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Roda Dos Livros

Roda dos Livros - Junho de 2017

Roda Dos Livros, 27.06.17

Quem chega à biblioteca alguns minutos antes da Roda dos Livros começar oficialmente pode seguir as gargalhadas e encontrar-nos-á, à volta de uma mesa, a pôr a conversa em dia - afinal a roda há muito que se tornou parte da vida de cada um de nós. Confesso que ainda pensámos em mudar a Roda, da nossa sala habitual na Biblioteca dos Olivais (uma vez mais o nosso "muito obrigada por tão bem nos receberem"), para o jardim.

Aqui ficam as nossas sugestões para as vossas férias (ou para sobreviverem a um verão a trabalhar):

Fernanda - As bicicletas em Setembro, de Baptista-Bastos e Só duas coisas que, entre tantas, me afligiram, de Alice Vieira

Ana C.  - House of Cards, de Michael Dobbs

Sónia - Canção doce, de Leila Slimani

Cris - A Bofetada, de Christos Tsiolkas

Cristina - Lágrimas de Sal, de Pietro Bartolo e Lídia Tilotta

Vera - Quando perdes tudo não tens pressa de ir a lado nenhum, de Dulce Garcia e Café Amargo, de Simonetta Agnello Hornby

Catarina - O lugar do Morto, de José Eduardo Agualusa

Patrícia - Aprender a rezar na era da técnica, de Gonçalo M. Tavares

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Boas leituras

As Mentiras que as Mulheres contam – Luís Fernando Veríssimo

Roda Dos Livros, 26.06.17

35445017Luís Fernando Veríssimo é, habitualmente, dotado de um sentido de humor excecional. De entre os seus livros o meu preferido continua a ser “As Mentiras que os Homens contam”.

Talvez por, como é óbvio, o autor conseguir entrar melhor numa cabeça masculina do que numa feminina, as minhas expectativas em relação a este “As Mentras que as Mulheres contam” tenham saído um pouco defraudadas.

De facto apesar de alguns dos contos terem uma boa dose de humor, raros são os que têm as mulheres na primeira pessoa e muitas vezes as histórias giram em torno de homens.

Quanto a mentiras, também não encontramos muitas neste livro.

De qualquer modo Veríssimo é sempre Veríssimo e o livro vale pela correção linguística e pela leveza e descontração com que se lê.

Uma obra que proporciona uns momentos bem passados.

 

Excertos

“(...) Homem não tem ciúmes porque ama. Ciúmes não é uma questão entre o homem e a pessoa que ama. Ou é, mas a pessoa que ele ama é ele mesmo. Ciúmes é sempre entre o homem e ele mesmo .” (p.18)

“(...) – Nós fomos bobas, isso sim – continua Cinderela. – A Rapunzel continuou com suas tranças porque seu príncipe encantado a proibiu de cortar os cabelos e olhem o que lhe aconteceu. Se já existisse o feminismo no nosso tempo, nossas histórias seriam outras.

- Certo! Eu botava os anões a trabalhar para mim. E não me sentiria comprometida com o príncipe só porque o beijo dele me ressuscitou. Ele não me compraria por tão pouco!- E eu, em vez de ficar em casa sendo maltratada pela minha madrasta e as duas irmãs, ia sair, arranjar emprego, estudar comunicação, sei lá. Com trabalho, perseverança, decisão... e a varinha mágica, claro... faria uma bela carreira e depois compraria um príncipe ou dois. (...)” (p. 104)

“(...) – Vocês já notaram como o Miro é chato?- É, coitado.- Não, o Miro é muito chato. O Miro é extremamente chato. O Miro é, provavelmente, o homem mais chato do mundo!Claro. Uma extremófila não se contentaria com alguém apenas normal. Tinha que ser alguém radicalmente normal. Um chato até às últimas consequências. E até hoje, quando o Miro diz coisas como «Eu, se não durmo minhas oito horas por noite, fico imprestável», a Verinha olha em volta, radiante, desafiando alguém da turma a produzir um chato mais chato do que o seu.” (p. 168)

 

Sinopse

Tudo começa com a mãe, com o «Olha o aviãozinho!» à mesa do almoço. É a mentira inaugural, que se vai desdobrando noutras ao longo da vida. Mas calma lá. Nem sempre a ideia é disfarçar um caso ou ocultar um segredo. Por vezes são apenas eufemismos, ambiguidades, desculpas educadas — tudo com o objetivo um pouco mais nobre de preservar a harmonia social.

Nas histórias de As Mentiras Que os Mulheres Contam aparecem, por exemplo, a senhora que se tenta enganar a si mesma fazendo uma plástica atrás da outra e a moça que mente na idade — para mais! — apenas para ouvir que ainda está nova. Há dramas, comédias, tragicomédias — e até histórias que terminam em tragédia. Mas tudo permeado pelo humor irresistível de Verissimo.

 

D. Quixote, 2016

Só Duas Coisas Que, Entre Tantas, Me Afligiram – Alice Vieira

Roda Dos Livros, 16.06.17

Alice VieiraNormalmente diria que não aprecio particularmente a leitura de crónicas ou contos, mas como em tudo há sempre aquela exceção à regra.

Alice Vieira tem o dom de me fazer gostar, sempre e muito, das suas crónicas.

Com “Só Duas Coisas Que, Entre Tantas, Me Afligiram “ ‘invadimos’, uma vez mais, as “Pequenas Memórias” da escritora e, também uma vez mais, partilhamos de muitas das suas memórias e fazem parte da nossa memória coletiva, relatadas em tom mais sério ou com um fino sentido de humor.

Os seus lugares são, afinal, os nossos lugares, quem gosta de livros, feiras do livro e tudo o que gira à volta do tema também facilmente se identificará com os textos que lhe são dedicados e com os relatos do que é nosso e o que é dos outros.

E, sobretudo, é importante reavivar a memória, as memórias... e perceber que, de facto, entre outras coisas, política fazemos todos e a todos diz respeito. E nada melhor que a primeira crónica para nos relembrar tempos em que a amizade valia pela vida, que se confiava a quem albergava sem questionar.

Um livro abrangente, em temas e nas épocas que aborda, viajamos da infância e juventude da autora até ao enterro de Mário Soares, do sentido de comemorarmos alguns dias que já eram nossos e outros que nos chegam agora “importados” de outras culturas, dos postais ao facebook e aos novos vocábulos...

Um livro que se lê com gosto e de uma assentada, um livro para partilhar, para reviver e para aprender. Um livro para todos os leitores, de todas as gerações.

Imperdível!

 

Excertos

“(...) Mas só quando, aos 18 anos, subi aquela escadinha íngreme do Diário de Lisboa, pensando «é esta a vida que eu quero», e o cheiro a chumbo entrou nas minhas veias para nunca mais sair é que eu senti na pele o que era efetivamente a censura .” (p. 82)

“(...) E termino com o excerto de um texto de Pablo Neruda (...) «Amo tanto as palavras! As inesperadas, as que avidamente a gente espera, espreita, até que de repente caem. Vocábulos amados. Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal orvalho. Persigo algumas palavras. São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema. (...)” (p. 118)

“(...) E, fiel ao meu lema «nunca voltes a um livro onde foste feliz» nunca mais o reli.

É um perigo relermos, na velhice, os livros que nos deslumbraram na juventude.

Nós somos outros.

Os tempos são outros.

As palavras adquirem outro peso e outro significado.

Às vezes sorrimos e até sentimos uma ligeira vergonha por ter havido um tempo da nossa vida em que tínhamos gostado.(...)” (p. 129)

“E já que falamos de «saudade», ficam a saber que ela é considerada pelo Today Translation:

- uma das palavras mais difíceis de traduzir

- a mais bela de todas as palavras.” (p. 170)

“Depois com setembro vinha o cheiro das vindimas, e do mosto a fermentar nas cubas, e o sobrinho génio de 12 anos logo a explicar porque é que os Estados Unidos deviam levantar o embargo. «O embargo a quê?», perguntava sempre alguém, «o embargo a todas as cubas deste mundo, ora essa!», e as pessoas calavam-se, com pena que não fosse já outubro.” (p. 173)

 

Sinopse

Nas memórias que marcaram o meu mundo e nas nossas memórias colectivas, do nosso mundo português, só duas coisas que, entre tantas, me afligiram…, mas mesmo apenas uma ou duas, porque as lembranças de lugares marcantes como o bar do Rick, em Casablanca; o teatro Capitólio; o Santini, em Cascais; o irrequieto mar do Guincho; a redacção do Diário de Lisboa; a tertúlia do café Monte Carlo; o pequenino mundo que começava e acabava no boulevard Richard Lenoir, em Paris, não me afligiram. De todo. Entraram na minha vida e insistiram, teimosamente, em aí ficar a morar, acompanhando-me dia a dia, como fiéis e indefectíveis companheiras de viagem.

Relevantes e nunca aflitivos são igualmente os relatos das minhas viagens quase diárias pelo mundo dos livros e das palavras, onde me cruzei com o Astérix e a Alice (a do País das Maravilhas); onde falo sobre contendas como a dos postais de viagens versus SMS; calcorreio frequentemente bibliotecas e feiras do livro.

E passo em revista alguns dos dias que comemoramos como se fossem nossos - Dia dos Avós, Dia da Mulher, o 5 de Outubro, Dia dos Namorados -, bem como aquelas coisas que são muito nossas (portuguesas) - o chá levado para Inglaterra, a crise, os ilustres que nos deixam e nos marcaram.

Só duas coisas que, entre tantas, me afligiram… são breves estórias, do meu e nosso dia a dia, muitas delas publicadas no Jornal de Mafra on-line, que nos reconduzem às memórias e nos fazem reflectir sobre o mundo de hoje.

 

Casa das Letras, 2017

As bicicletas em Setembro – Baptista-Bastos

Roda Dos Livros, 08.06.17

baptista_bastos_as_bicicletas_em_setembroHá momentos que nos transportam para lá dos dias. A ausência é um desses momentos. Sempre apreciei Baptista-Bastos, o jornalista, o mestre, a sua coerência, e o seu lado escritor. Li alguns dos seus livros, e recordo especialmente “ Cão Velho Entre Flores”. O peso da sua ausência fez-me querer voltar a lê-lo, com o ressoar da sua voz na minha memória...

Não me recordo de alguma vez ter lido uma sinopse tão acertada, tão ‘perfeita’, que quase me leve a não querer escrever uma opinião...

Pela mão de Baptista-Bastos conhecemos Jesuina, os jovens que temporariamente acolhia, a vizinhança do típico bairro provinciano de Lisboa, onde as mentalidades pararam no tempo e onde rumores e histórias inventadas são aceites como verdades.

Um bairro que nos é apresentado no passado, que tentamos ‘colar’ a uma Lisboa antiga, mas que é intemporal. Uma Jesuina desenquadrada, respeitada por temor, invejada e logo injuriada pela incapacidade de aceitação da diferença.

Excelente livro! Um escrita belíssima!

 

Excertos

“Nesses dias de liberdade aprendiam a fixar as coisas, como insistentemente lhes aconselhara Jesuina. Fixar as coisas e as emoções que desencadeavam. As coisas perdem-se com o tempo, dizia, mas as emoções, essas subsistem. O que conservamos de um lugar, dizia, são as emoções que esse lugar em nós despertou, e os lugares que recordamos estão cheios da maior de todas as emoções perdidas: a da juventude.” (p. 41)

“A intriga e a má-lingua são o que há de mais engenhoso na vida. Caminham sem rumo, numa geometria confusa, nascidas do ócio e multiplicadas por uma espécie particular de ódio, de ciúme, de despeito.” (p. 63)

“(...) Sou desconfiado desde que me conheço. Tenho razões para isso (...) Quando fui entregue à vigilância de Jesuina, a convivência com os outros rapazes e raparigas alterou-me o carácter triste mas não modificou o nó que me apertava a alma. (...) Mas estou contente com o que consegui do mundo. Não tenho propensão para o mistério e fecho os meus pensamentos num mutismo que muitos presumem ser fragilidade ou insegurança. (...) Aceito sem reservas quem se atém, ferozmente, à sua intimidade. A intimidade e o corpo são as únicas propriedades privadas do ser humano. (...)” (p. 99)

“[Nunca quis muitas coisas. O que forma a minha e a tua vida foi a atracção mútua, embora nada nos aproximasse. Nem em dúvidas nem em certezas éramos semelhantes. Acreditavas em Deus; eu não só ignorava a Sua existência: desprezava-a. Hoje, admito que esse desprezo talvez contivesse algo de receio e de atracção. Como a morte: atrai-nos enquanto a repelimos. Detestavas os meus pequenos prazeres, fizeste-me amargar muitos deles com implacável zombaria: livros, músicas, filmes. Não merece a pena nomear as nossas divergências. Provínhamos do mesmo sítio, mas não pertencíamos aos mesmos sonhos.]” (p. 113)

 

Sinopse

Revisitação de um tempo e de um lugar que não existem para lá da memória, As Bicicletas em Setembro é uma viagem à juventude. Mas o que nos fica para além da memória, se a memória, ela própria, mais não faz do que atraiçoar o passado, limpando-o do que não gostamos? Num bairro lisboeta inventa-se a felicidade em jogos de cartas numa obscura taberna, descobre-se a medo a iniciação sexual, vivem -se os pequenos dramas de um quotidiano triste, expõe-se a perversidade das relações humanas, sonha-se além das imagens que as nuvens vão construindo. Em jeito de homenagem, também, ao poeta Eduardo Guerra Carneiro, há ainda neste livro espaço para os sentimentos, para a partilha, para os afectos. E para a perda e para a solidão, porque ambas se confundem com a própria natureza humana. Metáfora de um tempo que já não existe ou dos sentimentos que vamos, a cada geração, renovando, As Bicicletas em Setembro é uma obra povoada de imagens e lirismo intensos que confirma, uma vez mais, a importância de Baptista-Bastos na Literatura Portuguesa Contemporânea. Para gáudio do leitor.

 

Oficina do Livro, 2010

«A terra que pisamos» de Jesús Carrasco :: Opinião

Roda Dos Livros, 08.06.17

Jesús Carrasco volta com mais dor e mais vazio, provando que a humilhação e o medo têm o poder de amputar e anestesiar quem é subjugado e cujo a vida é fruto dessa aridez que é a submissão imposta e ameaçadora. Assim é o cenário aqui construído, numa terra que cravou marcas profundas em quem a cedeu, mas não menos em nela fez vida, pisando o sangue e os ossos daqueles que vitimaram e mataram.
"O sono é um imperativo necessário mas frágil. (...) Molhar-se, claro, mas nunca se sentir envolvido por essa outra substância que purifica a pele e a pressiona. (...) O sonho como combustível para a consciência. Para poder voltar a transitar pelo inferno, nem que seja aos tropeções. O inferno é estar acordado e o verdadeiro descanso, nessas condições, só pode ser procurado pela morte. Ter os olhos abertos já não significa dor (...) Estar acordado significa não ser capaz de interpretar o que acontece à sua volta."
Uma presença inesperada desperta de um certo torpor uma mulher que, isolada, habita uma casa e uma terra, ganha pela violência exercida pelo marido e a força militar a que pertencia, durante um período de anexações de novas terras ao maior império existente. Esta presença, estranha e silenciosa, altera-lhe os contornos do pensamento e da consciência, exigindo uma aceitação que a condena e a faz sofrer, expiando os seus pecados enquanto expia aquele homem que se acanha e se contorce como quem se pretende fundir na terra, na Natureza, que mesmo bruta e exigente nunca humilha, como os homens se humilham uns aos outros.
"Pela primeira vez penso que o seu alheamento não é mais do que o resultado do sofrimento pelo qual passou. (...) Aceita o sofrimento como se a sua origem fosse espontânea, como se fizesse parte do que está à sua volta. Mas não foi assim, pois não há na natureza nada que per se seja humilhante. O que este homem carrega nos ombros foi-lhe infligido por outros."
Com este livro, Carrasco venceu o Prémio de Literatura da União Europeia 2016, já tendo sido bastante aclamado pela crítica com o seu romance anterior «Intempérie». Considero este superior, pois mantêm todo o esmagamento provocado pela humilhação, o desconhecido e a crueza da natureza, tal como no outro, mas acrescenta um detalhe muito interessante, a desigualdade feminina e o poder de uma mulher visto como desafio aos homens que a rodeiam. Essa voz feminina que aqui encontramos traz, a meu ver, outra força ao texto.
"Ele pode suportar a ideia de ser interpelado por outro homem (...) Mas eu sou uma mulher e estou a desafiá-lo. (...) Fica muito bem que sejamos nós a fazer refer~encia aos soldados como «filhos da pátria» ou «nossos rapazes», dando a entender que qualquer jovem que luta pelo império também é nosso filho."
(...)
"Teria preferido travar esta batalha na nossa sala. Ali ter-me-ia apoiado na visão dos livros. Cada lombada emite uma luz que compreendo claramente. (...) Ter-me-ia deixado aconselhar por Séneca. Ele ter-me-ia apaziguado. Ali, com os nossos licores, sob as madeiras talhadas do teto, teria dominado este homem irritante."

Roda dos Livros –Encontro de Maio de 2017

Roda Dos Livros, 02.06.17

Em tarde primaveril, a Roda dos Livros voltou a encontrar-se à volta de uma mesa com muitos e variados livros. Aqui ficam as sugestões de leitura de Maio:

Rui – “&etc – Uma editora no subterrâneo”

Cristiana – “A Terra que pisamos” de Jesús Carrasco

Ana – “Perto da felicidade” de Richard Yates

Sónia – “Manual para mulheres de limpeza” de Lucia Berlin

Vera – “O filho” de Jo Nesbo

Sofia – “Creation” de Gore Vidal

Catarina – “Fantasia para 2 coronéis e uma piscina” de Mário de Carvalho

Renata – “Os irmãos Karamázov” de Fiódor Dostoievski

Cristina – “ A pérola que partiu a concha” de Nadia Hashim

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