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Roda Dos Livros

«Os sinais do medo» de Ana Zanatti - Opinião

Roda Dos Livros, 25.02.17

Flávia, ou melhor a Tia Flávia e a sua Rosarinho, bem como Maria do Carmo e a sua sobrinha Rita, são todas elas personagens deste «Os Sinais do Medo», a homossexualidade é o tema central, ou pelo menos o que movimenta o enredo. Luis e Paulo vivem momentos tensos e relações complexas, já que a orientação sexual vai hipotecar algumas relações familiares.

A família, a carreira, a religião, a sociedade e a dificuldade de aceitação, própria e de outros, condiciona estas vidas, estas e outras, que o que não falta a este romance são personagens, mesmo que só tenham uma ou duas linhas a elas dedicadas.Este "sinais do medo" é muito um juntar de solidões e de relatos que encaixam demasiado bem uns nos outros e talvez isso seja o que me fez desgostar do livro a partir de determinado ponto." - Falar a sério não significa falar só de dramas. Também há alegrias profundas, sonhos, fantasias que é bom partilhar"Pois, era exactamente mais disso que eu também queria e esperava encontrar.Os primeiros capítulos têm passagens muito boas e um ritmo que cativa o leitor e há toda uma linha temporal que andamos à procura para situar momentos decisivos para aquelas personagens e em que fase da história se irá desenrolar a maior parte do enredo. No entanto, algumas dezenas de páginas depois percebemos alguma previsibilidade na história e a introdução de diálogo e alguma repetição dos sinais, dos medos, das preocupações, vão cansando o leitor. Ainda assim, Zanatti tem pasagens muito bem conseguidas que dão retratos muito particulares das personagens e dos medos que vivem."Desde sempre ele lhe dera a impressão de viver escondido nas bainhas dos vestidos da mãe com medo que o seu calor lhe faltasse."Faltar, falta muita coisa a estas personagens, no seu todo, pretendem passar para o leitor a comiseração e o desprezo familiar, a condenação social, a indignação e a troça em olhares e comentários e toda uma luta futura ou até a existência do próprio futuro. A dor, os sentimentos feridos, o orgulho amachucado, o íntimo revisitado, entre outras emoções são aqui descritas, mas não são propriamente sentidas, ou seja, é narrado, apresentado ao leitor, mas as acções e o decorrer da narrativa não deixam que seja o leitor a descobrir. Digamos que é tudo dado e corre o risco da superficialidade."Foi-me fácil entender que amar o próximo não passa duma frase sem sentido enquanto o medo andar à solta."Eu diria também enquanto a falta de auto-compaixão toldar a nossa empatia para com o próximo, o medo ganhará sempre terreno.  Pior ainda quando esse medo e essa falta de empatia está dentro de casa e este "sinais do medo" está recheado de solidões impostas e falta de cumplicidade familiar."Qualquer tentativa para arejar o espírito dos meus queridos pais, era como tentar espetar um alfinete numa viga de aço..."

«Não terão o meu ódio» de Antoine Leiris - Opinião

Roda Dos Livros, 25.02.17

Julgo não ser fácil opinar desta leitura sem que se fale em emoções ou se apele a elas. Aliás, quase não se tem vontade de escrever sem que se recorra às palavras, às frases, às imagens com que o livro nos bombardeia. Por um lado, ainda bem que o relato é curto, caso contrário tornar-se-ia insuportável. O medo sente-se quase a cada linha. A desilusão, a tristeza, a perda e a desorientação. Eles poderão não ter o ódio dele, mas ele ganhou, sem pedir, uma série de sensações e emoções que lhe pautarão o resto da vida.

"Agora, sabemos. Na altura, entre duas reviravoltas da história de que ele é o herói, compreendo por que razão não me anunciou que ela já tinha partido, nos braços dele. Compreendo que ele ainda não era o sobrevivente que hoje vejo. Continuava lá, encurralado naquela cena que nunca mais acabava. E quando me pede desculpa por não me ter conseguido dizer, não o recrimino. No filme dele, as personagens não morriam. Mas o filme não era dele. (...)Sigo a história, minuto a minuto. Vislumbro o cenário. Registo tudo calmamente. Sei que o Mevil me perguntará em breve como é que a mãe partiu, sei que ele vai querer saber tudo. Por isso, porto-me bem. Escuto, como espectador, o drama da minha vida que já começou, que não esperou pelo narrador.Quando ele acaba, falamos disto e daquilo para fingir que o mundo não se desmoronou."Mas desmoronou!A 13 de Novembro de 2015 nos atentados de Paris, mais precisamente no Bataclan, Antoine perdeu Hélène e Melvil talvez tenha perdido uma parte dos dois e uma irrecuperável parte que era: "o três"."À esquerda, depois da praça central, surge a campa. Aproximamo-nos. Chegamos. Tenho toda a minha vida debaixo dos pés. Cabe nuns quantos metros quadrados de pedra, de frio e de lama. É pequena uma vida. Pouso a fotografia entre as flores brancas que constelam a pedra. Como numa nuvem de estrelas agarradas à noite. Uma noite sem Lua. Fechada no seu túmulo, ela nunca mais reaparecerá."O livro é pura poesia e dor. Talvez tenha um traço ténue de esperança, afinal existe um bebé de dezassete meses para continuar a criar, mas o medo persiste e pauta todas as linhas. Lemos com um aperto e pensamos por que motivo não pensamos mais em aproveitar a vida e aqueles que amamos. Mas a verdade é que coisas pequeninas e insignificantes nos roubam o sorriso e os momentos, pois continuamos a caminhar como se fôssemos imortais. No entanto, ler muitos livros destes para darmos mais valor ao que temos é meio caminho andando para ficar deprimido. A dor e a solidão que resta é atroz. Mói cá dentro."Devíamos dar coletes fluorescentes a todas as pessoas que queremos evitar. O pessoal do apoio psicológico está de colete, nessa manhã, o que me facilita a vida. Não quero falar com eles. Tenho a impressão de que me querem roubar. Querem tirar-me a infelicidade, aplicar-lhe um bálsamo de fórmulas feitas, para depois ma devolverem desvirtuada, sem poesia, sem beleza, insípida."

Iluminações de uma Mulher Livre – Samuel F. Pimenta

Roda Dos Livros, 16.02.17

imageHaverá quem não concorde quando outrem diz que tem direito a ser feliz? Que o objetivo de qualquer ser humano é ser feliz, que esse é um seu direito fundamental? Que deverá ter liberdade para ser feliz?

“Iluminações de uma Mulher Livre” é, antes de mais, um livro sobre o direito à felicidade. A felicidade no feminino mas não só. E sobre o quão importante é a liberdade para ser feliz.

Neste livro Samuel Pimenta volta várias vezes à prosa poética naquele que, para mim, começa a esboçar-se já como um traço da sua escrita. E, uma vez mais, é a prosa poética que suaviza a exposição, por vezes dura, da temática deste livro.

Dando voz a uma mulher, Samuel traz-nos rasgos de feminismo e do eterno feminino mas, sobretudo da humanidade onde o género não é questão nem condição.

Pela voz de Isabel acompanhamos a revelação de estereótipos e preconceitos desde a infância à idade madura. Acompanhamos a evocação de arquétipos e a quase omnipresença de histórias e personagens clássicas e mitológicas, numa escrita rica em referências.

Surpreendeu-me a forma como o escritor “entra” de forma tão viva “na cabeça” de uma mulher.

Samuel é um jovem escritor mas na sua escrita, nas histórias que nos traz, encontramos a visão de quem amadureceu ideias. Já por várias vezes ouvi alguém referir-se ao autor como um escritor de intervenção, pelos temas que aborda. Não gosto de rótulos, mas posso seguramente afirmar que Samuel F. Pimenta é uma pessoa atenta. Um escritor a acompanhar!

Um livro que recomendo a todos os leitores independentemente do género.

Um livro sobre o direito à felicidade. A ler!

Excertos

“(...) Sim! Sim! E eu só queria dizer não, negar tudo aquilo. Porque dizer não ao que nos violenta é dizer sim a quem somos. (...)” (p.26)

“(...) Ainda hoje sinto pena de todas as mulheres que mimetizam os homens e perpetuam o domínio, acreditando que, com ele, o mundo pode avançar. Não, o mundo não avança assim. O mundo só avança se nos pudermos libertar.” (p. 27)

“(...) É fascinante pensar que nós, humanos, já vivemos condicionados pelos mesmos instintos dos animais. A reprodução e o território. É desolador pensar que hoje não somos assim tão diferentes. Abandonámos o nosso modo de vida rupestre e criámos códigos para viver em sociedade, mas ainda nos condicionamos pelos mesmos instintos de outrora. (...)” (p. 75)

“(...) Os humanos vivem de miragens. A verdadeira paz só pode existir se conhecermos a verdade das coisas, porque, se assentar numa ilusão, é uma paz fictícia. (...)” (p. 79)

“(...) O que o constrangeu foi não conseguir definir-me, foi não saber que palavra usar para dizer o que sou e aquilo em que acredito. Estar diante de alguém que não conseguimos definir, rotular, lembra-nos da nossa incapacidade de nos apropriarmos de tudo o que existe. Somos impotentes. E isso constrange. Assusta. (...)” (p. 84)

“(...) É escusado anteciparmo-nos relativamente ao que irá acontecer no futuro. Podemos imaginar, idealizar, podemos tentar prever alguma coisa, adivinhar um acontecimento qualquer, mas o que acontece é sempre imprevisível.(...)” (p. 171)

“(...) Tudo o mais é medo, como dizem os versos de Rumi. «O Amor não se baseia em alicerces,/ É um oceano interminável,/ sem começo nem fim./ Imagina/ um oceano suspenso,/ montando os almofadões dos segredos antigos./ Todas as almas mergulhadas neles,/ e é ali onde agora habitam./ Uma gota desse oceano é esperança,/ e tudo o mais é medo.»” (p. 185)

Sinopse

Não nascemos para odiar, mas sim para amar

A velha, a menina, a mulher: bruxa, santa ou messias?

Na aldeia onde é rejeitada e perseguida pela população, Isabel acorda com a única ideia capaz de a libertar do casamento opressor em que vive: matar o marido. Se, de início, a ideia lhe parece improvável, vai ganhando força à medida que recorda as histórias das mulheres do passado, de que a avó lhe falava quando, com outras mulheres, se reuniam em grupos femininos secretos para falarem de oráculos, curas e magia.

Isabel é moderna, sensível, curiosa e sempre quis a sua independência. Cresceu na capital, mas mudou-se para a aldeia por causa do casamento. E foi essa união que a aprisionou numa existência de medo e abuso. Só ela pode libertar-se desse homem castigador, e ao longo de vários dias Isabel confronta-se com todos os receios e dúvidas, imaginando planos e lembrando-se dos ensinamentos da avó, procurando argumentos que fortaleçam a sua decisão, enquanto cumpre com todos os rituais quotidianos da casa com beleza e empenho poético.

Partindo da figura de Isabel, a mulher visionária e messiânica que é protagonista deste romance, Samuel F. Pimenta revisita histórias que nos chegaram por via da tradição oral, figuras históricas, mitos e referências da literatura universal. Antígona é um desses casos. Ao lado da evocação da heroína de Sófocles, o autor conta-nos também uma história contemporânea e pertinente sobre a opressão – nomeadamente a violência de género –, tornando presente a condição feminina ao longo dos séculos e deixando questões para o agora e para o futuro.

Marcador, 2017

«A avó e a neve russa» de João Reis :: Opinião

Roda Dos Livros, 15.02.17

Em estreia absoluta na publicação de autores portugueses a Elsinore traz-nos João Reis e este seu romance de tom (só tom!) infantil «A avó e a neve russa».

Seguimos Russkiy (diminutivo nada xenófilo!!!) na sua saga por salvar a família, o que implica nada mais nada menos, que racionalizar nos seus dez anos de idade, uma ida ao México a fim de salvar a avó Babushka, sobrevivente do acidente nuclear de Chernobly.

"(...) e é assim que quero ser quando for adulto: mais seguidor da racionalidade do que das emoções, para não sofrer."

Há toda uma geografia peculiar e mascarada da realidade, assim como num sonho-meio-acordado em que vive este rapaz de conhecimentos quase enciclopédicos, mas dono da ingenuidade e da inocência de quem, mesmo misturado e vítima de algumas dificuldades, vê ainda o mundo pelos olhos próprios da infância. Mas, sem nunca esquecer o peso de querer ser um «homenzinho».

"Quando se é velho, o sangue não chega às extremidades, e é necessário exterminar os pés com uma serra, ou os velhos ficam vegetais na cabeça, o que tem lógica se virmos os desenhos do corpo: o coração está sempre ao centro."

"Ontem, antes de a Babushka ter o ataque de tosse que a fez dobrar-se em metade que é, tão pequenina..."

Perante a constatação do avanço da doença, o menino não entende a passividade da medicina, mas não baixa os braços. Recorre à filosofia, aos filmes, aos livros e a um rol de personagens que complementam muito bem toda a narrativa e justificam, digamos assim, a panóplia de ideias que lhe povoam a cabeça.

"Há que pensar em tudo muito bem pensado, e admira-me que o Matt não saiba estas coisas. Mas ele não tem televisão e não vê filmes, por isso, até se percebe que não saiba o essencial da vida."

Esse essencial da vida, que reestruturamos à medida que vamos com esta personagem pelo avançar dos dias enquanto não neva e ficamos a pensar nas ideias simples, mas bem recheadas com as quais se perde a caminhar e a pensar na vida. E nisso João Reis quase nunca perde o rótulo inicial, o tom meio infantil e inocente é constante no discurso deste descente de quem veio do frio das neves russas.

"Um dia, quero também tirar uma fotografia a preto e branco, cheia de sombras e de luzes, para parecer misterioso e os meus filhos e netos e descendentes imaginarem aquilo que fui quando já não se lembrarem de quem eu era na realidade, e assim me tornar interessante e importante."

Continuo a dizer que apesar do tom infantil e que por vezes nos faz soltar uma risada aqui e ali, há toda uma mão cheia de reflexões que nos fazem parar para pensar. Este é um livro no qual pegamos e temos dificuldade em largar. Apegamo-nos ao personagem e queremos viver com ele emoções que cruzam fronteiras e atravessam culturas.

"Ao dar um passo após o outro, tenho pena de que na cidade das partes suplentes não existam olhos menos tristes e pulmões mais fortes."

O Último Paraíso - Antonio Garrido

Roda Dos Livros, 15.02.17

oultimoparaiso Como o título sugere, neste livro temos uma história de esperança de desesperados que na década de 1930 emigraram para a Rússia com a promessa de um futuro melhor. Este facto, que eu desconhecia, em que milhares de emigrantes como técnicos e operários especializados, idealistas e desesmpregados partiram em resposta ao apelo de prosperidade, mas muitos foram vitimas da Grande Purga Estalinista.

Registo com apreço o intenso trabalho de investigação que o autor teve que fazer para chegar a uma história inspirada em factos e pessoas reais numa intriga bem elaborada e verossimel, procurando transmitir sentimentos como o medo, ambição e ira.

Jack Beilis é o protagonista que me conquistou, mas todos os outros dão brilho a esta narrativa.

Há livros que são suscetiveis de nos passarem despercebidos, o que é uma pena considerando o imensurável prazer que nos podem proporcionar. Entre as páginas deste romance percebi que perdia a noção do tempo e do espaço, o que raramente me acontece, inclusive porque leio em espaços públicos.

Desnecessário acrescentar, mas ainda assim vou fazê-lo. Adorei e recomendo vivamente este romance.

Sinopse:  Em 1929, o jovem e experiente Jack Beilis tinha o seu próprio carro, usava fatos feitos à medida e frequentava os melhores clubes de Detroit. Mas a crise brutal que nesse ano atingiu a América atirou-o, como a milhares de compatriotas, para os braços da fome e do desespero. Forçado a sair do país após cometer um crime, foge para a União Soviética, o império idílico onde a todos era igualmente garantido o direito à felicidade, sem suspeitar dos insólitos incidentes que o destino ainda lhe reserva. Inspirado em acontecimentos reais, este thriller combina magistralmente factos históricos, suspense e romance, resultando numa extraordinária reinvenção do mito do sonho americano.

Roda dos Livros - Sugestões de Fevereiro de 2017

Roda Dos Livros, 12.02.17

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Numa tarde chuvosa e fria nada como "ficar em casa", no aconchego de amigos e de livros. Sim, sentimo-nos em casa na Biblioteca dos Olivais, que nos acolhe para falarmos sobre as nossas leituras e no calor da discussão esquecermos o mau tempo que faz lá fora.

Este mês tivemos uma Roda muito animada e quase em pleno, com poucas ausências. Tão diversas como todos nós, aqui ficam as nossas sugestões de leitura para aquecer no rigor deste Inverno:

Isabel - "Os Contos da Peste", de Mário Vargas Llosa

Vera - "O Último Paraíso", de António Garrido

Cristina - "A Imperatriz da Lua Brilhante", de Weina Dai Randel

Célia - "Onze Tipos de Solidão", de Richard Yates

Márcia - "É Assim Que A Perdes", de Junot Díaz

Jorge - "Quem Me Dera Ser Onda", de Manuel Rui

Joana - "Nem Todas As Baleias Voam", de Afonso Cruz

Cris - "A Vegetariana", de Han Kang

Ana - "Esta é a  Tua Vida, Harriet Chance!", de Jonathan Evison

Ana C - "Chanson Douce", de Leila Slimani

Patrícia - "A Máquina de Joseph Walser", de Gonçalo M. Tavares

Renata - "Tresmalhado", de Jorge Roque

Sónia - "Yoro", de Marina Perezagua

Rui - "Os Níveis da Vida", de Julian Barnes

Fernanda - "Os Números que Venceram os Nomes", de Samuel Pimenta

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“Breve História de Sete Assassinatos” de Marlon James

Roda Dos Livros, 12.02.17

  

breve_historiaMarlon James' previous books include The Book of Night Women and John Crow's Devil.

 

“Deixai-vos, pois, ficar a boiar no conforto da superfície de vós mesmos. Não queirais saber qual é a criatura ignóbil, o pequeno monstro, que provavelmente se vos deparará quando imprudentemente abrirdes a vossa própria caixa de Pandora.”

Cristina Drios in “Adoração”

“A arte é o maior crime da humanidade, pois vai contra todas as leis e contra tudo o que é estabelecido e seguro.

”Afonso Cruz in “O pintor debaixo do lava-loiças”

Eu não queria ler este livro. Mais, tinha decidido firmemente jamais lê-lo, ponto final. Que há livros que não são para todos e “Breve História de Sete Assassinatos” não era, com certeza, para mim. Mas, como diz a sabedoria do povo, nunca digas desta água não beberei ou pela boca morre o peixe e, contra todas as expectativas, dou por mim a ler exactamente o tal romance que julgava ter rejeitado. Porquê? Porque a curiosidade é um bichinho-carpinteiro inquieto e tramado e as primeiras frases da primeira página apanharam-me desprevenida, posta em sossego dentro dos limites seguros das minhas preferências literárias, e assim lançaram um feitiço poderoso  sobre uma leitora mais que renitente: agora preciso mesmo de ler este livro!

Um livro que tinha tudo para me desagradar e passo a enumerar: detesto livros sobre mafiosos, traficantes e toxicodependências; detesto livros sobre assassinos psicopatas pejados de palavrões; detesto livros dominados por actos de violência, narrados em catadupa imparável, cada qual mais abjecto que o anterior. Em suma, detesto romances que me conduzam à escuridão mais sórdida da natureza humana. Pois é...no entanto, mal peguei nesta história não descansei enquanto não cheguei ao seu final.

Ah! Para além disto, também há a Guerra Fria, espiões da CIA e políticos, Bob Marley e muita música, tudo compondo uma espécie de fresco sobre a história recente da Jamaica.

Não foi uma leitura fácil, muito menos prazenteira, assemelhou-se mais a uma sucessão de murros no estômago metafóricos tão fortes que quase me apeteceu espreitar a barriga para ver se não havia lá marcas. Hesito em dizer que gostei de ler este livro e, contudo, pasmo ante a mestria da sua concepção, espanto-me com a escrita extraordinária de Marlon James marcada pelo distintivo de um contador de histórias exímio: a capacidade de funcionar como “botão de transporte” para aquelas épocas e locais, a facilidade com que transmite a quem lê um caleidoscópio de emoções e sensações.

As várias vozes que povoam este romance evocam a cacofonia e o caos, nada há aqui de belo e a sua estética parece provir do grotesco, até do inominável, ou quase inominável. Se há livros que desconcertam e incomodam, para mim, este é seguramente um deles. Foi um abanão, uma chamada de atenção, um alargar de limites auto-impostos sobre o que ler ou não ler. Foi, certamente, pretexto para reflexões acerca da natureza do Homem e do mundo, sobre a tremenda e obscena miséria material em vive mergulhada parte da humanidade apesar do progresso imparável da técnica e da abundância em que outros vivem.

Se recomendo a leitura deste “Breve História de Sete Assassinatos”? Sim, claro mas preparem-se para uma viagem realmente alucinante ao fundo do pior que reside em nós.

Sinopse:

VENCEDOR DO MAN BOOKER PRIZE 2015 “UM DOS MELHORES LIVROS DO ANO” EM 23 LISTAS (INCLUINDO NEW YORK TIMES, TIME E AMAZON) Jamaica, 3 de Dezembro de 1976. Sete assassinos de metralhadoras em riste entram de rompante na casa de Bob Marley. Apesar de ferido no peito, o cantor de reggae sobrevive. Os homens nunca foram descobertos. Mais de oitenta mil pessoas assistem ao concerto que Marley dá dois dias depois. Uma Breve História de Sete Assassinatos é um livro que revela um poder narrativo impar para explorar este evento quase mítico. Com uma acção que atravessa três décadas e vários continentes, narra as vidas de vários personagens inesquecíveis — miúdos da favela, engates de uma noite, barões da droga, namoradas, assassinos, políticos, jornalistas, e mesmo agentes da CIA. Uma Breve História de Sete Assassinatos foi considerado um dos melhores e mais extraordinários romances do século XX, abordando as questões do poder, do dinheiro, do racismo e da violência. «Uma Breve História de Sete Assassinatos é uma obra-prima.» [Chris Salewicz] «Um romance ao mesmo tempo temível, lírico e magnífico por um dos autores mais consagrados de hoje.»

A louca da casa - opinião

Roda Dos Livros, 09.02.17

A Louca da Casa"(...) continuo a pensar que escrever nos salva a vida. Quando tudo o resto falha, quando a realidade apodrece, quando a nossa existência naufraga, podemos sempre recorrer ao narrativo."

A loucura, a realidade, a memória e a imaginação, são temas centrais ou até fulcrais nesta e em outras obras da autora. A descrença no passado e nas memórias em prol da função criativa e nutritiva da imaginação abrem espaço para toda uma outra forma de viver e interpretar a vida. É o tal "bichanar da criatividade" que pauta os dias da autora e que ela julga ser importante para que o lado imaginário não morra. A morte prematura desse lado mais infantil, mais alucinado pode causar um estado adulto muito profundo, e por sinal enfadonho e desenraizado. Alimentar a "louca da casa", ou seja, esse lado, meio louco do imaginário, é potenciar uma existência mais duradoura e saudável. Vem daí a ideia de que os livros nos salvam.

Talvez até se possa dizer que este livro é em si um elogio à loucura!

No entanto, a loucura mais negra e tóxica também é aqui descrita como uma viagem, uma possibilidade de aceitar o medo e as crises como elementos de criação e de convivência com um outro lado. Lado esse, nosso, que desconhecemos e que também ele é cheio de novidades... Estejamos é nós despertos e abertos para o aceitar.

"Acabei por perder o medo ao medo e por aceitar o facto de a vida possuir uma percentagem de negrume com o qual é necessário aprender a conviver. Hoje chego a considerar aquelas crises um verdadeiro privilégio, porque foram uma espécie de excursão extramuros, uma pequena viagem turística pelo lado selvagem da consciência."

Essa excursão extramuros acarreta algum sofrimento, no entanto, essa peregrinação é necessária para abraçar um lado mais sombrio, talvez isso até justifique um lado mestiço e complexo que a literatura assume actualmente, num misto muito grande de géneros, todos eles misturados num só livro ou livros de um só autor.

"A realidade não é mais do que a tradução redutora da imensidão do mundo e o louco é aquele que não se adapta a essa linguagem."

Muitas são as questões que Montero aborda neste seu ensaio romanceado, fazendo jus a algo em que afirma acreditar, que a literatura serve, antes de mais, para lançar questões e não para dar respostas prontas a usar, desvalorizando assim autores muito panfletários, que usem os seus romances para disseminar mensagens.Para além do mais, o romance deve perdurar impreciso, desmesurado e meio deformado tal como a realidade que abarca. Só assim será um reflexo da vida.

"Passados poucos meses, o assunto do desaparecimento da minha irmã tinha-se transformado num daqueles tabus que tanto abundam nas famílias, lugares demarcados e secretos por onde ninguém transita, como se esse acordo tácito de não revisão e de não menção fosse a base da convivência ou mesmo da sobrevivência dos membros do grupo familiar."

Montero explora de forma muito próxima temas que são comuns a todos, mas fá-lo com recurso a episódios biográficos de vários autores e excertos das suas obras que chega a criar uma sensação de proximidade entre todos, eles e nós, criando um ambiente bastante familiar, unindo-nos a todos. Tal como os livros fazem.

"E uma ultima reflexão sobre por que razão o triunfo pode destruir de uma forma superlativa os romancistas. Porque o sucesso, na sociedade mediática de hoje, já não está relacionado com a glória, mas com a fama (...) a fama, "essa soma de mal entendidos que se concentram em redor de um homem", como dizia Rilke, é um vertiginoso jogo de espelhos deformadores que nos devolvem milhares de imagens de nós próprios, imagens todas elas falsas e alienantes, e essa multiplicação de eus mentirosos pode acabar por ser especialmente nociva para alguém como o romancista, um ser que tem as costuras da sua identidade um pouco rasgadas..."

A existência limitada e o não confiar nas memórias, deixam assim à imaginação um trabalho árduo para que o escritor seja um ser louco e inquieto, capaz de alimentar um pensamento independente que converta essa capacidade inata para complicar em romances belos, baleiescos, capazes de arrebatar o leitor e transportá-lo para viagens um tanto esquizofrênicas e tão necessárias à vida.

Nota: Este texto é publicado igualmente no Deus me Livro.

É assim Que A Perdes - Junot Díaz

Roda Dos Livros, 05.02.17

eassimqueaperdesEu passo, como leitora, muito tempo à espera daquele livro. O tal. O que faz esquecer tudo e preenche os meus pensamentos enquanto houver páginas para ler. Penso que é um desejo comum a todos os leitores, encontrar em todos os livros que lemos essa sensação de entrega e interesse avassaladores. Sabemos que são raros os livros que nos proporcionam tais sensações, e quantos mais livros lemos mais difícil é que um livro nos encha as medidas.

Muitas vezes penso, quando alguém me fala de um livro com grande entusiasmo, que será essa a tal leitura. Persigo, ambiciosa, nas frases do livro sugerido, as mesmas sensações. Quantas desilusões! As altas expectativas, os gostos distintos, tantas coisas que podem fazer um livro perfeito para uns e um leve encolher de ombros para outros.

É assim Que a Perdes é uma dessas extraordinárias surpresas. Uma narrativa que vai de encontro a tudo o que mais me agrada, que me envolveu totalmente pelas horas que as páginas duraram. E que bom que foi. Que frases extraordinárias, que modo de escrever sem medo, parecendo quase fácil deitar para o lado de cá tantos sentimentos. Eu gosto da crueza da escrita de Junot Díaz, das palavras duras, do calão que soa a natural na dor de quem está cheio de frio e solidões.

São nove contos. Todos sobre Yunior ou com ele relacionados. Quase todos sobre o amor, mesmo parecendo ele tão distante dessas coisas, quase imune aos sentimentos, mas fraco à frieza das relações ocasionais. Tem de se ser duro quando se deixa um país quente para o constante inverno, quando se é sempre um estranho, quando não se fala a língua, quando se é só. As mulheres, a mãe sempre triste, o pai ausente, o irmão doente. Crescer com a pressão da adaptação. Querer sempre dizer que não.

Para mim, extraordinário, mas tenho a certeza que não agradará a todos os leitores. Pouco consensual, possivelmente… o que me faz gostar ainda mais deste livro.

“É um começo, dizes em voz alta.

E é isto. Nos meses seguintes, atiras-te ao trabalho, porque isso te infunde uma espécie de esperança, uma espécie de graça – e porque no fundo do teu coração de mentiroso infiel sabes que às vezes um começo é tudo o que alguma vez teremos.” (Pág. 153).

 

Sinopse

“O novo livro de Junot Díaz, É assim Que A Perdes, é um conjunto de narrativas ligadas entre si sobre o amor — amor apaixonado, amor ilícito, amor em extinção, amor maternal — e contadas através da vida dos habitantes de New Jersey oriundos da República Dominicana e da sua luta para encontrar um ponto de encontro entre os seus dois mundos. O livro desvenda a inevitável fragilidade do coração humano. São histórias que nos recordam que a paixão pode triunfar sobre a experiência e que o amor, quando nos atinge, tem sempre algo de eterno.”

«[…]nunca relatos sobre as ruínas da paixão amorosa foram tão honestos, tão brutais, tão no osso, tão na pele.» José Mário Silva, Expresso

 

Relógio D’Água, 2013

Nem Todas as Baleias Voam - Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 05.02.17

nemtodasasbaleiasvoamSerá possível vencer uma guerra com a música?

Esta é uma premissa interessante e verídica, pois o plano Jazz Ambassadors (CIA) tinha o objectivo de cativar a juventude de Leste para a causa americana. Está na sinopse, não é spoiler, e no último FOLIO Afonso Cruz revelou que este plano fora o ponto de partida para o novo livro. Para mim foi uma novidade, desconhecia tal plano, e fiquei verdadeiramente entusiasmada com o livro.

Agora que o li, o Jazz Ambassadors parece-me muito pequeno e sem graça ao pé de tudo o que o Afonso construiu neste livro. São as pequenas coisas que nascem ao redor do fio condutor que é o plano, que guardo. As frases que reli, permanecendo na mesma página, as reflexões que me seguem, mesmo depois de fechar o livro, a sensação de brincar com os limites, quando se esbate a linha que separa a crueldade da beleza.

Há muito para descobrir nas profundas camadas que as palavras formam nas páginas de Nem Todas as Baleias Voam. Desconfio que não haverá uma releitura igual e, de cada vez, virão novos pontos de vista à superfície.

Há uma cadência de dor que arrepia e, ao mesmo tempo, envolve. Há uma vontade de parar e uma necessidade de prosseguir. É, para mim, mais um livro fantástico do Afonso Cruz.

“- Gostava daquele bar, do Delon, e gostava da sua flor, porque as tulipas raiadas são flores doentes. A sua beleza vem de uma doença. A normalidade nunca fez bem a ninguém, mas a anomalia, aquelas estranhas cores que pintavam as pétalas, como se Van Gogh fosse o autor do Universo, elevavam a flor a um estatuto artístico, era a doença que a fazia mais bela do que o habitual. A arte é uma doença, a humanidade nasceu de um macaco doente, como uma tulipa raiada. Foi um desvio que o levou a erguer-se na savana e a sentar-se mais tarde num bar de Montmartre. Abençoadas doenças, Tristan.

- E não matam?

- Matam, são a coisa mais triste do mundo.” (pág. 254)

Sinopse

“Em plena Guerra Fria, a CIA engendrou um plano, baptizado Jazz Ambassadors, para cativar a juventude de Leste para a causa americana. É neste pano de fundo que conhecemos Erik Gould, pianista exímio, apaixonado, capaz de visualizar sons e de pintar retratos nas teclas do piano. A música está-lhe tão entranhada no corpo como o amor pela única mulher da sua vida, que desapareceu de um dia para o outro. Será o filho de ambos, Tristan, cansado de procurar a mãe entre as páginas de um atlas, que encontrará dentro de uma caixa de sapatos um caminho para recuperar a alegria.”

Companhia das Letras, 2016

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