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Roda Dos Livros

Ronda das mil belas em frol – Mário de Carvalho

Roda Dos Livros, 17.08.17

31870467Há variadíssimas razões que nos levam a escolher ler um livro. Cada um tem as suas, e tal como as opiniões, são próprias e inquestionáveis. Uma das muitas razões pelas quais escolho uma leitura é o facto de ter desencadeado alguma polémica ou ‘anti-corpos’... é, claramente o meu lado ‘do contra’ a falar mais alto. Se gera ou gerou polémica então é para ler, para poder opinar e apreciar se, para mim, justifica a celeuma.

“Ronda das mil belas em frol” é, nitidamente, um destes casos. Li várias opiniões sobre este conjunto de contos / relatos (?) e a encarniçada troca de ‘mimos’ que gerou, entre autor, críticos e leitores. Relato da realidade ou obra de ficção, narrador ou alter-ego, na verdade, agora que terminei a leitura não me interessa verdadeiramente apurar... confesso que até me espanta toda a polémica que gerou. A própria sinopse poderá ter contribuído. Na realidade sucedem-se 16 capítulos que relatam casos mais ou menos fugazes, mais ou menos subreptícios, descritos sem qualquer sombra de crueza.

Mário de Carvalho marca este livro com a sua inconfundível elegância de escrita e em circunstância alguma recorre a vernáculo.  De “Ronda das mil belas em frol” faz-se um leitura corrida, pouco marcante, de um autor que leio intermitentemente, mas do qual recordo, sim, “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, “Era Bom que Trocássemos Umas Ideias sobre o Assunto” ou “Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina”.

Discorrendo sobre tanta inflamação, tamanha polémica e a apregoada ‘senilidade’ como razão para a escrita deste livro, eco do que se seguiu ao lançamento do mais recente Vargas Llosa (cuja leitura se seguirá em breve), só me ocorre pensar em empolamento, sobretudo face a obras crúas de temática semelhante como as de Bukowski e Miller.

 

Sinopse

Eis um livro de ficção sobre sexo. Todas as histórias nele contidas narram percalços, espantos e sobressaltos de ligações íntimas entre homens e mulheres. O que se desvenda, o que se oculta. Rasgos perversos. Permanências e rupturas.

Nem sempre se encontra o que se espera, nem se espera o que se encontra. A variedade é avassaladora. A diferença inevitável. Neste jogo de corpos enlaçados, não poucas leitoras ficarão admiradas com certo olhar masculino. Talvez passem a conhecer ainda melhor outras mulheres. E os leitores também não perdem nada em saber o que pode surpreendê-los nas voltas do mundo.

 

Porto Editora, 2016

Deixar Aleppo – Manuela Niza Ribeiro

Roda Dos Livros, 08.08.17

35496075Há livros sobre os quais é difícil opinar. Quando um livro é escrito por um amigo essa dificuldade agrava-se ainda mais. É este o caso. Ser amiga da autora confere-me, no entanto, alguma vantagem.

“Deixar Aleppo” é baseado em factos verídicos. Histórias reais cuja autenticidade é conferida não só pela carreira profissional da autora enquanto funcionária do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), pela sua vivência ‘in loco’ nas portas de entrada de refugiados sírios na Europa, mas também pelo facto de ser especialista na matéria.

Apesar do meu conhecimento prévio sobre o que é relatado neste romance, o choque e a angústia não deixaram de acompanhar a minha leitura e foi com um aperto no peito que a terminei. Talvez esta minha proximidade com esta realidade, mesmo que por interposta pessoa, me faça estar mais atenta e desperta para a questão dos refugiados e sua odisseia. Creio, porém, que o tema não deveria passar despercebido a ninguém. Todos somos seres humanos.

“Deixar Aleppo” ganha também pelo paralelismo que é estabelecido entre o acolhimento dos refugiados sírios e o dos emigrantes europeus na mesma Europa. Afinal talvez a diferença não seja assim tão radical...

Aquilo de que menos gostei no livro foi, talvez dado o tema e a sua seriedade, o peso do romance na história. Creio que não perderíamos se o espaço dado a esse romance fosse menor, mesmo percebendo que face a toda a envolvência continua a haver momentos em que ele acontece, o que é sempre plausível.

Também teríamos a ganhar com o desenvolvimento de alguns detalhes e, sei, Manuela Niza Ribeiro possui o conhecimento suficiente para o fazer. Toda a parte final da fuga e as diferentes questões que são abordadas como formas de a conseguir são disso exemplo – o tráfico de seres humanos, o tráfico de orgãos, etc. são temas que mereciam mais desenvolvimento.

“Deixar Aleppo” pode, contudo, contribuir para o necessário despertar de consciências ao aflorar uma diversidade de temáticas relacionadas com a questão da Síria, desde a origem do conflito até ao êxodo e drama dos refugiados.

Um livro que pode abrir horizontes.

Refugiado... emigrante... imigrante... um ser humano como eu.

 

Excertos

“(...) Samira estudava na Faculdade de Medicina, o que teria sido impensável se o pai ainda fosse vivo. Mas ele morrera havia quase sete anos e os irmãos mais velhos tinham emigrado para a Europa tornando-se mais tolerantes e de horizontes mais largos.” (p.14)

“(...) Altiva e sorridente, Samira dirigiu-se ao irmão. Se estivesse em casa tê-lo-ia beijado na face como qualquer rapariga ocidental. Mas ali em plena rua não, correria o risco de ser apanhada por um desses polícias da Xaria que eram quem mais cobiçava as mulheres alheias mas que se tornavam implacáveis face aos desvios morais dos outros.(...)” (p. 15)

“(...) A amiga incentivava-a a tudo fazer para conquistar o seu lugar naquela sociedade que olhava os imigrantes com um misto de desprezo e complacência.Pouco importava se eram ou não cidadãos europeus. (...) Ana pensava muitas vezes nas várias facetas do racismo e concluía que as mais temíveis eram as que não tinham nem base religiosa nem racial. O racismo era a intolerância perante a diferença, o olhar sobranceiro do mais forte sobre o mais fraco.” (p. 64)

“(...) Nunca tive “base”. Não gosto de bases! Tendem a colar-nos os pés ao chão. (...)(...) Só se entende a alma de um povo quando se lhe conhece a língua. (...)” (p. 71)

“(...) Samira chegara atrasada à Universidade.Desde as primeiras manifestações, já lá iam mais de quatro meses, que circular em Aleppo se tornava cada vez mais difícil (...)Toda a família permanecia confinada a casa (...)Apenas Samira se recusava a alterar as suas rotinas.- Se o fizermos já os deixámos ganhar! (...)” (p. 83)

“ (...)Parou junto duma mesa onde um cadáver dum homem jazia em toda a sua nudez. Olhou-o longamente e depois levantando o rosto perguntou à rapariga que se encontrava mais próxima:- É teu marido?Ela abanou a cabeça.- Teu filho, então?Novo gesto de negação acompanhado por um ligeiro sorriso: o cadáver tinha idade para ser, no mínimo, seu pai.Numa fracção de segundos o homem sacou duma adaga e com a mesma velocidade e presteza passou-a pelo rosto da rapariga cortando-lhe ambos os olhos. (...)” (p.85)

 

Sinopse

«- É teu marido?Ela abanou a cabeça.- Teu filho, então?Novo gesto de negação acompanhado por um ligeiro sorriso: o cadáver tinha idade para ser, no mínimo, seu pai.Numa fracção de segundos o homem sacou duma adaga e com a mesma velocidade e presteza passou-a pelo rosto da rapariga cortando-lhe ambos os olhos.»

O horror do conflito Sírio, a fuga desesperada de uns e a impotência de outros, são o fio condutor desta história.Baseada em factos reais, "Deixar Aleppo" apresenta os dois lados desta realidade tão actual e tão dramática dos milhares de migrantes em busca do Éden e dos homens e mulheres cuja missão é controlar as fronteiras do espaço europeu.

Um inspetor do SEF em missão na Grécia; uma portuguesa dos Médicos Sem Fronteiras; as famílias desestruturadas, estilhaçadas, no repente, no súbito repente, entre a normalidade e o caos.

 

Althum.com, 2016

A Seca - Jane Harper

Roda Dos Livros, 06.08.17

a_seca

De regresso, após uma ausência sem motivo algum, para partilhar a minha opinião sobre os livros que leio.A Seca não é de todo uma seca. Talvez seja o melhor policial que me lembro de ter lido. E não se trata de uma frase de promoção. Apenas, adoro quando a história é tão absorvente, mas tão absorvente, que nos poucos momentoss livres que tenho me esqueço de tudo para mergulahr na leitura e acompanhar o desenrolar dos acontecimentos que, nesta narrativa nem antecipo.Atmosférico é uma palavra referida na contracapa, que se aplica. A seca. A desolação e a dureza pura e dura da terra que se estende a perder de vista em que a chuva é uma benção. Uma cidade pequena, boatos grandes. Um crime hediondo que parece estar relacionado com um mistério antigo. Uma trama tão equilibrada e bem contada que se torna exemplar, principalmente se se considerar que é uma estreia. Mal posso aguardar pelos próximos livros desta autora.O inicio agarrou-me de imediato. O primeiro parágrafo bastou. "Não era a primeira vez que a quinta via morte, e as moscas-varejeiras não faziam distinção. Para elas, havia pouca diferença entre a carcaça de um animal e o cadáver de uma pessoa."O meu receio era de que a história fosse tenebrosa, mas não, é eficaz e consistente, e como tal, intensa e apaixonante. A investigação segue todos os passos que Falk, um policial,  filho da terra escorraçado por estar ligado ao mistério do passado, deveria seguir oficiosamente. A cidade é uma personagem que Falk procura compreender. As memórias interligam os factos. E novos dados se revelam paulatinamente. Enfim, um livro para partilhar e perservar. Sinopse:No calor sufocante do deserto, uma pequena vila é abalada por um crime inexplicável. Luke Hadler, filho da terra e amado por todos, matou brutalmente a mulher e o filho, tendo-se suicidado em seguida. Dos alegres retratos de família apenas sobreviveu a pequena Charlotte, de 13 meses.Ninguém parece duvidar da explicação oficial para o crime exceto os pais de Luke, que tentam convencer o amigo de infância do filho, Aaron Falk, a manter a mente aberta a outras possibilidades.Aaron está relutante. Após anos de ausência, o regresso à terra natal está a revelar-se duro mas as memórias da infância partilhada com Luke falam mais alto. Embora dividido, ele aprofunda a investigação e, pouco a pouco, começa também a duvidar da acusação que paira sobre a honra do amigo. Mas há algo ainda mais assustador: estas mortes ameaçam desenterrar o velho segredo que ditou o fim da inocência de Aaron e Luke tantos anos antes. Sob um sol escaldante, a claustrofóbica vila assolada pela seca pulsa de tensão. Se Luke é inocente, estará o culpado pela morte da sua família a viver entre eles? Todos se conhecem e ninguém seria capaz de semelhante atrocidade. Certo?