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Haverá quem não concorde quando outrem diz que tem direito a ser feliz? Que o objetivo de qualquer ser humano é ser feliz, que esse é um seu direito fundamental? Que deverá ter liberdade para ser feliz?
“Iluminações de uma Mulher Livre” é, antes de mais, um livro sobre o direito à felicidade. A felicidade no feminino mas não só. E sobre o quão importante é a liberdade para ser feliz.
Neste livro Samuel Pimenta volta várias vezes à prosa poética naquele que, para mim, começa a esboçar-se já como um traço da sua escrita. E, uma vez mais, é a prosa poética que suaviza a exposição, por vezes dura, da temática deste livro.
Dando voz a uma mulher, Samuel traz-nos rasgos de feminismo e do eterno feminino mas, sobretudo da humanidade onde o género não é questão nem condição.
Pela voz de Isabel acompanhamos a revelação de estereótipos e preconceitos desde a infância à idade madura. Acompanhamos a evocação de arquétipos e a quase omnipresença de histórias e personagens clássicas e mitológicas, numa escrita rica em referências.
Surpreendeu-me a forma como o escritor “entra” de forma tão viva “na cabeça” de uma mulher.
Samuel é um jovem escritor mas na sua escrita, nas histórias que nos traz, encontramos a visão de quem amadureceu ideias. Já por várias vezes ouvi alguém referir-se ao autor como um escritor de intervenção, pelos temas que aborda. Não gosto de rótulos, mas posso seguramente afirmar que Samuel F. Pimenta é uma pessoa atenta. Um escritor a acompanhar!
Um livro que recomendo a todos os leitores independentemente do género.
Um livro sobre o direito à felicidade. A ler!
Excertos
“(...) Sim! Sim! E eu só queria dizer não, negar tudo aquilo. Porque dizer não ao que nos violenta é dizer sim a quem somos. (...)” (p.26)
“(...) Ainda hoje sinto pena de todas as mulheres que mimetizam os homens e perpetuam o domínio, acreditando que, com ele, o mundo pode avançar. Não, o mundo não avança assim. O mundo só avança se nos pudermos libertar.” (p. 27)
“(...) É fascinante pensar que nós, humanos, já vivemos condicionados pelos mesmos instintos dos animais. A reprodução e o território. É desolador pensar que hoje não somos assim tão diferentes. Abandonámos o nosso modo de vida rupestre e criámos códigos para viver em sociedade, mas ainda nos condicionamos pelos mesmos instintos de outrora. (...)” (p. 75)
“(...) Os humanos vivem de miragens. A verdadeira paz só pode existir se conhecermos a verdade das coisas, porque, se assentar numa ilusão, é uma paz fictícia. (...)” (p. 79)
“(...) O que o constrangeu foi não conseguir definir-me, foi não saber que palavra usar para dizer o que sou e aquilo em que acredito. Estar diante de alguém que não conseguimos definir, rotular, lembra-nos da nossa incapacidade de nos apropriarmos de tudo o que existe. Somos impotentes. E isso constrange. Assusta. (...)” (p. 84)
“(...) É escusado anteciparmo-nos relativamente ao que irá acontecer no futuro. Podemos imaginar, idealizar, podemos tentar prever alguma coisa, adivinhar um acontecimento qualquer, mas o que acontece é sempre imprevisível.(...)” (p. 171)
“(...) Tudo o mais é medo, como dizem os versos de Rumi. «O Amor não se baseia em alicerces,/ É um oceano interminável,/ sem começo nem fim./ Imagina/ um oceano suspenso,/ montando os almofadões dos segredos antigos./ Todas as almas mergulhadas neles,/ e é ali onde agora habitam./ Uma gota desse oceano é esperança,/ e tudo o mais é medo.»” (p. 185)
Sinopse
Não nascemos para odiar, mas sim para amar
A velha, a menina, a mulher: bruxa, santa ou messias?
Na aldeia onde é rejeitada e perseguida pela população, Isabel acorda com a única ideia capaz de a libertar do casamento opressor em que vive: matar o marido. Se, de início, a ideia lhe parece improvável, vai ganhando força à medida que recorda as histórias das mulheres do passado, de que a avó lhe falava quando, com outras mulheres, se reuniam em grupos femininos secretos para falarem de oráculos, curas e magia.
Isabel é moderna, sensível, curiosa e sempre quis a sua independência. Cresceu na capital, mas mudou-se para a aldeia por causa do casamento. E foi essa união que a aprisionou numa existência de medo e abuso. Só ela pode libertar-se desse homem castigador, e ao longo de vários dias Isabel confronta-se com todos os receios e dúvidas, imaginando planos e lembrando-se dos ensinamentos da avó, procurando argumentos que fortaleçam a sua decisão, enquanto cumpre com todos os rituais quotidianos da casa com beleza e empenho poético.
Partindo da figura de Isabel, a mulher visionária e messiânica que é protagonista deste romance, Samuel F. Pimenta revisita histórias que nos chegaram por via da tradição oral, figuras históricas, mitos e referências da literatura universal. Antígona é um desses casos. Ao lado da evocação da heroína de Sófocles, o autor conta-nos também uma história contemporânea e pertinente sobre a opressão – nomeadamente a violência de género –, tornando presente a condição feminina ao longo dos séculos e deixando questões para o agora e para o futuro.
Marcador, 2017