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Roda Dos Livros

«O Diário Secreto de Hendrik Groen aos 83 anos e 1/4» - Opinião

Roda Dos Livros, 22.02.18

capa-diario

"O Diário Secreto de Hendrik Groen aos 83 Anos e 1/4" tem sido um furor internacional, talvez mais ainda por o seu autor ser anónimo. O livro foi destacada na TSF e, embrenhe-se desde já nesta intimidade com traços de realismo, algumas dicas de génio e muitas risadas... até com a desgraça alheia, afinal são quase 94 anos e, coerência, equilíbrio e bom senso, nem sempre são o mais importante. O passado também já não tem importância nenhuma, o futuro resume-se às actividades do clube «Velho mas não morto», o dia a dia, o presente é o melhor presente!!! É redundante!? E ser velho é o quê?

Redundante ou não, é hilariante de certeza, pelo menos descrita do ponto de vista de Groen. Tudo tem um carácter temporário quando se chega a esta idade, tudo menos as maleitas. E não se pense que neste relato, quase isento de lamurias ou lamechismo, não se falam de coisas muito sérias. Expõe-se assuntos tão sérios como o desejo da eutanásia, a solidão e as medidas políticas que são pouco amigáveis para os velhos.

"Um dos pacientes da ala das demências enfiou uma bola de bilhar na boca e não conseguia tirá-la de maneira nenhuma. Emitia sons estridentes enquanto dois enfermeiros tentavam tirar-lhe a bola da boca com uma colher."

"A minha carreira profissional temporário de acompanhador de cão à rua faz com que tenha de dar três voltas por dia. Felizmente o Mao anda ainda mais devagar do que eu. Andar... bem, é mais balançar em câmara lenta."

"Hoje caiu-me um frasco de pepinos das mãos numa tentativa infrutífera de lhe tirar a tampa. (...) Alguém devia reclamar à indústria das embalagens por dezenas de milhares de acidentes (...) Se conseguem mandar homens à Lua, têm de conseguir fazer umas tampas mais decentes, não?! Confesso, hoje estou um bocadinho maçador."

Rimos muito, mas também temos muito espaço para reflectir sobre a velhice. Groen tem dias mais tranquilos, outros mais atribulados e cheios de aventura, mas tem alguns bastante mais dedicados aos outros, onde a solidão, a demência, a doenças, as dependências e as políticas do lar, nos abrem caminho a pensarmos nos idosos de outra forma. Ainda assim, o autor consegue, numa escrita simples e directa, tratar de todos os assuntos com um toque de humor e de simplicidade. Talvez se o olhar geral fosse esse, se evitasse tratar de forma tão fria certas questões da velhice. Porém, nem todos os velhos são Groen's e nem todos seriam capazes de olhar para dentro de si desta forma despreocupada e quase calculista.

"Com a criação do nosso grupo Velho mas não morto houve um aumento na alegria de viver. Parece agora ter sido uma última manifestação de felicidade.

O Evert inválido, a Grietje a ficar demente e a Eefje feita numa plantinha. Um clube de apenas oito elementos não consegue digerir tudo isto, mesmo que se continue a beber bom vinho juntos."

"A minha scooter e eu tivemos um encontro com uns arbustos.

Fui, depois do jantar, dar um giro pelo parque e observei à minha volta uns vinte coelhos sentados por todo o lado na relva a comer. Quando voltei a olhar em frente, tinha um coelhinho bebé a nem sequer um metro da minha roda dianteira. Tenho de ter reagido bem depressa, porque um segundo mais tarde já estava com a cabeça presa entre os ramos."

A mensagem deste livro é bastante importante e extensível a vários "ramos". E desengane-se quem julgue que as queixas deste idoso são diferentes das de muitos aqui em Portugal, aliás, algumas políticas e ideias para lidar com velhos, lares e cuidados paliativos, parecem saídos das nossas notícias.

«Dormir com Lisboa» de Fausta Cardoso Pereira :: Opinião

Roda Dos Livros, 20.02.18

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Apesar da capa bastante apelativa que este livro tem, não resisti a esta foto que encontrei numa das minhas pesquisa e que o emoldura muito bem. E merece.

Conheci a Fausta Cardoso Pereira aquando do seu primeiro livro sobre a peregrinação a Santiago de Compostela e mais tarde li, com bastante entusiasmo, o seu primeiro romance, «O Homem do Puzzle».

Este livro é igualmente um puzzle. As peças são desaparecimentos. Os encaixes que falham são as decisões e inacções de um Governo boquiaberto com a fome de Lisboa por pessoas.

Ambos os romances partem do insólito e são pautados por episódios até plausíveis que degeneram em eventos com traços de fantástico. O insólito dá origem a metáforas para buscas muito transversais a todos nós: reencontros, descobertas, necessidade de ordem e a procura de equilíbrio. Se o primeiro se centrou mais no individuo, este procura analisar a relação de um povo com a sua cidade e de um Governo, pejado de personagens caricatas, confuso e alheado com o estado de sítio que se instalou.  

«Dormir com Lisboa» não é centrado numa personagem ou num evento, mas antes na relação com Lisboa. No que ela transmite, pede e dá àqueles que a amam, a visitam ou a vivem de muito perto, todos os dias, testemunhas da sua História e evolução, mas também dos constantes ataques que lhe fazem, fragmentando e descaracterizando-a.

Excertos:

"Trazia ainda a ânsia de respirar o Tejo para perceber se estaria insonso ou salgado, e sentir-se pequenina na distância que separa as margens. Queria olhar as pedras da calçada, mais ou menos quadradas, mais ou menos do mesmo tamanho, peças de um puzzle que não encaixam muito bem porque a separá-las cresce musgo e erva daninha."

"Lisboa era indiferente ás discussões entre quem lhe tratava da crise. Assistindo a tudo isto, ela convencera-se de que o Grupo de Crise é que estava em crise, pois tratava-se de um conjunto de pessoas cujas dúvidas eram as únicas certezas, mesmo quando queriam dar a ideia que a situação , imprevisível e perigosa, estava controlada e sabiam o que fazer."

"Enquanto a dona Emília Gualter falava, o Inspector percorria-lhe o rosto e o corpo em busca de sinais que denunciassem os seus noventa anos. Reparou nas pontas do cabelo grisalho (...) nos dentes brancos que o fizeram questionar se seriam dela ou placa, no pescoço sempre levantado, incapaz de se curvar ao amarrotado que seria de esperar (...) nas costas direitas como as de uma bailarina. Não havia ali noventa anos; apenas a continuação interrupta de uma forma de senhora."