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Roda Dos Livros

A Célula Adormecida - Nuno Nepomuceno

Roda Dos Livros, 27.11.16

acelulaadormecidaA leitura foi rápida. As quase seiscentas páginas são feitas de adrenalina e o ritmo imposto não tem piedade do leitor. Mas isso eu já esperava, pois foi assim com a Trilogia Freelancer (O Espião Português, A Espia do Oriente e A Hora Solene). Desta vez eu queria mais.

Tem-se tornado algo difícil ler os livros de quem estimo. E o Nuno, pela sua dedicação e capacidade de trabalho, é um autor que cada vez mais admiro e que gosto de acompanhar de perto. Curiosamente, em vez de me tornar benevolente e dar palmadinhas nas costas, torno-me mais exigente e severa com as pessoas de quem gosto. Mas só com aquelas que acho que podem chegar mais longe. É uma forma esquisita de demonstrar carinho, eu sei, mas sou dura porque acredito e porque quero (quero mesmo) que quem tem talento e investe tempo e suor na escrita tenha a devida compensação.

Bom, está mais do que visto que esta opinião dificilmente será imparcial, mas, dada a natureza do que explico acima, o meu grande receio era prejudicar o autor. E isso eu não podia conceber.

O livro está lido e os receios postos de parte. O Nuno superou as expectativas e poupa-me os remorsos de ter que escrever que esperava melhor. Bom, na verdade espero mais. Espero sempre. Mas para o próximo livro.

Depois desta longa introdução quero dizer-vos que esta foi uma leitura envolvente, com várias áreas de acção, cheia de mistério e pulso acelerado. O tema é extraordinário, não só por ser actual, mas por permitir tantas possibilidades de intriga que o Nuno soube (muito bem) aproveitar.

Quem nunca pensou na possibilidade de um atentado terrorista em Portugal? Nos tempos que correm é fácil conceber essa hipótese, infelizmente. Um atentado em Lisboa na noite das eleições legislativas é a premissa para esta fantástica viagem que, mais do que um romance policial ou de espionagem, é uma brilhante chamada de atenção para a intolerância religiosa.

É notória a pesquisa e a preparação do autor para este livro, eu diria até notável, e, ao contrário do que verifiquei nos livros anteriores, a forma como a informação passa para o leitor é mais cuidada. Os dados (políticos, sociais ou geográficos) são tema suculento de diálogos, por vezes acesas discussões que aumentam o estado de alerta para assimilar informação. Os locais vão sendo descritos de modo cadenciado, sem precipitações, como um palco que vai sendo montado à medida que se desenrola a trama. Em algumas ocasiões senti que podia estar a ler um livro de viagens, nomeadamente na parte que decorre na Turquia.

Em resumo, neste novo livro, Nuno Nepomuceno toca na ferida de temas polémicos da actualidade com a sua escrita envolvente e elegante. De forma fluída e muito bem conseguida expõe o drama dos refugiados sírios, o conflito do médio oriente (ou talvez conflitos seja mais adequado) e a guerra do petróleo. Mostra uma Lisboa multicultural e (infelizmente) intolerante. Leva o leitor pela mão à Mesquita Central de Lisboa e ensina (ou não tivesse sido ele professor) o que significa ser muçulmano. Faz uma viagem pelo mundo fútil de quem vive da imagem e pela manipulação dos media. Apresenta uma das minhas personagens preferidas de sempre, Afonso Catalão, que, como tem de ser, não é o que aparenta. E é, de resto, o principal símbolo da maturidade deste livro. André Marques-Smith ficou lá atrás. Confesso que gostava de me voltar a encontrar com o Afonso noutros livros.

Se é previsível? Sim, quanto baste, mas se calhar no que menos importa. Descansem que as surpresas são muitas e estarão constantemente a repetir com os olhos arregalados “só mais um capítulo!”.

Leiam-no! É aposta segura.

Sinopse

“Em plena noite eleitoral, o novo primeiro-ministro português é encontrado morto. Ao mesmo tempo, em Istambul, na Turquia, uma reputada jornalista vive uma experiência transcendente. E em Lisboa, o pânico instala-se quando um autocarro é feito refém no centro da cidade. O autoproclamado Estado Islâmico reivindica o ataque e mostra toda a sua força com uma mensagem arrepiante.O país desperta para o terror e o medo cresce na sociedade. Um grande evento de dimensão mundial aproxima-se e há claros indícios de que uma célula terrorista se encontra entre nós. Todas as pistas são importantes para o SIS, sobretudo, quando Afonso Catalão, um conhecido especialista em Ciência Política e Estudos Orientais, é implicado.De antecedentes obscuros, o professor vê-se subitamente envolvido numa estranha sucessão de acontecimentos. E eis que uma modesta família muçulmana refugiada em Portugal surge em cena.A luta contra o tempo começa e a Afonso só é dada uma hipótese para se ilibar: confrontar o passado e reviver o amor por uma mulher que já antes o conduziu ao limiar da própria destruição.Com uma escrita elegante e o seu já tão característico estilo intimista e sofisticado, inspirado em acontecimentos verídicos, Nuno Nepomuceno dá-nos a conhecer A Célula Adormecida. Passado durante os 30 dias do mês do Ramadão, este é um romance contemporâneo, onde ficção e realidade se confundem num estranho mundo novo e aterrador que a todos nos perturba. Um thriller psicológico de leitura compulsiva, inquietante, negro e inquestionavelmente atual.”

Topbooks, 2016

Água do meu coração - Charles Martin

Roda Dos Livros, 27.11.16

aguadomeucoracaoTalvez nunca a frase "Não se deve julgar um livro pela capa" tenha feito tanto sentido como quando li este livro.

A capa é bonita mas transmite uma mensagem errada. Sugere paixão num lugar idílico quando se trata de inspiração, fé e esperança. E AMOR. Um país lindo como a Nicarágua e um povo magnifico, imponente e carinhoso que nos chegam direitinhos ao coração. Um romance que nos deixa menos indiferentes. "Água do meu coração" significa "Sempre que beber desta água, lembrar-se-á que vem do teu coração".

Quem conhece a obra de Charles Martin sabe do que ele é capaz. Quem não conhece, não sabe o que perde. Romances inesquecíveis. De uma rara sensibilidade e beleza em que nada falha. A narrativa contem aventura, suspense, ação e romance e é contada com habilidade e aptidão. Depois, o resto fica por conta do carisma das personagens e da admiração que nos suscitam.

Charles Finn não nasceu num berço de ouro mas singrou ... e desistiu. A sua história de vida passa pelo tráfico de droga. E por uma amizade que o ligava a um velho que o ensinou a fazer barcos. A estima e a culpa levam-no a um reencontro com o passado que terá oportunidade de corrigir.

Paulina - Que Mulher! Forte, valente e caridosa. Sem opções enfrenta a vida a vida com o que pode dar.

E mais não escrevo para não exagerar nos elogios a um autor que sigo com convicção. Mais uma obra obrigatória do género. Não conheço melhor.

Sinopse:  Com uma vida difícil desde criança e um passado no mundo dos negócios de que não se orgulha, Charlie Finn vive agora tranquilamente de trabalhos pouco transparentes que faz com o seu barco ao largo da costa de Miami. 

Charlie procura levar um dia de cada vez, sem grande agitação, no entanto, quando os seus atos têm consequências devastadoras para aqueles que mais ama, sente-se obrigado a reparar todo o mal que causou. 

Decidido a trazer para casa são e salvo o filho do seu melhor amigo, viaja para a América Central. A viagem leva-o inesperadamente até León, um lugar a que outrora virara costas pelas piores razões, onde reencontra aqueles que pagaram pelas decisões cegas do seu passado, entre eles Paulina e a filha. 

Poderá o confronto com o passado conceder a Charlie a redenção de todos os males que provocou e ajudá-lo a encontrar um amor como nunca julgou possível?

Um Longo Regresso a Casa - Gail Caldwell

Roda Dos Livros, 22.11.16

um-longo-regresso-a-casaQuando li este livro andei a “digeri-lo” para escrever esta opinião…

A proximidade da minha vivência com o cancro do pulmão – infelizmente reincidente - e a maior semelhança ainda com a minha história com a minha melhor amiga levaram-me a fazer uma leitura bastante lenta deste livro…Um livro sobre a amizade, mas também sobre a força, o superar dificuldades e o superar-se!! “Numa situação de crise, fechava-me a mim própria, mais receosa de que alguém me desiludisse do que de ter de fazer as coisas sem ajuda.” (p. 122)Com Gail e Caroline mergulhei no mundo desconhecido do alcoolismo, e senti-me perturbada com toda a sua envolvente, com os subterfúgios que se escondem em cada pessoa que se refugia na bebida. “(…) o mundo tal como o vemos é apenas uma versão publicada. (…)” (p.81)Ao longo deste livro assistimos a vários momentos de libertação, à sedimentação de uma amizade e à sobrevivência após o luto, os vários lutos, porque ao longo da história vamos acompanhando vários lutos. Como diz Gail “(…) é possível atravessar o medo e sair chamuscado, mas a respirar. (…)” (p. 90)Esta história autobiográfica é um relato bem vívido do sofrimento e da dor, mas como podemos ler na contracapa, uma ode à força da amizade e do amor. Porque “No que diz respeito ao sofrimento, a única educação que cada um de nós recebe é um curso intensivo.”(p.166)“Sempre me haviam desagradado os eufemismos que a civilização adoptara para a morte: «foi-se», «partiu», «faleceu». Pareciam-me evasivos e sentimentais, uma forma de branquear o conceito de morte, retirando-lhe a sua força declarativa. Agora, eu sabia por que motivo o vocabulário fora suavizado.” (p.168)“Hoje sei que nunca ultrapassamos as grandes perdas: absorvemo-las e elas esculpem-nos até nos tornarmos uma pessoa diferente, frequentemente mais generosa” (p. 199)Saí deste livro com o coração do tamanho de uma noz mas jamais deixaria de o ler. Ler Gail, conhecer a história da sua amizade com Caroline fez-me crescer porque “(…) O sofrimento é o factor que muda o final do jogo (…)” (p. 159) Sinopse

A história de um amor sem limites «Esta é uma velha história: eu tinha uma amiga com quem partilhava tudo, até que ela morreu e também isso nós partilhámos.Um ano depois de ela ter partido, quando eu julgava já ter ultrapassado a loucura daquele sofrimento inicial, caminhava no parque de Cambridge onde durante anos Caroline e eu passeámos os cães. Era uma tarde de inverno e o local estava vazio – a estrada fazia uma curva, não havia ninguém à minha frente nem atrás de mim e eu senti uma desolação tão grande que, por momentos, os meus joelhos ficaram imóveis. “O que estou aqui a fazer?”, perguntei-lhe em voz alta, habituada agora a conversar com uma melhor amiga morta. “Devo seguir em frente?”

Livros d'Hoje, 2012

Uma Dor tão Desigual

Roda Dos Livros, 22.11.16

contosGosto de contos. São curtos, concisos e diretos.

Estes contos são relevantes pela temática que abordam. E foi justamente isso que me chamou a atenção. Isso e o conjunto de autores convidados para este desafio, que do meu ponto de vista foi superado com exito.

Pode-se gostar mais de um ou de outro dos oito contos, mas todos foram bem conseguidos. Problemas distintos que nos tocam porque já os conhecemos em versões bem menos imaginativas e mais assustadoras.

Uma leitura que se pretende rápida mas não indiferente.

Sinopse:

Este livro resulta de um desafio feito a oito autores portugueses para que explorassem as fronteiras múltiplas e ténues que definem a saúde psicológica e o que dela nos afasta. Em estilos muito diferentes, um leque extraordinário de escritores brinda-nos com textos que mostram como qualquer um de nós pode viver momentos difíceis e precisar de ajuda.

Estas são histórias de perda, solidão, fraqueza e delírio, mas também de esperança e humanidade. São relatos de gente que podíamos conhecer e talvez conheçamos, histórias íntimas e ricas de homens e mulheres como nós.
A área da saúde psicológica está ainda sujeita a muitos preconceitos, que dificultam a procura de ajuda profissional e estigmatizam quem sofre. Pretende-se com este livro combater esses preconceitos, despertar consciências e ajudar a encontrar uma saída.

Desde a Sombra - Juan José Millás

Roda Dos Livros, 20.11.16

desdeasombraDesde a Sombra, de Juan José Millás, foi a leitura deste mês da Comunidade de Leitores em que participo. Um livro que se lê numa penada, com interesse constante. A escrita fluída e descomplicada proporciona uma leitura rápida, nada cansativa, e bastante prazerosa. Mas, e porque há sempre um mas, Desde a Sombra não é tão simples ou linear como parece. E ainda bem.

Damián esconde-se dentro de um armário numa feira de antiguidades (os motivos da necessidade de esconderijo deixo para descobrirem quando lerem o livro) e, não conseguindo sair sem ser visto, deixa-se ficar no armário até ser transportado para a casa de Lucia. Parece de loucos, não? E é. Mas a verdade é que a escrita de Millás faz desta premissa uma situação perfeitamente credível. Há um homem dentro de um armário no quarto de casal, onde decide ficar a viver passando despercebido. Ou talvez não, pois quando a família sai para o trabalho e para a escola, Damián sai do seu aconchego (espaço que tornou confortável e onde se sente bem) e arruma a casa. Lucia é a única que se apercebe que são feitas limpezas, tanto o marido como a filha assumem que o trabalho é feito por ela, como habitualmente. Lucia acredita que tem em casa um fantasma que trata da manutenção do lar, e chega a estabelecer contacto com ele através de canais muito especiais (mais uma para descobrirem lendo o livro).

Para ajudar à festa há um programa de televisão em directo, uma espécie de reality show onde Damián vai exorcizando alguns demónios (picos de audiência, claro) e mantendo o público a par da sua aventura no armário.

Eu sei que parece muito confuso e bastante louco, mas só um livro fabuloso conseguiria que todos estes detalhes esquizofrénicos que descrevo fizessem (muito) sentido. A escrita de Millás é descomplicada como referi no início, mas apenas aparentemente, pois apesar de se ler muito bem e de ser bastante acessível, assenta numa estrutura habilmente construída que permite ao leitor passear (literalmente) pelos pensamentos cruzados de Damián. E acreditem que são muitos pensamentos, muitas ideias, muita coisa a acontecer ao mesmo tempo naquela cabeça.

Passando do hilariante ao soturno de forma vertiginosa, Millás obriga à reflexão sobre temas como a solidão, traição, mentira, traumas de infância, anorexia e futilidade, com um sorriso nos lábios.

Foi uma extraordinária leitura, que recomendo sem reservas, e que proporcionou uma das melhores discussões da comunidade. Curiosamente estivemos todos de acordo (coisa rara), Desde a Sombra é genial!

Fica a enorme vontade de descobrir outros títulos do autor.

Sinopse

“Um romance no mais puro estilo Millás: surpreendente, inquietante, original, brilhante: Um protagonista, um homem comum «empurrado» para uma situação extraordinária; um argumento fora do normal com um desfecho imprevisto e inquietante; uma combinação magistral de humor, suspense, com diálogos que têm um olhar lúcido sobre a realidade dos nossos dias.O romance é uma análise crua das fobias e receios dos nossos dias, focando o medo de falhar como pessoa.”

Planeta, 2016

Tradução de Mário Dias Correia

Roda dos Livros – Sugestões de Outubro de 2016

Roda Dos Livros, 14.11.16
No mês de Outubro trocámos gargalhadas e, como sempre, passámos uma tarde maravilhosa à volta dos livros. Houve não-ficção, fantasia e outros géneros mas a estrela foi, sem dúvida, o romance Adoração, da Cristina Drios que se arrisca a ser um dos poucos consensos da roda.Como (quase) sempre os autores portugueses estão em maioria nas sugestões da roda dos livros:20161022_174149

Jorge Galvão : Somos o esquecimento que seremos, Hector Abad Faciolince

Vera: Numa casca de noz, Ian McEwan

Renata: Adoração, Cristina Drios

Paula:Adoração, Cristina Drios

Fernanda: Uma parte errada de mim, Paulo M Morais

Cristina Delgado: A carreira do mal, Robert Galbraith

Isabel: À espera de Bojangles, Olivier Bourdet

Patrícia: Stormlight Archives, Brandon Sanderson

Márcia: Arquipélago, Joel Neto

Catarina: Sonetos Completos, Antero de Quental

Rui: O tecido do Outono, António Alçada Baptista

Cristiana: Homens imprudentemente poéticos, Valter Hugo Mãe

Joana: O ouro dos corcundas, Paulo Moreiras

Ana Marques da Silva: O estranho caso do cão morto, Mark Haddon

Boas leituras...

“Sete Anos Bons” de Etgar Keret

Roda Dos Livros, 13.11.16

  

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Diz-se que os homens não se medem aos palmos. Nem as histórias, nem os livros. Em literatura o mais importante não é o tamanho mas a história que se conta e o modo como é contada. Etgar Keret escreve contos, quase sempre de pequena dimensão, e fá-lo de forma absolutamente magistral. De facto, fá-lo tão bem que, ao acabar de ler uma das suas histórias, tem-se a sensação de que nada mais falta; quer dizer, a única coisa que falta é ler a seguinte, e mais outra e ainda mais outra...

Este é o segundo livro deste autor que leio e, sendo muito diferente de “Suddenly a knock on the door”, foi um reencontro delicioso com o humor peculiar e a ironia cáustica, ambos brilhantes e característicos da sua escrita. Sendo um livro autobiográfico, os textos nele contidos são episódios avulsos do quotidiano de Keret e da sua família, uma espécie de instantâneos das suas viagens e da vida contemporânea em Israel, pelo que não há aqui tanto espaço para os rasgos de imaginação mirabolante e absurda que habitualmente povoam as suas histórias. Contudo, o humor inteligente e mordaz, a resvalar para o “negro”, está bem patente neste livro, imprimindo-lhe a marca distintiva do seu autor e tornando-o uma leitura maravilhosamente divertida. No entanto, nada tem de alienação por conter também pistas para reflexões mais profundas, não só sobre a situação concreta de Israel mas também sobre o mundo e a sua História recente e, como não podia deixar de ser, sobre a vida, o amor e a morte. Sobre aquilo que faz de nós humanos. De resto, quantos livros são capazes de nos comover ao mesmo tempo que desencadeiam sorrisos ou gargalhadas, ou ainda, nos deixam mudos de espanto ante a imaginação completamente delirante e o sentido de humor fantástico do seu autor? Não parece fácil, pois não? Mas é precisamente isso que faz este autor fabuloso, por isso, enquanto Etgar Keret escrever, espero poder continuar a ler os seus enormes pequenos contos.

Excertos:

“Os atentados são sempre iguais. Que espécie de coisa original se pode dizer acerca de uma explosão e da morte sem sentido?”

“O “eu” que existe entre a descolagem e a aterragem é uma pessoa completamente diferente. O “eu” de voo é viciado em sumo de tomate, uma bebida que eu nunca sequer pensaria em tocar quando tenho os pés assentes na terra. No ar; esse “eu” consome avidamente comédias hollywoodianas idiotas numa tela do tamanho de uma hemorroida e folheia as páginas do catálogo de produtos guardado na bolsa do assento em frente dele, como se ele fosse uma versão atualizada e aumentada do Antigo Testamento.”

“Quando tento reconstruir aquelas histórias que o meu pai me contou há anos, dou-me conta de que, para além dos seus enredos fascinantes, elas destinavam-se a ensinar-me alguma coisa. Alguma coisa sobre a necessidade humana quase desesperada de encontrar algo de bom nos lugares mais improváveis. Alguma coisa sobre o desejo, não de embelezar a realidade, mas de nunca renunciar a procurar um ângulo capaz de colocar a fealdade sob uma luz melhor e de criar afeição e empatia por cada ruga e verruga do seu rosto marcado.”

“Por volta daqueles anos, o meu irmão começou a preocupar-se seriamente comigo. Lera no jornal Haaretz um artigo que dizia que as pessoas iletradas ram excluídas do mercado de trabalho, e a ideia de que aquele querido irmão de três anos viesse a ter dificuldades para arranjar emprego preocupava-o imenso. Daí que tenha começado a ensinar-me a ler e a escrever com uma técnica única a que ele chamou “o método da pastilha elástica”. Funcionava assim: o meu irmão apontava para uma palavra que eu tinha de ler em voz alta. Se eu lesse corretamente, ele dava-me uma pastilha elástica nova. Se eu errasse, ele colava-me a sua pastilha mastigada nos cabelos. O método funcionou às mil maravilhas, e aos quatro anos eu era o único miúdo no jardim infantil que sabia ler. Era também o único que, à primeira vista, parecia careca. Mas isso é outra história.”

“Assim vai o mundo. O escritor não o criou, mas está cá para dizer o que deve ser dito. Há uma linha que separa matar insetos de matar rãs e mesmo que o escritor a tenha ultrapassado alguma vez na sua vida, tem o dever de o dizer. (...) Não inventa um único sentimento ou pensamento – todos eles já existiam muito antes dele. Não é em nada melhor do que os seus leitores – por vezes é mesmo muito pior – e assim deve ser. Se o escritor fosse um anjo, o abismo que o separaria de nós seria tal que a sua escrita não seria suficientemente próxima de nós de modo a tocar-nos. Mas como ele está aqui, ao nosso lado, enterrado até ao pescoço na lama e na imundície, é ele, melhor do que ninguém, que pode partilhar connosco tudo o que lhe passa pelo espírito, nas zonas iluminadas e, em especial, nos recônditos escuros. Não nos conduzirá à Terra prometida, não trará a paz ao mundo, nem curará os doentes. Mas se fizer o seu trabalho como deve ser, algumas rãs virtuais poderão viver. Quanto aos insetos, lamento dizer, terão de se desenrascar sozinhos.”

A Vida no Campo - Joel Neto

Roda Dos Livros, 13.11.16

avidanocampoLi Arquipélago. Viajei na Ilha Terceira. Trago memórias de umas férias especiais e na bagagem veio A Vida no Campo.

Este texto será breve. É apenas uma anotação do tanto que gostei e me deixei envolver pelas histórias e reflexões do autor. A Vida no Campo é um diário de alguém que deixou a cidade depois de vinte anos a corresponder às exigências da carreira, a viver no meio do ruído, a não ter tempo sem disso se aperceber. Assim como eu e tantas outras pessoas.

Ler este livro não é só um passeio na fantástica ilha Terceira. É uma tomada de consciência. É um acordar meigo para o que a vida poderá ser. Um empurrão para quem queira ser empurrado, ou se vá deixando empurrar pela perspectiva do plano. Mudar de vida é possível apesar das dificuldades, muitas delas criadas pelos próprios receios.

Para mim, além de uma (boa) provocação dado que anseio por uma paz semelhante, foi um complemento à minha viagem. Foi-me arrancando sorrisos e suspiros quando lia sobre alguns dos locais que visitei, dos restaurantes onde comi, e que me foi abrindo (ainda mais) o apetite para a admirável gastronomia, dado que Joel Neto não se poupa a discrições suculentas do que lhe vai passando pelo prato.

Vacas, igrejas, mil tons de verde, neblinas misteriosas, personagens de Arquipélago (desconfio que encontrei algumas neste Vida no Campo), voltaram para mim a cada página. Regressar aos Açores é um dado adquirido, até lá a viagem faz-se em releituras.

Partilho o booktrailer. Acho-o irresistível.

https://www.youtube.com/watch?v=a8jmFkSyV7w

Sinopse

“Um homem e uma mulher. Um jardim e uma horta. Dois cães. Ao fim de vinte anos na grande cidade, Joel Neto instalou-se no pequeno lugar de Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, ilha Terceira. Rodeado de uma paisagem estonteante, das memórias da infância e de uma panóplia de vizinhos de modos simples e vocação filosófica, descobriu que, afinal, a vida pode mesmo ser mais serena, mais barata e mais livre. E, se calhar, mais inteligente.”

Marcador, 2016

“Homens imprudentemente poéticos” de Valter Hugo Mãe

Roda Dos Livros, 06.11.16

   

vhm“(...) Trago ao Universo um novo Universo

Porque trago ao Universo ele-próprio (...)

Alberto Caeiro in “O guardador de rebanhos” (XLVI)

 

As premissas básicas são simples. São, afinal, traços comuns a todas as existências: amor, medo, violência, ódio, morte, dor, felicidade, aceitação e, eventualmente, redenção. Tudo com o Japão como pano de fundo e tudo parecendo simples, enganadoramente simples, pela familiaridade confortável das palavras em língua materna. Contudo, a magnificência da escrita obriga a abrandar o ritmo da leitura, lê-se como que encerrado numa bolha suspensa na trama do espaço-tempo, ou seja, num tempo diferente, quase suspenso, escoando-se em instantes deliciosamente lentos. Tal como um origami, em que objectos delicados, belos e complexos, emergem a partir de um simples quadrado de papel colorido, assim Valter Hugo Mãe construiu este romance: pegando nas palavras simples e dobrando-lhes os cantos, vincando-as e reinventando os seus ângulos. Fica-se então, pasmada, enredada na beleza e na profundidade do que está escrito, lê-se e relê-se, uma e outra vez, é-se a agulha do gira-discos sobre um disco riscado.

Em “Homens imprudentemente poéticos” Itaro, prisioneiro do seu ódio pelo vizinho e da dor da ausência da irmã, aceita confrontar-se com a escuridão, com a sua sombra, e consegue enfim, transcender-se e atingir o entendimento que procurava. Ao abraçar o seu medo, o seu inimigo invisível, emerge do poço pacificado e com um talento renovado para a arte de fazer de leques cuja beleza excepcional  deslumbra quem os contempla. Olhar para os abismos interiores, apesar de penoso, torna-se necessário porque o conhecimento da sombra, para além de uma medida mais precisa de si mesmo, oferece também uma compreensão mais profunda do lugar do ser humano na natureza, no cosmos em que vivemos. Aceitando as sombras apreciamos melhor a luz, entrevemos enfim uma certa paz, uma certa redenção.

Este é um livro com uma personalidade muito própria, deixa-se ler apenas ao seu próprio ritmo, deixa-se perceber aos poucos, obrigando assim a uma entrega completa à sua leitura. Mas vale bem a pena. Muito.

Uma nota final: Muito obrigada Valter Hugo Mãe por não adoptar a chamada nova grafia do português!

Excertos:

“Outra vez Itaro desfez um besouro no chão e o observou. Melhor o desfez, correndo a pedra para trás e para diante a estender a cor que a mínima humidade do bicho deitava. Bateu com a pedra, e havia uma raiva crescente, uma incontrolável vontade de ferir algo que se ausentava da realidade tangível do mundo. A senhora Kame lhe tomou o pulso, para que aceitasse a medida da morte. O besouro nunca morreria mais do já morrera, e as ideias nunca terminariam à força de um golpe, por mais desaustinado que fosse desferido.”

“O amor, na perda, era tentacular. Uma criatura a expandir, gorda, gorda, gorda. Até tudo e volta ser esse amor sem mais correspondência, sem companhia, sem cura. Que humilhante a solidão do amante. O oleiro disse assim: que humilhante o coração que sobra. O amor deixado sozinho é uma condição doente.”

“Sem tangibilidade, ver humilhava a memória, que nunca recuperaria a completude de coisa alguma. A memória era o resto da realidade. Uma sobra que mutava para a ilusão com facilidade.”

“Ela disse: os meus brinquedos são as palavras. Persigo o encantamento de que são capazes.”

“Itaro descia sobre os leques igual a um animal e suas crias. Desassombrado, subitamente pintava perfeitos bocados do mundo e se deslumbrava. Eram os seus últimos olhos, dizia, como se a cada dia usasse olhos diferentes até ter de deixar de os usar. E quem ocorria de comtemplar os seus trabalhos igualmente pasmava, porque eram deveras instruções de perfeição, lições de como um pássaro devia ser se algum pássaro alguma vez tivesse dúvidas. As imagens de Itaro enterneciam a natureza.”

“E Itaro pintava, demorava-se absurdamente a ver cada leque, e subitamente regressava à necessidade de pintar. Era inesgotável. Ele dizia. Que o deslumbre nunca se eternizava.”

Arquipélago - Joel Neto

Roda Dos Livros, 03.11.16

arquipelagoJá não se escrevem livros assim. Foi o que me disse um amigo acerca deste Arquipélago. E é verdade.

Comecei a lê-lo algum tempo antes de ir aos Açores, na expectativa de iniciar uma leitura que levaria a cabo na ilha Terceira, no cenário do livro. O facto de o ter iniciado algum tempo antes da viagem não me levou a imaginar que o livro se esgotaria antes da partida, ou que me sobrariam apenas meia dúzia de páginas para entreter parte do percurso. Leio sempre vários livros ao mesmo tempo e gosto de “saltar” entre romances, contos e novelas gráficas, portanto um romance de mais de quatrocentas páginas iria durar com certeza.

Mas na verdade aconteceu-me o que já não sucedia há muito tempo. Dediquei-me à leitura de Arquipélago em exclusivo. Não que o tivesse escolhido (ao contrário), mas parece que o livro me escolheu. Não o consegui largar até chegar ao fim, dando por mim muitas vezes, durante o dia, ansiando pelo regresso às suas páginas. Não houve outros livros. Não era possível tirar-me do cenário, arrancar-me da história, demover-me da escrita elegante e envolvente de Joel Neto. É bom encontrar, finalmente, um livro que me leve com ele. É essa sensação de resgate que procuro incansavelmente, e tão poucas vezes encontro.

Gostava de vos contar esta história. Falar sobre as personagens, os seus percursos e encontros. Revelar mistérios e, em surdina, segredar uma história de amor. Mas seria tão pouco, estaria tantos degraus abaixo de experiência que é ouvir as aves, sentir a chuva, e até os abalos, percorrer os anos passados em revelações surpreendentes, conhecer as famílias da trama, e até a intimidade secular de uma ilha surpreendente.

Arquipélago parece um romance de outros tempos, que se abre numa tábua de personagens. Oferece de imediato os nomes e algumas pistas a que voltei, continuamente. Não estava preparada para uma estrutura tão forte e um argumento tão bem elaborado, com acção, reviravoltas imprevistas, histórias dentro de histórias e, acima de tudo, não estava preparada para as palavras feitas de sentimentos. Não imaginava que Joel Neto escrevesse assim, e a maior surpresa foi a emoção que algumas frases me proporcionaram.

Já regressei da viagem. Da viagem aos Açores, porque ainda passeio nas palavras do livro com as memórias desta leitura extraordinária. E também pelas páginas do mais recente A Vida no Campo, por não resistir a continuar embalada pelas avassaladoras paisagens.

Partilho duas fotografias de uma pequena expedição, não por páginas, mas por caminhos. Como não visitar a Terra Chã, estando lá?

 

arquipelago1arquipelago2

 

 

 

 

 

 

 

 

Pode um livro publicado há um ano ser um clássico?

Não sei. Contudo, para mim será. Não o vou esquecer. Ficará comigo.

Sinopse

“Açores, 1980. Uma criança desaparecida. Um homem que não sente os terramotos.Quando um grande terramoto faz estremecer a ilha Terceira, o pequeno José Artur Drumonde dá-se conta de que não consegue sentir a terra tremer debaixo dos pés. Inexplicável, esse mistério há-de acompanhá-lo durante toda a vida. Mas, entretanto, é hora de participar na reconstrução da ilha, tarefa a que os passos e os ensinamentos do avô trazem sentido de missão.Já professor universitário, carregando a bagagem de um casamento desfeito e uma carreira em risco, José Artur volta aos Açores. Durante as obras de remodelação da casa do avô, é descoberto um cadáver que o levará em busca dos segredos da família, da história oculta do arquipélago e de uma seita ritualista com ecos do mito da Atlântida. Mas é nos ódios que separam dois clãs rivais que o professor tentará descobrir tudo o que os anos, a insularidade e os destroços do grande terramoto haviam soterrado…Usando a mestria narrativa e o apuro literário dos clássicos, bem como um dom especial para trazer à vida os lugares, as gentes e a História dos Açores, Joel Neto apresenta o romance Arquipélago, em que a ilha é também protagonista.”

Marcador, 2015

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