasse surpreendido por ele estar tão incrivelmente vazio. Pareceu-me olhar para a definição de vazio no dicionário."
A variação no discurso é complexa e leva-nos até diferentes personagens que convergem para o passado. O passado, mais ou menos longínquo, é constantemente invocado através cartas dispersas, umas guardadas, outras lançadas ao acaso e ainda outras eternamente à espera de encontrarem coragem para as selar e seguir o seu caminho.
A memória e o passado atravessam esta narrativa com a mesma força com que Oskar se empenha na sua busca. "Extremamente alto e incrivelmente perto." é um livro desafiante, recheado de peripécias e uma boa dose de humor negro, devido à forma como Oskar olha e comenta o mundo à sua volta. E é ainda um livro carregado de emoções que ora nos faz olhar ao nosso umbigo, fazendo-nos reflectir, ora nos abre os olhos para uma dimensão muito maior do mundo.

«Aqui estou» de Jonatham Safran Foer :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.12.18

AquiEstou_K_RGB.jpgAqui estou! Estou aqui!As mesmas duas palavras. Sentidos tão opostos.Aqui estou, aceita, sacrifica.Estou aqui, afirma-se, destaca-se.

O novo romance de Foer, após onze anos de interregno, acerta em cheio no leitor e pede-lhe que se renda. Que aceite as atitudes, os sentimentos, as emoções, as decisões e as peripécias da família Bloch face a todas as necessidades da vida familiar, por vezes irreconciliáveis com as exigências do mundo actual.

"A parte de dentro da vida tornou-se muito mais pequena do que a de fora, o que criou uma cavidade, um vazio. Por isso o bar mitzvá parecia tão importante: era o último fio de um laço prestes a romper-se. (...)O rabi entrelaçou os dedos, mesmo como um rabi.- Há um provérbio hassídico que diz: «Quando corremos atrás da felicidade, fugimos da satisfação.»"

Talvez a família Bloch corresse atrás do barulho do tempo. Daquele zumbido de fundo, banda sonora de uma grande parte da vida em que ainda: pai, mãe e filhos convivem em puro ambiente de partilha.Julia, Jacob, Sam, Max, Benjy e Argus, o cão; compõem uma família prestes a atingir duas décadas de história, mas a história deles tem ligações mais ancestrais, o judaísmo e a luta em Israel são personagens maiores que determinam tradição, conceito de família e noção de lar. E é essa vida de fora que tanto povoa a de dentro, que criou um fosso entre todos eles e os demais familiares que os rodeiam. Talvez se brinque às aparências, cumprindo rituais e forçando ligações e assim se vá jogando com sentimentos, numa constante ocultação do ressentimento e das necessidades tão próprias de cada um.

"Tudo era outra coisa sublimada: a proximidade doméstica tornara-se distância íntima, a distância íntima tornara-se vergonha, a vergonha tornara-se resignação, o ressentimento tornara-se auto-defesa. Julia pensara várias vezes que, se ao menos conseguissem seguir o fio até à origem da ocultação, poderiam chegar a encontrar a abertura."

Encontrar a abertura dar-lhe-à abertura para superar o que os separa? Serão os danos, entre familiares, recuperáveis com o passar dos anos? Ou apenas se aprende a esconder melhor o que nos incomoda? E por quanto tempo se aguenta esse esconde-esconde? E os outros, notarão?

Foer diz-nos que sim. Os filhos reparam, a família desconfia e os casais sabem que algo não está bem, mas avançam. «T-B-I-S-T-O-P-A-S-A-R-A-» é o nome de um dos capítulos deste romance, em jeito de prenúncio ou de aviso. Existem várias formas se superação, talvez só seja preciso encontrar o tempo certo para cada um.

"Tentava não repara nas vidas deles, mas era impossível ignorar a quantidade de vezes que o pai adormecia a ver a ausência de notícias, como a mãe se retirava para ir podar as árvores dos modelos arquitectónicos, como o pai agora se servia de sobremesa todas as noites, como a mãe dizia ao Argus que «precisava de espaço» quando ele a lambia, como o pai mudara a palavra-passe do iPad, (...) o fim do contacto visual."

É nessa ausência de contacto visual que deixamos de ver o outro e também de olhar para nós mesmos. Jacob e Julia são personagens interessantes, com complexos e medos transversais a todos nós. Ela com a necessidade de obter nos filhos um escudo, uma desculpa que a tudo dá justificação. Ele com a necessidade de ter e dar atenção, criou laços diferentes, mais flexíveis, mas nem por isso mais íntimos. Ambos se chocam e sentem ciúmes, girando em torno de dois grandes temas: os filhos e o facto de serem judeus, talvez para camuflar o desconforto da vida íntima.

"Ficou à porta até ouvir Benjy respirar fundo. Jacob era um homem que recusava o conforto, mas permanecia à porta quando outros teriam partido há muito. Ficava sempre à porta de casa até muito depois de o carro que levava os miúdos à escola ter partido. tal como ficava à janela até a roda traseira da bicicleta de Sam desaparecer na esquina. Tal como ficava a ver-se a si mesmo desaparecer."

"As armas enterradas na terra de Jacob e Julia não eram tão inofensivas como isso (...)Os rituais domésticos estavam suficientemente enraizados para lhes permitir evitarem-se de forma fácil e discreta. (...) Ela dava o pequeno-almoço aos miúdos, ele tomava duche (...), ela levava os miúdos até ao carro e ia até à rua Newark para ver se vinham carros a descer o monte, ele fazia marcha-atrás."

Duas décadas de feridas demasiado rombas para matar, mas suficientes para equacionar a inautenticidade da vida e representar o espectáculo do divórcio. Nas entrelinhas resta-lhes compreender o barulho do tempo de cada um.

"Demorou algum tempo (...) a perceber do que é que ele estava a falar. O frigorífico estava a ser arranjado, por isso faltava, na cozinha, aquele zumbido omnipresente e quase imperceptível. (...) Esse era o barulho do tempo dele.O meu pai ouvia ataques.Julia ouvia as vozes dos miúdos.Eu ouvia silêncios.Sam ouvia traições e o som de produtos da Aplle a ligar.Max ouvia os ganidos de Argus.Benjy era o único suficientemente jovem para ouvir a casa."

Encarar diferenças, limitações, profundidade das atitudes, necessidade de diversão, de espaço, de conforto ou de um abraço pode diminuir o desgaste próprio da vida e equilibrar melhor a rotina dos dias. «Aqui estou» tem alusões à Bíblia e à Tora, fala do luta dos Judeus, chama à atenção para a guerra eterna em Israel, satiriza e discute a causa, mas acima de tudo é um livro sobre o íntimo de cada um e a compaixão necessária para que a resignação não supere a vida.

«O coração é um caçador solitário» de Carson McCullers :: Opinião

Roda Dos Livros, 18.12.18

«O coração é um caçador solitário» de Carson McCuller é um livro carregado de solidão!
Ao longo de mais de trezentas páginas acompanhamos a tristeza e a solidão de John Singer, mudo mas ouvinte e confessor de um leque vasto de outras personagens, entre elas: Antonapoulos, o grego, também ele mudo; Mick, uma rapariga em debate com a chegada da idade adulta; Jake, bêbado e reaccionário laboral; o doutor Coupland, um médico negro ou Biff Brannon proprietário do New York Café.
"(...) alguns homens optam por se distanciarem dos seus sentimentos, e assim evitam ser consumidos pelos mesmos. Projectam-nos noutro ser humano ou mesmo numa ideia ou num conceito."
"O restaurante ainda não estava cheio. Àquela hora, os homens que haviam passado a noite a pé cruzavam-se com aqueles que tinham acabado de acordar (...). Não se ouvia barulho, nem as pessoas a conversar, pois toda a gente estava sentada sozinha. A desconfiança mútua entre os homens (...) conferia a todos a sensação de alienação."
É entre projecções e desconfianças que vamos conhecemos as histórias tristes destes personagens, todos eles sós, taciturnos e fechados sobre seus dramas, que normalmente são os dramas comuns e intemporais, mas a extensão de dada a cada drama e a densidade que McCuller confere a cada personagem é feita com descrições breves mas extraordinárias; capazes de viciar o leitor naquele enredo, onde cada personagem parece entrar numa competição pela vida mais miserável.
"O proprietário leu o bilhete e lançou um olhar atento e cheio de tacto a Singer. Era um homem de estatura mediana, com uma barba escura e espessa que a parte inferior do seu rosto parecia de feita de ferro. (...) Todas as noites, o mudo passeava sozinho pelas ruas da cidade (...). Gradualmente, a sua agitação foi dando lugar ao cansaço (...). O seu rosto revelava a paz taciturna típica das pessoas profundamente tristes ou profundamente sábias."
No entanto, noutras breves descrições McCuller eleva a importância de pequenos gestos que salvam o quotidiano desses mesmos personagens tristes. Não os priva do sofrimento, mas fá-los acreditar, a eles e a nós leitores, na possibilidade de redenção pela amizade, mesmo que por breves momentos. Exemplos disse são as descrições dos carroceis ou das noites em que Mick procura escutar a música que sai das outras casas. E o melhor é que McCuller cria estes cenários em uma, duas frases breves.
"Essas noites eram secretas e eram o período mais importante do Verão inteiro. Na escuridão, Mick caminhava sozinha como se fosse a única habitante da cidade. (...) Quando ia até às zonas mais abastadas da cidade, todas as casas tinham rádio. As janelas estavam abertas e ela escutava a música na perfeição. (...) escondia-se na escuridão à escuta."
Distinguir entre pessoas tristes e sábias ou revoltadas e sábias e se são pequenas ou não as conquistas diárias de cada um (quando as há) torna-se irrelevante quando compreendemos o que preocupa cada um e vemos problemas sociais de hoje: exploração laboral, racismo, desigualdade de género e a solidão que é uma doença tão potente quanto as outras, mas muito mais difícil de identificar, e aí o livro é ainda melhor e dá às personagens as várias máscaras que a solidão pode ter: revolta, insegurança, melancolia, luto ou até a homossexualidade.
"(...) o mudo era o seu único amigo. Passavam imenso tempo juntos, sentados no quarto silencioso a beber as cervejas. Ele falava e as palavras reflectiam as manhãs escuras passadas na rua ou sozinho no seu quarto. As palavras ganhavam forma e eram proferidas com alívio."
Já tendo referido tanto do que este livro aborda ainda falta referir a alienação própria e inerente a cada personagem, o peso da deficiência ou a violência contra os negros e a fé na palavra de Deus como única salvação. Mesmo assim tudo isto é pouco. Há mais, muito mais, camuflado nas palavras depositadas uma amizade silenciosa com o surdo-mudo Singer.
"Ela falava e ele não compreendia. (...) Era como se a sua cabeça fosse a proa de um navio e os sons fossem a água que batia contra o mesmo, para depois seguirem em frente. Ele sentia necessidade de voltar atrás, à procura das palavras que já haviam sido proferidas."
Mesmo que neste livro tudo seja dramático, escuro, sofrido, miserável e cheio de arrependimentos, a mestria com que Carson McCuller o descreve, cura qualquer ressentimento deixado no leitor pelo destino dado às personagens. É um retrato duro, mas poderoso, da condição humana.

«A história de uma serva» de Margaret Atwood :: Opinião

Roda Dos Livros, 13.12.18

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"Nada muda de um momento para o outro; numa banheira cuja a água aquecesse gradualmente morreríamos cozidos sem dar por isso. Havia histórias nos jornais, claro, cadáveres em valas ou nas matas, mortas à cacetada ou mutiladas, vítimas de violências, como de costumava dizer, mas eram histórias acerca de outras mulheres, e os homens que faziam coisas dessas eram outros homens. (...) Que horror, dizíamos nós, e eram, mas eram horríveis sem serem credíveis. Eram muito melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão das nossas vidas."A banheira é a sociedade e quem está a cozinhar lá dentro somos todos nós, se bem que achamos que são sempre os outros. Os outros a quem acontecessem coisas que não são assim tão a realidade e o espelho da sociedade que está à nossa volta. Uma realidade para a qual não queremos olhar e assumir o nosso papel. Um papel de cidadão activo, consciente e se necessário reivindicativo, capaz de se mobilizar."Se o que estou a contar é uma história, então tenho controlo sobre o final. Haverá então um final, ao que se seguirá a vida a sério. (...) Contar, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, em todo o caso, escrever é proibido. Mas se é uma história, mesmo na minha cabeça, devo contá-la a alguém. Uma pessoa não conta uma história apenas a si própria. Há sempre mais alguém. (...) Juntar um nome, junta-te ao mundo dos factos, que é mais arriscado..."É dessa banheira que June olha e narra a sua recente realidade: a de Serva em Gileade. Ela está lá para servir sexualmente ao seu Comandante e procriar. Parir é a sua missão. O seu valor é o de ser fértil, à semelhança da serva Bila na Bíblia, oferecida no lugar da esposa estéril. E assim ficamos a conhecer Servas e Esposas, para além das Martas e da Tia Lídia, tudo mulheres, mas todas elas com papeis diferentes e extremamente obrigatórios."Aquilo que decorre neste quarto, debaixo do dossel prateado de Serena Joy, não é excitante. Não tem nada que ver com paixão, amor ou romance, nem nenhuma das outras ideias que dantes nos faziam vibrar. (...) A excitação e o orgasmo já não são considerados necessários; seriam meramente um sentimento de frivolidade, (...).A narrativa distópica de Atwood critica ferozmente uma sociedade que segue totalitarismos e o fanatismo religioso, condenando as mulheres à ignorância e à obediência cega, seja às leis divinas ou ao próprio marido. Caso disso é a Cerimónia mensal, um acto de violação mascarado de condor divino ou o próprio ritual do parto onde Esposa e Serva estão, como bichos de circo, num autêntico espectáculo, sem resguardar ou proteger desejos, direitos ou intimidade da mulher.Os disparates e barbaridades seguem-se uns atrás dos outros, aumentando a carga emocional e critica de todo o texto, devidamente fragmentado para que o leitor possa perceber o antes, assustadoramente semelhante à nossa actualidade e o presente, a sociedade espartilhada, abusadora e violenta de Gileade. Também assusta pela forma como hoje alguns países se estão novamente a aproximar da religião como palavra de ordem e de partidos à direita que querem resguardar o papel da mulher, cingindo-a à família e aos filhos. Mais alarmante é em certa parte deixar no ar a suspeita islâmica como desculpa para um Governo suspender a Constituição e o povo ficar, pacientemente, a assistir na tv e à espera de novas ordens."O tempo não ficou parado. Correu por cima , fez-me desaparecer, como se eu não passasse de uma mulher de areia, deixada demasiado perto da água por uma criança descuidada. Fui apagada por ela. Não passo agora de uma sombra (...)"As Servas são realmente sombras. E aceitar como lhes pedem, apenas o desígnio da procriação, juntamente com toda a violência a que estão sujeitas e o constante clima de ameaça e observação, atira-as num desespero suicida, seja ele pelo próprio acto em si ou pelas tentativas de revolta, castigadas com duras pesadas: uma mão cortada, menos um olho ou até a excisão feminina."Estou deitada na cama, ainda a tremer. Se molharmos o rebordo de um copo e passarmos o dedo por ele, produz um som. É assim que me sinto: esse som do vidro. Sinto-me como a palavra estilhaçar."Estilhaçadar é um bom sinónimo para a narrativa de Atwood que assume contornos diabólicos que parecem ser um alerta para as transformações que ocorrem debaixo dos nossos olhos. Pede-nos que passemos da indignação à acção e que não fiquemos apenas a ver acontecer e a julgar que não nos chega a nós.

«Salvação» de Ana Cristina Silva - Opinião

Roda Dos Livros, 07.12.18

"Não grito menos, talvez grite mais baixinho, não choro menos, mas talvez as minhas lágrimas se tenham tornado menos silenciosas. Pela aritmética passaram seis meses desde a morte de Sofia, pelas minhas contas não passou nem um dia.""Salvação" é um livro de recolhimento na morte e de superação pela escrita. Ou do processo de criação de personagens com as quais se reconstrói um sentido para a perda, o luto, mas também o perdão."Eu e David Negro recolhemo-nos na morte da mulher amada e tornámo-nos um só. Esta absorção de um no outro explica que tenha conseguido escrever um capítulo num único mês como se a minha personagem tivesse pegado na minha mão e redigisse por mim as frases."Colonizado pela dor, o narrador deste livro dedica-se a preencher os seus dias com a escrita de um romance, um novo livro imposto pelo mulher que acabou de falecer, um pedido feito estratégia para que ele supere o luto.Dividido em pouco mais de doze meses, acompanhamos os capítulos de "O Livro", escrito também sobre o luto e a perda de uma filha, onde o protagonista David Negro expõe as suas mágoas, memórias e reflexões. Ao mesmo tempo, em capítulos que são as fases de luto do narrador, vamos sabendo mais da sua vida com Sofia e do seu dia-a-dia lutando pela superação."Desde que a minha mulher morreu o meu luto tornou-se num dilúvio que não deixa espaço para mais nada. A dor não é um local iluminado (...) Mas neste momento, sinto que a jornada de David Negro se transforma num dever que vai para além do pedido de Sofia, ainda que esse percurso não esteja, nem nunca possa estar, separador dela. Até porque é minha intenção apontar o dedo ao deus a que ela tanto rezou e aprisioná-lo numa rede de acusações."No longo corredor que é o luto e no qual não é possível passar a correr, o narrador embrenha-se numa complexa rede de memórias, no sofrimento e na culpa, sem esquecer acusações e dúvidas, onde Deus tem um papel decisivo, mas a História e o seu curso também. A forma como "O Livro" percorre séculos, o rumo dos eventos chega até aos actuais e as inquietações ancestrais são equiparadas às de hoje: as crises de fé e de valores e as consequências no ser humano. E assim, desta forma, Ana Cristina Silva cava ainda mais fundo o fosso do abandono e da culpa, retratando muito bem o lado emotivo dessa pressão psicológica."Continuo a falar com a minha mulher, mas lentamente a morte de Sofia vai deixando de ser a medida de todas as coisas. (...) Se a dor tivesse assas e batesse, diria que o seu movimento se foi tornando mais suave (...) Porém, o sofrimento do luto não voa, apenas pulsa por dentro (...) tanto assim que só vivo para me afundar na memória dos tempos felizes."Se retirássemos os capítulos que dizem respeito à escrita de "O Livro", a maneira como a autora relata a perda e a dor é de tal forma emotiva e insistente que traz o leitor para o sofrimento do narrador, tornando a leitura quase aflitiva. E quero com isto dizer que é extraordinária essa capacidade, pois não acho que caia na repetição, mas sim aumentando a densidade psicológica do personagem."(...) Em cada intervenção, ele alcança um novo patamar de profundidade, frases empolgadas, quase poéticas - como se existisse uma estética da morte (...)"Também seguindo uma estética da morte, associada à própria estética de fé e crença, "O Livro" transforma-se num romance histórico que denuncia e relembra o fanatismo religioso do século XVII e o liga aos eventos violentos actuais para os quais o próprio escritor se sensibiliza quando o luto lhe permita se ligar novamente à realidade que o rodeia: a morte no espectro do fanatismo jihadista."Há um momento em que tenho o mais absurdo dos pensamentos: talvez estivesse a ver repetidamente o mesmo grupo de pessoas a sofrer o mesmo atentado (...) Como se aquelas pessoas não tivessem individualidade, como se se tivessem convertido num borrão desfocado de um ecrã, como se a morte se tivesse tornado uma banalidade."

«Se esta rua falasse» de James Baldwin :: Opinião

Roda Dos Livros, 04.12.18

Com mais de 40 anos desde a publicação original, «Se esta rua falasse» (1974) é a primeira obra de James Baldwin (1924-1987) a ser publicada em Portugal, um ano depois de termos tido a possibilidade de assistir ao documentário "Eu Não Sou o Teu Negro" e a obra do autor ganhou projecção bem como os temas por ele abordados: o racismo e a complexidade das classes sociais, juntamente com questões de homossexualidade.
"A mente é como um objecto que apanha pó. O objecto não sabe, tal como a mente não sabe, por que razão o que se agarra a ele se agarra a ele. Mas, quando algo te atinge, não desaparece..."
A crítica refere-se a este livro como um romance-manifesto, expondo a injustiça, o racismo e a desesperança de uma família negra quando um dos seus é preso injustamente. Falsamente acusado de violação, Fonny é encarcerado e a sua namorada adolescente, Tish, descobre estar grávida. A prisão separa-os e impede-os de prosseguir as suas vidas. No entanto, há mais a separá-los, o racismo e a discriminação social numa Nova Iorque da década de 70 que talvez pudesse ser a de hoje e isso confere ao romance a intemporalidade dos grandes livros, seja por esse ambiente social ou pelo eterno enredo amoroso de amor incondicional.
"Acho que deve ser raro duas pessoas conseguirem rir e fazer amor ao mesmo tempo, fazer amor porque riem, rirem porque estão a fazer amor. O amor e o riso vêm do mesmo lugar: mas poucas pessoas lá chegam."
Ambas as famílias lutam, cada uma à sua maneira e com os seus próprios demónios, para entender a seu papel na sociedade, na família e até na segregação mascarada de tolerância e integração igualitária, no entanto, a acusação e a dificuldade de defender Fonny prova-lhes que a luta pelos Direitos Civis está na ordem do dia. Tal como hoje continua e é denunciada por movimentos como Black Lives Matter, para os quais o nome do autor tem sido chamado, especialmente depois da adapatação de alguns dos seus textos para o cinema.
No entanto, Baldwin não expõe, de maneira usual, o tema do racismo, interessa-lhe antes expor a magnitude da família e demonstrar a igualdade dessa forma; nos relacionamentos que todos estabelecemos, nos pensamentos e memórias ou preocupações que todos temos; fazendo um retrato do íntimo , semelhante a qualquer um de nós, independentemente de cor, origem ou patamar social.
"Pais e filhos são uma coisa. Pais e filhas, outra. Não adianta tentar compreender este mistério, tão longe de ser simples como de ser seguro. Não sabemos o suficiente sobre nós mesmos. Acho que é melhor sabermos que não sabemos, porque assim podemos crescer com o mistério, à medida que o mistério cresce dentro de nós. Mas, por estes dias, toda a gente sabe tudo, e é por isso que tanta gente anda tão perdida."
Outra particularidade de Baldwin é o tom da sua escrita, de um encadeamento de frases simples e reduzidas, rapidamente saem parágrafos introspectivos, nos quais facilmente lemos a actualidade da sua escrita: "(...) e a chave para a ilusão é a cumplicidade. O mundo vê o que deseja ver ou, quando as coisas não estão a correr bem, o que lhe dissermos para ver: não quer saber quem, nem o quê, nem porquê."
O que torna mesmo pertinente a publicação de autores como este, é a densidade psicológica da sua escrita. Através de uma linguagem acessível a todos, contribuí para a compreensão do outro, mostrando a pressão psicológica inerente ao ser humano que luta por ser aceite e por se compreender a si mesmo.
"As pessoas fazem-nos pagar pelo aspecto que temos, que é também o aspecto que julgamos ter, e o que o tempo inscreve num rosto humano é o registo desse choque frontal."

«O despertar do adormecido» de Alistair Morgan :: Opinião

Roda Dos Livros, 03.12.18

«O despertar do adormecido» de Alistair Morgan podia muito bem ser apelidado: a tempestade que é o luto e a dificuldade que é despertar para a vida.
Narrado na primeira pessoa, por John, embatemos desde cedo com a morte da mulher e da filha, mortas num acidente de carro. O carro que ele próprio conduzia.
No entanto, a tempestade do luto é ainda maior, pois o enredo traz à cena uma outra família, fragmentada e despedaçada pela morte da mãe. É na infelicidade e no desespero que estas pessoas se cruzam e alterarão para sempre a forma como, cada um, voltará olhar ao sofrimento e ao luto.
"Levo-lhes as canecas de chá e vou buscar a minha antes de me sentar. O silêncio é tão incomodativo que se torna fisicamente doloroso. Que triste trio fazemos! Nenhum de nós está à vontade para conduzir a conversa. Por isso, levamos as canecas à boca e olhamos para elas como se estivessem cheias com as inseguranças dos outros."
As inseguranças e os remorsos, vão consumindo John, bem como Roelf, Simon e Jackie, cada qual com a sua dor e a sua tormenta, bem como a ânsia de conseguirem superar e continuar com a vida que a sociedade lhes pede. Mas por certo não será da forma retorcida e tóxica como Jackie os une.
"Penso no que cada um transporta no seu íntimo, no que pesa sobre eles e os faz vergar. Transportamos todos poços de cólera e de tristeza dentro de nós, como se fossem frutos, e é à volta deles que dispomos a carne dos nossos caracteres e personalidades. Penso em Roelf em particular, e na ligadura de religião em que se envolveu de modo que não perca a sua forma."
A forma com que os pais querem moldar os filhos ou a família, nem sempre assenta no formato que os adolescentes escolhem para si mesmos, e se por um lado temos um pai que se debate com o abismo que o separa dos filhos, do outro temos o fosso de um pai que ficou órfão da filha.
"Pela primeira vez, estou a começar a aperceber-me de que perdi o meu papel na sociedade. Já não sou um pai nem um marido. Não contribuo para a economia de uma maneira significativa (...) Sinto-me um verme anémico que de súbito foi exposto à luz crua da realidade depois de terem virado a pedra sob a qual vivia."
É desta forma metafórica, mas simples e crua que o autor faz constatações sobre o desgosto e a dor e arrebata o leitor, expondo fragilidades e máscaras que são de todos em certas fases da vida, alertando sem alarido ou ferocidade para a fragilidade e o insólito com que a vida se pode obscurecer.

"Às vezes penso que as nossas vidas são como submarinos: sensíveis às mudanças de pressão e constantemente em perigo de meter água."

«Irmão de gelo» de Alicia Kopf :: Opinião

Roda Dos Livros, 02.12.18

«Sê como o gelo, transparente, e retém tudo no teu interior.»

                                                                       Provérbio Inuit

É nesta demanda de reter tudo no seu interior que se situa a exploração que o leitor irá abraçar ao ler este «Irmão de gelo». Kopf explora os pólos, as obsessões brancas, os sentimentos e o tanto que fica por dizer. Não por falta de palavras para se expressar, mas por existirem congelamentos que o crescimento aumenta e escurece; atrapalhando a transparência que esclarece, que une... A demanda do gelo é épica.

"Apontamentos de exploração II:

Épica I

É possível uma épica que não seja imperialista, desportiva ou totalitária?

Épica II

Não há em toda a história familiar uma luta territorial? Espaços domésticos e afectos como territórios por conquistar."

A épica desta narrativa é a luta territorial. Perseguir o nosso espaço, conquistá-lo à família, à sociedade. Às vezes até a nós mesmo, interiormente, numa luta com os vários "eus" que nos habitam.

Não é esclarecedor? Não, não é. Mas que o leitor não comece este livro em busca de esclarecimentos.

Aceite antes a viagem sabendo que o naufrágio pode acontecer a qualquer momento e que nem sempre a bóia de salvação está acessível. Sim, são metáforas. Exactamente. Este é um livro dissolvido em metáforas. Com ideias tão lúcidas quanto o branco virgem da neve, mas igualmente míopes como essa mesma neve que cega e afugenta pelo perigo que representa.

"O quebra-gelo
Encalho com frequência neste projecto. Em meu redor, nada; branco.
(...) Porque não me interessam os exploradores polares por si próprios, mas a ideia de procura num espaço instável. Gostava de falar de tudo isto como uma metáfora, porque o que desejo encontrar é uma épica, uma épica nova, sem adversários nem inimigos, uma épica da própria pessoa e da sua ideia. (...)
Eu procuro-as,"
Alicia Kopf organiza uma exploração a algo tão longínquo como o pólo norte, abismando se com as dificuldades de procura e a complexidade de um icebergue, afirma a congelação e a estagnação, mas também a ruptura, a ameaça e o confronto com um gigante incompreendido e à deriva. Complexo por esconder grande parte de si.
Escondido e fragmentado como a narradora oca e matrioskada desta narrativa.
Noutras divagações a expedição pode ser só a um palmo do nariz ou a algo que repousa na nossa mão; a bola de neve, uma bola de vidro que aprisiona cenários que agitamos, um objecto kitsch que encerra um fascínio ao longo de gerações. Um objecto esquecido, nostálgico. Um presente que encerra em si memórias. Dar e receber, autênticas explorações quando se cingem ao seio familiar.
"Dar algo é criar uma ponte, uma ligação com um certo desequilíbrio, talvez com o objectivo de se equilibrar no futuro ou para compensar uma situação sentida como «excesso» ou generosidade do outro em relação ao passado. (...)
A pergunta fulcral é: em que ponto o verbo dar se aproxima do verbo ser, ou seja, o que se «dá» de «si próprio»? Porque uma relação implica sempre esta troca entre um e outro, este ir e vir que apenas os objectos materializam."

Espero até aqui ter consigo dar a entender que «Irmão gelo» é uma exploração por significados para o próprio leitor. É um olhar para dentro mesmo estando a olhar às análises feitas por outra mão que não a nossa, quando discorre e se alonga com a escrita, como um processo de mediação insaciável, uma terapia constante e absorvente.

"Raiva e degelo

Passeio nos Pirinéus

(...)

Numa família onde a mãe está sempre a trabalhar, o pai não está presente e se tem um irmão autista, mais vale entreter-se sozinho. (...)

A neve é sempre neve, e é uma maneira de manter o vínculo com este lugar inventado que tento cercar através da narração e cujo centro espero conquistar um dia. (...)

Pergunto-me se depois de todos estes anos de estudo, de trabalho e relações amorosas mais ou menos falhadas, me poli ou me desgastei. O que resta de mim é uma jóia ou uma pedrinha?"

«Viagem ao sonho americano» de Isabel Lucas :: Opinião

Roda Dos Livros, 01.12.18

"O que é a América para mim depois de percorridos 97 mil quilómetros do seu território num só ano?A confirmação de que qualquer resposta será incompleta e que a literatura (...), é talvez o melhor meio para chegar perto (...)!
O que será para o leitor depois de quase 400 páginas de viagem nos meandros do sonho americano? A confirmação de que qualquer lista de livros a ler está sempre incompleta e que talvez a melhor solução é mesmo continuar a ler!
"A América pelos livros" pode aqui resumir-se, toscamente por mim, em pouco mais de meia dúzia de palavras que encerram em si mesmas complexos problemas sem solução à vista, são elas: estranheza, medo, imigração, diferença, igualdade, sucesso, discriminação e o que envolve o tal «sonho americano».
De meados de 2016, já em época de eleições, até à vitória e chegada de Trump à Casa Branca, Isabel Lucas percorre quase 100 mil quilómetros em território americano, em busca talvez do intangível: encontrar a América dos livros e confrontar a palavra escrita com aquelas que troca com pessoas, aqui e ali, com as quais procura respostas para essas palavras/questões complexas. O sucesso, o sonho, a igualdade, o racismo, a guerra, o terrorismo e o medo, pautam conversas que suplantam os livros e os seus autores; a tradição e a história; o povo e a origem, e tentam justificar as últimas resoluções políticas.O livro de Isabel Lucas é para ser lido ao sabor de inúmeras sugestões de leitura que nos revelam uma América como uma imensidão geográfica, um colosso de diferenças e a inevitabilidade do caos. Se a paisagem nuns locais esmaga pela aridez e mistério da Natureza, noutros espartilha o indivíduo na invisibilidade das grandes cidades, autênticos impérios de betão e de um mundo obscuro, onde impera um outro tipo de brutalidade."Parar para ver revelou-se uma impossibilidade. Era ir, deixar-me levar entre a multidão e perceber que ficar perdido, sentir-se perdido, não é necessariamente mau."Parar de ler este livro também se revelou impossível. É preciso ler, absorver, reflectir e ir anotando; sabendo desde cedo que iremos pegar em todos os livros pelos quais este livro viaja e voltar a cada um destes capítulos como que para conversar sobre os livros lidos.