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Roda Dos Livros

Um Estado Selvagem - Roxane Gay

Roda Dos Livros, 30.11.17

940188Que livro brutal. Já tinha lido muitas coisas boas sobre Um Estado Selvagem, romance de estreia da escritora norte-americana Roxane Gay, mas penso que nada me preparou para o que encontrei. Narrado (quase sempre) na primeira pessoa, este é um livro que retrata um episódio de rapto de Mireille Duval Jameson, descendente de imigrantes haitianos nos Estados Unidos da América. Quando visita aos pais no Haiti com o marido e o filho bebé, Mireille é raptada por um grupo que exige que a família dela pague um milhão de dólares pelo seu resgate.

O livro divide-se em duas partes: a primeira relata os 13 dias em que Mireille esteve sob o jugo do grupo que a raptou, com vários flashbacks à sua vida anterior, na qual nos fala da relação com a família e com o marido, bem como de todas as coisas que fizeram a Mireille de antes; na segunda parte, depois da sua libertação, ficamos a conhecer a Mireille de depois, inevitavelmente outra mulher, profundamente marcada por tudo o que lhe aconteceu.

Roxane Gay não poupa nos horrores que descreve enquanto Mireille se encontra cativa. Ela sofre todo o tipo de abusos, sexuais, físicos e psicológicos, e é incrível a forma como sentimos que aquela mulher está a morrer aos poucos, ainda que o seu corpo resista.

Transformei-me em ninguém. Transformei-me numa mulher que queria viver. Era essa a minha resistência. […] Tomei a minha escolha. Não há nada que não se possa fazer quando não se é ninguém.
Ainda que o evento do rapto e a viagem ao interior de Mireille sejam os pontos fulcrais deste livro, Um Estado Selvagem é, também, o retrato de um país assolado pela pobreza, pela corrupção, pelo crime e pelo medo. Mas não só: a imigração e os complicados sentimentos de pertença, quando não se sente pertencer a sítio algum, são também temas importantes, e que me fizeram recordar os livros que li do dominicano Junot Díaz.
Adorávamos o Haiti. Detestávamos o Haiti. Não compreendíamos, nem conhecíamos, o Haiti. Anos depois, eu continuava a não o compreender, mas almejava pelo Haiti da minha infância. Quando fui raptada, percebi que nunca mais voltaria a encontrar esse Haiti.
Este é um livro difícil de ler, porque o relato na primeira pessoa de Mireille é muito visceral e violento. Roxane Gay consegue muito bem transmitir a dor física e psicológica da personagem principal. Sofremos com ela e torcemos para que ela consiga transformar os horrores de que foi vítima em algo que a torne mais forte, ainda que saibamos que isso talvez seja impossível. Tal como Mireille jamais conseguirá esquecer o que lhe aconteceu, também é muito provável que o leitor não esqueça facilmente esta história. Muito bom.
Era uma vez a minha vida, que era um conto de fadas, e depois roubaram-me de tudo o que eu alguma vez amei. Não houve felizes para sempre. Depois de dias a morrer, eu estava morta.

Debaixo da Pele - David Machado

Roda Dos Livros, 27.11.17

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Ando há anos para ler o Índice Médio da Felicidade, mas, por um ou outro motivo, foi-se-me escapando entre os dedos. David Machado publicou este ano o seu mais recente romance, Debaixo da Pele, e porque me foi emprestado, foi por aqui mesmo que decidi começar a conhecer melhor este autor (depois de breves incursões pelos seus trabalhos dirigidos a um público-alvo infanto-juvenil, em Os Livros do Rei ou Acho que Posso Ajudar).

Debaixo da Pele é um livro dividido em três partes: “Júlia não está cá (1994)”, “Notas para um romance sobre uma rapariga que não suporta ser amada (2010) e “As cassetes do Manuel” (2017). Na primeira parte, conhecemos Júlia e Catarina, a primeira uma jovem de 19 anos que vive atormentada pela violência de que foi alvo por parte de um antigo namorado e a segunda uma menina de 5 anos, vizinha de Júlia, que vive no seio de uma família disfuncional, em que os pais passam o dia a gritar um com o outro e a mãe a ser constantemente vítima de agressões físicas. Estas duas almas perdidas encontram-se e Júlia vê surgir em si um instinto maternal que a leva a fugir com a menina, rumo a algo desconhecido, um sítio onde não existisse dor. Só que Júlia está demasiado quebrada e as coisas acabam por tomar um rumo inesperado.

Anos mais tarde, um homem de meia-idade, que está preso, reescreve os acontecimentos que o levaram à prisão, quando uma jovem mulher entrou na sua vida e desfez a solidão de que se rodeava. Por fim, uma criança de dez anos, que vive com a mãe num local recôndito do Alentejo, tenta lidar com os motivos que levaram ao seu isolamento com a mãe, enquanto descobre que o medo e a coragem que movem a sua progenitora lhe toldaram o mundo de cores que não são as únicas que existem.

Como seria de esperar, as três histórias possuem pontos de contacto que deixarei por revelar, de modo a não estragar a leitura de quem ficar interessado nesta história. Mas posso dizer que a relação de Júlia e Catarina é um ponto essencial, e a violência e a forma como se lida com traumas passados um fio condutor. Um dos aspetos mais bem conseguidos neste livro, na minha opinião, são as vozes distintas de cada uma das partes. A dor de Júlia, na primeira parte, é palpável, e quase temos vontade de saltar para o livro e salvar aquelas duas almas das suas vidas miseráveis. A segunda parte, a cargo do homem preso, que reescreve a sua história pela voz de Salomão, é um exercício estilisticamente interessante e que transmite muito bem a sensação de arrependimento e confusão. Por fim, a inocência de Manuel na terceira e última parte são enternecedoras, bem como a vontade de ajudar a mãe e de conhecer o mundo.

Literariamente falando, acho que este é um livro muito bem escrito, com temas importantes desenvolvidos de modo satisfatório. Pessoalmente, faltou algo que ressoasse comigo, com quem sou e com o que vivi. Isso não é estritamente necessário, claro, mas neste livro em particular senti que seria importante. Apesar de tudo, foi um bom livro. Deixou-me, sem dúvidas, com vontade de continuar a explorar mais a obra deste jovem escritor português.

O corpo é o início de tudo, mas também carrega memórias impossíveis de serem desfeitas.
 

Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes - Elena Favilli e Francesca Cavallo

Roda Dos Livros, 23.11.17

36174629Se tivesse de escolher apenas uma palavra para descrever este livro, escolheria inspirador. A segunda seria, muito provavelmente, belo. Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes começou por ser um projeto de crowdfunding na plataforma Kickstarter, em que o valor inicialmente pretendido de quarenta mil euros acabou por chegar a cerca de um milhão – um recorde para um livro neste tipo de iniciativas.

O livro reúne um conjunto de 100 mulheres, apresentadas por ordem alfabética, que se distinguiram num determinado quadrante da sociedade, por nunca terem receado alcançar os seus sonhos. Cada personalidade tem direito a uma ilustração original e a uma pequena biografia que, tendo em conta o público-alvo juvenil e o próprio objetivo do livro, não é demasiado extensa e destaca apenas os traços gerais da sua vida. As ilustrações foram criadas por 60 artistas, sendo uma delas portuguesa – Helena Morais Soares, que desenhou a artista mexicana Frida Kahlo e a ativista sul-africana Miriam Makeba.

Se é certo que o título aponta para que as raparigas sejam o público-alvo deste livro, eu acho que é um livro que pode (e deve!) ser lido pelos dois géneros. Para as raparigas, as histórias destas mulheres serão, certamente, uma fonte de inspiração e uma prova de que, quando existe força e determinação, uma mulher não deixará de ser quem deseja ser pelas amarras do género; para os rapazes – e eu aqui falo como mãe de um – é importante que se semeie desde cedo a ideia de que a igualdade de género é uma questão importante, mostrando-lhes  histórias de mulheres extraordinárias que, outrora e atualmente, tiveram de ultrapassar grandes obstáculos para alcançarem os seus objetivos.

Mas mesmo para adultos este livro é uma preciosidade. Desde logo pelo facto de ser um belo objeto de coleção, graficamente muito apelativo e bem conseguido, mas também porque traz em si a possibilidade de entrar em contacto com personalidades que desconhecia – pelo menos, foi isso que me aconteceu. A forma como estas mulheres nos são dadas a conhecer, quase em tom de conto de fadas, é extremamente cativante. Tenho de confessar que me senti pequena face a tantas mulheres extraordinárias, mas ao mesmo tempo tive vontade de fazer mais e melhor. A minha expectativa, que é quase uma certeza, é que o impacto que este livro teve em mim seja multiplicado exponencialmente em jovens ainda em formação.

Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes é um livro maravilhoso, inspirador e pertinente. Recomendo sem quaisquer reservas e aguardo ansiosamente que o segundo volume, que sairá em breve no original, chegue depressa a Portugal.

«As pessoas do drama» de H. G. Cancela :: Opinião

Roda Dos Livros, 22.11.17

Convêm primeiro que tudo dizer que as narrativas criadas por Cancela atraem o leitor para um redemoinho de ideias e sensações, difíceis de explicar, seja enquanto se lê, seja já depois, quando se vai digerindo e relendo certas partes. Ou seja, julgo que Cancela escreve com o propósito de expor o leitor a uma certa angústia que se cruza com episódios de violência, emergindo o leitor na mesma experiência traumática em que desenvolve os seus personagens. Personagens esses que se confundem, seja no carácter, nas decisões ou nos dramas com os de outros seus livros, mais propriamente em «Impunidade». No entanto, este «As pessoas do drama» explora muito a arte de imitar a vida e ao mesmo tempo a dificuldade de vivê-la desapegada da imitação, da dissimulação e do uso, constante, de máscaras.

"O palco imitava o mundo que imitava o palco sem se dar conta de que imitava uma caricatura de si mesmo. A incongruência era que a caricatura parecia mais espessa do que o ponto de partida."
Cancela explora, já como no anterior romance, a solidão, a condição do vazio, a transgressão e a expiação, a espiral destrutiva a que as escolhas conduzem, o pecado e a amoralidade; como que numa colecção de peças preciosas, que constroem personagens com preocupações próximas das de todos, mas com actos que apelam a uma certa repugnância e confusão. Repete-se o incesto. Insiste-se no percurso auto-destrutivo, que encena a humilhação e antecede-a, mas não a evita, antes pelo contrário, faz dela uma herança, quase uma tradição. Ainda assim, o poder que essa força exerce é de acumulação e não de aprendizagem. Os personagens caminham em paralelo com uma história que conhecem, mas seguem-na na mesma, como se o seu conteúdo interno não fosse forte o suficiente para contrariar o apelo exterior.
É difícil perceber se será mesmo esta a menagem do enredo, há sempre algo que percebemos não ser dito. Partes que são explicadas por metáforas que poderão ter diversas interpretações. O corpo talvez comparado à cidade; com heranças dos anos, que se deteriora e esconde detalhes decisivos que nos enviam mensagens que não sabemos descodificar.
"À minha volta havia um mundo morto. Se tal era visível nas ruínas que construíam o coração da cidade, era-o de um modo menos evidentes, apesar de mais forte (...) elas surgiam-me como manifestação de um mundo em degradação. (...) Não era diferente do modo como o tempo se amalgamava, antepondo o efeito à causa, a punição ao crime, a redenção à culpa..."
Na parte central do enredo temos um homem que talvez possamos apontar como errático, que divaga entre a solidão, como parte integrante do seu ser, e a obsessão por uma mulher, uma actriz que descobre num filme. Laura, é uma personagem no lato sentido da palavra, a sua vida é uma amálgama de personagens que lhe toldam as decisões, anulando-lhe a vontade. Para decidir por ela temos o encenador, um homem que parece amá-la, mas que a humilha e oprime. Todo este composto formará mais que o típico triângulo amoroso. Todos eles são assombrados por memórias e por outras pessoas que já foram, para além do conhecimento que tentam ter de si próprios e a culpa que a isso está associada. Nesta parte central está também a tragédia grega e uma interpretação mais profunda de Antígona (a peça que traz Laura à cena) poderá dar mais camadas às interpretações que retiramos do enredo.
"Respondeu que sabia pouco de lama, mas compreendia a vedação, mesmo que não a víssemos, nunca deixava de haver alguma e talvez fosse preferível sermos nós próprios a construí-la."
Julgo que a culpa pode aqui representar uma enorme vedação, tal como a máscara a que a convivência com os outros obriga, mas mais ainda a que por vezes se vê reflectida no espelho, contribuindo mais para a dor do que para a felicidade. Porém, nem sei se se possa dizer que estes personagens fujam da dor ou persigam a felicidade, julgo que prefeririam partilhar o peso da culpa e a solidão que não se esgota.
"Visto dali, não havia nomes, rotas, gente, talvez houvesse história, mas mesmo ela parecia incompatível com o que se avistava. (...) O que sobrava, o resíduo seco, seria ele próprio atirado para o charco. Talvez acabasse por o reabsorver, tornando possível repetir o processo e confundir experiência com conhecimento, sem pretender que houvesse a capacidade de aprender com os erros, pois entre ir e voltar, fazer e repetir, não restava mais do que uma grosseira tentativa de manipulação, uma comédia obscena na qual quem ri só ri para esconder a vergonha de si mesmo."
Sobra ainda a reflexão sobre o poder da manipulação e o quando dela compõe a vida, anulando inocência e esperança, encaminhando para o flagelo da decadência e o vazio criado por tantas incertezas.

«A bofetada» de Christos Tsiolkas :: Opinião

Roda Dos Livros, 22.11.17

Li este calhamaço (538 páginas) nuns poucos dias de férias e só pensava numa questão: quantas camadas de pele é que esta bofetada atinge?

Muitas, com certeza. Só pode. A dureza e a realidade que Tsiolkas narra são tensas, explosivas e algumas até amorais, no entanto, convivem lado a lado com vidas que se assemelham a perfeitas, famílias supostamente felizes, boas categorias profissionais e educação de filhos menores. Mas o leitor que não se engane, este livro não traz uma bofetada só, traz muitas e de variada intensidade, algumas chegam até sem ruído algum. Resultado: o leitor sai um bocado amassado e um tanto menos esperançoso nas pessoas e na sociedade, mas literariamente falando, sai muito rico.

"Sem abrir os olhos, sentindo um sonho a dissolver-se tão rápido que já nem se lembrava de qual era, Hector levou uma mão ao outro lado da cama, num gesto indolente. Óptimo. Aish já se tinha levantado. Soltou um vigoroso peido, enterrando o rosto bem fundo na almofada para fugir ao pegajoso fedor a metado."

Indolente é cada capítulo, um melhor que o outro, onde cada personagem em destaque aumenta a tensão do episódio inicial. Harry dá uma bofetada numa criança, Hugo de aproximadamente quatro anos, um menino que não é seu filho. O chocante, para além deste acontecimento, são as opiniões que se dividem pelos mais variados motivos. Nesses motivos, vamos destapando as vidas, as relações e a mediocridade de cada um no seio da sua vida privada. Nenhuns são isentos de podres e segredos e cada capítulos explorará de forma brilhante a mentida, as drogas, os lados profissionais menos bem sucedidos, as expectativas de futuro que saíram frustradas, a violência doméstica, o álcool e a velhice, tudo muito bem esmiuçado como se de uma doença degenerativa se tratasse e que os fosse consumindo. Mirrando-os de forma a já só se ver o que resta, o que não podem esconder mais.

"Abrira a porta e olhara para a rua. Era Verão, havia sol e o ar estava parado e não se via vivalma. Ficara na entrada durante uns bons dez minutos , de mala ao ombro, de punho fechado sobre as chaves, a contemplar o mundo. Não és livre, dissera a si própria. Se queres sobreviver a isto, se não queres matar-te ou matar o teu filho, tens de perceber que não és livre. A partir de agora, até ele poder virar-te as costas e afastar-se de ti, a tua vida não significa nada - a vida dele, é a única coisa que importa. Fora então que dera um passo atrás e fechara a porta, deixando lá fora a rua, o mundo."

Sem dúvida que é de punho fechado e de pedras na mão que vamos encontrar algumas destas personagens, tanto Harry, como Hector ou Gary são homens destroçados, mas as suas mulheres também não o são menos. Os pedaços que vão sobrando de eventos violentos e do passar dos anos vão deixando mágoas e buracos que não se podem tapar. Mas no final importarão? Que peso deixam essas marcas quando se chega à velhice?

No capítulo dedicado a Manolis, pai de Hector e sogro de Aish, que reflecte o passar do anos, julgo que certas conclusões são igualmente uma bofetada, talvez uma de pragmatismo e de aceitação.

"Manolis olhou em redor da cozinha. Koula cobrira as paredes com fotografias dos netos. Adam acabado de nascer, Melissa no Zoo, Sva e Angeliki na aldeia na Grécia, fotos da escola, fotos do Natal, os miúdos sentados nos joelhos do Pai Natal. Porque é que eles tinham de crescer? Cresciam e tornavam-se egoístas. Acontecia com todos eles, sem excepção. Manolis estava cansado; os homens viviam demasiado tempo, mas, todos que eram, agarravam-se com desespero à vida. Se ele fosse um cão, já alguém o teria abatido com um tiro na cabeça."

Não há aqui tiros na cabeça, mas pouco falta. «A bofetada» é realmente um grande livro e que vale muito a pena a sua leitura.

"Iria ao armário dos medicamentos e encheria uma seringa com sessenta miligramas de Pentobarbital. Injectaria o anestésico líquido e verde num saco de soro fisiológico e depois prenderia o saco ao doseador. Regularia o débito do aparelho para o máximo. Depois, introduziria o cateter na veia, provavelmente no braço esquerdo, e ligar-se-ia o aparelho. Um morte esmeralda. Adormeceria, morreria. Continuava a achar que era o método mais humano para abater um animal; e o que eram os seres humanos senão animais?"

«Caderno de MEMÓRIAS COLONIAIS» de Isabela Figueiredo :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.11.17

"Era África, inflamante, sensual e livre. Sentia-se crescer por debaixo dos pés. tremia. Um coração inchado. Era vermelha. Cheirava a terra molhada, a terra mexida, a terra queimada, e cheirava sempre."
"Nesse momento houve um vácuo de tempo em que não fomos pessoas, não tivemos culpas nem prazeres; nada humano - só nós; senti ao longe o odor da sua carne transpirada, ácida e doce, que era a minha, dos seus ombros e rosto, um abraço que não pudemos desapertar nunca; e ainda não, e em lugar nenhum, nunca, porque não era apenas um abraço, mas uma aliança invisível, muda, que mantínhamos, à qual fui fiel mesmo quando o traí."
«Caderno de MEMÓRIAS COLONIAIS» de Isabela Figueiredo é uma declaração de amor a Moçambique e ao pai. Um paixão e uma admiração quase secretas e caladas. Uma declaração de memórias conturbadas e pesadas, mas escritas de uma forma que fluí no leitor e só apetece agarrar e ler sem parar. O mesmo aconteceu aquando da leitura de «A Gorda» e tenho vontade de dizer que este livro supera o outro, não fosse a estrutura de casa que o outro tem. Este pode ainda ganhar pelos segredos que se revelam e o lado ainda mais cru e desempoeirado.
Isabela transporta o leitor para onde ela quer e é isso que se torna inesquecível na sua escrita, no seu relato íntimo e sem pudores. Lourenço Marques, o colonialismo e o racismo, as abruptas diferenças, o trabalho e a imagem; as rendas das suas roupas, os cães famintos e os restos que componham as vidas dos pretos; os pretos só por si, renegados para último plano; a metrópole e as políticas que estavam lá longe, tão longe como o horizonte; o 25 de Abril e a inversão da história, a violência e o peso de uma catana; o calor e a terra queimada... tudo isto e muito mais. Tudo cabe na escrita deste Caderno.
"«Os negros mataram, à catanada, o marido e os filhos da Conceição, no Infulene; lembra-te disto, desmembraram-no todo, estava espalhado no milheiral... foi o teu pai que lhe encontrou os bocados...!»"
(...)
Na metrópole não conheciam a catana. Seria necessário descrever as características e potencialidades dessa arma. Só depois contar,
Largas como as do talho, a maior parte, mas longas, com lâminas largas, ligeiramente curvadas (...) A catana podia transformar qualquer corpo vivo numa massa aleatória e informe de órgãos. Em segundos. Era um instrumento de morte e poder como nenhum outro. (...)"
No Caderno cabe também e não podia faltar a morte, o desterro, o desenraizamento, a solidão, a pobreza, a recriminação e a culpa e tantos outros sentimentos que vão sendo expressados ao longe de pouco mais de duzentas páginas.
"Um desterrado é também uma estátua de culpa. E a culpa, a culpa, a culpa que deixamos crescer e enrolar-se por dentro de nós como uma trepadeira incolor, ata-nos ao silêncio, à solidão, ao insolúvel desterro."
Nesta trepadeira de memórias que se apoderam desta escrita ficou só a faltar uma epígrafe sonora como «A Gorda» tem.

«A Gorda» de Isabela Figueiredo :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.11.17

Um livro que começa com uma epígrafe sonora repleta de músicas que oiço de anos para cá e que sempre são capazes de me arrancar memórias, sorrisos, lágrimas, sentimentos e até alguns arrepios, é desde logo muito bom sinal. Escolhi não ouvir todas logo no começo, aliás, a leitura foi tão ávida que só voltei a olhar às mesmas agora que fechei o livro e vejo que fazem todo o sentido face ao relato que aqui é narrado.

"O monstro da fome é um grande amigo quando está saciado.

Sinto-me consolada. Se não, vai-me espetando no estômago o seu refrão, para que não me esqueça. Não esqueço. Acalma-te, fome, eis as tuas oferendas! Pão com marmelada. Pão com manteiga. Pão com chouriço. Teria preferido sentir fome nos pulmões para saciá-los com grandes golfadas de ar. Ou no coração, para correr e acelerar a pulsação. Calhou-me o monstro multicéfalo da fome no interior do estômago, ligado ao cérebro.

É como se tivesse cogumelos a crescer no interior escuro e húmido do meu corpo."

«A Gorda» é um livro que coloca em nós um feitiço, nos faz rir e dançar, mas também é capaz de provocar dor e solidão. Leva-nos até outros tempos, os da infância e da adolescência, voltam as memórias de rebeldia vivida ao som de Nirvana, juntamente com a descoberta de Joplin ou The Doors, até uma fase já mais madura, onde essas e outras canções nos apelam a imagens que até parecem já não nos pertencer. E atrás de uma imagem, outra e mais outra, que a vida se vai compondo e ganhando os seus cheiros, as suas músicas, imagens, pessoas e coisas, pequenos e grandes nadas que de anos a anos se fecham em caixas e se pensam arrumar, longe da vista, nesta ou naquela divisão da casa, mas a casa acaba por nos habitar e nos fazer recordar. E de canto em canto, vamos revivendo anos e anos de memórias, na casa de família, já depois do retorno a Portugal.

É isso, «A Gorda» é um livro de memórias, escrito ao ritmo dos dias de hoje, percorrendo os cantos à casa, como quem se percorre a si mesmo. Sendo imperdoável e mutilador com o passado, o presente e até o amanhã. Isabela Figueiredo traçou um diário de bordo de mais de trinta anos de memórias e administra no leitor uma generosa dose da história de Maria Luísa.

"Mas que vitória? A minha vida oscilava entre os momentos de pragmática e dura realidade e os de evasão em estado puro, graças à capacidade de fantasiar com que Deus me dotou para que me aguentasse viva. Uma bênção concedida! Recorresse eu a ela nos bons ou nos maus momentos, sempre que dela necessitasse. E o resto: os cães, os gatos, os ouriços, as flores, o mar, a literatura, a arte e o pensamento... Poderia ter-me concedido também a graça do sono. Isso é que teria sido divino! A insónia persegue-me ao longo das inúmeras vidas que já vivi nesta."

O drama, o humor, as recordações e a vida vivida como gorda, mostram bem as mágoas e as ironias pelas quais Maria Luísa passou. É fácil partilhar da sua sátira e aceitá-la, e chegamos a torcer para que as coisas lhe corram de outra forma. A certa altura todos somos a história dos outros e os outros estão dentro de nós, da nossa casa, partilhando e vivendo como iguais.

"O sexo era uma brincadeira, mas a sério, sumarenta e líquida como descascar uma laranja e comê-la, sem palavras próprias nem regras. (...) Não podia ser possível nem verdade que os nossos pais se entregassem a um gosto tão bom depois de nos ensinarem a encará-lo como vergonha.

Não somos capazes de ver os pais como pessoas iguais a nós, como penso que eles não são capazes de nos ver como pessoas que também já foram, antes de se terem tornado aqueles que conhecemos. Somos continuações e prolongamentos uns dos outros, que se escondem e se temem."

Perguntem a Sarah Gross - João Pinto Coelho

Roda Dos Livros, 20.11.17

Perguntem a Sarah GrossNa maioria das ocasiões, vou alinhavando ideias ao longo da leitura e depois, quando chega a altura de escrever a minha opinião, trato de juntar as peças e tentar montar o puzzle. Mas, por vezes, acabo um livro e não faço ideia do que vou escrever sobre ele. Estou desde ontem, quando terminei Perguntem a Sarah Gross, a tentar perceber como explicar o que este livro me trouxe, o que me acrescentou enquanto leitora. E mesmo agora, quando começo a conseguir juntar umas palavras a seguir às outras, não estou certa que o vá conseguir.

Antes de mais, queria dizer que já tinha este livro por ler há mais de dois anos. Comprei-o por ler boas recomendações, e continuei a tê-las ao longo deste tempo. No ano passado, fui ter com o autor à Feira do Livro de Lisboa e pedi-lhe um autógrafo. Mas tenho para mim que há livros que nos vão escapando entre as mãos porque a elas querem voltar no momento certo. Este livro escolheu-me agora, e agora foi o momento certo.

Acho que posso afirmar com alguma segurança que não é muito comum um escritor português escrever ficção sobre / decorrida no Holocausto. João Pinto Coelho escolheu essa via – arriscada, quanto a mim – com a segurança de quem desbrava o seu caminho rumo à (quiçá) inalcançável compreensão do que se passou naqueles anos terríveis, no aproximar da metade do século XX. O livro não é sobre o Holocausto, note-se, mas as suas garras não mais o largam assim que dá um ar da sua graça.

Aprendi bastante com este livro. A nível histórico, porque não sabia muito sobre a realidade das comunidades judaicas polacas no período que antecedeu a 2.ª Guerra Mundial. É notória a pesquisa intensa que precedeu este livro, a tal ponto que quase se tornou desnecessário apontá-lo nos agradecimentos finais. Mas a minha aprendizagem não se limitou a questões históricas. Houve um acontecimento neste livro que me fez doer o coração, que me rasgou por dentro, e que me fez crescer enquanto mulher e mãe, porque me fez sentir agradecida por cada momento de felicidade que vivo. Acho que será difícil alguma vez conseguirmos imaginar uma parte infinitesimal do sofrimento por que as vítimas do Holocausto passaram, mas este livro faz-nos chegar lá perto.

Dito tudo isto, só posso mesmo recomendar: vão descobrir quem foi a Sarah Gross e a vida incrível que viveu. Escreve-se bem em português, e que bom é perceber isso.

«Estoril, um romance de guerra» - Opinião

Roda Dos Livros, 19.11.17

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O «Estoril, um romance de guerra» no Livro do dia TSF

Entramos neste livro, recheado de episódios verdadeiros,que fizeram parte da História da Segunda Grande Guerra e tornaram o Hotel Palácio num dos refúgios da Europa, pela mão de Gabi, uma criança de dez anos que chega sozinha ao Hotel Palácio e ali ficará à espera dos seus pais.

O destino de Gabi foi como o de tantos outros que se refugiram neste cantinho idílico e mais seguro, fugindo às perseguições da Guerra e aos possíveis desfechos mais violentos. Apesar de seguro, não era um ambiente isento de ameaças e a prova disso eram os inúmeros espiões e este livros trá-los para dentro do enredos, cruzando a espionagem com as particularidades de cada história.

"O rapaz não gostou da resposta por esta ser pouco lógica.

- Estás a exagerar. O que há de insuportável aqui? Isto é um lugar bonito.

- É um lugar lindíssimo. Parece-me uma espécie de paraíso, claro e triste. Quando vejo estas pessoas, não sinto indignação, nem ironia, mas uma vaga angústia, a mesma que nos assalta num jardim zoológico perante os sobreviventes de uma espécie em extinção. Vestem-se para jantar como noutros tempos. (...) Esforçam-se por experimentar a esperança, o desespero, o medo, a inveja e a satisfação. Tal como seres vivos. É irreal. Lembra um verdadeiro baile de fantoches, mas é triste."

Em tempos conturbados como os actuais, importa reforçar e relembrar a posição de muitos refugiados e aqui neste «Estoril» encontramos refugiados e exilados, nazis e aliados, judeus e cristãos. Ou seja, tanto as vítimas como os carrascos pautam os episódios que Stankovic escolheu.

"- O mérito não é meu. Isso é de família. Um envelhece como uma catedral, outro como um chinelo, mas na velhice não é fácil nem para um nem para outro. (...)"

A forma como vamos acompanhando Gabi e as suas amizades e a forma meio inocente como o pequeno se vai criando e formulando as suas ideias é, a meu ver, a parte mais interessante do livro e a ligação ao livro «O principezinho» está bastante bem misturada com os factos que lhe são narrados e que fogem à sua compreensão.

Os momentos de tensão são equilibrados com os períodos mais documentais e os diálogos ajudam a amenizar o clima do exílio. Cabe realmente ao leitor decidir se lê este livro como um romance meramente ficcionado ou se tem curiosidade por ir descobrir todos os detalhes verdadeiros. De uma forma ou de outra julgo que é um livro capaz de agradar a muitos leitores.

*

Dejan Tiago-Stankovic viu o seu romance premiado na Sérvia, país onde nasceu e para onde tem levado alguns dos autores portugueses, fruto do seu trabalho de tradução e o mesmo tem feito com autores sérvios, traduzindo-os cá.

«Raparigas Mortas» de Selva Almada :: Opinião

Roda Dos Livros, 18.11.17

"Quando eu era pequena, adorava ir ao cemitério. Nas tardes soalheiras, nos domingos de inverno, com sacos de crisântemos ou dálias, flores que o avó plantava no seu jardim com o único objectivo de enfeitar as sepulturas dos nossos mortos.

(...)
Havia sobretudo dois túmulos que me causavam fascínio e espanto, um sentimento romântico, obscuro, que uma menina de sete ou oito anos não conseguia perceber."
Não é assim que começa o livro, mas bem que podia que podia ser. É que o que se segue torna-se igualmente mórbido e soturno. A obsessão revelada nestas páginas tem mais intensidade que muitos policiais e thrillers psicológicos, tal é a profundidade com que se procuram detalhes e mais informações para perceber os crimes contra estas mulheres.
"No tarô nunca aparece sequer o rasto de Sarita, viva ou morta. É a única das três que nunca fala. A Senhora diz que sente que Sarita está viva ou, pelo menos, esteve viva até há pouco tempo. (...) Mas por outro lado, eu digo que se eu nunca sonhei com ela é porque continua viva. Se estivesse morta, teria voltado em sonhos para se despedir."
É entre crenças, cartas e adivinhações que por vezes pensamos estar dentro de um romance mais negro e onírico, apelando a seres esotéricos e a espiritualidades, tão ao bom jeito e tradição da América Latina, no entanto, «Raparigas Mortas» não é um romance. Nem tão pouco um policial. Mas também não é apenas um livro de não ficção, não é um texto panfletário e reivindicativo, de apelo e consciencialização, contra a violência que tantas mulheres sofrem. Não, não é nada disto, mas é um pouco de cada uma destas coisas, criando um registo próprio, por vezes quase alucinante, que baralha e desnorteia o leitor.
"Recordo as fotos que vi de María Luisa. A que o irmão me mostrou do seu corpo na morgue, inchado, enlameado, com partes do rosto comidas pelos pássaros. E outras duas que vi no processo.
Uma também é do seu corpo, no sítio onde a encontraram. Está tirada a uma certa distância, é uma fotografia a preto e branco. Vê-se o corpo de uma mulher a flutuar na água. Faz-me lembrar o quadro de John Millais, o de Ofélia morta. Como a personagem de Hamlet, María Luisa jaz de barriga para cima."
Leio este parágrafo e a minha cabeça dispara para a voz quase gutural de Nick Cave e a fragilidade de Kylie Minogue naquele cenário que me fez lembrar a imagem descrita por Selva Almada, já que a sua escrita consegue ser frágil e até bela e descrever o horror e a impunidade.
"(...)
Tão decididas a ignorá-lo que deverá ter sido uma surpresa a mão no ombro de Rosa, por trás, fazendo-a girar, com os olhos avermelhados de Juan como que a suplicar de novo, a mesma mão atraindo-a para si, a outra cravando-lhe o punhal, ela a cair, os dois a cair sobre o passeio, ele apunhalando uma e outra vez, a mãe dela a gritar, a correr à procura de ajuda. Rosa a olhar para ele fixamente, ainda sem entender. Demorando a morrer. Ele em cima dela metendo e tirando a faca. Ela debaixo dele como na cama da pensão. Ele todo salpicado de sangue. Não aguentando o olhar dos olhos claros de Rosa, Juan abriu-lhe a garganta de lado a lado. (...)"
Que mais se pode transcrever para mostrar que este livro é um grito que se levanta e clama por todas estas vítimas e outras mais, espalhadas mundo fora. Mulheres que morrem apenas por serem mulheres. Mulheres que morrem às mãos de namorados e maridos violentos ou apenas homens ao acaso que julgam que as mulheres são para ser subjugadas às suas vontade, anulando-lhes as vontades próprias. Anulando-lhes a vida. É narrando esse horror e a impunidade desses crimes que Selva Almada dá vida a estas mulheres.
"Talvez seja essa a tua missão: juntar os ossos das raparigas, montá-las, dar-lhes voz e depois deixá-las correr livremente até onde tiverem de ir."

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