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Roda Dos Livros

A Escada de Istambul - Tiago Salazar

Roda Dos Livros, 25.12.16

a-escada-de-instambulA verdade é que este livro não se revelou nada do que eu estava à espera.

Começo por confessar que nunca tinha ouvido falar da família Camondo. A ignorância nem sempre é uma coisa má (principalmente quando é ultrapassada), e a descoberta do percurso dos judeus Camondo tornou esta leitura muito especial.

A originalidade da narrativa surpreendeu-me. Apesar de conseguir encontrar o Tiago Salazar viajante nas páginas deste livro, até porque nele participa como personagem que viaja (pois claro), descobri o romancista que conta uma história verdadeira (assumo eu devido à ignorância já referida) de forma ficcional. Confusos? Também eu, mas vou tentar deslindar isto.

Contar a história de uma família ao longo de mais de cem anos, por muito interessente que seja (e é), e por muitos feitos que haja a revelar, pode resultar num livro de História igual a tantos outros. Mas não é isso que acontece n’A Escada de Istambul, e ainda bem. Neste livro temos o tal viajante (que por acaso é o autor) que, em deambulações por Istambul, encontra uma escada. Sobe e desce, desce e sobe, e instala-se a curiosidade, e desejo imenso, enfim, a necessidade de saber a história da escada. A casualidade leva-o a encontrar Mehte, um turco que vive numa casa no cimo da dita escadaria. O viajante é convidado para a casa do novo amigo e, ao mesmo tempo que Mehte vai desembrulhando o novelo de uma história que são muitas, a família Camondo vai sendo revelada, entre conversas e raki, num leque de personagens que, imagino eu, viveram com o autor até serem páginas deste romance. E, talvez, até depois disso.

A estreia de Tiago Salazar no romance é, a meu ver, bem sucedida. Apreciei muito a forma como a narrativa se desenvolve na casa de Mehte, mantendo sempre presente o contador da história e o viajante seu ouvinte. Mas ao mesmo tempo, e com uma habilidade admirável, o leitor é transportado para o passado, para o seio da família Camondo, como se efectivamente estivesse na europa de outros tempos, na casa (ou casas) desta família de negociantes, banqueiros, filantropos e amantes do saber e das artes. Não é um relato ou uma descrição do que aconteceu, é um romance à séria, com personagens que convencem, envolvem, e que se tornam maiores do que o narrador.

Para mim representa uma descoberta e uma aprendizagem, lido com o prazer que um romance bem pensado e bem escrito proporciona. Recomendo.

Sinopse

“Em Istambul, confluência de mundos, uma estranha escada desperta a atenção do autor deste romance, que decide ir atrás da sua história. Ela confunde-se, porém, com a saga dos seus construtores.Conhecidos como os «Rothschild do Oriente», os judeus Camondo erraram pela Europa até se instalarem em Istambul, onde viriam a tornar-se banqueiros do sultão e grandes filantropos. Abraham-Solomon, o patriarca, era o judeu mais rico do Império Otomano e combateu a maldição do judaísmo na Turquia fundando escolas que respeitavam todos os credos e legando ao filho e aos netos a importância da caridade e do mecenato. Já em Paris, o seu bisneto Isaac, amigo dos pintores impressionistas, doaria ao Museu do Louvre mais de cinquenta quadros de Monet, Manet e Degas; e o seu primo Moïse, devastado pela morte do filho na Primeira Guerra Mundial, abriria um museu que ainda hoje pode ser admirado e visitado na capital francesa. E, porém, apesar do seu poder e da sua influência, poucos conhecem a história desta família magnânima. O mistério explica-se: sobre a dinastia Camondo abateu-se uma fatalidade - a sua fortuna e o seu sangue eclipsaram-se nos campos de extermínio de Auschwitz.Em A Escada de Istambul, Tiago Salazar resgata do esquecimento várias gerações desta família e compõe, a partir de factos e documentos reais, uma ficção na qual ele próprio deambula como personagem.”

Oficina do Livro, 2016

“Homens imprudentemente poéticos” de Valter Hugo Mãe :: Opinião

Roda Dos Livros, 17.12.16

Homens imprudentemente poéticos, Porto Editora, Deus Me Livro, Valter Hugo Mãe

O ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas.

A frase é de Valter Hugo Mãe, não deste seu último romance, “Homens imprudentemente poéticos” (Porto Editora, 2016), mas do já consagrado “A máquina de fazer espanhóis”. A vontade do homem em complicar persiste, mas aqui, seguindo uma inspiração e tradição mais oriental, há também o espírito e um apelo às pequenas coisas, simples e delicadas da vida, que podem poetizar a nossa existência.

A linguagem luminosa e repleta de micro cenários a que Valter Hugo Mãe já nos habituou, povoa esta narrativa e traz até ao leitor um Japão antigo. Cenário longínquo que dá lugar a uma quezília entre vizinhos, permitindo-nos descobrir a vida de Itaro e Saburo, que através das suas lutas diárias medem forças e revelam uma cultura ancestral, testando também a força da Natureza e o poder da mesma no avanço desta história.

Havia uma expectativa de salvação embora, inconfessável, se espalhasse o medo da contaminação da morte (…). Ou talvez o sábio fosse tão eufórico quanto as árvores da morte, satisfeito com a coragem antiga dos que se entregavam à matéria da natureza.

As preocupações a que assistimos neste livro dão continuidade e são transversais aos vários livros do autor: a morte, os medos, a procura do sentido da vida, a importância de conhecer o outro ou até a busca pela serenidade estão espelhados nos detalhes com que se caracterizam as personagens, ou na forma que às vezes parece lenta e fragmentada, como a história avança.

Para explicar que ser quem era já pressupunha mais raiz do que os troncos a servir de alicerces. Já tinha tanta pertença quanto a pedra despontando entre as madeiras do chão.

A pequena comunidade tinha-lhes compaixão e notava bem que se deixavam nos amores igual a serem crianças a vida inteira. Eram poucos normais, diziam assim. Faltavam à lucidez por solidão.

Talvez não se ache logo um fio condutor harmonioso, mas antes um turbulento e que aparenta ter segredos: “Pensava que, por definição, todos os segredos eram modos de lonjura.

No entanto, estes modos de lonjura, essas tristezas alheias ou os rostos e as honras fragilizadas, trá-las Valter Hugo Mãe nas palavras e nos pedaços grotescos que convoca para as vidas destas personagens, convidando-nos a acolhê-las, preenchendo um vazio que todos carregamos e a celebrá-las, na interminável viagem que é viver.

O amor, na perda, era tentacular. Uma criatura a expandir, gorda, gorda, gorda. Até tudo em volta ser esse amor sem mais correspondência, sem companhia, sem cura. Que humilhante a solidão do amante. (…) O amor deixado sozinho é uma condição doente.

«Essa puta tão distinta» de Juan Marsé :: Opinião

Roda Dos Livros, 16.12.16

«Descobrimos a verdade, e a verdade não faz sentido.»G.K. ChestertonComeçamos pelo fim, digamos assim. A descoberta da verdade. Tal resolução não nos salva, não sara as feridas que o tempo acumulou, não encerra a máscara que usámos! É apenas a verdade e, muitos anos depois, que importância tem? Que sentido traz ao agora?"Sempre acreditei que a verdade, na ficção como na vida, nasce às vezes do que não tem sentido e oferece-se-nos como um presente."A verdade pode e é muitas vezes, asséptica, testemunhal e até convencional. Então para que a queremos? Será o desejo da verdade uma veleidade da memória? Uma exigência das reminiscências e rasteiras que a memória nos passa?Que verdade vem com a memória? Quantas nuances se encarrega a vida de nos dar para satisfazer a cumplicidade criativa a que a memória apela?É nessa cumplicidade criativa que julgo que este livro se insere e se torna peculiar. É preciso descodificar e descobrir os factos verídicos de um crime, resolvido com contornos menos transparentes, para produzir um guião para um realizador caprichoso. Um escritor reconhecido, mas relutante, decide aceitar o trabalho e proceder à tal investigação, tanto a documentalista como a presencial já que o assassino ainda é vivo. Fermín Sicart passa então a encontrar-se com o escritor e a sua cinéfila empregada e vão libertando, a pouco e pouco, doses de informação para uso doméstico.O livro demora-se, o guião atrasa-se e o leitor (talvez!?) vá perdendo o fôlego e a certa parte pensa em ir ver ou rever «Gilda», filme o qual estava a ser projectado aquando do homicídio no cinema Delícias. Barcelona, 1946.Verdade seja dita que o rumo que o livro segue, infelizmente, é decrescente. Começa com todo o impacto, como se de um ataque emocional se tratasse, promovendo uma leitura, inicialmente, imparável. No entanto, a distorção inicial que motiva o leitor, torna-se arriscada ao continuar, pois já não surpreende. Vale-nos sempre a azáfama cinéfila e capítulos com trechos fabulosos. As considerações sobre a palavra e a ligação à política, as cenas pensadas para o potencial filme ou as que descrevem o «Gilda», são partes extremamente bem conseguidas."(...) até que comecei a perguntar-me quanto de fantasia haveria na sua melancólica e magoada evocação. (...) numa memória sonâmbula como a dele, reelaborada por instâncias alheias tão suspeitas e nefastas, as incongruências, os lapsos e os enganos podiam ter tanto ou mais interesse que as verdades (...)Agora, enquanto estava a ouvi-lo, pensei que o seu infeliz histórico clínico desmentida aquele célebre máxima de Friedrich Richter segundo a qual a memória é o único paraíso de onde não podemos ser expulsos. "Será a memória um paraíso?Julgo que não dá para contornar esta pergunta e ela ressoa em nós, constantemente, o livro inteiro."Quanto ao resto, eu sabia perfeitamente que recordar é interpretar, é ver as coisas passadas de uma determinada maneira."A narrativa segue entre relatórios, apresentação de personagens, dúvidas e enigmas, mas o lado revelador ou a promessa da verdade e alguns retoques das cenas,  não são suficientes para garantir o interesse do leitor. Julgo que ficaremos presos ao inicio ou ao duplo início e ao jogo de adivinhação cinéfila, tentando nós responder a Felicia. Talvez das personagens mais interessantes. Ou ela, ou o potencial de Encarnita.

«Casa de férias com piscina» de Herman Koch :: Opinião

Roda Dos Livros, 16.12.16

"De vez em quando rebobina-se a vida para ver em que momento podia ter seguido noutra direcção. Contudo, às vezes não há nada para rebobinar; uma pessoa ainda não sabe, mas a partir daquele momento só vai em frente."
Herman Koch é já reconhecido pela mestria com que denuncia a hipocrisia, a inveja e o quanto os sentimentos e as relações se podem tornar de tal modo viscerais, que fragilizam e fragmentam essas mesmas relações, pondo em causa a própria vida. E este, «Casa de férias com piscina», não é excepção.
Marc Schloss é um médico de família peculiar e com um humor e opiniões tão aguçadas como o bisturi que não usa no exercício da sua profissão. Ou não devia usar. Ralph Meier é um actor bastante conhecido, achando que o reconhecimento e a fama o isentam de certas normas ou de julgamentos alheios. Ambos reputados, casados e opiniosos, medirão forças e experimentarão desejos fruto da proximidade que não era suposto terem. Já que Marc sofre de excesso de zelo em tudo o que se refere a corpos e Ralph tem predilecção por corpos. Femininos entenda-se. No entanto, não é só Caroline, a esposa de Marc que interessa a Ralph; também Judith, esposa de Ralph desperta em Marc vontades que conduzirão a família deste a um evento sem retorno e que alterará o curso das vidas destas duas famílias.
"Uma boca é um mecanismo. Um instrumento. Uma boca respira o oxigénio. Mastiga a comida e engole-a. Prova, sente se algo está demasiado quente ou frio. Naquele momento encarei Judith de novo e continuei a fitá-la enquanto tinha estes pensamentos acerca de bocas. Um olhar diz mais do que mil palavras. É um cliché. Contudo, um cliché expressa mais do que mil palavras."

Os clichés estão tão presentes neste livro como na vida em si e não me parece que Koch queira fugir deles, julgo que quer antes encontrar personagens que vivam num constante combate contra esses clichés, mas que depois os sintam como uma parede que de repente os traz novamente à realidade, com a dura mão dos eventos que não controlamos. Mas tudo isto sem privar o leitor de todos os pensamentos acutilantes, irónicos e suculentos que insere e dão corpo às personagens. Sim, é verdade, alguns deles chegam a enervar de tão asquerosos ou irritantes que são, mas é aí que encontramos a essência da escrita de Koch, o brilhantismo do seu lado negro e que não disfarça o desprezo por inúmeras situações do quotidiano.
"A gordura está em toda a parte, rodeia os órgãos por todos os lados. Ausculto com o estetoscópio. Escuto os pulmões, que a cada inspiração têm de empurrar a gordura para o lado. «Expire muito devagar», peço, e ouço a gordura a voltar ao seu lugar. O coração não bate: pula. O coração faz horas extraordinárias. O sangue tem de ser bombeado a tempo para todas as extremidades do corpo, mas as artérias também estão rodeadas de gordura. «Agora inspire calmamente», peço. A gordura fica a postos. (...) É uma luta (...) Invisível a olho nu..."
Marc Schloss não esconde nada, revela-nos as suas fantasias as suas divagações, enquanto se tenta refugiar no poder da imaginação, fugindo do corpo de cada paciente e da sua conversa de doente. Muitas das fugas imaginárias são autênticas criticas sociais.
"Comprei um relógio com ponteiros luminosos de propósito para as estreias de teatro. Acontece algo com o tempo durante uma peça de teatro que ainda não consegui identificar. O tempo não pára, isso não: coagula. (...) é como se mexesse com uma colher uma substância que se torna espessa rapidamente. A um dado momento a colher pára, fica de pé na substância (...)
Uma pessoa pensa (espera, reza) que já passou meia hora, mas os ponteiros indicam apenas doze minutos (...) Não se pode gemer ou suspirar (...) Quem geme ou suspira em voz alta distrai os actores."
Poderíamos continuar a citar as infindáveis criticas que o narrador e personagem principal tecem sobre tudo o que os rodeia e que caracteriza a vida contemporânea, nada lhes escapa, é cada parágrafo, cada facada.
"Holandeses no estrangeiro.
Os empreendedores holandeses queixam-se muito das maquinações incompreensíveis da burocracia do país em questão. (...) Nós, holandeses, gostamos de trabalhar no duro. Por que razão nos levantam tantos obstáculos? Aqui são alérgicos ao trabalho (...) Ao fim de dois ou três anos a amaldiçoar e a maldizer (...) agarram nos tarecos e regressam a casa furiosos."
Podemos dizer que nada escapa à análise milimétrica do Dr. Schloss e mesmo se experimentamos sentimentos menos empáticos para com o personagem, rapidamente estamos ávidos pelo seu próximo alvo e rimos perdidamente quando ele próprio se põe a jeito de ser criticado e ridicularizado.
O livro é inquietante e inesperado e o enredo é viperino o suficiente para imprimir um ritmo alucinante à leitura, não poupando quaisquer questões, até a da ética médica, colocando assim o leitor numa perseguição desenfreada a fim de perceber que águas quentes agitaram aquele Verão.

«Nem todas as baleias voam» de Afonso Cruz :: Opinião

Roda Dos Livros, 15.12.16

ABERTURA 

"A realidade é apenas uma fantasia exageradamente bem penteada, disse o escritor sérvio Goran Petrovic. O que me agrada particularmente nos blues é precisamente a recusa em pentear a realidade (...). Nos blues há uma denúncia constante da opressão, da injustiça, do racismo, da miséria."*
A genialidade, a desordem, a excitação e a entrega que visualizei neste vídeo de Glenn Gould foi exactamente o que fui sentido ao longo da leitura deste «Nem todas as baleias voam», por isso fez-me todo o sentido unir esta peça de Bach, tocada por um outro Gould ao Gould que Afonso Cruz criou, oferecendo ao leitor um enredo carregado de blues e de frases com dotes de pugilismo, tal como esta, presente na abertura deste livro, que eu diria que encerra em si mesmo um género de caixinha de sapatos para doentes terminais, coleccionadores de dores, mas também de muitos pequenos momentos de magia.
"Traço mapas com histórias obscuras, que iluminam becos, atalhos, lugares que ninguém se lembraria de percorrer."
Desde cedo percebemos que há aqui uma ode ao belo dentro da maldade e do mal, aliás somos logo avisados para essa maneira sórdida e até perversa de alimentar esse engenho do mal, do medo e do aberrante como solução para nos mantermos à tona, à superfície da sobrevivência.
Parece estranho? Se não o fosse é que seria de estranhar. Estamos novamente perante um livro intenso e imenso de Afonso Cruz, onde as personagens e as histórias se cruzam de tal forma que, mesmo a muitos quilómetros de distância, ganham uma intimidade que chega a fazer doer.
"Depois abria os olhos, concentrava-se nas fotografias do atlas correspondentes ao território escolhido pela ponta do dedo (as fotografias ficavam sempre com a marca da unha do indicador, porque Tristan, ansioso e triste, deixava que alguma violência lhe saísse pelo dedo ao pressionar o lugar onde estaria a mãe.
(...)
- Onde estava ela?
- No mar.
Naquela manhã não lhe apeteciam frases compridas, foi só isso, mar, que é uma das palavras mais profundas e o lugar onde o dedo se espetara, uma marca de unha de indicador no meio da água."

RELATÓRIO GOULD

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=hQbu3Te_fnM]

Julgo que o leitor vai entrando lentamente e vai sendo atraído para esta espécie de improvisação que pauta a estratégia do autor em nos encher os sentidos e nos explorar as emoções, apelando à palavra escrita, à cantada ou até àquela que não se ouve, mas está lá, saindo pela ponta de uns dedos que exprimem afecto e sentimentos profundos, tocando melodias que são autênticos relatórios das marcas que o tempo deixa.
"(...) uma lesão incurável.
- Vês?
- Não há pomadas?
- Dizem que o tempo cura.
- O tempo é uma pomada?
- Uma espécie de pomada.
- Não tem funcionado, pois não?
- Não. É que também vamos criando afecto pela dor, ela diz-nos que estamos vivos (...)"

EPÍLOGO

"O corpo dela cheirava agora a sabão, mas não disfarçava o odor intenso a uma certa solidão que lhe dava um ar quase etéreo, de quem vive acima do lodo do quotidiano (...)"
É neste acima do lodo do quotidiano que a história vai avançando, orientando-se na geografia do que é estranho, mas se intromete nas vidas, pejadas de dor e de solidão, mas também abertas à esperança que desponta aqui ou ali, como uma música que passa por uma frincha, uma brecha e nos entra na cabeça e permite a redenção que todos procuramos, corrigindo diferenças e tratando-nos do coração.

MENSAGEM ARQUIVADA

«O Jantar» de Herman Koch :: Opinião

Roda Dos Livros, 15.12.16

Menu:

- um restaurante difícil de reservar

- dois casais de meia idade

- uma pitada de mediatismo

- uma mão cheia trivialidades

- violência verbal em temperatura controlada

- crimes q.b.

- uma boa dose de aparências para polvilhar

*

Convêm que pegue neste Jantar logo com um bom digestivo, forte, caso contrário ficará empanturrado com tanto osso duro de roer e alguns condimentos mais abrasivos. Herman Koch não poupa as suas personagens e coloca-as de tal forma na ementa que faz com que o leitor se sinta indeciso, entre qual delas escolher para odiar mais. Digamos que este evento familiar está recheado de pratos de assinatura, mas com um sabor e conteúdos indigestos, ou não fossem eles família e todos a necessitar de manter as aparências.

A tragédia familiar está na mesa ainda antes de qualquer aperitivo, de um lado Serge e Babette, do outro Paul e Marie Claire, no meio um crime cometido pelos filhos de ambos os casais. Como resolver a situação será um assunto tão quente quanto a discussão gastronómica.

"Se tivesse de definir felicidade, seria assim: a felicidade basta-se a si mesma, não precisa de testemunhas. «Todas as famílias se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira», é a primeira frase de Anna Karenina, de Tolstói. No máximo, acrescentaria que as famílias infelizes - e logo, dentro dessas famílias, os casais infelizes - nunca conseguem sê-lo sozinhas. Quanto mais testemunhas, melhor. A infelicidade procura sempre companhia, não suporta o silêncio..."

Eu diria até que esse silêncio é insuportável, e o é mais ainda, quando uma família tem entre si aspectos dos quais se quer desenvencilhar, sem que disso sobrem feridas irreparáveis. No entanto, a complexidade das relações pode moldá-los para a indiferença e a falsidade, desde que isso garanta que todos saem ilesos. Contudo, os acontecimentos ganham contornos espinhosos e se a certa altura todos os questionamentos indicam uma só saída, o autor trabalha-a de uma forma doentia, provocadora e controversa que propõe dar resposta à questão inicial: até onde iria para proteger a sua família?. 

"(...) Partilhávamos algo. Algo que antes não existia. É certo que não partilhávamos os três o mesmo, mas talvez não fosse necessário. Não era preciso saber tudo de todos. Os segredos não impedem a felicidade."

Feitas as contas, pode sair sempre ao mesmo pagar a despesa, ainda assim há quem fique com uma parte mais pesada da factura, um lado mais invisível, no entanto, quem é que não esconde para si, algo seu mais negro.

A Gorda, de Isabela Figueiredo

Roda Dos Livros, 13.12.16

a_gorda

Não sei se em "A gorda" Isabela Figueiredo exorciza os seus demónios mas não tenho dúvidas de que, ao ler este livro, cada leitor o faz.

Acredito que todos, com maior ou menos intensidade, do lado da vitima ou do lado do agressor, já vivemos situações de preconceito. Seja por uma característica física, uma situação familiar ou apenas por sermos de alguma forma diferentes, todos nós já fomos vencidos pelo preconceito. A maioria de nós terá, espero eu, ultrapassado esse tempo mais ou menos ileso mas a alguns esse preconceito deixou marcas permanentes, moldou personalidades e condicionou futuros.

A Maria Luísa viveu toda a sua vida com preconceito. Às tantas o seu próprio corpo traiu-a e deixou de lhe pertencer, deixou de a representar. Mas ninguém foge do seu corpo. Ninguém consegue evitar ver-se através dos olhos dos outros, através das palavras dos outros. Não imagino o que é chegar ao ponto de optar por se mutilar para finalmente se transformar naquilo que se sabe ser (não se preocupem, está na primeira página, não é nenhum spoiler).

Este livro é feito de emoções. A escrita crua e angustiante da Isabela Figueiredo faz-nos olhar para a Maria Luísa de dentro. Faz-nos embarcar na viagem de auto-conhecimento enviesado que a própria personagem faz ao longo da vida.

Este livro é marcado pelas relações. Pelas relações de amor-ódio que marcam todos aqueles de quem somos próximos, pelas relações dos que entram e saem da nossa vida sem que percebamos bem porquê. Pelas relações que nos moldam e nos levam à felicidade da pertença ou ao abismo da solidão. Pelas relações de amor, com os outros, mas sobretudo connosco. Pelas relações que nos constroem e pelas que nos destroem.

Li este livro de uma forma muito pessoal, tornei-o meu e isso para mim é o maior elogio que lhe posso fazer.

Adoração - Cristina Drios

Roda Dos Livros, 11.12.16

adoracaoDepois de Os Olhos de Tirésias, uma das minhas melhores leituras de 2015, Adoração esperava-me com elevada expectativa. O desejo de voltar a uma narrativa envolvente, e a um estilo literário que eu já colocara (bem) acima da média era enorme. É fácil, como nós leitores bem sabemos, esta ser uma premissa para a desilusão. E, por isso, iniciei a leitura com cautela, embora sinceramente esperasse nada menos do que uma superação do livro anterior.

Gostei bastante deste Adoração. Revela uma evolução e um nível de maturidade literária que me surpreendeu. Cristina Drios evoluiu de modo colossal, fazendo-me emaranhar de prazer nas frases cuidadas, apreciando as palavras escolhidas com esmero. Um deleite, só vos digo, o que foi ler este livro lentamente, saboreando a linguagem cuidada e o vocabulário rico, contudo bastante acessível. Uma escrita palavrosa, porém, descomplicada. Sem definições desconhecidas ou termos complexos. Nada presunçoso, porém, erudito. Ou a caminho disso, digo eu.

A história é excepcional e merece que a descubram. Não me perderei em considerações sobre o enredo ou as personagens, pois admito que Adoração me encantou sobretudo pela escrita. Além disso é uma história misteriosa, não se encaixará exactamente no rótulo do policial, apesar de começar com um crime. Também não sei se será um romance histórico, dado que uma parte acontece num passado muito recente. É um romance cheio de segredos, com cadência ponderada. Um livro pensado. Muito bem pensado. Deixo-vos a sinopse para se entusiasmarem.

Agradeço à Cristina ter-me tirado da ignorância no que toca a Caravaggio e ao seu percurso, que conhecia de forma muito superficial. A internet ajudou-me a ver a luz na escuridão dos seus trabalhos. Fica o desejo de me maravilhar “olhos nos olhos”.

Gostei imenso, recomendo sem reservas, mas não posso deixar de admitir que a trama de Os Olhos de Tirésias me marcou de modo diferente e especial.

Sinopse

“Descrito pelo duque de Nottetempo, seu contemporâneo, como «um brigão, um arruaceiro», o pintor Caravaggio passou uma curta temporada na Sicília em 1609, aguardando o indulto papal para um crime de sangue que cometera em Roma. Nesse período, pintou uma tela que ficaria conhecida por A Adoração e que esteve no Oratório de S. Lourenço, em Palermo, até ser roubada em 1969, ano em que nasceria Antonia Rei.É essa mesma Antonia que, em 1992, testemunha um homicídio perpetrado pela máfia numa praça da cidade, onde é interrogada pelo comissário Salvatore Amato, que acaba por contactar alguns dias mais tarde. Mas não é curiosamente sobre o assassínio que lhe quer falar, antes sobre o roubo do famoso quadro. Oscilando entre épocas afastadas no tempo, entre a história fascinante da pintura d’A Adoração e a da investigação de Salvatore Amato num dos mais violentos períodos da acção da máfia, este romance recorre aos jogos de espelhos que Caravaggio usava nas suas pinturas para atrair ao mesmo vórtice de luz e trevas as vidas de um leque de personagens cativantes, mortas ou vivas, mas todas misteriosamente condenadas ao desencontro.”

Teorema, 2016

Concerto em Memória de Um Anjo - Eric-Emmanuel Schmitt

Roda Dos Livros, 09.12.16

concerto

"Sinto-me genuinamente feliz ao descobrir livros e autores que não conhecia."  Tal como o autor sinto-me genuinamente feliz. Através do diário de escrita que tem por hábito incluir nos livros li esta e outras considerações quando comparava o valor de um romance ou de um livro de contos. O tamanho de um livro é outro dos aspectos a que também sou sensível e pondero a minha disponibilidade e disposição quando são muitas as páginas.

A escrita clara, limpa e bela é para repetir em outros textos mas um livro de contos é um bom ponto de partida. Quatro contos, quatro narrativas curtas reduzidas ao essencial. Um projecto global com o tema da evolução segundo as escolhas ou os traumas e a velha questão de que a mudança se pode ou não dar deliberadamente. O autor defende que o homem não muda: ele corrige-se. 

"A mulher venenosa" é uma velha senhora da província que conseguiu matar três maridos e sair ilibada das acusações mas não da condenação publica e com isso, tornou-se uma atração turística.

"O Regresso" é sobre um marinheiro que recebe a noticia da morte de uma das suas quatro filhas mas desconhece qual e com isso, corrige-se.

"Concerto em memória de um anjo" é sobre as terríveis consequências de um ato criminoso entre dois promissores talentos musicais. Uma redenção encontra uma danação muitos anos depois.

E por fim, "Um amor no Eliseu" é um amor dessincronizado no elitista mundo dos ricos, privilegiados e poderosos.

A capa induz em erro como sendo literatura sobre anjos ou do fantástico e deste modo, pode passar despercebido aos mais distraídos. Na verdade, acho que se tratam de quatro belas histórias de amor.

Muito bom. Com uma tradução irrepreensível.

Sinopse: Que relação existe entre uma mulher que envenena sucessivamente os seus maridos e um presidente da República apaixonado? Qual a ligação entre um simples e honesto marinheiro e um escroque internacional que vende bugigangas religiosas fabricadas na China?Por que milagre uma imagem de Santa Rita, padroeira das causas perdidas, assume o papel de guia misteriosa das suas existências? Todas estas personagens tiveram a possibilidade de se redimir, de escolher a luz em vez da sombra. A todas foi um dia oferecida a salvação. Algumas aceitaram-na, outras recusaram-na, outras ainda não souberam reconhecê-la. Concerto em Memória de Um Anjo são quatro histórias ligadas entre si e que exploram uma questão: Somos livres ou estamos presos a um destino? Será que podemos mudar?

Homens Imprudentemente Poéticos - Valter Hugo Mãe

Roda Dos Livros, 08.12.16

homensimprudentementepoeticosFoi como ser abrigada pelo silêncio. E eu gosto do silêncio. Tanto que o procuro sempre, e abrigo-me nele como quem se aconchega debaixo de uma asa cálida.

Este livro trouxe-me silêncio. Porque quando entrei nas suas páginas o mundo calou-se. Não havia mais nada além das palavras. Que não foram serenas. Nem me trouxeram paz. Nem mesmo o amado silêncio. Estas palavras são mágicas. Rodearam tudo de silêncio para, só elas, serem escutadas.

Avançar nas páginas foi como submergir, como se a leitura fosse criando uma bolha que isola quem lê, como se o livro passasse a ser dono do espaço, do tempo, e até do ritmo. Ler Homens Imprudentemente Poéticos é obedecer. É ler ao compasso imposto, lento, por vezes arduamente lento, como se uma página pudesse durar dias e a releitura fosse uma urgência, uma imposição que, de cada vez, oferecia novas descobertas.

A delicadeza habitual da escrita de Valter Hugo Mãe funde-se de modo perfeito na serenidade do Japão, país que mesmo para a guerra se apoia na concentração, em que a violência é pensada, meditativa, mas não menos mortal. Das artes marciais ao Ikebana os mesmos princípios, mas objectivos tão díspares quanto a morte e a beleza contemplativa.

A simplicidade, quase infantil, é um engodo hábil em que me enredei sem resistência, cedendo com prazer à narrativa poética que, ardilosa e bastante mais complexa do que se suspeita à partida, me foi surpreendendo com ocasionais socos no estômago, dos quais não me queixo. Ao contrário, agradeço. Ou não fossem as leituras dolorosas as que mais marcam, e as que guardo de forma definitiva nas minhas memórias mais singulares.

A viagem é longa. Mas apesar do Japão ser distante as premissas de Homens Imprudentemente Poéticos são comuns a todas as geografias. Há o ódio que, não se sabendo bem porque surge, é alimentado de picardias e provocações numa sucessão de dias que lhe dão uma dimensão irracional. Tão longe pode ir a aversão ao próximo que a morte se afigura como uma possibilidade lógica. A violência é apenas mais um passo. O medo é inexplicável, mas todos o sabemos sentir. Na relação de dois vizinhos que se atormentam de ódios, e vivem entre a defesa e o ataque como num campo de batalha, o medo é inevitável. É como uma corda que num dia é puxada com mais afinco por um, e no outro dá mais metros ao seu inimigo. O receio da corda quebrada é palpável e a espera consome por dentro.

Ítaro e Saburo são os vizinhos que se perseguem e controlam. Com as mesmas mãos com que criam beleza, Ítaro pinta leques muito belos e Saburo produz peças de olaria, procuram concretizar vinganças. As mesmas mentes que pensam beleza planeiam maldades, numa constante dualidade. Ou não fossem eles humanos.

É curioso como um livro que, geograficamente, leva o leitor para longe e lhe apresenta uma floresta feita de silêncios, pode transmitir uma sensação de tão forte proximidade. As diferenças culturais são evidentes, mas nem mesmo os distintos modos de encarar a morte trazem maior ou menor poder sobre o que se teme. Ou sobre aquilo de que se sente falta. E é, por vezes, no escuro que melhor se vê o caminho, escutando os sentimentos ao mesmo tempo que se tapam os olhos.

“A cegueira era, a cada instante, uma expansão”. Citação. Página 205.

Como o próprio Ítaro que, no seu confronto forçado com as sombras, encontra no fundo de um buraco escuro a pessoa que ainda não tinha descoberto na superfície. Há um renascimento no enfrentar do medo, não o subestimando, mantendo o temor e até mesmo criando dependência daquilo que se receia. A viagem do auto-conhecimento é solitária.

Homens Imprudentemente Poéticos descobre-se aos poucos. Exige a entrega que já referi. Espanta pela linguagem destemida, diferente, a que parecem faltar palavras que afinal não fazem falta. Tem a originalidade de quem escreve sem medo do risco. De quem escreve como quer. De quem escreve como sente.

Sublinho e faço anotações nos meus livros. Coloco marcas com a ideia do regresso. Neste caso refreei o impulso, por recear sublinhar o livro todo.

Homens Imprudentemente Poéticos não se esgota nas vezes que se relê. É uma leitura que termina nunca.

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