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Roda Dos Livros

Roda dos Livros – Sugestões de outubro de 2017

Roda Dos Livros, 16.10.17

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Depois de um mês com "duas Rodas", outubro mostrou-se parco em presenças... sete 'rodistas' e uma visitante não deixaram, no entanto, de fazer uma festa à roda das leituras.

Das leituras mas não só... com poucos participantes "sobrou-nos tempo" para divagar, e as conversas, desta vez, foram diretas para osgas, ratos, cobras e baratas... entre nojo e gargalhadas, a Roda esteve no seu melhor, e não faltaram poemas de amor.

Sem animais rastejantes ou quaisquer outros, deixamos as nossas sugestões de outubro. Escassas mas de peso e variadas, como sempre.

Célia - "Fora do Mundo", de Michael Finkler

Ana - "Estro in Watts - poesia da idade do rock", de vários autores

Fernanda - "A instalação do medo", de Rui Zink

Cris - "O Pianista de Hotel", de Rodrigo Guedes de Carvalho

Renata - "Entre Amigos", de Amos Oz

Isabel - "A Elegância do Ouriço", de Muriel Barbery

Rui - "Bairro da Lata", de John Steinbeck

 

 

Fora do Mundo - Michael Finkel

Roda Dos Livros, 11.10.17

35154099Em 1986, o jovem de 19 anos Christopher Knight entrou numa das florestas do estado norte-americano do Maine e achou que era um excelente local para ficar. E assim foi, ao longo de 27 anos. Com um misto de habilidade e sorte, Christopher Knight conseguiu, ao longo de quase três décadas, permanecer escondido da civilização que estava apenas a três minutos a pé do local a que chamou lar. O eremita de North Pond, como passou a ser conhecido pela população local que via as suas casas serem constantemente assaltadas por Knight para obtenção de bens alimentícios e de outros que se destinavam a proporcionar-lhe algum conforto (como bilhas de gás ou pilhas), foi finalmente apanhado em 2013 por um guarda florestal que vivia mais ou menos obcecado com esta figura e com a perspetiva de o levar à justiça.

Depois de Knight ser apanhado, foi notícia em vários jornais e foi assim que o jornalista Michael Finkel, autor deste livro, tomou contacto com esta história. A solidão em que Knight viveu durante tanto tempo era algo que Finkel queria descortinar, pois ele próprio encarava o silêncio como fundamental na vida constantemente frenética que se vive nos dias que correm. E foi por isso que entrou em contacto com o eremita e falou com ele por diversas vezes enquanto esteve preso, sendo essas conversas a base fundamental da história que conta neste livro.

O ser humano estranha, naturalmente, modos de vida completamente díspares do seu. Muitos, de imediato, apelidam essas pessoas de loucas ou, na melhor das hipóteses, estranhas; outros, como Michael Finkel, optam pela compreensão e pela tolerância e tentam mostrar que, no final de contas, não há um modo certo de viver. Há, sim, a procura da felicidade e da liberdade, e cada um poderá tentar fazê-lo da forma como achar melhor. É fácil, numa primeira instância, rotular Christopher Knight de ladrão e imoral; afinal de contas, viveu 27 anos a praticar pequenos furtos e a criar insegurança nas pessoas que moravam perto da “sua” floresta. E é importante referir que, em nenhum momento, me pareceu que Finkel pretendesse desculpabilizá-lo ou justificar esses atos. O próprio Knight sabia que o que estava a fazer era errado e esse aspeto do seu isolamento do mundo foi mesmo aquele de que mais se arrependeu. No final de contas, pareceu-me que achou que não tinha alternativa.

Fascina-me a forma como encaramos o mundo, como formamos as nossas opiniões e tudo o que para isso contribui. Gosto de me considerar uma pessoa tolerante e compreensiva, ainda que ache que todos os dias é preciso trabalhar nesse sentido. Gosto cada vez menos de julgar as opções dos outros ou de achar que sei como devem viver as suas próprias vidas. Acho que a nossa felicidade é inversamente proporcional à importância que damos ao que os outros pensam ou dizem sobre nós. A forma como encaro o mundo, hoje, teve o contributo decisivo de muitos dos livros que li até hoje. Ajudaram-me (e continuam a ajudar) a viajar, a conhecer outras pessoas, a pensar sobre este mundo em que vivo. Fora do Mundo foi mais uma das pedras que usei para construir este castelo, em permanente formação, que é a minha vida. Obrigada, Cris, pelo empréstimo.

Ronda das mil belas em frol

Roda Dos Livros, 05.10.17

A Fernanda Palmeira falou dele na última Roda e aproveitei para ler…

Qual sentinela, iniciei a ronda das (mil) belas em flor, de Mário de Carvalho. Foram elas: a Gherda, a Madalena, a Antonieta, a Cremilde, a Mónica, a Olga, a Marta, a Patrícia, a Magda, a Dionilde, a Zulmira, a Bruna, a Aurora, a Adozinda, a Yolanda, a Senhora e a Católica.

A cada final de canteiro, perdão, conto ou capítulo, adensava-se uma questão em mim: mas para quê a “ronda” quando, a final, a sensação que fica é a de de que cada bela não cumpre os desígnios, logrando ficar aquém das “expectativas” geradas quando, na verdade, não há (quase) nada mais triste do que um jardineiro descontente com o seu jardim?

Ora a bela se revela pueril, ora sabida, ora dissimulada, ora bruta, ora ela mesma uma mulher de rondas, ora tomada de uma lassidão, ora demasiado empenhada, ora desligada, ora meio louquinha, ora arrebatada, ora mais promessa do que concretização, ora casada e arrependida, ora casada mas não arrependida, ora envaidosada, ora jovem demais, ora frontal em demasia, ora presumivelmente indiscreta, ora, ora…!

Para quê enveredar por uma vida de “ronda”, qual libelinha, voando de frol em frol? Se nenhuma “bela” vale, de facto, a pena, se nenhuma merece ao menos uma elegia, por pequena, ao “rondador”? Uma vida de ronda não pressupõe compensações sem fim? Um manancial de inolvidáveis momentos de desfrute? Um éden? Não cessava de me questionar, ensimesmada, ao longo do livro.

Mas eis que chegamos ao último capítulo, denominado de “Epílogo” e logo notamos que tais questões também se colocaram ao Autor! E que conclui ele? Leiam para saber, que eu não estou aqui para fazer spoiler!

O que não posso é deixar de realçar a elegia que aí, sim, é feita ao sexo feminino. Não sem lançar alguma poalha de ironia, o Autor coloca-se, enquanto Homem, no humilde papel de espectador dos delírios, da volúpia, da beleza que elas, as mulheres, lhe concedem com displicência, sem que, todavia, alguma vez lhe seja permitido penetrar no seu rico interior, reservado e inescrutável. Como se Deusas no altar da mais reservada igreja se tratassem. A sua satisfação, como Homem, é essa: assistir e tirar proveito. E avançar, por entre a dissimulação, que é o apanágio das belas em frol…

O que achei verdadeiramente admirável neste livro de Mário de Carvalho foi a cuidadíssima linguagem utilizada na descrição das sucessivas “rondas”. Quem leu Bukowski, ou Miller, ou Ubaldo Ribeiro entenderá o que quero dizer (não que desconsidere estes autores, pelo contrário!). Mas exultei ao ver que sim, que é possível escrever um livro destes sem que a linguagem descambe para a vulgaridade, para a gíria, para o calão, o que seria facílimo, dado o contexto.

Excertos“Não poucas mulheres são intensas, efusivas, entusiásticas, e, ouso dizer, desvairadas, no momento da verdade. Querendo, podemos observar, friamente, enquanto elas revolteiam naqueles turbilhões que convulsionam, em simultâneo, o etéreo e o imerso, o que está em baixo e o que está em cima, sem falar dos quatro elementos. Visão deslumbrante: a própria ideia de beleza, o sublime, resplandece no semblante de uma mulher em êxtase. Outro mundo. Coisa misteriosa e, às vezes, assustadora. Meio confundidos, nós, humildes, vamos latejando por cá. Resta-nos a volúpia do prazer que se desencadeou. Mas, elas, por onde deambulam? Por quais paragens?E, no entanto, não lhe é difícil confessar que passariam bem sem o sexo e estranham, condenando-a, a disseminação de amores, esse milagre da multiplicação dos corpos, das curiosidades, as surpresas. O proselitismo da monogamia – felizmente mais declarado que praticado – chega a ser fanático.(…)Não há mais elegante delineio da Natureza que aquela abençoada fenda, sulcada de macios aconchegos, figurando duas mãos que rezam, unidas ao alto, entrada de catedral, gasalho de mistério. E todas individualmente distintas, como o rosto de cada qual. Se não fossem as cargas semânticas que, através dos tempos, tergiversam e desfiguram, eu era muito homem para utilizar o vocábulo “fisionomia”. A mais fascinante não será, porventura, a mais proporcionada e canónica. Celebra-se cada mínima imperfeição da mais esplendorosa ogiva do mundo, onde confluem em subtil harmonia a Arte e o Além.(…)Sapatos de ferro gastaria eu de bom grado neste caminho. A graça, o donaire e o fascínio de cada bela em frol torná-los-ia jeitosos e andadeiros.”“- Vou ser transferida, sabe?- Para onde?- Haia.- Já avisou todos?Ficou um momento em suspenso, um indicador interrogativo, entre a boca e a aba do nariz. Depois rompeu a rir, alto, e puxou-me para si.Bem que serão felizes tantos holandeses».

“Não há amores eternos. Já basta que não sejam infelizes.”

Acerca do Autor:Mário de Carvalho é um autor português, nascido em Lisboa, em 1944, descendendo de famílias do Alentejo. Licenciado em Direito, foi preso político pela PIDE, tendo, após, procurado asilo político na Suécia, em Lund. Regressado a Portugal após 1974, exerceu advocacia, mas a escrita acabou por ser a principal actividade por que é reconhecido, tendo os seus muitos livros, de géneros diversos, sido objecto de variados e importantes prémios.

É assim Que A Perdes – Junot Díaz

Roda Dos Livros, 03.10.17

9789896412999Não fosse dar-se o caso de a Márcia ter falado sobre este livro e ter-me-ia, muito provavelmente, passado despercebido.

“É assim Que A Perdes” é um livro único, daqueles que ficará na estante, na memória.

Junot Díaz consegue a magia de transmitir, em 9 contos que se interligam, encontros e desencontros, amores e desamores, encantos e desencantos, perdas “que se querem perder”, perdas de “quem se quer perder” e de “quem não se deixa perder” e de quem (se) perdeu para sempre.

Neste livro acompanhamos os amores e os humores de Yunior... pelas quentes origens dominicanas, no sentido estrito e no sentido figurado... pela gélida América, também em ambos os sentidos... pelo pai, pela mãe, pelo irmão, pelos amigos e, sobretudo, pelas mulheres, as suas e as que habitam o seu mundo, os amores platónicos e os amores vividos e aqueles que sendo uns “deveriam” ter sido outros.

Os sentimentos de euforia e solidão, as emoções, os envolvimentos, e a perda, a perda sempre omnipresente, o peso da perda que só se descobre depois de ter acontecido. Mulheres que se sucedem para fazer esquecer a anterior, ou a primeira, ou a única... Os quês e os porquês, as diferentes razões das perdas de Yunior. As relações de amor/ódio, inveja e o mais puro dos amores.

Um livro extraordinário em que a crueza da linguagem não soa estranha nem desenquadrada. Não será, certamente, um livro de consensos, e poderá ser, até, para algumas pessoas, um livro de choque pelas palavras duras e pelo calão utilizado. Um livro de que gostei muito.

Um livro cuja sinopse descreve na perfeição, talvez a melhor sinopse que já li.

 

Excertos

“ Claro que tu a conhecias; era tua vizinha, dava aulas no liceu de Sayreville. Mas só nos últimos tempos é que tinhas reparado realmente nela. Na vizinhança havia muitas mulheres de meia-idade como a Menina Lora, solitárias e destruídas por todo o tipo de catástrofes, mas ela era uma das poucas que não tinham filhos, que vivia sozinha e que ainda tinha um ar jovem. Alguma coisa devia ter acontecido, especulava a tua mãe. Na cabeça dela, uma mulher sem filhos só se podia justificar por alguma calamidade descomunal.Se calhar não gosta de crianças.Ninguém gosta de crianças, garantiu a mãe. Isso não impede que as pessoas tenham filhos.(...)” (p. 114)

“(...) E depois, numa noite de junho, rabiscas o nome da ex e: A meia-vida do amor é para sempre.Acrescentas duas ou três coisas. (...)É um começo, dizes em voz alta.E é isto. Nos meses seguintes, atiras-te ao trabalho, porque isso infunde uma espécie esperança, uma espécie de graça – e porque no fundo do teu coração de mentiroso infiel sabes que às vezes um começo é tudo o que alguma vez teremos.” (p. 153)

 

Sinopse

O novo livro de Junot Díaz, É assim Que A Perdes, é um conjunto de narrativas ligadas entre si sobre o amor — amor apaixonado, amor ilícito, amor em extinção, amor maternal — e contadas através da vida dos habitantes de New Jersey oriundos da República Dominicana e da sua luta para encontrar um ponto de encontro entre os seus dois mundos.

O livro desvenda a inevitável fragilidade do coração humano. São histórias que nos recordam que a paixão pode triunfar sobre a experiência e que o amor, quando nos atinge, tem sempre algo de eterno.

 

Relógio D’Água, 2013

A Lua de Mel

Roda Dos Livros, 02.10.17

luademelApenas pela capa e pelo título não iria ler, certamente, este livro que em boa hora me foi recomendado.

No entanto, esta é a prova de que devemos ultrapassar preconceitos e, sobretudo, saber que os livros valem pelo seu conteúdo e não pelo título e capa que alguém lhes atribuiu, algures.

O livro relata uma semana na vida de um casal de Oslo, que parte para uma viagem conjunta. No entanto, Johanna parte para participar de um congresso sobre literatura, e Vigar acompanha-a na expectativa de conseguir uma segunda lua de mel, após 13 anos de casamento.

Vigar considera-se progressista, de bem com a vida, bem sucedido, com um casamento imaculado e seguro ("como já não não se vê"!), e que alimenta de forma igual àquela que viu os seus pais conduzirem o seu próprio casamento. Que mais se pode querer do que uma vida estável, com filhos maravilhosos, trabalho, umas férias em Dubrovnik de quando em quando, uma casa bem situada e confortável e uma mulher linda como Johanna?

Por entre a tundra norueguesa, num início de outono, Vigar vai ver todos os alicerces em que assentava a sua vida colocados em causa e confrontar-se com as inesperadas infidelidades e infelicidade conjugal e sexual de sua mulher.

Pode um casamento resistir a tais revelações? O que espera Vigar e Johanna após aquela semana?

E é no dissecar dos sentimentos e sensações e pensamentos quer do ponto de vista de um homem quer de uma mulher que este escritor é brilhante, contundente, realista, sábio.

Knut Faldbakken é um escritor norueguês, nascido em 1941, na cidade de Hamar, e é tido como sendo "adorado pelas mulheres e receado pelos homens".

Este livro é um aprendizagem forte e tocante do que é o casamento e do que dele se espera por entre o emaranhado dos dias e as expectativas dos envolvidos.

Gostei muito e aconselho!

Roda dos Livros – Especial Lisboa- Sugestões

Roda Dos Livros, 01.10.17

FullSizeRenderA paixão pelos livros é um dos traços de união entre todos os elementos da Roda. Na Roda gostamos de partilhar esta nossa paixão... entre nós e com quem nos procura com o mesmo gosto.

Desta vez fomos desafiados para a partilha pelos alunos da Pós-Graduação em Curadoria de Arte, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Ensaios (Sobre a Mesa) - A partir da coleção do Museu de Lisboa e do Museu Bordalo Pinheiro serviu de mote à participação cujo objetivo era trazer "para cima da mesa" livros sobre Lisboa, ou que incluíssem a nossa cidade nas suas narrativas.

A Galeria Quadrum, no Palácio dos Coruchéus, recebeu este encontro extra, temático, da Roda dos Livros.

Deixamos as nossas sugestões de livros em que se fala de Lisboa:

Jorge - "Biografia de Lisboa", de Magda Pinheiro

Catarina - "Lisboa em Pessoa", de João Correia Filho, "A Filha do Capitão", de José Rodrigues dos Santos e "O Último Cabalista de Lisboa", de Richard Zimmler

Patrícia - "O Retorno", de Dulce Maria Cardoso, "Revolução Paraíso", de Paulo M. Morais e "Uma Senhora Nunca", de Patrícia Muller

Cris - "Contos Capitais", de vários autores, "Uma Noite em Lisboa", de Erich Maria Remarque, "O Homem que queria ser Hitler", de Tiago Rebelo e "Morte na Arena", de Pedro Rosado Garcia

Renata - "O Bibliófago e mais historietas curtas", de Abel Neves

Ana - "O Mistério de Lisboa", de vários autores, "Crescer Vazio", de Pedro Strecht, "As Sete Ilhas de Lisboa", de Miguel Castro Caldas, "Todos os Dias são Meus", de Ana Saragoça, "O Caso do Cadáver Esquisito", de vários autores, "O Silêncio do Mar", de Ysra Sigurdardóttir e "O Estripador de Lisboa", de Luís Campos

Fernanda - "Dizem que Sebastião", de João Rebocho Pais

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