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Roda Dos Livros

Roda dos Livros - Sugestões de Março de 2017

Roda Dos Livros, 26.03.17

março2017

Numa tarde de Março pouco primaveril nada como reunir a Roda dos Livros para animar. Apesar do tempo, esteve uma sala bem composta em que as habituais gargalhadas não faltaram.

Mais uma vez esteve connosco o Nuno Nepomuceno. Desta vez juntou-se a nós não o escritor mas o leitor e partilhou connosco opiniões sobre as suas mais recentes leituras.

As boas leituras foram marcantes este mês e vários rodistas não hesitaram em sugerir dois livros em vez de um. Leituras para todos os gostos! Aqui ficam as nossas sugestões:

Renata - "Húmus", de Raúl Brandão e "Breve História de Sete Assassinatos", de Marlon James

Nuno - "O Discípulo", de Hjorth & Rosenfeldt

Patrícia - "Os Dez Livros de Santiago Boccanegra", de Pedro Marta Santos

Jorge - "A Rainha do Sul, de Arturo Pérez-Reverte e "Manual Para Mulheres de Limpeza", de Lucia Berlin

Cristina - "A Avó e a Neve Russa, de João Reis

Isabel - "O Livreiro de Paris", de Nina George

Fernanda - "Iluminações de uma Mulher Livre", de Samuel F. Pimenta

Célia - "A Montanha Mágica", de Thomas Mann

Sónia - "A Avó e a Neve Russa", de João Reis

Paula - "A Construção do Vazio", de Patrícia Reis

Cris - "Onze Tipos de Solidão", de Richard Yates e "Yoro", de Marina Perezagua

Rui - "Soldados de Salamina", de Javier Cercas

março2017_

 

 

A Avó e a Neve Russa - João Reis

Roda Dos Livros, 23.03.17

João Reis opta, aqui, pelo caminho mais difícil: escolhe, como narrador, um menino de dez anos eaavoeaneverussa mantém, ao longo de todo o livro, o tom da inocência deste confrontada com os factos, muitas vezes nada suaves, da vida que o rodeia. Para complicar ainda mais as coisas, este não é um menino de dez anos qualquer. Percebe que os adultos têm uma capacidade de compreensão muito limitada (é preciso ter muita paciência com eles) e uma iniciativa ainda mais deficiente. Coitados, não têm culpa, mas ele é que não pode ficar imóvel enquanto a sua querida avó Babushka definha sem que ninguém lhe acuda, com os pulmões destruídos pelos ventos atómicos de Chernobyl. Logo, cabe-lhe a ele tomar uma atitude. E, enquanto se prepara para fazer o que for preciso para salvar a avó, vai reflectindo sobre as grandes questões da humanidade, com uma candura desconcertante e, ao mesmo tempo, uma humanidade que nos faz envergonhar dos nossos corações empedernidos.

É impossível não rirmos até às lágrimas com algumas das confusões deste narrador, e com a perplexidade que essas confusões causam nos adultos à sua volta. Mas também é impossível não nos comovermos com a simplicidade com que ele encara tanto problemas terríveis como as pequenas contrariedades do dia-a-dia.

E é aqui que entra a mestria de João Reis. É a escrita de João Reis que torna este livro único. Há muito tempo que não me acontecia chegar ao fim de parágrafos e relê-los uma e outra vez, só para me deliciar com a forma como estão escritos. Estas palavras ressoam com ecos de tudo o que nos foi ensinado na infância e depois foi sendo abafado pelos condicionalismos da vida adulta: a ingenuidade, claro, mas também o respeito pelos outros, mesmo que quase nos exasperem com as suas limitações (achamos nós), o esforço por não os ofender, mesmo em susceptibilidades que não compreendemos, a generosidade, o altruísmo, a rectidão, o desejo de que a sociedade seja justa... acredito que este livro foi escrito pela criança interior que o autor soube preservar, e que se dirige à criança que ainda sobrevive dentro de cada um de nós. A medida em que nos deixaremos tocar por ele depende do quanto dessa criança deixámos que sobrevivesse, adormecida mas capaz de reconhecer a voz de uma sua igual.

 

Excertos:

"As senhoras da comissão das autoridades vieram cá a casa e não encontraram nada que nos fizesse mal. Lembrei-me de arejar bem a sala e os quartos para que não sentissem o fumo das drogas medicinais do Andrei. Podem ser farmaceutas, mas não são permitidas pelas autoridades do Estado. Li num livro que o Estado somos todos nós. A mim, nunca me perguntaram se eu achava que as drogas deviam ser permitidas. Eu acho que sim, se aliviam as dores e não cheiram pior do que os cigarros do tabaco nem são o cheiro mau que o Andrei tem nos pés ao descalçar-se quando chega do trabalho. Parece-me que as pessoas adultas fazem confusão com estas questões das legalidades, porque, como sempre, há emoções que lhes prendem os pensamentos. Também acho que deveriam permitir pelas autoridades os abortos bem feitos. Assim tudo era mais fácil e não havia abortos mal feitos, que enchem a cidade, como se queixa o Andrei, aos berros no quarto - «este aborto incompleto» para aqui, «aquele aborto mal feito» para acolá, vejo-lhe as palavras através das fumaças que ele puxa -, para além de se fazer negócio e ajudar no capitalismo. Este é o arqui-inimigo do comunismo inventado na Antiga-Soviética, e já se sabe como eles mexem nos ares atómicos e estragam a vida às pessoas inocentes. Por outro lado, e pensando bem, eu também poderia ser um aborto, já que sou o filho indesejado, como diz o Andrei. Nesta vida é difícil saber o que é certo." (págs. 26-27)

 

"O Jean-Pierre será um grande político quando for adulto e trabalhar, e só está nesta escola para analisar as pessoas do povo mais baixo, que somos nós. Ele já o disse, e acredito. No fim de contas, já os antigos escritores da China e de outros países velhos diziam para conhecermos bem o nosso inimigo e o mantermos mais perto de nós do que os amigos, e é por isso que um político em adulto como o Jean-Pierre tem de ter o povo mais baixo perto de si, de maneira a atacá-lo com mais força assim que caminhar bem alto." (pág. 36)

 

"Eu sei que sou novo e talvez não perceba bem todas estas coisas, embora o tente ao ler muitos livros e ao ouvir os ensinamentos dos mais velhos, que estão mais perto de morrer e, assim, de ser História. A verdade é que fiquei muito revoltado. É certo que estamos longe dos bons velhos tempos, mas terá de haver alguma justiça, ou ficamos como no comunismo da Antiga-Soviética, onde podíamos ser enviados para um gulasch sem aviso e nunca mais voltar nem falar com ninguém, e isto só por não gostarem de nós ou não sermos cegos para a política. Vivemos num país civilizado e desenvolvido, e não foi para isto que criaram o capitalismo com liberdades. E o que se segue à carta? A ruína da sociedade, o apocalipse, as fábricas atómicas... A Babushka não pode viver com o medo de lhe aparecerem aqui os senhores comunistas, ah, isso não. (Nota: Consultar o pope Verenich quanto ao apocalipse. Tenho algumas dúvidas sobre a data de início.)" (pág. 40)

 

Elsinore, 2017

“O retorno” de Dulce Maria Cardoso :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.03.17

Li este livro em 2015 enquanto visitava Munique e me desloquei ao campo de concentração de Dachau. Foi interessante, e não deixa de ser bizarro, a ligação entre algumas coisas que li, vi e senti, tanto ao ler o livro, como ao visitar o campo. A memória realmente deve ser alimentada para que determinados eventos, que marcaram toxicamente a história de um país, não se percam na fraca e limitada memória colectiva das gerações vindouras.

"Estavam lá retornados de todos os cantos do império, o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber."

«O Retorno» de Dulce Maria Cardoso regressa aos tempos da descolonização quando chegam a Lisboa cerca de meio milhão de pessoas, a precisar de alojamento, trabalho, comida e integração numa sociedade diferente daquela que deixaram nas ex-colónias. Neste caso em particular, Angola, de onde Rui e a família saíram. Rui, de quinze anos, é o narrador deste retorno, com ele e pelos seus olhos assistimos a esta situação que se degradava de dia para dia, enquanto o processo revolucionário tentava ganhar o seu lugar.

"A culpada de a mãe ser assim é esta terra. Sempre houve duas terras para a mãe, esta que a adoeceu e a metrópole, onde tudo é diferente e onde a mãe também era diferente. O pai nunca fala da metrópole, a mãe tem duas terras mas o pai não. Um homem pertence ao sítio que lhe dá de comer a não ser que tenho um coração ingrato (...)"

O regresso é pautado por sentimentos de desconfiança, mas de esperança, de humilhação, mas de saudades. Há amor de diversas formas, um amor à terra que os viu crescer, um outro que os liga a uma terra que os acolhe, o amor entre irmãos... há tantas formas de amor, como de revolta num livro terno, mas duro, divertido, mas também recheado de episódios negros desta nossa história tão recente.

"(...) mas o João Comunista não é comunista, chamam-lhe assim por estar sempre a dizer que o império era uma vergonha, que devíamos ter vergonha por termos subjugado inocentes durante tantos séculos. Já houve macas enormes à conta disso, (...), o Sr. Serpa só gritava, que os de cá digam isso é uma coisa mas você devia ter juízo e vergonha nessa cara."

"(...) os que lá trabalhavam para o estado não estão nos hotéis, têm a vida arranjada, foram colocados nalgum sítio ou reformaram-se, alguns até têm trabalho e reforma. São recompensados como se tivessem estado no inferno enquanto nós somos tratados como se tivéssemos de ser castigados."

O hotel que os recebe e a respectiva directora sofrem transformações que acompanham o mesmo tipo de mudanças que estão a acontecer com as famílias acolhidas. A revolução não se faz só na rua, as atitudes e as opiniões reaccionárias estão ali e talvez ali sejam tão ou mais precisas, de modo a devolver dignidade e esperança aqueles que ali estão. Estão, mas estão como se estivessem sem chão e tecto, sentem-se injuriados e sem perspectivas e isso a autora consegue muito bem relatar pelas constante acção atrás de acção e simultânea reacção.

"Mas o que fazem é gastarem horas a lembrar-se do que perderam, se me ponho a pensar no que lá ficou dou um tiro na cabeça, acho que já ouvi cada um deles nesta conversa pelo menos uma vez.

Os homens também querem arranjar trabalho para mostrar aos mangonheiros da metrópole de que massa os retornados são feitos, se conseguimos construir terras como as que fomos obrigados a deixar também conseguimos mudar o atraso de vida que a metrópole é."

O relato de Dulce Maria Cardoso é bastante sentido, diria assim, com muita coisa preto no branco, tipicamente como se vê com os olhos dos nossos 15 ou 16 anos, com as ideias a fervilharem e a pedirem conselhos, mas a quererem toda a liberdade que com essa idade se anseia, isto tudo junto com o clima de instabilidade e transformação social e uma série de ideais que aparecem em conversas que deixam dúvidas e das quais também se fazem piadas.

O conteúdo é assim bastante rico e abre espaço para inúmeras reflexões, tanto para quem viveu esse período do Verão Quente de 75, como retornado ou não ou quem, como eu, apenas o estudou nos manuais na escola. É igualmente interessante ler este livro e ver a série portuguesa "E depois do adeus" que a RTP passou, julgo, que entre o final de 2014 e o início de 2015.

«Cartas Vermelhas» de Ana Cristina Silva :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.03.17

Carol, nascida em Cabo Verde, forma a sua identidade política, de ideais comunistas, enquanto estuda e vive a sua juventude em Lisboa, algum tempo depois já mãe, vê-se obrigada a deixar a filha num colégio russo para levar a cabo as suas missões partidárias. Os anos decorrem, os amores chegam e partem e a militância comanda-lhe os sonhos e a vida. Agora é tempo de reencontro, mas já passaram mais de 20 anos.

"O meu propósito não era modificar o passado, tão-pouco configurá-lo numa versão benigna, favorecendo-me através da descrição das circunstâncias que limitaram as minhas escolhas. No fundo, apenas desejava que reconhecesses como eu fora arrojada nesse tempo em que imaginava um novo mundo onde a felicidade dos homens viesse a ser saciada."

"Só a paixão detém poderes para anular as distâncias. Só esse estado fulminante faz com que o amor se perca de toda a racionalidade."

Sem modificações ou versão benigna, viajamos com Carol pelo seu passado, relatado através da sua memória, não para trazer de volta os anos que se perderam entre mãe e filha, mas para relatar o que foi a sua vida nos cerca de 20 anos de ausência na vida uma da outra. Desde a infância em Cabo Verde, até aos anos em Lisboa, e às missões pelo estrangeiro, tudo vai sendo relatado ao longe de capítulos que demonstram a escrita cuidada e equilibrada de Ana Cristina Silva.

"O povo de Cabo Verde não era formado por gente, mas por silhuetas famintas que se moviam lentamente. Mas os miseráveis da Cidade da Praia (...) em vez de chorarem lágrimas crepusculares, quando a luminosidade do dia declinava, preferiam entoar cânticos festivos na praia, ao som de tambores."

Do amor a um povo e a uma cultura que sempre desinquietou Carol, rapidamente passamos à admiração pelas palavras visionárias que a fizeram abraçar a causa comunista. E também abrir espaço a novas aventuras e amores que a consumiam com o fogo da paixão, mas também a lucidez de uma mulher que se desejava independente.

"O discurso dele ia ao encontro do que sempre procurara em Cabo Verde e nunca descobrira. A justiça da doutrina inspirava-a. Ele não se exprimia como quem dá lições, mas como um verdadeiro visionário."

"Aquele beijo constituiu para Carol a verdadeira origem da autoconsciência do seu poder de mulher. Apesar da inexperiência, intuíra que, como em certos livros, no amor há sempre um que ama e outro que é amado..."

Avançamos enredo adentro com as várias identidades que Carol assumiu, mas aceitamos desde logo que a política e as suas aventuras e desventuras são o foco central do livro, as paixões, os homens, os amigos, os militantes, os destinos, são meros veículos para conhecermos esta mulher que agora se apresenta, por via da ficção, à filha Helena. A narrativa espelha uma certa angústia e um tom distante, mas, a meu ver, em busca de reconhecimento pelo percurso que traçou.

"Ao relembrar o que aconteceu, puxa-se o fio de um novelo cuidadosamente enrolado. Um romance favorece uma história coerente, conseguindo atenuar a incongruência de certas acções, abrindo caminho para escolhas plausíveis que ficam bem numa narrativa, mas que na vida real revelam consequências devastadoras. Se confiarmos no texto, fico mais parecida com uma criatura mais fiável e corajosa."

Nem Tudo Será Esquecido - Wendy Walker

Roda Dos Livros, 19.03.17

Gosto quando um livro que eu não antecipei, me agarra e me prende à leitura como este. Um livro que eu afirmara não pretender ler. Apenas pela temática. Uma violação brutal de uma adolescente. Um crime numa pequena comunidade sem testemunhas. E sem provas. Um crime que acharam que podiam apagar da vitima, esquecendo as emoções que ficam registadas, apesar de a memória ter desaparecido. Mas... um trauma não pode ser curado com comprimidos. Implica tempo e esforço. A arte do terapeuta é fazer com que a vitima reviva os acontecimentos num ambiente emocional tranquilo para as acomodar com emoções mais benignas, o que lhe dá imenso poder. A mente que controla o corpo.

Uma grande amiga e uma grande leitora entregou-me este livro convencida de que eu ia gostar de o ler e mais uma vez não errou. Gosto de thrillers psicológicos, mesmo que me façam tremer e parar por momentos de o ler. Não foi o caso. O narrador, absolutamente brilhante, não nos deixa interromper a leitura, com a promessa de ir desvendando sem hesitação e controlada emoção, inclusive porque começou a tomar alguma medicação, tudo o que se passou com qualquer uma das personagens, destacando-se Jenny, Sean, Charlotte, Tom e Bob. E não falha. Todos se revelam, quase todos de viva voz, com as suas confissões.

Escrita assertiva e clara, sem perder de vista os principais aspectos da investigação ou os constornos dos envolvidos naquele drama. A psicologia do crime. Os segredos do passado que não se superam. Muito bom. Sequer consegui descobrir o violador, o que foi uma surpresa.

Sinopse:

Na pacata cidade de Fairview, no Conneticut, a vida parecia perfeita até à noite em que um acontecimento trágico chocou a comunidade. Jenny Kramer, uma adolescente com quinze anos, é brutalmente violada depois de sair de uma festa. Os médicos decidem administrar-lhe um fármaco usado nos casos de patologias de stresse pós-traumático, eliminando as memórias do incidente. Contudo, nos meses seguintes, Jenny é surpreendida com sensações que a fragilizam psicologicamente, levando-a a tentar o suicídio. O pai, Tom, está determinado a descobrir o culpado e fazer justiça. A mãe, Charlotte, age como se nada tivesse acontecido.
Os pais de Jenny procuram a ajuda do psiquiatra, Alan Forrester. Nisto, o seu casamento é posto à prova, revelando segredos e fragilidades, bem como a teia que une toda a comunidade. Afinal, todos têm algo que não desejam revelar e a busca pelo violador conduz a um thriller psicológico com um desfecho inesperado e perturbante.

O Leitor do Comboio - Jean-Paul Didierlaurent

Roda Dos Livros, 19.03.17

    Na minha opinião, dificilmente quem gosta de ler fica indiferente a este livro. Este é um desabafo impulsivo e sentido. As criticas de imprensa que aparecem na contracapa, ao contrário do que acontece com muitos outros livros correspondem à verdade. Um demasiado pequeno romance que me arrebatou e enterneceu desde o início. Primeiro Guylain e depois Julie. Que personagens excepcionais! Realmente, as pessoas comuns escondem um mundo extraordinário.

Gosto de recorrer a excertos do autor. Neste caso, para apresentar a personagem Guylain, um homem simples e solitário, que salva diáriamente umas quantas páginas soltas da Coisa e partilha o seu conteúdo com os passageiros do comboio. E com os leitores.

"Gosto de livros apesar de passar a maior parte do meu tempo a destruir grande parte deles. O meu único bem é um peixinho vermelho que se chama Rouget de Lisle, e conto por únicos amigos um amputado que passa o tempo á procura das suas pernas e um versejador que só sabe falar em versos alexandrinos." (pag. 189)

Duas idosas solicitam a sua comparência na sua residência uma hora por semana para lhes ler como fazia no comboio e a surpresa não termina por aí. Um dia, através dos docs da pen drive que achou, descobriu o diário de Julie e ficou interessado em a conhecer.

A vida de Julie é igualmente solitária e simples. O seu trabalho que ela não menospreza, em que precedeu a tia, deixou-lhe vários tialogismos que ela debita a torto e a direito. Também ela gosta de ler livros. E de escrever os seus pensamentos, Os sons que lhe chegam através das portas cerradas e que a tia classificou em tr~es grandes categorias e ela acrescentou outra, são pura diversão. Refinado humor!

Personagens quase invisiveis para os outros mas atentas aos que os rodeia, Personagens que não vivem apenas nas páginas de um livro,

Os bons amigos incentivam a novos desafios, com novos e/ou maravilhosos livros. Amigos que compreendem a necessidade de nos embrenharmos em mundos cada vez mais longíquos através dos livros. Obrigada Cristina Delgado. Tinhas razão. Gostei muito.

Sinopes:

O poder dos livros através da vida das pessoas que eles salvam. Uma obra que é um hino à literatura, às pessoas comuns e à magia do quotidiano.Jean-Paul Didier Laurent é um contador de histórias nato. Neste romance, conhecemos Guylain Vignolles, um jovem solteiro, que leva uma existência monótona e solitária, contrariada apenas pelas leituras que faz em voz alta, todos os dias, no comboio das 6h27 para Paris.A rotina sensaborona do protagonista desta história muda radicalmente no dia em que, por mero acaso, do banquinho rebatível da carruagem salta uma pen drive que contém o diário de Julie, empregada de limpeza das casas de banho num centro comercial e uma solitária como ele… Esses textos vão fazê-lo pintar o seu mundo de outras cores e escrever uma nova história para a sua vida.O Leitor do Comboio revela um universo singular, pleno de amor e poesia, em que as personagens mais banais são seres extraordinários e a literatura remedia a monotonia quotidiana. Herdeiro da escrita do japonês Haruki Murakami, dotado de uma fina ironia que faz lembrar Boris Vian, Jean-Paul Didierlaurent demonstra ser um contador de histórias nato.

O Ruído do Tempo - Julian Barnes

Roda Dos Livros, 19.03.17

oruidodotempoGosto tanto da escrita apurada e sintética de Julian Barnes. Sem falhas. Ritmada. Como uma bela música. Desta feita sobre a vida e obra de Dmitri Chostakovich, um importante compositor russo do tempo do estalinismo, atormentado e manipulado pelo poder, que o ameaçava e punia quando não agradava ou bajulava e premiava quando cedia.

Dividido em três partes, começa No Patamar quando de malas feitas aguardava que o viessem buscar a meio da noite.

"Todo aquele esforço e idealismo e esperança e progresso e ciência e arte e consciência, e acaba tudo assim, com um homem de pé junto a um elevador, com uma pequena mala que contêm cigarros, roupa interior e pó dentrífico; ali de pé, à espera de ser levado."   (pag. 52)

Prossegue No Avião, quando anda em digressão pelos Estados Unidos coagido a atuar conforme é determinado pelo poder.

"A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo. "   (pag. 104)

"O que podiamos construir contra o ruído do tempo? Só essa música que está dentro de nós - a música do nosso ser -, que é transformada por alguns em música real.  Que, ao longo das décadas, se for suficientemente forte e verdadeira e pura para afogar o ruído do tempo, se transforma no murmúrio da História."    (pag. 138)

E termina No Carro depois de ter suportado todas as humilhações e aspirar à morte como forma de libertação.

"Toda a sua vida confiara na ironia. (...) E uma parte de nós acreditava que, enquanto pudéssemos confiar na ironia, conseguiríamos sobreviver. (...) No entanto, já não tinha tanta certeza. (...) A ironia, já percebera, era tão vúlnerável aos acasos da vida e do tempo como qualquer outro sentimento. (...) E a ironia tinha limites. Por exemplo, não se podia torturar e ser irónico; ou ser vitima de tortura e ser irónico. (...) Se virássemos costas à ironia, ela petrificava em sarcasmo. (...) O sarcasmo era a ironia que tinha perdido a alma."  (pag. 186-188)

Narrativa inteligente, subtil e irónica, que me encanta. Que me dá que pensar nos tempos que correm. Poderia ser uma leitura pesada mas o talento de Julian Barnes não deixa, apesar de abordar a relação do Poder com a arte e os artistas, assim como a violência mesmo que esta não seja fisica sobre o homem e a sua humanidade.

Sinopse:

Em janeiro de 1936, Estaline assistiu à apresentação da muito aclamada ópera de Chostakovich, Lady Macbeth de Mtensk, no Teatro Bolshoi, em Moscovo. O compositor ficou muito perturbado com a intempestiva e prematura saída do líder do camarote, acompanhado pela sua comitiva. Dois dias depois aparecia no jornal Pravda uma crítica com o título «Chinfrim em vez de Música», escrita provavelmente pela pena do próprio Estaline. Diz Julian Barnes sobre o livro: «A colisão entre Arte e Poder - e o exemplo específico de Chostakovich - é o coração do meu romance. Chostakovich foi, durante meio século, o compositor mais celebrado da União Soviética, desde o sucesso mundial da sua Primeira Sinfonia, em 1926 (tinha ele 19 anos), até à sua morte, em 1975. No entanto, ele foi também o compositor que, na História da Música ocidental, foi mais perseguido, e durante mais tempo, pelo Estado e que sofreu pequenas e caprichosas interferências e ameaças de morte, passando por uma longa e constante coação e intimidação. Em muitas ocasiões, sob a ditadura estalinista, Chostakovich temeu pela sua vida, com razão. […] "A História, assim como a biografia, irá desvanecer-se. Talvez um dia, fascismo e comunismo sejam apenas palavras num livro de texto. Nessa altura […], a sua música será apenas música." À medida quo o ruído do tempo diminui, é mais fácil ouvir melhor a música de Chostakovich. O melhor sobrevive. Também é mais fácil ver o homem propriamente dito: complicado, cheio de conflitos e de princípios, que se condena, leal, teimoso, astuto, divertido, sarcástico e pessimista, cuja existência consistia inteiramente na sua música.»

A Avó e a Neve Russa - João Reis

Roda Dos Livros, 19.03.17

Como não querer ler este livro? Um menino que nos fala (como um menino) da sua visão do mundo e dos planos para salvar a avó doente.

É um menino que, na verdade, já é um homenzinho. Que sabe tantas coisas, tantas, da História do mundo e das pessoas em seu redor. Sabe da solidão da doença e da certeza de que a avó, apesar da exposição aos ventos atómicos, não pode morrer. Nem que para isso, seja ele próprio a salvá-la.

Tinha alguns receios acerca desta leitura, nomeadamente que a verosimilhança (ou falta dela) atraiçoasse a ideia (brilhante) de colocar todas as palavras deste livro na boca de uma criança. Um trabalho de estofo, diria eu, manter o leitor crédulo no pequeno (de quem nunca sabemos o nome) que nos conta tantas coisas da história da sua própria família, e revela uma aprendizagem alargada e deliciosa de tantos acontecimentos mundiais.

O seu olhar sério sobre a escola, a vizinhança, tudo o que observa e o faz, não só pensar, mas colocar em causa ou interrogar-se sobre questões pertinentes que podem começar pela saúde debilitada da avó devido acidente nuclear de Chernobyl, mas que avançam sem controlo para reflexões sobre xenofobia (ou xenofilia num dos vários admiráveis equívocos), ou pelas mais variadas injustiças do mundo.

E sim, acreditei até à última página que este menino me falava, que os seus olhos me davam uma perspectiva infantil com a qual me deliciei tanto de felicidade como de tristeza, que quis ficar triste com a morte iminente da Babushka, mas que a crença do neto na cura me arrancava fé de onde eu não sabia que tinha. Uma fé que durou um livro. Pouco para alguns. Muito para mim. A escrita de João Reis tem a competência de fazer sonhar, infelizmente dentro de limites, mas sonhar. Tem o dom do sorriso, mesmo que misturado com a tristeza da racionalidade que não nos deixa, e que talvez por isso, permite uma beleza feita de tanta simplicidade.

Eu gostava que todos o lessem.

“Os avós paternos do Matt estiveram num acampamento de concentração dos Nazis do Senhor Hitler, e os seus pais eram ainda crianças pequeninas e ficaram escondidos em Varsóvia porque cabiam em todos os armários. A avó do Matt morreu num desses acampamentos de concentração do Senhor Hitler; comia pouco e ficou magra até morrer, e depois carbonizaram-na para que não ficasse a ocupar espaço e enviaram-na para as caldeiras, já que moravam muitas pessoas naqueles acampamentos e não havia o aquecimento que temos hoje em dia. O avô do Matt sobreviveu, porque fazia serviços no campo e falava alemão e algum francês, foi isso que o salvou. Deram-lhe comida suficiente para não comer de menos e ficar magro até morrer. Porém, ele acabou por se matar, ainda o Matt era uma criança; não aguentou a pressão da sociedade que cai sobre um sobrevivente e o esmaga, acordava a meio da noite em terrores vivos, a chorar.” Pág. 95/96;

“E as árvores envelhecem e mantêm-se de pé e aumentam o tronco, mas as pessoas encolhem e encolhem até desaparecerem pressionadas pela idade que têm em cima do corpo; porém, as árvores não se podem mexer e ficam presas à terra e não conseguem fugir, e nisso são parecidas com a Babushka, deitada na cama do hospital, tão pequena, pequenina, se não fosse pelos cabelos brancos quase seria um bebé da maternidade. Pobre Babushka: escapar aos ventos fulminantes para estar assim, arruinada numa cama, e só uma planta a pode ajudar, um cato.” Pág. 105;

Sinopse

“Babushka está doente. Esta russa idosa, emigrante no Canadá, sobreviveu ao acidente nuclear de Chernobyl. Esconde no peito a doença que a obriga a respirar a contratempo e lhe impõe uma tosse longa e larga e comprida e sem fim — um mal que a faz viver mergulhada nas memórias do seu passado luminoso, a neve pura da Rússia, recordação sob recordação.Na fronteira com a realidade caminha o seu neto mais novo, de dez anos, um menino que não desiste de puxar o fio à meada e de tentar devolver a avó ao presente. Para ajudar Babushka, precisa de encontrar uma solução para os seus pulmões destruídos, sacos rasgados e quase vazios — mesmo que isso o obrigue a crescer de repente e partir em busca de uma planta milagrosa, o segredo que poderá salvar a família e completar a matriosca que só ele vê.Narrado na primeira pessoa e escrito a partir da perspetiva de uma criança, A Avó e a Neve Russa é um livro feito da inocência e da coragem com que se veste o deslumbramento das infâncias. Romance simples e emotivo sobre a força da memória e da abnegação, relata a peregrinação de um neto através da esperança, do Canadá ao México, para encontrar a possibilidade de um final feliz.”

Elsinore, 2017

Onze Tipos de Solidão - Richard Yates

Roda Dos Livros, 04.03.17

onzetiposdesolidaoQuando comecei a escrever sobre este livro de contos pensava dedicar um texto a cada uma das histórias. Escrevi umas linhas para o primeiro conto, e mais umas linhas para o segundo. Contudo a leitura ganhou fôlego e dediquei-me a lê-los de seguida, sem me preocupar com anotações e possíveis futuros textos.

A solidão é um tema que me toca particularmente, por ter tanto por onde pegar, literariamente falando. E Yates explora este tema de forma admirável.

Os onze contos não se relacionam, mas todos narram histórias de gente que, de alguma forma, está só. Da infância ao serviço militar, passando pelo casamento e pela doença, ficam as imagens (porque achei a narrativa muito visual) de Onze Tipos de Solidão, que me agarraram pela escrita tão completa que utiliza, curiosamente, poucas palavras. Yates fez-me sentir mais, fez-me estar mais perto das personagens e das suas solidões, nestes contos com cerca de vinte páginas cada, do que muitos calhamaços com centenas delas.

Com um poder de síntese impressionante e uma clareza admirável, Yates já devia ter saltado para as minhas leituras obrigatórias há muito.

Sinopse

“A partir da vida de empregados de escritório em Nova Iorque; de um taxista que ambiciona a imortalidade; de jovens romancistas frustrados; de professores desprezados pelos alunos; de homens do subúrbio e das suas mulheres deprimidas e negligenciadas, de aperitivos e martinis e bares de jazz sem glamour nenhum, Richard Yates constrói um mosaico assombroso dos anos 1950, período em que o sonho americano começava finalmente a concretizar-se e, em simultâneo, a revelar um grande vazio.Publicado a seguir ao romance que consagrou Richard Yates - Revolutionary Road - o conjunto de onze histórias - ilustrando cada uma delas uma vertente desses Onze Tipos de Solidão - cria, para lá do retrato, uma forte atmosfera de alienação e desconexão social.”

Quetzal, 2011

Tradução de Nuno Guerreiro Josué