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Roda Dos Livros

Encontro de Dezembro

Roda Dos Livros, 18.12.17

Celebrando rodas e rodas, pilhas e mais pilhas de livros, chegou a época de fazer o último encontro Rodista de 2017, por isso, esta sessão é mais do que um balanço de leituras do mês de Dezembro, é um encontro de amigos e uma celebração. Uma festa!RL-Dez-colagem.jpgUma roda à mesa, como de costume, mas desta vez, para além dos muitos livros, ha também iguarias, chá e vinho. E muita conversa, muitas gargalhadas. Exactamente como o clima de celebração pede. Chegar a uma Roda dos Livros é aterrar nessa tal mesa apinhada de livros, mas também de caras sorridentes e amigas que nos recebem de braços abertos.RL-Dez-colagem2.jpgPertencer à Roda dos Livros é por si só um mimo que damos a todos cada mês que passa, ouvindo uns, contrapondo outros, gargalhando com quem nos entende apenas por um piscar de olhos ou um trejeito nos lábios. Nas sugestões de leitura há de tudo, espelhando a diversidade que estes encontros acolhem.Aqui ficam as sugestões deste mês:

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  • Célia Marteniano: «Instante» de Wistawa Szymborska
  • Cris Rodrigues: «Mea Culpa» de Carla pais
  • Fernanda Palmeira e Isabel Castelo Branco: «O Amante» de Marguerite Duras
  • Sónia Maia: «Pão com fiambre» Charles Bukowski
  • Jorge Galvão: «Os despojos do dia» deKazuo Ishiguro
  • Vera Sopa «Os loucos da Rua Mazur» de João Pinto Coelho
  • Ana Borges: «Frida Kahlo» e «A Catedral do Mar» de Ildefonso Falcones
  • Renata Carvalho: «A Leste do Paraíso» de Steinbeck
  • Cristina Delgado: «O Castelo de Vidro» de Jeanette Walls
  • Isaura Pereira: "Letters to Father Christmas» de Tolkien
  • Catarina Graça: «The Bell Jar» de Sylvia Platt
Que chegue 2018! Este ano entramos em grande. A Roda dos Livros celebra 5 anos de vida. Cinco anos de livros, leituras, encontros e amizades. Que venha que é para termos festa. 

Os Loucos da Rua Mazur - João Pinto Coelho

Roda Dos Livros, 10.12.17

O Holocausto não é de todo um dos meus temas favoritos, mas quando soube do lançamento de "Os Loucos da Rua Mazur" não pude deixar de estar presente, e com isso, a leitura tornou-se premente. A curiosidade levou a melhor, a que não foi alheio o sucesso anterior. E o prémio Leya. Um fim de semana de frio bastou, mas não foi uma leitura rápida e tranquila. O talento de João Pinto Coelho torna-a visceral.
 
A história começa pela inocência, com os cogumelos. Três crianças, três amigos, antes do início da Segunda Guerra Mundial numa qualquer comunidade da Polónia onde judeus e católicos coabitavam. Um lugar sem nome, referido como shetl, palco da tragédia, como outras. Universal. Sessenta anos depois, o livreiro cego aceita encontrar as imagens que faltam ao amargo amigo de infância para concluir o último livro. Shionka é a misteriosa e relevante personagem do trio.
 
A narrativa em dois tempos vai de antes, durante e depois da guerra, seguindo o rasto das personagens, sem nunca se enlear, até Paris. O fantasma, esse não chega ao fim. Louco. Como outros o foram. O ódio e o ciúme que enlouquecem. Temível, numa sentida leitura que faz vacilar. Escrito assim, dá que pensar e demais recear. Parabéns" 
 
Sinopse:
Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.Paris, 2001. Yankel - um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama - recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram - e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk - hoje um escritor famoso - está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira.
Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne - a editora que não diz tudo o que sabe -, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Uma Mulher Desnecessária - Rabih Alameddine

Roda Dos Livros, 07.12.17

36273735Rabih Alameddine é um escritor e pintor de origem libanesa, que vive atualmente entre Beirute e São Francisco. Em Portugal, tinha já sido publicado O Contador de Histórias, de sua autoria, um livro que confesso me ter passado ao lado, mas que me passou a interessar bastante depois de ter lido Uma Mulher Desnecessária. Não vou esconder que o que me atraiu neste livro foi a importância que a literatura parecia ter para a protagonista desta história, para além de achar que é sempre bom ler sobre países cuja realidade praticamente desconheço.

Aaliya é uma libanesa na casa dos setenta, que vive sozinha no seu mundo. Este seu mundo é composto, quase em exclusivo, pelas personagens e vidas das histórias que lê e traduz. Aaliya não tem propriamente uma profissão que seja o seu ganha-pão, mas o trabalho da sua vida é traduzir livros para árabe, não para serem publicados mas porque é isso que gosta de fazer. Aaliya não é uma mulher fruto do seu tempo, que se tenha vergado a um casamento indesejado – apesar de isso ter feito parte da sua vida – ou às normas da sociedade onde vive: ela escolheu o seu caminho, e esse caminho passava por viver no mundo dos livros.

Ao longo da narrativa, escrita de uma forma belíssima por Rabih Alamedinne, são inúmeras as referências literárias (as notas de rodapé, na sua grande maioria bastante úteis, ultrapassam a centena). Aaliya observa o mundo e entende-o com a ajuda dos grandes mestres da literatura; Fernando Pessoa e os seus heterónimos são um favorito e aparecem constantemente. A protagonista não parece propriamente ter encontrado respostas para tudo a partir das reflexões dos seus escritores preferidos, mas antes encontrou neles uma forma de compreender melhor o mundo que a rodeia, algo que não consegue alcançar através da família ou das pessoas que encontra no dia-a-dia. O conforto que Aalyia encontra nos livros é frequentemente contraponto à profunda solidão advinda da recente velhice; se, quando era mais nova, os livros pareciam bastar-lhe, o avançar da idade traz-lhe de volta questões por resolver – nomeadamente com a mãe – e a tímida vontade de finalmente poder falar com alguém, encontrando bondade e amizade onde menos esperaria.

Uma Mulher Desnecessária é um livro comovente, muito bem escrito e que, quanto a mim, peca apenas pelo final demasiado em aberto. A empatia que cria com o leitor é, quiçá, fruto da sensação familiar de que um escritor conseguiu finalmente pôr por escrito aquilo que sempre sentimos e que nunca antes tínhamos conseguido explicar. É um livro que exalta a importância da literatura, nunca esquecendo que ao ser humano a solidão, eventualmente, não basta. Muito bom.

A Gorda - Isabela Figueiredo

Roda Dos Livros, 04.12.17

agordaAdvertência: Todas as personagens, geografias e situações descritas nesta narrativa são mera ficção e pura realidade. Assim se inicia A Gorda, deixando desde logo o leitor avisado para as possíveis intersecções entre os eventos narrados neste livro e a experiência pessoal de Isabela Figueiredo, que se estreia com este livro na ficção. Narrado na primeira pessoa ao longo de vários capítulos cujo ponto de partida é uma divisão da casa, a autora dá-nos a conhecer Maria Luísa, nascida em Moçambique e enviada pelos pais para Portugal em 1975, ao longo da sua infância, adolescência e maioridade, numa narrativa que alterna constantemente entre período temporais da vida da narradora.

Maria Luísa é uma miúda inteligente, dedicada e voluntariosa, que vive condicionada pelo seu aspeto físico. O seu excesso de peso não influencia só quem é fisicamente; acaba por também definir que ela é, e a pessoa em que se vai tornar. Maria Luísa mostra-nos, enquanto relata os episódios que marcaram a sua vida, a constante vontade de se libertar das amarras impostas pela sua aparência e o conformismo com a mesma, numa viagem marcada pelas constantes visões opostas sobre os aspetos fundamentais da sua vida. Tão depressa quer livrar-se da presença e influência dos pais como reconhece que os ama e que nunca quer despedir-se deles; a sua relação complicada com David passa constantemente de algo sem o qual não pode viver para algo que a consume e do qual se quer livrar; o próprio peso define-a e é parte dela, mas Maria Luísa sabe, lá no fundo, que a sua vida seria completamente diferente sem ele.

É um livro que fala, claro, do impacto que tem a aparência na vida de uma pessoa. Mas é muito mais do que isso: não fala só sobre a forma como a sociedade (não) aceita as pessoas que fogem do “normal” a nível físico; acrescenta uma muito relevante perspetiva de como essas pessoas se aceitam a si próprias. Maria Luísa é um poço de contradições e a sua forma de encarar a vida, os seus dilemas e frustrações perturbam o leitor porque, lá no fundo, todos temos um pouco de Maria Luísa. Isabela Figueiredo conseguiu, quanto a mim, construir uma personagem que marca o leitor porque o fere, quando desbragadamente pôe por palavras aquilo que muitas vezes sentimos mas não queremos admitir.

No final de contas, achei A Gorda um livro poderoso. Muito bem escrito, perturba e mexe com o leitor. Deixa uma marca quando a última página é virada. Ainda que não o considere perfeito devido a alguma repetição de ideias, foi um livro que gostei muito de ler e que me deixou a certeza de que vou querer ler futuras publicações desta autora portuguesa.

Ainda penso como gorda. Serei sempre uma gorda. Sei que o mundo das pessoas normais não é para mim. Continuo a ter o defeito, mas não se vê tanto; tornou-se menos grave.