Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Roda Dos Livros

Os Números que Venceram os Nomes - Samuel Pimenta

Roda Dos Livros, 31.01.17

CAPA_sem cintaA espaços a prosa poética  suaviza a temática orwelliana de “Os Números que Venceram os Nomes”. A beleza da escrita de Samuel Pimenta não nos esconde, contudo, o paralelismo com o que podemos encontrar, já hoje... números que se vão sobrepondo aos nomes. Tantas vezes dizemos e ouvimos dizer que actualmente as pessoas são números, já não são pessoas...

Entre evocações de mitologia e o constante apelo à importância da poesia vamos descobrindo uma sociedade onde o isolamento, a solidão, a desconfiança e a delação se instalaram. E onde o controlo integral da vida e dos movimentos dos cidadãos pelo Estado é o mote. Onde se apagam memórias e se constroem novas referências.

Mas o que mais importa é que ... "(...) os nomes, os poemas e as estrelas são a nossa única promessa de futuro." (p. 73). Não podia estar mais de acordo com o autor. Os nomes, os poemas e as estrelas são, de facto, a nossa única promessa de futuro!

Um livro cuja leitura corre veloz, embora sem surpresas, mas de uma subtileza que me encantou.

Um livro sobre a importância de resistir, porque do caos nasce a luz... "do lodo nasce a flor de lótus" (p. 159). Um livro pleno de actualidade.

A ler!

Excertos

“(...) Os  nomes são uma babel de significados, assumem conotações ão diversas e são criadores de desordem. Os números organizam, um dois é um dois, não há dúvidas, mas sempre que se pronuncia Joana ou Guilherme, está-se a evocar uma infinidade de incertezas, de outros sentidos ou identificações. (...) Os nomes questionam, são terreno instável, flexível, mutável. Os números são rígidos, estáticos, definidores por natureza. (...) Os poderes instalados sabem-no. (...)” (p.14)

“Afinal, depois de os números terem dominado o mundo, o dinheiro tornara-se a principal aspiração de todas as pessoas.” (p. 19)

“(...) O velho respondeu, já ninguém quer saber dos livros, ninguém lê o que têm lá dentro, assim posso guardar aquelas folhas em segurança. (...)” (p. 72)

“(...) Talvez por conviver com um humano assim, a bela Mérope não brilhe tanto como as irmãs. Conviver com falhas humanas podem cansar-nos, pode roubar-nos a luz. Ou então é o contrário, talvez ela tenha escolhidobrilhar menos para que sejamos obrigados a procurar por ela, para nos lembrar que a verdadeira luz não se exibe, é discreta, recordando-nos que quem escolhe partilhar uma vida de luz com uma vida humana traz em si o verdadeiro amor. (...)” (p. 102)

“(...) Quem desconhece a sua identidade, quem tem apenas acesso a uma parte da informação, nunca poderá fazer escolhas de uma forma totalmente livre, falta-lhe informação essencial. (...)” (p. 122)

“(...) – Porque a verdade liberta, Arão, a verdade torna-nos mais livres. (...)” (p. 130)

“(...) Somos mais do que alguma vez imaginei, pensava ele. Sim, somos mais do que alguma vez imaginaremos. Somos imensos, mesmo que estejamos em casa, calados, sentados a ler. Mesmo que a nossa função no mundo seja, simplesmente, observar. Vigiar. Em silêncio. Mesmo que jamais encontremos alguém como nós. Sim, como nós, os que resistem. Os loucos e os génios que resistem. Os que se atiram de braços abertos para a frente dos tanques de guerra que devoram a estrada, os que ensinam a pensar, quando todos se esforçam para que se ensine somentea odebecer, os que abraçam as árvores diante da serra eléctrica, os que colocam flores nas espingardas, os que dão tecto, cama e comida aos sem-casa, os que escrevem e falam para repor a verdade, mesmo que saibam que podem morrer se o fizerem, os que salvam os riose os mares da sede que o dinheiro injecta nos cérebros, os que diante do horror protestam em forma de música e poesia, os que, ainda assim, amam o mundo quando o mundo só lhes dá razões para não amar. Os pilares da Terra. É isso que somos, os que resistem.” (p. 158)

Sinopse

Num futuro distante, comprovada matematicamente a existência de Deus, os homens são obrigados a trocar os seus nomes por números. Ergue-se uma ditadura global, em que todos são controlados e descaracterizados, uma sociedade de uma única religião, em que os algarismos definem tudo – pessoas, países, ruas, animais - , em detrimento da essência de cada um.

Um Nove Um Seis é um rapaz sozinho, que trabalha num call center, obsecado com o telemóvel – mais um cidadão anulado entre os milhões que levam uma vida programada, sob a vigilância do Estado. Até que, certa noite, um imprevisto encontro com um gato de rua lhe provoca um ataque psicótico, que leva as autoridades a fechá-lo num hospício.

Internado, Um Nove Um Seis partilha o quarto com um velho que lhe fala da resistência ao regime: um grupo de pessoas que se sublevam escrevendo poesia, recolhendo animais vadios e atribuindo-se nomes em vez de números. Com o velho e um gato como cúmplices, Um Nove Um Seis decide tentar descobrir quem é – além de um número num sistema de dados.

Neste surpreendente romance, Samuel Pimenta consegue, com uma destreza literária que nos prende do início ao fim, contar uma história empolgante, que, embora passando-se num futuro imaginário, questiona muitos dos problemas das sociedades contemporâneas – a substituição estéril de um mundo espiritual por uma realidade puramente material.

Marcador, 2015

«Sete anos bons» de Etgar Keret :: Opinião

Roda Dos Livros, 27.01.17

sete_anos_bonsAterrei neste «Sete anos bons» um pouco ao acaso, mas confesso que ao fim de poucas páginas estava rendida ao humor e à narrativa um pouco peculiar deste autor. Etgar Keret é uma das vozes mais populares entre escritores israelitas contemporâneos e está fortemente traduzido. Bastante aclamado e requisitado, as opiniões sobre os seus (essencialmente) contos são muito abonatórias, destacando criatividade e sacarmos na forma como retrata o quotidiano.

Confesso que o conto "(In)sinceramente seu" me convenceu e me motivou para ir ouvir a sessão que decorreu em Lisboa a 4 de Novembro. Fui não só para o lançamento deste seu primeiro livro editado em Portugal, mas também para ter um autógrafo fictícia no meu livro. (Obrigada também a ti, Renata!)

"O que se pode escrever no livro de um desconhecido, que pode ser alguém desde um assassino em série a um Justo entre as Nações? «Com amizade» cheira a falsidade; «Com admiração» não é sincero; «Com os melhores desejos» soa demasiado familiar; e «Espero que goste do meu livro!» distila bajulação...Por isso, há precisamente dezoito anos, criei omeu próprio género: dedicatórias fictícias. Se os livros são eles próprios ficção pura, porque é que as dedicatórias têm de ser verdadeiras?"

Ficção, realidade, Israel, bombas e atentados, guerra, critica social e política, preocupações e inquietações, paternidade e casamento, família, doença, questionamento do futuro, piadas, amigos, desculpas e estados de humor, bigodes e Angry Birds, o leque não podia ser o mais variados. Keret revela de tudo, sem propriamente se debruçar sobre nada, mostrando esse traço tão rigoroso da vida quotidiana. Temos dias em que encerramos em nós todas as preocupações que conseguimos suportar, temos outros em que somos capazes de fingir ser queijo ou pastrami e ficcionar a guerra que nos rodeia, já outros, apetece-nos refugiar dentro de casa e esquecer que o mundo existe.

"Sob a adorável aparência dos divertidos animais e da sua voz doce, o Angry Birds é de facto um jogo que corresponde perfeitamente ao espírito dos fundamentalistas religiosos e dos terroristas. (...) E isto sem falar na história dos porcos: um animal imundo que, na retórica islâmica fanática, é frequentemente usado para simbolizar raças heréticas cujo destino deve ser a morte."

 

 

Submissão - Michel Houellebecq

Roda Dos Livros, 25.01.17

submissão

Submissão foi a minha estreia com o famoso escritor francês Michel Houellebecq. Ouvi falar deste livro na Roda dos Livros e fiquei interessada não só pela premissa, mas também por aparentemente ser um livro tudo menos consensual. Estou numa fase em que preciso de livros que me desafiem e este pareceu-me, sem dúvida, uma boa opção.

Michel Houellebecq faz neste livro um exercício de futurismo próximo, com grande pendor político-religioso. Estamos na França de 2022 e as eleições presidenciais aproximam-se. Pela primeira vez em muito tempo, a dicotomia desgastada centro-esquerda/centro-direita está ameaçada e, nesse contexto, surge a Fraternidade Muçulmana, que parece uma alternativa credível ao extremismo da Frente Nacional de Marine Le Pen. E é assim que a Fraternidade Muçulmana consegue eleger o Presidente da República e profundas mudanças começam a surgir na sociedade francesa, nomeadamente na educação e na forma como as mulheres são tratadas.

Tudo isto nos é narrado na perspetiva de François, um professor universitário quase na meia-idade, solitário, que chegou a uma fase na vida em que questiona o seu sucesso profissional e pessoal. Esta fragilidade de François, e o conturbado contexto político e social, levam-no durante um período ao interior do país, para posteriormente regressar a uma Paris bastante diferente daquela que deixou. O contacto com algumas pessoas que lhe explicam (e ao leitor) mais sobre a filosofia de vida de quem então manda no país convida a um reflexão profunda sobre os valores da liberdade e da democracia e de como tudo isto é afetado pela religião.

Submissão é um livro com ideias fortes e que, tendo em conta o contexto atual a nível político e social, não me parece assim tão descabido. Muito se fala na decadência dos valores das sociedades ocidentais e na forma como tudo isto desiludiu – e continua a desiludir – o povo. Haverá quem diga que o domínio da cultura islâmica num país tão firmemente ligado aos ideais da liberdade é uma possibilidade remota e que a aceitação de tudo isto da parte das mulheres é impossível – e eu concordo. Mas a História também nos mostra que muitas coisas que pareciam improváveis aconteceram e este exerício de Houellebecq pareceu-me assustadoramente realista. Julgo que é neste ponto que reside o maior trunfo de Submissão.

O que falha neste livro, quanto a mim, é a excessiva importância que o autor dá a uma personagem desinteressante, que acaba por ocupar espaço que poderia ter sido utilizado de forma mais proveitosa na construção do contexto social que Houellebecq aqui nos apresenta. François “perde-se” entre encontros amorosos inúteis (para ele e para o enredo) e viagens que parecem não levar a lado nenhum, com algumas reflexões pelo meio sobre o seu grande objeto de estudo, o escritor do século XIX Joris-Karl Huysmans. Se é certo que é um livro bastante rico em referências literárias, e com algumas reflexões interessantes nesse contexto, tudo isto parece contribuir pouco para as questões verdadeiramente importantes do livro. Fiquei com a sensação que Michel Houellebecq tem capacidade para fazer muito melhor.

Em suma, e de um modo geral, achei Submissão um livro intelectualmente desafiante, mas que se perde em divagações que não lhe acrescentam muito. Fico, contudo, com muita vontade de conhecer mais da obra deste autor.

Obrigada, Márcia, pelo empréstimo!

«A Viagem Vertical» de Enrique Vila-Matas :: Opinião

Roda Dos Livros, 23.01.17

"Senti-me de repente contagiado pelo encanto natural e pela queda livre e descida vertical para o Sul daquele senhor de Barcelona que dizia ser nacionalista e a quem o abandono da mulher o transformara em alguém que, de forma possivelmente inconsciente, começara a empreender uma lenta descida para o mundo dos deslocados e dos excêntricos."

"Que destino nos revela a mão sem linha da vida?" (Al Berto)

Talvez esta seja a questão fundamental assim que começamos a ser puxados para esta viagem descrita por Enrique Vila-Matas. Com um humor peculiar, ficamos presos à história a partir do momento em que, entre alfaces e beringelas, um casal se mostra inflexível perante os ajustes que a vida lhes exige.

"- Tudo isto é por causa das alfaces e das beringelas, tenha a certeza. Isto disse Mayol e depois começou a alimentar a desesperada esperança de que a estranha atitude da mulher fosse passageira.

Mas uma semana depois, Mayol, refugiado num bar da Praça Letamendi (...) já sabia que lhe restavam poucas esperanças de que a atitude da mulher fosse passageira."

A vida corre mal a Federico Mayol e a mulher não é o único dos seus problemas, já que os filhos do casal, especialmente o jovem e artista Julián, não partilham das inquietudes do pai e ainda o confrontarão com dúvidas e algumas verdades que Mayol não aceita bem e isso leva-o a partir.

Aliás, são várias as viagens que este septuagenário empreende para redescobrir o sentido da vida. E logo ele que supostamente nunca questionou os caminhos que foi seguindo.

"(...) sentiu que regressava em força à sua consciência a ideia trágica do sempre mutável que é o ato de recordar as transformações que as lembranças sofrem ao serem revividas, a dificuldade de dominar com plenitude total a memória do que foram os nossos dias (...)"

A narrativa de Vila-Matas espelha constantemente essa preocupação com as memórias e o que com elas fazemos, aproximando-nos ou não, dos outros e de momentos que podem ter sido decisivos e que só mais tarde, revivendo-os, aceitamos e acreditamos terem sido determinantes. Todo o livro em questão funciona muito como uma viagem de regresso e isso sente-se a partir do momento em que, entre amigos, o personagem é aconselhado a viajar apenas para locais onde já esteve. E isso é algo muito interessante na medida em que evoca aquilo que já fomos, provocando confronto.

Entre deambulações, que são várias, sente-se uma alargada critica social, uma constante avaliação da vida conjugal e da paternidade, mas nunca sem esquecer, a religião e a fé, a política e a ditadura e o peso da formação e da educação para o indivíduo que no final da vida sente que o rumo do seu próprio país e da família lhe ditou certas limitações.

"Como ninguém está contente com a sua própria vida, aquele que julga conhecer quem ou o que a estropiou, nunca se esquece do responsável por essa vida não ter sido como esperava."

«A Viagem Vertical» está recheada de cenários hipotéticos, nas divagações e pensamentos que o personagem partilha, mas está também pejadas de cenários muito sólidos, quase como um roteiro que se abre na nossa mão e nos convida a deambular pelas cidades que Mayol visita, convidando o leitor, a perder-se nos becos e vielas, primeiro do Porto, depois Lisboa e por fim já na Madeira, mas talvez esse seja o destino mais metafísico desta viagem.

Entre algum alheamento e reflexão, somos levados para a intertextualidade que a critica em geral aponta às obras de Vila-Matas, neste livro em específico para alguns poetas portugueses. Em algumas passagens, mesmo que sem referências, a forma como o texto está construído apela a um certo encantamento pela poesia alheia.

"(...) tinha vinte anos e, nos primeiros meses, quando não estava no Internacional, dedicava-me exclusivamente a ler, a ler muito e a praticar a saudade, que era e é um sentimento que me encanta apesar de não saber muito bem o que consiste, e talvez por isso me agrade, porque pode ser o que se quiser."

Até certo ponto vamos sempre querendo que a viagem vertical se referia a algo mais transcendente, ultrapassando a própria verticalidade entre os destinos escolhidos, mas um certo acaso altera o enredo. No entanto, daquela imaginação prolifera esperava-se um final mais ao jeito do episódio, "o assassino de taxista da Marginal", que é talvez das partes mais humorísticas de todo o livro.

"Para chegar a essa reflexão, o taxista começou por fazer uma declaração extravagante, definindo-se como um pagão convicto.

- Cheguei a um momento da minha vida - disse, entre outras coisas, a Mayol - em que preciso de rezar. Por esse motivo inventei uns deuses e rezo a eles."

A conversa extravagante e insólita estava só a começar e toda ela é um pouco como o livro, eufórica, difusa e dona de alguns mal entendidos, com uma pitada de desespero e saudade, mas também com uma boa dose de mistério e até um certo charme. Enfim, um pouco como a própria vida que é disso que o livro fala.

"- Não posso estar mais de acordo com Magris quando diz que escrever significa transformar a vida em passado, ou seja envelhecer."

«A vegetariana» de Han Kang :: Opinião

Roda Dos Livros, 22.01.17

avegetariana

Han Kang, vencedora do Man Booker Internacional Prize traz-nos em «A Vegetariana» uma enredo familiar perturbante e simultaneamente onírico.

"Dormir em lapsos de cinco minutos. Mal deslizo para lá da consciência atordoada, lá está ele de volta - o sonho. Já nem posso chamar-lhe isso.  Olhos de animais a reluzirem com um ar selvagem, a presença de sangue, uma caveira desenterrada, aqueles olhos de novo. Uma sensação que me vem da boca do estômago. Acordo a tremer, as minhas mãos, preciso de ver as minhas mãos."

Partindo de um sonho conhecemos Yeong-hye e a paranóia que lhe assombra os dias e a opção de se tornar vegetariana. Vítima às mãos do marido e de uma família tradicional o peso da sua decisão extravasa o aceitável e rapidamente a sua liberdade de escolha é posta em causa e o equilíbrio familiar é ameaçado. No entanto, não será bem isto que desestabiliza o leitor ou dá ênfase à narrativa, mas antes o mistério envolto no sonho e a bizarra luta de se manter vegetariana.

Já estando a acção suculenta o suficiente, a passagem para o segundo capítulo adensa o lado misterioso e ainda mais transcendente, não tanto pelo lado artístico ou a performance em si, mas antes pela forma como se gera a atracção de um homem por uma mulher. Neste acto, e pela voz do cunhado de Yeong-hye assistimos a uma outra fixação, também ela de origem meio surreal e até infantil, se bem que com contornos sensuais.

"(...) foi nesse preciso momento que ele foi atingido, como se de um raio se tratasse, pela imagem de uma flor azul nas nádegas de uma mulher, com as pétalas a abrirem-se. Na sua mente, o facto de a cunhada ainda ter uma mancha mongólica operou uma associação inexplicável com a imagem de homens e mulheres a fazerem sexo, e os seus corpos nus cobertos de flores pintadas."

Nas palavras de Han Kang vamos sentido que a história espelha um elevado questionamento da normalidade ou do que será moralmente aceite e bem interpretado, porém, as diversas camadas que se vão somando aos acontecimentos revelam, a meu ver, uma enorme solidão e uma resiliente vontade de liberdade, mesmo que essa os condene a uma solidão ainda maior, também ela por camadas. Talvez possamos ainda dizer que toda a dissociação provocada por desejos menos usuais causarão, só por si, isolamento e desapego e logo mais solidão. Este é um livro pejado de gente só. Um enredo carregado de duras batalhas que estas três pessoas carregam a fim de tentarem ser mais livres, mesmo que isso não os liberte dessa solidão esmagadora, enloquecedora e opressora.

"Os vidros estão cobertos de vapor e, por isso, tira um lenço da mala e abre um círculo perfeito. Vê os pingos da chuva a fustigarem a janela, com a cadência constante em que só as pessoas habituadas à solidão reparam."

Convêm alertar também para o facto e Kang ser capaz de cenários bastante bem descritos e recheados, mesmo que para tal só use uma a duas pequenas frases.

Kang é perita também em especular sobre a alma humana e a extensão do perdão e talvez seja essa a forma como termina o segundo capítulo, abra e feche o terceiro. E com essa extensão do perdão, da compaixão e do amor ao próximo nos deixe a pensar nos motivos pelos quais, gradualmente, ficamos mais sós e nos perdemos de nós por dar aos outros.

"Normalmente, desiste de dormir por volta das três da manhã. (...) Por fim,vai para o quarto dele e ouve alguns discos que ele por lá deixou (...) ou então aninha-se na banheira, vestida, e até consegue achar que afinal talvez a atitude dele não fosse assim tão incompreensível. Se calhar, só não tinha energia para se despir (....) Ficou surpreendida ao constatar que, por muito estranho que pudesse parecer, aquele espaço estreito e côncavo era o sítio mais acolhedor que havia no seu apartamento..."

Em suma, «A Vegetariana» é um excelente exercício de atravessar fronteiras entre a realidade, a loucura e o desejo enorme de liberdade, mesmo que vivida em momentos surreais, donos de rasgos de sensualidade, alguma imoralidade e até algum toque de terror. E nunca sem esquecer o peso da solidão.

O Czar do Amor e do Tecno - Anthony Marra

Roda Dos Livros, 21.01.17

31948559As leituras de 2017 começam muito bem com O Czar do Amor e do Tecno. Confesso que não gosto do título. Também não gosto da capa. Mesmo assim o meu interesse manteve-se, a vontade de descobrir esta história era enorme. E ainda bem, pois revelou-se uma leitura entusiasmante que, apesar das quase quatrocentas páginas, decorreu a um bom ritmo. Interessante e misterioso, pelas pontas que vai deixando em aberto, e que urge decifrar, é um livro com uma estrutura admirável e muito bem pensado.

A viagem começa em 1937 e apresenta-nos Leopardo, um censor em Leningrado que apaga (literalmente) pessoas. Não pode haver vestígios daqueles que a história apagou, e Roman Markin dá veracidade histórica a quadros e fotografias. Esta é a premissa a que se juntam outras histórias, de outras pessoas e outros tempos. É um livro que, mesmo não parecendo, segue uma linha orientativa constante, em redor da qual vão surgindo novas personagens. Tudo está relacionado, e o que ao início parece ser demasiada gente e demasiados nomes, vai-se reduzindo à medida que o leitor junta vidas como se construísse um puzzle.

Encantou-me a estrutura deste livro, como já referi. Penso que se pode considerar um conjunto de histórias que, aparentemente isoladas, se relacionam em alguns pontos dando continuidade, com saltos temporais, às tais pontas em aberto. É como uma viagem de comboio com muitas entradas e saídas de passageiros. Há sempre alguém que regressa ao percurso para alinhar a narrativa num sentido, que muitas vezes, parecia já estar esgotado. Não sei se se poderão considerar Contos, dado que alguns são bastante extensos, mas o que importa é que esta espécie de capítulos longos, confere uma dinâmica inovadora ao livro.

As histórias dentro da história são muitas, e cheias de detalhes. Da Sibéria, à Chechénia, passando por Moscovo, e até pela imensidão do espaço, o leitor percorre a recente história russa nas vidas de pessoas banais. Realista e, por vezes, bastante cruel, não por aquilo que é escrito, mas pela forma como as palavras marcam e permanecem na mente, O Czar do amor e do Tecno é uma leitura fantástica, que recomendo com entusiasmo.

Sinopse

“Em 1937, um promissor pintor de Leninegrado vê-se reduzido à tarefa ingrata de "apagar", de pinturas e fotografias, os dissidentes do regime soviético. Entre os inúmeros rostos que faz desaparecer, está o do seu próprio irmão, condenado à morte. Na atualidade, uma historiadora de arte dedica-se a estudar o mistério que se esconde na obra desse censor. Nas centenas de imagens que alterou, ele introduziu obsessivamente um rosto. Quem foi essa figura anónima, a um tempo dissimulada e omnipresente na História da Rússia?O segredo do criador de rostos atravessa décadas e fronteiras e confunde-se com a memória do país. Cruza as trajectórias de uma bailarina caída em desgraça, espiões polacos, mercenários, um aprendiz de mendigo, uma beldade siberiana, e até um lobo. E como pano de fundo, uma cidade com um lago de mercúrio, um céu sem estrelas e uma floresta de plástico.Um livro profundamente original, que nos leva de S. Petersburgo aos confins da Sibéria e à Chechénia, e consolida Anthony Marra como um dos jovens escritores americanos mais aclamados da atualidade.”

Teorema, 2016

Uma dor tão desigual :: Opinião

Roda Dos Livros, 17.01.17

contosOs contos povoaram o meu final de 2016 e alguns deles atravessaram o ano e continuam comigo, é o caso do conto «Jogo honesto» de Nuno Camarneiro que se encontra nesta colectânea. «Uma dor tão desigual» propõe-se a abordar a saúde mental, explorando as inúmeras fronteiras e as dificuldades associadas à depressão, solidão, demência ou até ao estigma que é a procura por ajuda profissional.A colectânea reúne contos de oito autores portugueses, todos eles muito diferentes na forma e no conteúdo e de outra forma não podia ser, pois só assim espelha a diversidade que compõe a complexidade da mente humana.De Richard Zimler fica-me um tango e um certa tristeza, mas também a resiliência:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=djJGEWeeNUo&w=420&h=315]

*

De Patrícia Reis em «A impossibilidade de ser livre» a assustadora realidade.

"Não sei como definir o bem, esse estado de bonomia apesar das agruras e penas duras da vida."

*

De Camarneiro fica-me quase tudo, já que foi o meu conto favorito, mas a imagem que fiz na minha cabeça é a de um homem mixando comprimidos e anotando percentagens e probabilidades como se fosse o euro milhões e não uma tentativa de suicídio. É macabro, mas é brilhante e embora um cenário muito negro.

"Os pensamentos e as emoções desviados como trânsito de uma via impedida, orientados para a frente, para o futuro, para novas possibilidades que conseguia imaginar e até cumprir. E eu sempre a vi partir, transtornado, preso a tanta coisa, parado num engarrafamento sem fim à vista."

 *

Na «Chameada de pássaros» por Maria Teresa Horta (MTH) reencontrei «Meninas» e toda a desafeição materna que pauta os contos de MTH, um desamparo próprio de cada um quando caminha, constantemente atrás dos seus próprios passos, dos passos dos seus entes queridos, aqueles que nunca consegue atingir.

"Sem conseguir explicar a si mesma aquela sensação de excesso que de súbito a cumpre, fazendo-a sentir-se a mais onde quer que esteja, sem pertencer a parte algum, nem caber em nenhum lugar. Desafeiçoada ao disfarce da vida."

*

Pegando nas palavras de MTH, há mais desafeiçoados do disfarce da vida dentro desta colectânea.  Nos contos de Afonso Cruz (AC) ou de Gonçalo M. Tavares (GMT) encontramos os desafeiçoados do costume, desiguais dos demais, tão cheios de histórias e filosofias, tentado assim apontar um caminho alternativo... talvez o da literatura, da filosofia e até o da religião.

"O avarento ao não prescindir de coisa alguma, da maior à mais insignificante, abdica de tudo, pois não desfruta de nada." AC

No conto de Afonso Cruz há uma outra ideia na qual fico a pensar. Os buracos, umbigos de coisas por preencher, não falhas, não rachaduras ou defeitos, mas uma incompletude passível de ser preenchida, colada a outro, ornamentada, trabalhada, lembrou-me esta imagem e ensinamento japonês:

15871885_10154611001763429_7074249161807108046_n

Neste mini manifesto filosófico pelas insignificâncias como mote para toda a ressurreição possível e um exercício criativo que é levantar-se um ser humano danificado. Foi assim que vi, esse desejo de unir a individualidade de cada um, mas sem deixar de olhar para ela como o que é digno de partilharmos com os outros.

Ou ainda a brilhante ideia de GMT de termos na cabeça, no topo dela, o caminho para a salvação e a ligação que ele faz com a imagem de um menino de 7 anos a acenar aos aviões como que pedindo ajuda para saber qual era o mapa, é simplesmente maravilhosa.

*

No conto de Dulce Maria Cardoso (DMC), a quem foi muito bom retornar ;) não me saiu da cabeça um certo regresso a um livro desigual, «O meu irmão» de Afonso Reis Cabral e a temática da família, deixando sempre a questão: "Até que ponto nos define a família? essas outras metades de nós?"

"Não dava sequer conta da repulsa que o irmão causava aos outros. Mas chega sempre o momento em que se repara no olhar deles, e depois nunca mais deixa de se reparar, chega sempre o momento em que o olhar dos outros fica a contaminar o nosso como um vírus maligno."

DMC explora um outro lado também bastante inquietante e muito presente, o dos medos:

"O medo e a curiosidade são vigiados e reprimidos como doenças, em vez de serem tratados como sobras da infância."

Há ainda a ideia de ver e ser visto, pensando nas personagens que desempenhamos aos olhos dos outros, como que construindo todo um enredo só através de um cruzamento de olhares.

"Afinal, talvez eu não conhecesse bem o meu amigo de há tantos anos. Era então tristemente verdade que não há maior nem mais intransponível distância do que a que existe entre duas pessoas, pensar que se conhece é um disparate."

*

Do conto «Jaca» de Joel Neto, para além da história em si, retiro uma passagem que acho extremamente actual e até preocupante:

"Quer dizer, está a chegar a idade, não? (...)«Há uma idade idade para cada doença. Aos seis são disléxicos e aos oito hiperactivos, aos doze têm Asperger e aos quinze sintomas de autismo. E, antes de finalmente serem apenas deprimidos, aos dezoito são bipolares e aos vinte e três esquizofrénicos, não é assim?»"

Julgo que a frase resume muito bem o que se passa com a sociedade actual e a forma como se encara tanta a adolescência e a entrada na vida adulta, como a banalidade da possível doença psíquica. Daí que talvez, mais tarde, seja tão difícil pedir ajuda.

Uma parte errada de mim – Paulo M. Morais

Roda Dos Livros, 17.01.17

uma-parte-errada-de-mimSe eu fosse multimilionário atribuiria bolsas de felicidade. Esta é a essência do livro do Paulo! “Uma parte errada de mim” é um livro sobre a busca da felicidade, é assim que o vejo, que o sinto.

“Uma parte errada de mim” fez-me sentir humana... sim, sou humana...Não, não pelo seu tema, não pelas palavras do Paulo, mas porque me fez confrontar com a negação. Tinha dito que não iria comprar este livro – comprei... Tinha dito que, mesmo tendo-o comprado não o leria – li-o... Tinha dito que não queria aprofundar mais o tema, que por demais me é doloroso – entrei nele. Em relação a este livro fiz tudo o que disse que não faria... afinal sou humana...

Há quem me aponte... o livro está cheio de lugares comuns! E depois? Não é a nossa vida cheia de lugares comuns? Ou será que só temos rasgos de genialidade e originalidade? São os lugares comuns que nos conferem humanidade, que nos dão identidade, que nos fazem compreender o outro.

Conheço o Paulo de antes dos episódios narrados neste livro, acompanhei os relatos sobre o seu cancro no Facebook... Não queria regressar a tudo o que já vivi vezes demais.

E não, não foi a uma história sobre o cancro que voltei. Pelo contrário, deparei-me com um livro de memórias, mas também um livro sobre a esperança e sobre a vida. Um livro que nos fala sobre como sobreviver... ao dia a dia... de qualquer vida, que nos fala de medo e superação. Um livro que nos incita a crescer, a ultrapassar os nossos limites, a pensar, de um modo que diria quase budista, que não é uma questão de cancro, é uma questão de vida... é no presente que nos devemos centrar.

“Uma parte errada de mim” tem tanto do que penso sobre a vida que por várias vezes pensei que o Paulo me lia o pensamento... “Uma parte errada de mim” é “uma parte certa da vida”. Gostei e recomendo sem receios. Porque nos faz bem pensar.

 

Excertos

“As certezas de que nos queremos rodear são sempre efémeras ou irreais. Abraçarmos este ponto de interrogação gigante sobre o que somos e sobre até quando o seremos não implica viver numa angústia permanente. Aprende-se a dizer que, ao nascermos, a morte é a única coisa que temos por garantida. Nascemos com o direito de morrer. E estarmos conscientes disso, em vez de nos derrubar, pode ajudar-nos a aproveitar melhor o nosso tempo. Ter a consciência da morte pode ser um passaporte para a liberdade.” (p. 14)

“Se eu fosse multimilionário, a minha filantropia seria tornar-me facilitador de sonhos e vocações. Atribuiria bolsas de um ano para as pessoas serem o que sempre quiseram ser. E, no final desse ano, afeiri-se-ia a sua felicidade, e a delicidade gerada nos outros em redor, como modo de decidir a continuidade da bolsa. Em vez de bolsas para criação literária, ou bolsas de investigação, oubolsas de estudo, eu atribuiria bolsas de felicidade.” (p. 216)

 

Sinopse

Em meia dúzia de meses, Paulo M. Morais ficou sem trabalho, terminou um relacionamento de doze anos e viu-se obrigado a vender a casa. Embora derrotado pelas circunstâncias, queria estar à altura de dessa nova etapa da vida e concentrou-se na missão de cuidar da filha pequena e reatar os laços com a avó centenária que o criara. Sobreveio, então, um estranho cansaço, uma exaustão que a médica de família inicialmente atribuiu às pressões de um ano atípico. Podia ser. E, porém, depois de de vários sustos e vinte e quatro horas nas Urgências do hospital, a verdade veio ao de cima: tinha um linfoma.Durante o tratamento de oito ciclos de quimioterapia (em que a leitura foi a sua grande companhia), começou a escrever sobre a sua experiência. Mas este livro, embora inclua dados sobre os exames, os internamentos ou os efeitos secundários da medicação, está longe de ser um diário da doença; representa acima de tudo uma revisitação do passado, uma reflexão sobre o valor da vida e a real importância das coisas e das pessoas, o elogio do amor e da paternidade, uma busca contínua da paternidade, uma busca contínua das diferentes partes erradas – e certas – que constituem um ser humano que temde confrontar-se diraiamente com o espectro da morte.‘Uma parte errada de mim’ não é, pois, apenas mais um testemunho sobre o cancro. É uma reflexão magistral sobre a condição humana, escrita com a beleza e a cadência de um romance no qual se aguarda um final feliz.

 

casa das letras, 2016

4 anos de Roda dos Livros e 3 de "vida" conjunta.

Roda Dos Livros, 15.01.17

Atenção: Este post contêm alguma dose de lamechice... até pouco literária.

roda-jan2017

Entrei em Abril de 2013 para este pequeno (e restrito) grupo de leitores e descobri o prazer de falar (ainda mais) de livros. Rapidamente fiz amigos (contrariando tendências) e passei a sair mais rica após cada encontro mensal, com a cabeça povoada de novos títulos, nomes e sugestões, mostrando-me que a leitura é um vício infinito.Cedo chegou a vontade de descobrir novos autores e sugerir outros que a mim mais me satisfaziam. Cedo também percebi que os livros ganharam outra energia, falar deles potencia-lhes as qualidades, mas também os defeitos. Existem autores e livros do coração, quase de acordo total, já outros serão eternos proscritos.A discórdia e a troca de palavras mais sentidas é sempre garantida e é isso que torna as discussões muito mais intensas e marcantes. É isso que fazemos numa comunidade de leitores: passamos horas a discutir. Nada mais. Discutimos pelo prazer de ler e dar a ler um livro que nos fez crescer, aprender, sonhar ou até temer, sofrer ou chorar. O importante é falar sobre essas sensações e cruzar interesses, tornando-nos bons conselheiros de leitura.Talvez pareça estranho dizer conselheiros, mas é isso que sinto, os anos têm-nos dado a conhecer melhor cada pessoa que faz parte da Roda e isso dá-nos a liberdade de dizer: "Este livro não é para ti!" ou "Toma, este é a tua cara."A Roda é isso, um grupo de conselheiros e opinadores, faladores entusiastas, leitores inveterados e eu arriscaria até a dizer, sonhadores.A Roda é também uma pilha constante de livros lidos, por ler e outros por opiniar. Uma preocupação boa, num cuidado constante com os livros que melhor acompanharão os Rodistas do nosso coração.IMG_20170114_162856.jpg

«Hotel» de Paulo Varela Gomes :: Opinião

Roda Dos Livros, 14.01.17

pvg-hotelApetece-me começar logo por dizer que «Hotel» foi uma das grandes leituras de 2016 e que o recomendo pelo brilhantismo que encontramos na escrita de Paulo Varela Gomes, mas também pelo intrincado artístico que encontramos no dito hotel, que é muito mais que um antigo palacete acastelado e propriedade de Joaquim Heliodoro que, brotado milionário recentemente deseja que as obras sejam capazes de o transformar numa peça de arte para a qual o leitor se dispõem, com muito gosto e admiração, a olhar e a querer conhecer, durante todo o livro.

"Era dele, dele!, aquela enorme casa, um mundo de recantos e desníveis, de portas e postigos, de passagens e escadas, de corredores e impasses, por onde podia, se quisesse, andar livremente, cosido às paredes como um espião, ou todo-poderoso como um fantasma, onde podia abrir todas as portas, deitar-se em todas as camas, repousar em todos os sofás, refrescar-se em todas as casas de banho, olhar para o seu feio corpo em todos os espelhos."

Para além da arquitectura e de uma certa adoração aos ornamentos e ao detalhe, existe todo um lado carnal e de retoque erótico que vai alimentando uma curiosidade no leitor, especialmente pelas preferências escopofílicas de Heliodoro. Cedo ficamos a perceber o seu desejo incontrolável de observar. Percorremos corredores, subimos e descemos escadas juntamente com este personagem longilíneo e leptossómico, na ânsia de, entre coisas não ditas e lições de arquitectura, possamos compreender o jogo erótico que se poderá esconder por detrás de tão misterioso espelho.

"(...) e tudo se decidiu num intervalo de tempo, mas também num lugar preciso, uma casa, porque a escopofilia, diferentemente de outras orientações sexuais, resulta directamente das características do espaço que separa o olhador do objecto olhado, do modo como a luz ilumina certos lugares e se afasta de outros (...), quer dizer, a escopofilia é uma pulsão arquitectónica e arquitectada, a ponto de o lugar (...) adquirir uma intensidade erótica que subsiste muito para além do olhar."

Paulo Varela Gomes escreve prodigiosamente, o impacto da linguagem e o poder de inúmeras descrições conferem à narrativa toda uma outra dimensão e profundidade, tal como a Joaquim Heliodoro. O enredo não avança durante inúmeros capítulos, mas no entanto toda a erudição alimenta o leitor com curiosidades e conhecimentos que se tornam suculentos e completam muito bem a acção.

"Disse ao casal, o seu fascínio quase hipnótico pelo exercício da erudição, uma espécie de arte de memória e da minúcia, nas suas palavras, uma arte ao mesmo tempo de arquivista e de presciente (...). O erudito é aquele que faz melhor uso do arquivo da memória. (...)

(...) a remissão para autores ou fontes não prova nada, só prolonga a espiral do conhecimento, vertiginosa e sem destino, sem fixação possível."

É com Heliodoro, Margaret, Laszló Batory e Manuela que andamos nesta espiral, que se prolonga num livro maravilhosamente hábil, inteligente, delirante, intrincado e divertido que ora esconde, quase que por pudor, ora desvenda e explica de forma enciclopédica e explícita e vai mimando o leitor, tornando-o ele mesmo num voyeurista dissimulado, mas viciado nos pequenos alarmes que se vão acendendo à medida que o mistério avança.

"O observador começa por ser confrontado com uma porta muito velha, perfurada por dois orifícios, através dos quais só uma pessoa de cada vez pode aceder à vista, uma função privada característica do voyeurismo. (...) os lábios do seu sexo estão mesmo em frente da abertura da parede. Todo o dispositivo está construído de modo rudimentar, mas a figura poderia ser interpretada como vítima de um crime..."

Se quisermos podemos ainda olhar a este hotel, com os seus quartos e corredores, dignos de desencontros e conjugações que entre si permitem diversas orientações ou atalhos para o enredo. O enredo é a vida. O hotel é a vida de Joaquim Heliodoro, a obra que um homem pensa, desenvolve e na qual toma parte, um legado, um feito para observação e contemplação póstuma. Em paralelo com estas conclusões, mais para o final do livro, existe um capítulo fabuloso que encerra em si, exactamente, esta noção de que a vida é uma combinação de desencontros e conjugações.

Pág. 1/2