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Roda Dos Livros

Estou Viva, Estou Viva, Estou Viva - Maggie O’Farrell

Roda Dos Livros, 30.11.18

40029672Estou Viva, Estou Viva, Estou Viva pede o seu título emprestado a uma célebre frase de A Campânula de Vidro, de Silvia Plath, e é, no fundo, uma celebração da vida enquanto se fala da proximidade da morte. O livro é composto por 17 textos que relatam experiências vividas na primeira pessoa por Maggie O’Farrell, onde relata ao leitor várias situações em que esteve mais ou menos próxima de encontrar a morte. Estes pedaços de vida são-nos apresentados fora de ordem cronológica, o que no início parece algo estranho mas no final acaba por fazer todo o sentido. A autora pega na mão do leitor e, através destes relatos, dá-nos a conhecer a sua visão particular do mundo e fala-nos em todos aqueles momentos em que vislumbrou a morte e que mudaram para sempre a pessoa em que se tornou.

É muito difícil largar este livro assim que o começamos a ler. Maggie O’Farrell escreve com uma autenticidade pouco comum e essa faceta genuína e transparente cativou-me imenso. Ainda que se tratem de situações factuais que nos estão a ser relatadas, a autora fá-lo com uma extrema sensibilidade e uma escrita que parecem setas apontadas ao nosso coração. Fiquei com a sensação que este livro, nas mãos de um escritor menos hábil, seria pouco mais que banal; Maggie O’Farrell transforma-o numa notável celebração da vida contra todas as adversidades.

Dificilmente qualquer elogio da minha parte será suficiente para descrever o quanto gostei deste livro, portanto, deixo-vos com as palavras da autora.

“Não era que eu não desse valor à minha existência; era mais uma questão de ter um desejo insaciável de me forçar a abraçar tudo o que ela pudesse oferecer. Quase perder a vida aos oito anos de idade deu-me uma tranquilidade – talvez excessiva – em relação à morte. Sabia que podia acontecer, a um certo momento, e a ideia não me assustava; a sua proximidade parecia-me, pelo contrário, quase familiar.”

“Não há nada de único ou especial em experiências de quase-morte. Não são raras; toda a gente, diria eu, já as teve, a dado momento das suas vidas, talvez sem sequer se aperceberem. Uma carrinha a passar demasiado perto da bicicleta, quase a tocar-lhe, o paramédico exausto que percebe que a dose devia ser verificada, o condutor que bebeu demais e entrega relutantemente as chaves do carro, o comboio que perdemos quando não ouvimos o despertador, o avião que não apanhámos, o vírus que nunca inalámos, o atacante com que nunca nos cruzámos, o caminho que não tomámos. Estamos, todos nós, a deambular num estado de ignorância inocente, a pedir tempo emprestado, a aproveitar os dias, a escapar aos destinos, a escapar por uma nesga, sem saber quando será dado o golpe.”

«Livrarias» Jorge Carrión :: Opinião

Roda Dos Livros, 29.11.18

Fiquei de olho no livro «Livrarias» desde o artigo do ipsílon onde José Riço Direitinho escreveu: Jorge Carrión, inveterado viajante, escreveu um livro que é mais do que um ensaio em redor de livrarias. Em tom melancólico, vai contando também histórias de leitores e de escritores em lugares que são uma "representação do mundo".

E foi exactamente isso que encontrei durante a leitura. Isso e uma extensa lista de livros para ler, filmes com que me deleitar e futuros destinos de viagem. Alguns é pena já terem desaparecido, caso contrário o roteiro seria ainda maior.

Carrión afirma que as livrarias “São territórios sobre os quais muita pouca gente pensou, territórios quase inéditos em termos de estudos." E talvez seja isso que o livro se torna numa preciosidade. Apesar de "Uma livraria não ser mais do que uma ideia no tempo", afirmação de Carlos Pascual e com a qual o livro abre uma peregrinação para uma rota exótica e que parece longínqua, unida apenas pelos compridos corredores de estantes que unem leitores pelo mundo fora.

Os quilómetros de linhas lidas ou os metros de estantes que se percorrem com os dedos unem os leitores, mas Carrión sugere ainda uma colecção de carimbos, tal e qual como os peregrinos de Santiago obtêm na sua caderneta. A ideia é idílica, mas para leitores inveterados, apaixonados dos livros e dos espaços que os acolhem seria um objecto de valor inestimável.

Eu chamar-lhe-ia a Caderneta do Leitor Peregrino.

"(...) senti que estava a selar algum tipo de documento, que ia acumulando carimbos que certificavam a minha passagem por uma rota internacional das livrarias mais importantes ou mais significativas ou melhores ou mais antigas ou mais interessantes ou simplesmente mais acessíveis naquele momento..."

"(...) todas as livrarias são convites à viagem, elas próprias viagens." e é isso que faz deste livro um convite ainda maior para entrar em tantos livros que o próprio autor sugere. Livros e autores, histórias de vida que se confundem com narrativas, livrarias que pela sua história davam um livro, mereciam uma viagem. Livrarias essa rede de túneis que permite abrir um livro e aterrar em Atenas, abrir o seguinte e chegar ao Japão. É essa a magia dos livros, magia em maior quantidade tem uma livraria e/ou biblioteca pela quantidade de livros que alberga.

"A Biblioteca não pode existir sem a Livraria, que está vinculada, desde as suas origens, à Editora.

(...) A Biblioteca está sempre um passo atrás: a olhar para o passado. A Livraria, pelo contrário, está amarrada ao nervo do presente. (...) A Biblioteca é sólida, monumental (...). A Livraria, pelo contrário, é líquida, temporal, dura tanto como a sua capacidade para manter, com alterações mínimas, uma ideia no tempo. A Biblioteca é estabilidade. A Livraria distribui, a Biblioteca conserva."

Este é um livro por camadas, com histórias infindáveis e autores que perduram no tempo com os livros que nos deixaram e que, década após década, continuam a maravilhar novos leitores. Bem como livrarias que pereceram mas perduram pelos nomes que as frequentavam, pelas histórias quase míticas que ganharam à sua volta e por outras futuras que inspiraram.

Carrión não esqueceu a Lello, a Bertrand ou a Ler Devagar, para falar de Portugal especificamente, mas o mais importante do livro é o apelo ao imaginário colectivo e a importância das livrarias na sociedade, como pólos de conhecimento, de cultura, de debate, de resistência e de fio condutor da memória.

"Ninguém, nem sequer o dono de 89 anos, terceira geração, Mr. L., ninguém conhece as dimensões reais da livraria."

Lo Chin Cheng, Bookstore in a dream

Se esta rua falasse - James Baldwin

Roda Dos Livros, 29.11.18

Se-esta-rua-falasseJames Baldwin é considerado um dos escritores americanos mais importantes do século XX, a que se junta a sua importância como ativista dos direitos civis; encontrava-se, até agora, sem qualquer livro seu traduzido em Portugal, mas em boa hora a Alfaguara decidiu apostar na sua obra.

Se esta rua falasse é um romance breve, com menos de 200 páginas, mas nem por isso deixa menor marca no leitor. Através de uma narrativa na primeira pessoa pela voz de Tish, uma jovem negra de 19 anos, conhecemos sua relação com Fonny, de 21, desde crianças até aos grandes desafios que enfrentam no presente. Através de constantes recuos ao passado das suas infâncias e a um passado mais recente, o leitor rapidamente de familiariza com a bonita história de amor dos dois, num texto que se destaca pela sua singela sensibilidade e pela forma aparentemente simples como relata um amor que parece capaz de vencer todos os obstáculos.

É certo que a linguagem do amor é algo universal e que o amor entre dois negros não será diferente de qualquer outro, mas ao colocar as personagens na Nova Iorque do início dos anos 1970, a relação de Tish e Fonny é inevitavelmente condicionada pelas repressões raciais ainda existentes, que ameaçam o futuro risonho sonhado por ambos.

Ainda que James Baldwin nos mostre situações que marcam pela revolta que suscitam no leitor, achei Se esta rua falasse um livro muito otimista. Não só porque as personagens principais se valem do seu amor para enfrentarem os tempos mais difíceis, mas porque existe um vívido sentimento de família, amizade e comunidade, que nos fazem ter a esperança que o final desejado chegará.

Apesar da história cativante e interessante, aquilo de que mais gostei neste livro foi, sem dúvida, a prosa de James Baldwin. Há uma mistura de contenção e de sabedoria nas suas palavras, na forma como descreve o amor, a vida e todos os sentimentos pelo meio, que não podem deixar de falar ao coração de quem o lê. Por tudo isto, não posso deixar de recomendar este livro. Muito bom!

Não adianta tentar compreender este mistério, tão longe de ser simples como de ser seguro. Não sabemos o suficiente sobre nós mesmos. Acho que é melhor sabermos que não sabemos, porque assim podemos crescer com o mistério, à medida que o mistério cresce dentro de nós. Mas, por estes dias, toda a gente sabe tudo, e é por isso que tanta gente anda tão perdida.

Quando duas pessoas se amam, quando realmente se amam, tudo o que acontece entre elas tem algo de sacramental. Por vezes pode parecer que se afastam muito uma da outra: não conheço maior tormento, nem vazio mais retumbante. Quando quem amas desaparece! Mas esta noite, com os nossos votos tão misteriosamente ameaçados, e os dois postos diante desse facto, embora de ângulos diferentes, estávamos mais profundamente juntos do que alguma vez estivéramos antes.

«Todos os Dias são Meus» de Ana Saragoça :: Opinião

Roda Dos Livros, 28.11.18

"Sempre li muito. Não me lembro de mim em pequena sem um livro por perto - o que deve querer dizer que a minha vida consciente só começou quando descobri a leitura. Os livros afastavam-me do que me rodeava, das colegas que faziam troça de mim, da realidade melhor-que-a-de-muita-gente-mais-ainda-assim-bastante-desoladora da minha infância.

Ao longo dos anos fui-me recolhendo mais e mais nos livros. Recebi todos os rótulos possíveis: empinada, marrona, bicho-do-mato, (...) acabaram todos por me deixar em paz, arrumando-me na prateleira das caixas-d'óculos vagamente apalermadas. O resultado foi uma grande liberdade interior, que é a minha riqueza maior até hoje."

Esta é a voz da "razão", rotula-se a si mesma e apresenta-se através das páginas de um livro resgatado ao lixo. A solidão impera e a estranheza também.

A voz do professor, agora reformado, nostálgico e desamparado completa essa solidão e o abandona à rememoração e imaginação.

O rebuliço do prédio, não menos só, pertence a dois miúdos inquietos, mas só, sem outra companhia para brincadeiras a não ser um elevador acompanhado do vómito diário do cão nervoso da porteira.

A porteira, regateira, é um autêntico jornal de caserna, enche a sua solidão com o sobe e desce com que nos dá a conhecer a vida dos vizinhos. A vida que ela acha que eles têm. E é aí que tudo se torna mais digno de investigação. Conhecer a solidão de uns pelo espelho da solidão de outros e resolver o enigma do cadáver no elevador.

"Naquela noite chamei o elevador e ele veio. Ignorei o deslize da pobre máquina e desci as escadas. A luz do patamar estava acesa, a porta fechada. Sentei-me no último degrau, alimentando uma vaga esperança de que ela se tivesse enganado, mas lá no fundo sabia que acabara tudo.

Tudo o quê? Não me pergunte. O meu luto começou naquele dia, e enterrei-a no dia em que a mataram. Sei que foi assassinada, sei que é uma vítima, sei que ninguém merece morrer assim, mas que quer? Foi como se ela me tivesse fechada a porta na cara mais uma última vez."

Um enredo mirabolante que espalha personagens e vidas que se assumem como tentáculos, sugam o leitor e viciam-no até atingir a última página. Isto sem esquecer as gargalhadas, a inteligência e uma análises incisiva às coisinhas tipicamente portuguesas.

Laços - Domenico Starnone

Roda Dos Livros, 28.11.18

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Domenico Starnone é um conceituado escritor italiano que permanecia inédito em Portugal até à edição de Laços, último romance publicado pelo autor, em 2014.

Laços relata, em relativamente poucas páginas, a longa história de uma disfuncional família italiana. O livro divide-se em três partes, cada uma delas dando a diferente perspetiva dos vários elementos dessa família em relação aos acontecimentos que marcaram o seu crescimento e desenvolvimento: na primeira, lemos várias cartas de Vanda, a mãe, escritas ao marido entre 1974 e 1978, no meio do turbilhão que foi o caso extra-conjugal de Aldo, que levou a que deixasse a família para ir viver com uma mulher mais nova; na segunda, o marido conta a sua versão dos acontecimentos; por fim, temos o impacto de tudo isto na vida dos dois filhos do casal.

Laços faz um retrato brutal daquilo que é uma família presa por arames, ou melhor dizendo, por um conjunto de mentiras aliadas ao comodismo e à manutenção das aparências. Mas é também uma ode às consequências que a falta de amor e sinceridade pode ter não só sobre um casal, mas sobre quem apanha com os estilhaços – os filhos. Este é um livro que nos faz questionar aquilo que mantém uma família junta e até que ponto deverá sacrificar-se a felicidade individual de cada um dos seus elementos em prol do bem comum.

A história não será propriamente original, mas a forma como Domenico Starnone a narra faz toda a diferença. Não precisa de muitas palavras para que o leitor fique com a noção perfeita da essência daquela família, e é essa economia de palavras aliada à sua pungência que marcam a diferença. Só não lhe dou a classificação máxima porque adivinhei, talvez cedo demais, um dos desenlaces finais, mas fora isso gostei muito. Quero, sem dúvida, ler mais deste autor, por isso espero que continuem a apostar na publicação da sua obra por cá.

Tanto eu como ela conhecemos a arte da reticência. Desde essa crise de há tantos anos, aprendemos os dois que, para vivermos juntos, devemos dizer um ao outro muito menos do que aquilo que calamos. Tem funcionado.
 

«Pequenos fogos em todo o lado» de Celeste Ng - Opinião

Roda Dos Livros, 27.11.18

Em Shaker Heights, Cleveland, o pacato subúrbio tem tudo para que a vida dos seus moradores corra às mil maravilhas. É verdade, é cliché, mas as vidas bem-sucedidas são por ali uma colecção digna de caderneta de cromos, artigo usual nos anos 90, precisamente a década em que decorre a acção.Postas as peças em cima da mesa, o jogo começa do fim para o princípio, recuando a acção e o enredo para que o leitor consiga perceber como chegámos aquele fogo posto.No entanto, há regras do jogo e a família Richardson cumpre-as à risca, tendo apenas um pequeno entrave, os filhos, ou pelo menos alguns deles. E é aí que os pequenos fogos alastram.Outra peça menos fácil de encaixar no jogo é Mia, uma mãe solteira recém-chegada à "vila", com uma filha adolescente, Pearl; ambas vão criar laços fortes com os Richardsons, mas também desfazer o seu mundo idílico e cheio de máscaras, abrindo espaço a mais pequenos fogos. Mia é um enigma, um case-study, uma mulher misteriosa que desperta paixões."Concentrou-se na fotografia (...) Era uma fotografia de uma mulher, de costas para a câmara (...), um emaranhado de membros que, apercebeu-se a Sra Richardson com um choque, a fazia parecer uma enorme aranha. (...) acabou por se voltar para Mia com curiosidade. Nunca conhecera ninguém como ela. (...)A Sra Richardson sempre levara uma existência ordeira e organizada. (...)Tinha sido educada para seguir regras, para acreditar que o funcionamento correcto do mundo dependia da sua obediência (...) E depois havia aquela Mia, uma mulher completamente diferente, (...) uma parte dela queria estudar Mia como se fosse uma antropóloga..."Quem mais se sente perturbada por esta propagação incendiária é Elena Richardson, num misto de curiosidade e de medo avança pelo caos que teme poder instalar-se e procura saber mais do passado das recém-chegadas. Talvez Elena seja a personagem mais fascinante, porém a reviravolta na sua vida é expectável."Durante toda a vida, aprendera que a paixão, tal como o fogo, era uma coisa perigosa. Facilmente se descontrolava. Subia paredes e ultrapassava trincheiras. As mais pequenas centelhas saltavam e espalhavam-se (...) Era melhor controlar a sua centelha (...) Ou, se calhar, mantê-la cuidadosamente acesa (...) Cuidadosamente controlada. Domesticada. Feliz em cativeiro. A chave, pensou ela, era evitar a conflagração."Pode o passado ser uma arma directamente apontada a nós e por isso ameaçador e condicionante?Pode a queda das máscaras, tão acarinhadas, condicionar o futuro, abrindo caminhos sem retorno no quotidiano de uma família?Pode, claro que pode. E é isso que Celeste Ng mostra neste seu «Pequenos fogos em todo o lado» dando várias dimensões às suas personagens e histórias de vida, num enredo cheio de camadas.A velocidade inicial com que cheguei a bem mais de metade do livro quase o torna num típico page turner, estava cativada pela escrita e pelas camadas que a autora dá às dinâmicas criadas entre os adolescentes e as próprias mães, instigando curiosidade no leitor, tornando a leitura imparável; mais pelo ambiente de mistério do que pelas crises de adolescência.A aura daquele pedaço americano, já tão falado, era agora descrito de um jeito menos banal, ainda que pejado de referências dos anos 90, facto que tornou o livro tão próximo da minha adolescência. No entanto, a certa parte, ou por desconfiar do desfecho ou por lhe reconhecer semelhanças com algumas séries, desinteressei-me um pouco pela leitura. Ou então, por a certa parte já não querer mais viagens ao passado de Mia, queria sim o calor de cada momento tenso na ligação daquelas mulheres."(...), Mia deixou ficar a mão, como se fosse uma escultora a modelar os ombros de Pearl. (...) Há muito tempo que a filha não a deixava estão tão próxima. Os pais, pensou, aprendiam a sobreviver a tocarem cada vez menos nos filhos. Em bebé, Pearl, agarrava-se a ela; (...) à medida que foi crescendo, Pearl continuou a agarrar-se à perna da mãe, depois à cintura, depois à mão, (...) Agora que Pearl era uma adolescente, as carícias da filha tinham-se tornado raras - (...) - quando aquilo que mais queria no mundo era abraçar a filha com tanta força que as duas se fundissem e nunca mais pudessem ser separadas."É curioso que agora ao escrever sobre este livro, relendo partes, tenha dado conta que realmente gostei mais dele agora do que no momento em que o terminei. É esta a magia dos livros. Só pode!

«Departamento de Especulações» de Jenny Offill :: Opinião

Roda Dos Livros, 27.11.18

"O que disse Ovídio: Se alguma vez fores apanhado, por muito bem que escondas, / Mesmo que seja numa noite clara, jura e rejura que é mentira. / Não te mostres demasiado servil, nem mais atencioso do que é devido, / pois com isso apenas lograrias afiançar a tua culpa. / Esgota-te se for necessário e demonstra na cama dela / que não poderias ser tão bom se acabasses de vir da cama de outra."

"Departamento de Especulações", de Jenny Offill, (Relógio de Água, 2015) é um livro arrebatador. E ao mesmo tempo uma chapada em diversos tons e de difíceis contornos. Ou seja, nem sempre percebemos se as palavras nos apanham em cheio, como os cinco dedos de uma mão ou se é apenas, um indicador esticado que nos cutuca o nariz, em jeito de empurrão mais subtil.
O que é certo é que Offill não escreve sobre nada de novo: um homem, uma mulher, casam e fazem bebés, um dia o homem cansa-se ou sabe-se lá o quê, traia a mulher e a ela, tipicamente como é esperado, dispara em especulações, emoções, divagações e (talvez) separações.
Simples básico banal.
Nada mais errado! E é isso que faz do departamento de Jenny um departamento sem igual nesta empresa compartimentada que é a vida a dois.
"A vida é igual a estrutura mais actividade."
"Os budistas dizem que há 121 estados de consciência. Desses, só três envolvem angústia ou sofrimento. A maior parte de nós passa o tempo a circular entre esses três estados."
Se a estrutura está em risco e a actividade é torturante, minada pelos círculos de angústia e de sofrimento, daí só poderia resultar uma narração conturbada, híbrida e fragmentária, de onde sobressai uma mulher que procura entender, sentir e se abrir ao que a vida tem, agora, para lhe oferecer.
"A invenção do barca representa também a invenção do naufrágio"
"Até ao século XVII, era geralmente admitido que os ímanes possuíam alma. De que outro modo podia um objecto atrair e repeli?"
Com quantos sinónimos e de quantos antónimos se faz uma relação?
Atracção/traição. Amor/paixão. Cumplicidade/solidão. Desejo/ sexo. Intimidade/repulsa.
Há de tudo no inventário de Jenny Offill. Mas de tudo mesmo, abrindo assim o leque de pessoas que pode atingir. E atinge de certeza.
"O que disse Simone Weil: A atenção sem objecto é uma forma de oração superior."
"Uma experiência mental, proposta pelos estóicos. Se estás farto de tudo o que tens, imagina que o perdeste."
É difícil definir, é extremamente complexo de explicar, pois não é só de sentimentos, de desgosto ou desapego, da maternidade ou da complexidade da vida a dois, todo o livro é digno de ler e reler, de pensar nos diversos caminhos que nos aponta... até na profissão a narradora nos surpreende, ela aceita ser ghostwriter de um "quase astronauta" russo.
"Minha Vera, Tua Mãe Já Sabe Usar Naftalina. É a mnemónica que lhe deram para recordar a ordem dos planetas."
Com uma separação digna de quem habita outro planeta, a esposa vai narrando e, ora se afasta, ora se aproxima, como se tivesse ao seu dispor um zoom que procura calibrar.
Ela quer compreender, ela quer aceitar. Especula ensinamentos, palavras alheias, compara-se aos outros e olha para si, para ele, para o "nos". Há até quem diga que este livro é uma ode ao casamento.
 

Encontro de Novembro

Roda Dos Livros, 26.11.18

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Numa tarde cinzenta, de céu nublado chuva chata e ventos fortes, os rodistas melhoraram a sua tarde com mais um encontro entre amigos e livros. Hoje não houve beberete, não pode ser sempre!A sessão de Novembro, tão quase a recta final deste ano de 2018, foi uma reunião concorrida. O pessoal estava animado e conversador e no final até a músicas e outras artes estiveram metidas na conversa, não fosse o livro «O banquete» ser esse festim de referências que abre a conversa a muitos temas.Nas leituras e recomendações, houve de tudo um pouco, desde clássicos e prémios Nobel, banda desenhada e as habituais novidades editoriais que pautam os escaparates e as leituras de alguns dos nossos membros. E convêm não esquecer as malhas e linhas da nossa tricotadeira, que tece sugestões de livros, peúgas e outras mimices quentes para esta época do ano.Os livros fragmentados, desconexos, mirabolantes e difíceis de catalogar também nos ocuparam a conversa, bem como aquela eterna questão se determinado livro tem determinada "idade recomendada" para a sua leitura. As distopias, a ficção cientifica e fantasia levam sempre a conversa até este termo e levam-nos a conversar já fora da biblioteca. Este fim de semana a chuva não permitiu grandes conversas fora de portas, mas para o próximo mês há mais.

A pilha de sugestões deste encontro de Novembro

Renata - «O Banquete» Patrícia PortelaFernanda - «Para viver um grande amor» de Vinicius de MoraesAna - «Burnt Shadows» de Kamila ShamsieIsaura - «História do caracol que descobriu a importância da lentidão» de Luís SepúlvedaRui - «A erva canta» de Doris LessingAna Marques - «O pelicano" de August StrindbergJorge Galvão - «O pintor de batalhas» de Arturo Pérez-ReverteSónia -«O mar por cima» de Possidónio CachapaCélia - «Estou viva, estou viva, estou viva» de Maggie O'FarrellMárcia - «Ecologia» de Joana BértholoCris - «Jogos de Raiva» de Rodrigo Guedes de Carvalho
rlpilha.jpgCréditos fotográficos: Fernanda Palmeira e Márcia Balsas
 

«O corpo dela e outras partes» de Carmen Maria Machado :: Opinião

Roda Dos Livros, 26.11.18

As distinções e ovações quase falam sozinhas sobre a qualidade reconhecida à escrita de Carmen Maria Machado, mas a questão que se principal é:
O que é viver no corpo de uma mulher?
Talvez seja preciso pesquisar muito e lutar por entender a body literacy que encerra cada corpo feminino. 
Carmen Maria Machado explora cada conto com imprevisibilidade e experimentalismo, tal como se percorresse um corpo com ânsia de o conhecer em todos os seus recantos. É assim que eu leio os seus contos. A voz do corpo, a voz por vezes escondida ou recatada. É também o dar voz às mulheres, pelo seu corpo, pelos seus desejos, pelos seus anseios e preocupações e pelas suas metades, feminina ou masculinas. Carmen Maria Machado assume-se metade diva, metade bruxa. Eu diria antes: metade besta, metade bestial. E é isso mesmo: ser mulher, é ser capaz de numa hora ser uma mulher bestial, e na seguinte uma besta. 
Talvez seja preciso ter uma metade mais ligada à fantasia para se gostar destes contos. Talvez! Tudo dependerá muito de cada uma e da realidade de cada quotidiano. E também pelo entendimento que se faz do corpo com que se vive; se o aceitamos ou não.  Assumir o corpo é  talvez a forma mais rápida de entender o lado selvagem que cada uma tem em si, é aceitar que o humor, as necessidades, as vontades, os sentimentos, as paixões, as falhas... oscilam. E oscilar faz-nos questionar. É aceitar, abraçar cada oscilação como uma força.Pela objectiva, cada vez mais afinada, da crítica cultural-feminista o livro de Machado é um livro político, muito centrado nos temas de hoje, um livro que mistura a realidade com a fantasia, alertando para as caixas e caixinhas que determinam o território feminino, condicionado à masculinidade de uma linguagem espalhada pelo mundo fora. Os críticos têm dificuldade em catalogá-la, chegando até ao rótulo de erótico e pornográfico.  Nos oito contos, para além de um experimentalismo constante (a meu ver!), destacamos a forma de narrar que cruza, por palavras da autora, meta-ficção, não-realismo, fantasia, horror e ficção-científica. Tudo unido por uma imaginação recheada de folclore, muito dele proveniente das origens cubanas de Machado. No entanto, o que interessa é o resultado. Todos são contos surreais, abordando constantemente o desejo como um motor poderoso e pequenos padrões, nas personagens, que se repetem e se aproximam à realidade, tão própria, de cada mulher. 

"O Que Perdemos" de Zinzi Clemmons :: Opinião

Roda Dos Livros, 26.11.18

"Perder é mesmo assim, uma coisa completa e irreversível."

Se perder rimasse com desenraizamento, talvez Thandi tivesse lugar numa geografia concreta, fosse ela africana ou americana. Mas não. Não encaixa. O mais certo é não encaixar em lado nenhum. Thandi não é completamente negra para combinar com a sua carapinha na África do Sul, mas também não é branca o suficiente para encaixar numa Pensilvânia onde é vista como imigrante, estrangeira, africana, preta...
Por isso, Thandi remeteu-se à geografia familiar, ao sentir-se segura no amparo da sua mãe. E por isso mesmo, «Tudo o que perdemos» é um relato íntimo, fragmentado e desconexo, revelando a vulnerabilidade de uma mulher à procura de uma nova âncora, alimentada por um misto de emoções.
"Nasci no momento em que o Apartheid morria. (...) Nasci na América, a minha mãe, em Joanesburgo e o meu pai, em Nova Iorque. (...)
- A tua mãe era incontornável - contou-me o meu pai. (...)
A minha mãe aproximava-se dos outros de forma agressiva. Era extremamente obstinada e cáustica. (...) As raízes da minha mãe eram fortes e profundas; os seus relacionamentos, resilientes; as amizades sobreviviam a décadas, oceanos e cortes. (...)"
Durante os primeiros capítulos conhecemos esta mãe arrebatadora e firme, mas também os sentimentos, medos e preocupações de Thandi, muitos deles ocultos para a família, sejam sobre a África do Sul, o bairro na Pensilvânia ou outras miudezas da vida do dia a dia.
"Tenho pensado muitas vezes que ser mulher negra de pede clara é como ser uma pessoa bem vestida que também é sem abrigo."
O feitio da mãe e as regras por ela ditadas como mandamentos, formataram-lhe o olhar e o pensamento. O que a mãe trouxe em si de uma África segregada ou a forma como se moldou a uma  América igualmente violenta, influenciou por completo, a forma de Thandi olhar ao mundo. No entanto, faltava ainda que essas regras se redefinissem à medida dos dias e da idade. E antes disso, a doença levou-a.
A morte da mãe abriu um fosso, buraco esse que não se encherá apenas de coisas simples ou fúteis e muitos dos capítulos são prova disso; relatos dos remendos e das tábuas de salvação, tudo soluções provisórias.
"O meu amor é amável. Não é dado a raiva. É ponderado, bem-disposto e puro. (...) No circuito da minha vida, ele é o chão. Equilibra-me, permite que eu flua num ritmo regular. (...)
Muitas vezes dou comigo, quando discutimos por causa da conta, quando ele mastiga ruidosamente ou se ri na parte errada de um filme, não a perguntar se dou feliz, mas se a minha mãe o aprovaria."
Com a história e o crescimento de Thandi cruzam-se acontecimentos que mudam África, seja a do Sul ou todo um continente colossal; bem como factos incontornáveis que moldam a América, ainda assim o isolamento e as divagações pautam os dias de Thandi.
"A minha teoria é que o isolamento cria um sentimento de assombração."
Dizer que a maternidade vai alterar o curso deste livro não surpreende; ela é todo o motor destes sentimentos e indecisões que transitam em Thandi. Aliás, a maternidade é o que congestiona o trânsito interno da personagem, portanto era de esperar que o mesmo a descongestionasse, Thandi é mãe, mas o sentimento de pena não a abandona.

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