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Roda Dos Livros

Quem matou Palomino Molero? – Mario Vargas Llosa

Roda Dos Livros, 23.05.17

capa_3Na escrita forte e despudorada que tão bem o carateriza, Mario Vargas Llosa faz-nos o relato da morte violenta de Palomino Molero, que ocorre no hermético mundo militar.

A violência atravessa este livro como um fio condutor. Da violência física à violência psicológica. O baque causado pela primeira página, em que nos é descrita pormenorizadamente a forma como é encontrado o corpo de Palomino, o ascendente do general Mindreau sobre a sua filha Alicita...

Passo a passo vamos acompanhando a investigação do guarda Lituma, personagem conhecida de Llosa, e do tenente Silva. E em simultâneo acompanhamos a paixão do tenente pela ‘gorda’ dona da tasca, dona Adriana.

Conhecendo a escrita crua e direta de Vargas Llosa e o seu estilo sabemos de antemão que nos serão apresentados todos os pormenores da história, os seus porquês. Livros com princípio, meio e fim, o que não implica uma linha de narração cronológica.

Mais uma fabulosa obra deste autor que aconselho e em que vamos desvendando tudo o que se passou através de uma rica panóplia de personagens.

Um livro que é uma forte crítica ao sistema militar, o ‘peixe graúdo’ intocável.

 

Excertos

“(...) É outra coisa que tens que aprender. Não há nada fácil, Lituma. As verdades que pareciam mais verdades, se lhes dás muitas voltas, se as observas de perto, só são meias verdades ou deixam de o ser.” (p. 99)

“(...) Também os aviadores me surpreenderam. Ao fim e ao cabo eram seus colegas. Há, em todos, um fundo bestial. Cultos ou incultos, todos. (...)” (p. 147)

 

Sinopse

- Filhusdumagrandessíssima – balbuciou Lituma, sentindo que ia vomitar. - Como te deixaram, franzino. O rapaz estava ao mesmo tempo enforcado e espetado numa velha alfarrobeira, em posição tão absurda que mais parecia um espantalho ou um Rei Momo escarranchado do que um cadáver.» Pode um morto ser o personagem central de um romance? Se o tenente Silva e o guarda Lituma são personagens essenciais da investigação que procura desvendar o que se esconde por detrás da estranha morte de um jovem aviador, é sobre a figura do inocente Palomino que se desenvolve toda a trama. Mario Vargas Llosa apresenta em Quem Matou Palomino Molero? um surpreendente e inesperado registo policial que prende o leitor tanto pela originalidade estilística como pelo próprio enredo arrebatador e imprevisível.

 

Leya, 2017

Não se pode morar nos olhos de um gato, de Ana Margarida de Carvalho

Roda Dos Livros, 23.05.17

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Depois de "Que Importa a Fúria do Mar" Ana Margarida de Carvalho regressou com este "Não se pode morar nos olhos de um gato" e a primeira coisa que tenho que referir é que, mais uma vez, o título deste livro é fabuloso (e é inspirado num poema de Alexandre O'Neill).

No livro, tal como no poema, este título esconde uma crueza que nos atinge às primeiras palavras.  Logo no primeiro capítulo é a santa de madeira do navio que nos fala, de enxurrada, num monólogo carregado de dor e raiva.

Os personagens vão-nos sendo apresentados aos poucos, por camadas. Primeiro estereótipos (o capataz, o passageiro, a fidalga, o criado) vão-se tornando gente à medida que nos vão contando a sua história. E cada um deles tem uma história, um segredo por contar, um pecado para expurgar.

O grupo que sobrevive ao naufrágio e se junta naquela praia está sujeito a todos os preconceitos que, na altura, ontem e hoje, moldam a sociedade. Numa situação extrema, como a que este grupo está sujeita, os preconceitos de raça, género ou religião tornam-se incontornáveis e é a absoluta necessidade que leva a que cada um dê o melhor de si (que nem sempre é suficiente ou aceitável) para que a sobrevivência seja uma realidade. Aliás, nem sequer é o melhor que emerge, mas o necessário, quando existe capacidade para tal. Ou correm o risco de se consumirem no processo.

A escrita irrepreensível de Ana Margarida de Carvalho e o tom que imprime a este livro deixaram-me interessada desde a primeira página mas este livro vive dos personagens.

A construção dos personagens é impressionante. Conhecemos cada um deles através do seu passado, de alguns das muitas histórias que o compoem.  Muitas vezes os livros apresentam-nos apenas o futuro, como se a qualquer momento pudéssemos esquecer quem somos, quem fomos e com que barro nos fizemos. Aqui, neste livro, não há disso. Há crueza, crueldade, preconceito, empatia, repulsa, coragem e cobardia, paixão, amor, amizade. Há toda a gama de emoções que atravessaram as épocas e através delas ficamos a conhecer melhor um conjunto de personagens que, ao serem obrigados a enfrentar os seus próprios fantasmas, se conhecem e se dão a conhecer.

Não esperem uma história de redenção nem uma história parecida à do Robinson Crusoe. Esperem uma história crua e impiedosa, cheia de histórias dentro, histórias feias e duras, histórias de desesperança. Não esperem redenção, esperem realidade.

Crónica de uma Morte Anunciada – Gabriel García Márquez

Roda Dos Livros, 12.05.17

Crónica de uma morte anunciadaTenho um gosto particular pela leitura da escrita da América Latina, na qual reconheço traços únicos que me encantam. Tenho, ainda, uma particular predileção por vários autores sul-americanos. A escrita fluída e simples, rica daquela imaginação extraordinária que carateriza o realismo mágico, tornam a leitura destes autores especial, e contrasta claramente com a escrita, diria, europeia. Uma escrita mais pesada e, por vezes, para mim, excessivamente rebuscada, em que a forma se sobrepõe à história e às ideias.

Gabriel García Márquez é, também para mim, um dos expoentes máximos dessa escrita das emoções, da magia, do deslumbramento, da simplicidade das ideias. Uma escrita de encantamento e que me encanta. Em cada livro seu regresso à sua escrita como quem regressa a casa.

“Crónica de uma Morte Anunciada” tinha sido, até agora, uma leitura adiada. A edição comemorativa no âmbito de ‘Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura 2017’, pelo Público acabou por proporcionar o momento.

Este é um livro, baseado num caso verídico, que nos remete para toda a história em flashback, quando 20 anos depois um amigo tenta perceber porquê. Quando começamos a leitura sabemos que Santiago Nasar foi morto, aliás, toda a gente sabia que Santiago ia morrer... “nunca houve morte tão anunciada”... todos o sabiam menos Santiago.

Ao longo das páginas tentamos perceber como tudo se passou e a veracidade dos factos que levaram à sua morte... será que o saberemos?A mestria de Garcia Márquez prende-nos às palavras e transporta-nos quase de um fôlego até ao final. “Crónica de uma Morte Anunciada” leva-nos aos trópicos e às suas vivências, à sua magia e encanto e a uma morte tão violenta que impressiona pela sua descrição.

 

Excertos

“Durante anos não conseguimos falar de outra coisa. O nosso coportamento diário, até então dominado por tantos hábitos lineares, começara subitamente a girar à volta de uma mesma ansiedade comum. Surpreendiam-nos os galos do amanhecer quando tentávamos ordenar os inúmeros acontecimentos fortuitos encadeados que tinham tornado possível o absurdo, e era evidente que o não fazíamos por um empenho de esclarecer mistérios, mas porque nenhum de nós podia continuar a viver sem saber exactamente qual o sítio e a missão que lhe designara a fatalidade” (p. 101)

“(...) As notas à margem, e não apenas pela cor da tinta, pareciam redigidas com sangue. Estava tão perplexo com o enigma que lhe tocara em sorte, que frequentemente incorreu em divagações líricas contrárias aos rigor do seu ofício. Acima de tudo nunca lhe pareceu legítimo que a vida se service de tantos acasos proibidos à literatura, para que viesse a cumprir-se sem entraves uma morte tão anunciada.” (p. 104)

“(...) A folhas 416, de seu próprio punho e com a tinta encarnada do boticário, redigiu uma nota à margem: ‘Dai-me um preconceito e moverei o mundo’. Sob essa paráfrase de desalento, com um traço feliz feito com a mesma tinta de sangue, desenhou um coração trespassado por uma flecha. (...)” (p. 105)

“(...) O juíz instrutor  procurou ao menos uma pessoa que o tivesse visto, e fê-lo com tanta persistência como eu, mas não se encontrou nenhuma. Na folha 382 dos autos escreveu outra nota à margem: ‘A fatalidade faz-nos invisíveis’. O facto é que Santiago Nasar entrou pela porta principal, à vista de toda a gente, e sem fazer o que quer que fosse para não ser visto. (...)” (p. 117)

 

Sinopse

Vítima da denúncia falaciosa de uma mulher repudiada na noite de núpcias, o jovem Santiago Nasar foi condenado à morte pelos irmãos da sua hipotética amante, como forma de vingar publicamente a sua honra ultrajada e sob o olhar cúmplice ou impotente da população expectante de uma aldeia colombiana: é esta a história verídica que serve de base a este romance, e que, logo nas suas primeiras linhas, é enunciada. A capacidade de Gabriel García Márquez em reconstruir um universo possuído pela nostalgia, mágica e encantatória da infância e a sua genial mestria em contar histórias fazem deste romance mais uma das obras-primas que consagraram definitivamente este autor.

 

Leya, 2017

«O Que não É Teu não É Teu» de Helen Oyeyemi - Opinião

Roda Dos Livros, 12.05.17

oyeyemiHelen Oyeyemi, premiada em 2010 com o Prémio Somerset Maugham e destacada, pela Granta, como uma das novas melhores vozes da literatura inglesa, não facilita o caminho ao leitor. Os seus contos são labirínticos, intrincados e cheios de mistérios por desvendar. Seja pelo enredo, meio mágico meio onírico, seja pelo ambiente, que à primeira vista parece quotidiano mas facilmente trespassa a porta da fantasia e o mundo cintilante dos sonhos. Melhor, quase todos os contos têm chaves e parece que cabe ao leitor ir, de conto em conto, descobrir que portas abre cada uma. Cedo aprendemos o conceito de clidomância. Parece-me a mim que cada chave permitirá abrir sempre a porta do espanto e do transcendente, pois a imaginação da autora deslumbra e inebria o leitor, mas também o confunde e o mistura num universo muito próprio que Helen Oyeyemi cria em cada conto.

Invulgar talvez seja a definição que melhor veste estas narrativas. Podemos procurar o título «O que não é teu não é teu», mas não o acharemos entre o leque de contos, o que não deixa logo de ser diferente e nos coloca a pensar se este título, une ou estabelece, uma moral para todos eles, bem ao jeito dos contos de fadas. A actualidade e a critica social também se encontram de forma abundante, nomeadamente questões de orientação sexual, padrões institucionalizados de beleza e relações de poder, bem como, de forma metafórica, a necessidade de dar voz às minorias e promover, talvez desde a escola, a criatividade e a necessidade da arte, nas suas mais variadas formas, como mecanismo de defesa da dura e opressiva realidade.

No entanto, não é fácil encontrar explicações para o conteúdo dos contos e o caminho que a autora segue, que se torna por vezes incompreensível, deixa o leitor à procura de respostas. Talvez seja como as marionetas do conto "O teu sangue é assim tão vermelho?" que ora são obra completa e respeitam quem lhes dá vida, como têm vida própria e agem por si. Se isso se aplicar ao livro de Oyeyemi, temos de lhe conferir um estatuto mais híbrido e mutante, que o leitor terá dificuldades em acompanhar.

"«Como é que eu sei quando é que cresci?» Quando começasse a usar palavras cujo o significado não soubesse, respondeu ela. Disse-lhe que já fazia isso, e ela respondeu, «Pois, mas preocupas-te com isso, e os crescidos não.» (...) Por isso, há aquela ansiedade de, de repente, uma pessoas estar a ter uma conversa que a transforma em adulto, uma conversa que a impede de ver as coisas e pessoas que estão realmente lá."

Com os contos «Presença» e «Breve história da Sociedade das Jovens Feias», aliás como com quase todos, talvez consigamos também retirar outro significado para as chaves. Uma a uma, vão compondo um molhe, que podem, metaforicamente, corresponder às coisas que vamos guardando para nós e dentro de nós, fechadas à chave, e que a certo ponto, numa determinada fase da vida, temos de destrancar, abrir e deixar sair, para podermos continuar mais leves, mais livres. Será?

Gosto de livros que nos deixam com perguntas a ecoar na nossa cabeça. Foi uma boa leitura, estou cada vez mais fã de contos.

Antes de finalizar, quero, mais uma vez, salientar o trabalho maravilhoso de Lord Mantraste, pois esta capa capta totalmente o ambiente que a autora cria.

«A árvore dos Toraja» de Philippe Claudel :: Opinião

Roda Dos Livros, 11.05.17

 Em 2014 li «Perfumes» de Philippe Claudel e rapidamente me deixei inebriar pela sua escrita.
Claudel brinda o leitor com uma escrita melódica, profunda, recheada de imagens que reflectem as vivências, neste caso, de uma amizade que se entranhou de tal forma que o luto perdura num longo relato que é um elogio à vida.
"Lembro-me de ter colado, num dos meus inúmeros blocos onde se acumulam anotações que nunca releio, uma pequena reprodução de Dürer: (...)
A representação é edificante, esqueleto, foice e a mensagem simples: toda a beleza desabrocha à sombra do perigo último. Não esqueçamos a nossa condição passageira e a nossa vida é passada sob o olhar daquela que não nos esquecerá. Precisaremos, por isso, de a integrar no desenrolar dos nossos dias tal como fazem os Toraja?"
Entre referências várias, de cinema, livros, música, pinturas e até alpinismo, vamos conhecendo a amizade entre o narrador e Eugène e o seu coração dividido entre Elena e Florence, juntamente com uma dissertação instrospectiva e retrospectiva de alguns momentos que marcaram os bons últimos anos até à morte do amigo.
"Nós, os vivos, somos ocupados pelos murmúrios dos nossos fantasmas. A nossa carne e a matéria da nossa alma resultam de combinações moleculares e da tecedura complexa de palavras, de imagens, de sensações, de momentos, de odores, de cenas ligadas àquelas e àqueles com que a nossa existência nos fez relacionar de uma forma passageira ou duradoura. (...) uma ordem que o caos da morte perturba a cada fase do jogo. Em certa medida, viver é saber sobreviver e refazer."
O tempo, o lugar, as influências e as confluências dos dias, as viagens, os cheiros, o corpo e o quotidiano, tudo conta, tudo aqui encontramos, belissimamente descrito, e revelando quem pensa a morte por paralelo à vida e à arte, em pleno direito de melancolia e nostalgia, alimentando assim um leque de memórias que se deseja que o passar do tempo não apague.
"O corpo das jovens faz pensar em pedras perfeitas, polidas, sem defeitos, escandalosamente intactas. O das mulheres possui o perfume patinado dos dias inumeráveis onde se amalgamam, sensuais, os momentos de prazer e os de espera. Torna-se o veludo dos dias. Qual das duas, Elena ou Florence, me fazia estar mais vivo. Fazer amor com Florence devolvia-me a mim mesmo. Fazer amor com Elena obrigava-me a tornar-me outrem."
Há uma energia delicada na escrita de Claudel, ora nos empurra para a leitura, ora nos trava, exige-nos uma paragem, uma reflexão, uma pesquisa. E o que lemos sobre a admiração a escritores como Kadaré ou Kundera aplica-se também à sua escrita, a magia de entre linhas pensadas e escritas por outros, encontrármos a simplicidade e a profundidade de momentos que ressuscitam em nós, sentimentos e sensações.
"Devo-lhe momentos que se contam entre os mais preciosos e mais fecundos da minha vida. Lendo-o, parecia-me entrar sem dificuldades no que a representação da vida e a própria vida podem ter de admirável, de absurdo, de grotesco, de enfadonho, de único e de ridículo. (...) mas a memória e a língua funcionam, contra a minha vontade, como reenquadramentos de uma realidade que existiu, sem dúvida, mas pertence a um passado que se afasta.  Dou-me conta que escrever é uma inumação que sepulta ao mesmo tempo que põe de novo à luz do dia."
Pela leitura de «A árvore dos Toraja» nos ficamos a conhecer muito dos costumes desse povo indígena da indonésia, mas ficamos, sem dúvida, despertos para inúmeras outras referência e para a escrita de Philippe Claudel, um autor a seguir de perto.