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Roda Dos Livros

“Uma dor tão desigual” – Vários autores

Roda Dos Livros, 30.10.16

   contos 

“Só sobrevivemos numa corda muito fina estendida sobre um abismo. Todo o ser vivo é um equilibrista.”

Afonso Cruz in “O pintor debaixo do lava-loiças”

 

Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença.

Definição de saúde de acordo com a OMS

 Há livros de apreciável valor literário, capazes de proporcionar momentos de leitura de grande prazer, cuja relevância transcende os limites da literatura. Este “Uma dor tão desigual” é um deles. Reúne contos desiguais, únicos na forma e no conteúdo, todos interessantes, tendo em comum a temática da saúde mental.Realidades dentro do real convencional, daquele percepcionado como tal pela grande maioria das pessoas; daquele considerado, sem sombra de dúvida, como verdadeiro e objectivo. As dores destas histórias evocam universos múltiplos que podem existir dentro daquele aspecto esquivo, ainda incompletamente explicado ou não conhecido na sua totalidade, ao qual chamamos consciência. Tal como a Márcia (
podem ler o texto dela aqui ), gostei deste conjunto de contos e hesito em destacar uns em detrimento de outros. Todos nos colocam perante pessoas fictícias habilmente construídas e confinadas às suas solidões únicas, aos seus traumas (não o estaremos todos?) e às fracturas das profundezas das suas mentes, perdidas nos seus labirintos mentais e , umas mais do que outras, incapazes de reconhecer e habitar a realidade como aqueles ditos “normais”. Um dos contos evoca as figuras mitológicas de Ariadne e Cassandra as quais não poderiam ser mais apropriadas neste contexto. Cada protagonista destas histórias precisa desesperadamente do seu fio de Ariadne, pessoal e intransmissível, para  ajudar a encontrar o equilíbrio no centro de si próprios. Por outro lado, quantos pedidos de ajuda, mais ou menos discretos, mais ou menos histriónicos, tal como as profecias de Cassandra, são desconsiderados, não são escutados, sendo remetidos para a prateleira das “fraquezas de espírito” de alguém aparentemente “bem na vida”?As vidas que povoam estes contos poderiam muito bem ser as dos nossos amigos e conhecidos, as dos nossos vizinhos, as nossas. O estigma e o preconceito são fronteiras quase inultrapassáveis mas aquela que separa o território do equilíbrio mental, ainda que relativo, do da doença poderá não ser mais do que um véu fino e frágil, facilmente rasgável. Um dia poderá ser o meu ou o teu a rasgar-se. Também por isso, este é um livro que merece ser lido.Sinopse: Este livro resulta de um desafio feito a oito autores portugueses para que explorassem as fronteiras múltiplas e ténues que definem a saúde psicológica e o que dela nos afasta. Em estilos muito diferentes, um leque extraordinário de escritores brinda-nos com textos que mostram como qualquer um de nós pode viver momentos difíceis e precisar de ajuda. Estas são histórias de perda, solidão, fraqueza e delírio, mas também de esperança e humanidade. São relatos de gente que podíamos conhecer e talvez conheçamos, histórias íntimas e ricas de homens e mulheres como nós. A área da saúde psicológica está ainda sujeita a muitos preconceitos, que dificultam a procura de ajuda profissional e estigmatizam quem sofre. Pretende-se com este livro combater esses preconceitos, despertar consciências e ajudar a encontrar uma saída 

«Cheio de Vida» de John Fante :: Opinião

Roda Dos Livros, 25.10.16

Apreciem o arranque deste relato:

"Era uma casa grande porque éramos pessoas com planos em grande. O primeiro já lá estava, um monte na barriga dela, uma coisa que se mexia com movimentos intensos, deslizando e contorcendo-se como um novelo de serpentes. (...) Tinha a coisa dentro de si e estava alheada, altiva, com uma aura de beatitude.

Todavia, eu não gostava da protuberância."

É isso mesmo, beatitude, humor, algum alheamento e muitos planos. É assim este «Cheio de Vida» de John Fante que mais uma vez me conquistou como aquando da leitura de «A confraria do vinho». Com uma linha cronológica mais firme, vamos acompanhando as peripécias da evolução da protuberância de Joyce juntamente com o marido, o próprio Fante. No entanto, para o quadro familiar ficar completo precisamos que Nick Fante salte para cena e o autor não deixou o pai ficar de fora. Nem ele, nem as suas manias que conferem a atribulação necessária ao seio familiar. Se o leitor julgava que as térmitas iriam ser o pior problemas deste casal com uma casa grande, desengane-se.

"Eles estavam arregimentados contra mim, e havia um muro a separar-nos, uma lareira."

 capa-fante

"- Então? - disse ela.

- Quero falar contigo.

- A sim?

Começou a escovar o cabelo.

- Quero que te deixes de parvoíces. Nada de pegar em pesos. Nada de partir pedras.

- É tudo?

Queria abaná-la.

- Cheguei a uma decisão. Pára com isso ou saio desta casa.

Ela esboçou um sorriso e sacudiu o cabelo molhado.

- Podes sair a qualquer altura.

- É essa a tua decisão?

- Sim, querido.

Carrancudo, saí do carro. A escolha tinha sido dela. Fora ela a decidir. Mas não saí. Não se pode deixá-las quando estão naquele estado."

O humor e a emoção são uma constante em todo o livro, sem nunca perder o traço da simplicidade que caracteriza a sua escrita, no entanto, Fante mantêm a tensão e a intimidade, abordando as alterações na vida de um casal prestes a ter um filho. As dúvidas, os medos, as inseguranças e claro, o próprio conceito de família que testam a boa saúde de qualquer relação.

"Como se fosse uma pedra, a criança pôs-se entre nós."

O mito do american way of life choca, recorrentemente, com as raízes italianas da família Fante, especialmente quando esta nova vida traz consigo o chamamento religioso, ainda assim quando as situações se tornam dignas de cada um rugir para seu lado, os diálogos formam como que um rodopio, revelando toda a boa disposição e esperança que este livro encerra.

"A Mamã sorriu.

- Porque salpiquei a vossa cama com sal.

O Papá riu-se.

- Pois foi. Sal na cama. Fui eu que dei a ordem.

Aquilo era muito irritante. Presunçosos, ficavam com os louros de tudo."

Eu Sou a Árvore - Possidónio Cachapa

Roda Dos Livros, 23.10.16

eusouaarvore“Todas as Árvores caminham sobre o Tempo, sobre a passagem das estações, porque nenhum outro movimento lhes resta. Existem, simplesmente, dividindo-se entre o corpo visível que se estende à luz e o corpo inferior que vive de forma encoberta.

Os seus frutos, contudo, são esperanças perdidas, Verão após Verão. Imagens do desejo de poder ser mais do que braços a estender-se ao céu, ao vento, à impiedade dos pássaros. Da vontade que todo o corpo, o poderoso corpo, pudesse sair da terra, com duas pernas móveis, e a fizesse estremecer de medo quando uma delas voltasse a pousar na superfície.

“Toma os meus frutos, com os meus filhos dentro, que são eu, na forma primitiva, e faz de mim um ser que corre”, pedem as árvores aos deuses, na sua súplica.” (Pág. 15).

Fica-me, de alguma forma, pouco para dizer depois da leitura de Eu Sou a Árvore. É um livro forte, muito bem estruturado e com personagens intensas, humanas, cheias de lugares sombrios visitadas por alguns rasgos de luz.

Os anos passam por Samuel e pela sua família. A mulher Jude e os três filhos seguem o sonho do homem que deseja viver da terra. Deixam a cidade e permitem que o campo lhes molde os passos e condicione as decisões. Mais do que falar ou escrever sobre este livro, guardo as reflexões a que me obriga o percurso das personagens. O amor será sempre suficiente para seguir os sonhos do nosso par, mesmo que os nossos não sejam compatíveis e tenham de ficar, necessariamente, para trás? Ou poderemos tornar nossos os sonhos do outro? Como se pode viver sem haver lugar para os nossos desejos?

Pode o próprio Samuel, que vive as suas escolhas, ser plenamente feliz com uma família que o segue, mas não partilha dos seus entusiasmos? E poderá este grupo, esta família, manter a coesão ao longo dos anos? Ou, ao contrário, irá delapidar-se nos silêncios do que fica por dizer (mas não por sentir)?

Os anos cruzam-se ao longo das páginas, como se o passado e o futuro fossem pistas. Não para adivinhar o final, mas para pensar, refletir muito, quer o livro esteja aberto durante a leitura, quer esteja fechado e não nos liberte os pensamentos.

A força de Samuel fica. Persiste. Não cede a ventos ou temporais. É como a árvore que não sai do lugar, com o bom e o mau que essa determinação pode trazer. Porque os homens não são árvores. E só podem abrigar junto a si quem quer viver o mesmo sonho.

Eu Sou a Árvore é realista e por vezes cruel. Eu diria mesmo que é incómodo, que choca e que revolta. Mas é construído na medida certa, com a ponderação inteligente de quem sabe dosear o horror e a beleza, a violência e a ternura, a subtileza e o pragmatismo.

Um livro que permanece.

Sinopse

“Entre os homens e as árvores há tanto em comum que por vezes não se sabe onde começam uns e acabam outros.

Samuel acredita que lhe basta um solo fértil para ser feliz e, sendo-o, permitir que todos o sejam tanto como ele. Mas mulher sonha longe, os filhos guardam segredos, e a força brutal dos seus gestos de patriarca deixa marcas inesperadas naqueles que ama.

No seu esperado regresso ao romance, Possidónio Cachapa colhe um livro onde a Natureza e o Homem vivem misturados, moldando-se e afeiçoando-se mutuamente, enquanto o tempo se some como um carreiro de água em terra seca.”

Companhia das Letras, 2016

«A ADORAÇÃO» de Cristina Drios :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.10.16

adoracao"O pintor fora sempre um obcecado perfeccionista e nada nos seus quadros se devia ao acaso (...) O erro, portanto, fora propositado, de tal modo era flagrante. Salvatorre Amato detectaria esse erro (...)

N' A Adoração, José é esse anacronismo. José somos todos nós quando certo dia, por egoísmo, negligência ou desatenção, desviamos o olhar daquilo que amamos."

As reminiscências atacam os personagens deste livro com a mesma força que o negro povoa os quadros desse tal Caravaggio, elemento de adoração neste relato precioso, cuidado, esmerado, sentido, tal como tudo o que aqui é descrito ou vivido. Aquilo que aqui se ama, se por momentos cai em desatenção, com maior apego e arte é repuxado para a realidade, alimentando esse temível compasso de solidão.

"As pessoas, todas as pessoas - sublinhou -, são capazes de coisas muito excêntricas. Soturnas. Ou terríveis. Sobretudo quando são presas desse estado, não, corrijo, desse movimento, dessa tortura e dessa magnanimidade que é o adorar algo ou alguém."

Presos desse estado de adoração, devotos a uma enorme condescendência, encontramos as personagens deste enredo, separado por séculos, mas unidos pela procura da beleza, da verdade, do amor, mas também da desilusão, da mágoa e dessa tal desatenção momentânea que é capaz de torturar um homem e alterar-lhe o rumos dos seus dias finais.

Dito desta forma fatalista parece que estamos perante um romance clássico e de argumento já gasto, mas não, as palavras aqui oferecidas e as personagens que as trazem, carregam como que uma assinatura que se empoleira no mesmo beiral de onde, boquiabertos, contemplamos os recantos que visitamos em Itália, recheados de história, enigmas e aventuras que desabam em cabeças criativas, como a da autora, capaz de enfeitiçar o leitor.

"(...) falando um dialecto tão poético como as cúpulas e as arcadas das igrejas e dos palácios das cidades sicilianas (...)"

Depois de «Os olhos de Tirésias», Cristina Drios fez o leitor esperar, mas trouxe-lhe agora uma natividade, "(...) portanto, cabe nela toda a esperança, todo o amor, toda a fé na salvação." A ela mesma, concedemos-lhe o devido indulto pela demora que tomou, outra forma de espera, a da própria adoração.

"E, enquanto esperei, nada fiz, se é que a espera não é em si mesma um laborioso fazer."

«Quero ser absurdamente feliz» :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.10.16

AVISO AO FUTURO LEITOR!!!

Não me responsabilizo por estados eufóricos, fruto de ler e não conseguir parar de rir.

«Sabe aquelas pessoas que irradiam sempre um optimismo alegre independentemente do que lhes esteja a acontecer na vida? Repugnantes, certo? Quero ser uma delas. […] Quero descobrir como viver a vida inteiramente, abundantemente, alegremente, estupidamente. Esta é a minha demanda. A iluminação espiritual.»

losadaIsabel Losada traz-nos, sem dúvida, um livro alegremente provocador, inteligente, atribulado e honesto, tal como os jornais internacionais a destacaram.É difícil explicar o quão divertida pode ser esta leitura se ainda não tiverem passado por nenhuma destas experiências ou nem sequer pensem em passar, ainda assim, só pela curiosidade é hilariante pensar em workshops entre freiras ou dança de deusas da fertilidade ou coisas mais evasivas como irrigação do cólon ou a busca pelo nosso anjo da guarda. No entanto, essas formações existem e estão espalhadas por inúmeros países, dando origens a imensos programas, palestras e livros e torna-se muito divertido ler sobre tais situações pela mão desta autora, já que a forma como se auto-questiona é um misto de displicência e de desejo em acreditar que seja possível. E melhor, vai sendo."Tirei uma alface aterrorizada e consumi-a, sacrificando também alguma fatias de pão proibido e um pedaço de queijo completamente vetado."Entre de coração aberto para este relato de incursões nas práticas dos New Age, ainda assim não espere receitas infalíveis, nem planos de 7 dias ou programas de guru, há sim uma constante vontade de olhar à vida como ela é, com a necessidade de crescer emocionalmente e com isso sim chegar a patamares (ténues e até meio desfocados) de felicidade."O passado acabou. A única validade no acto de nos lembrarmos de vidas passadas consiste em pô-las no passado."*"-Gostaria de experimentar chavati thirumal?Não é todos os dias que ouvimos alguém perguntar-nos isto. Dá a sensação de que a resposta deveria ser: «Não. Acho que prefiro tikka masala.»"E atenção, este livro é sobre atribulações no caminho para a iluminação, não os passos certos para esse estado do absurda e estupidamente feliz, mas realmente, só andando é que se faz o caminho, teste lá este feito em 14 fases."Fase oito: de cabo a rabo (...)Irrigação do cólon.Em Nova Iorque, se nun a tiver feito, as pessoas olham para si com nojo. Seria o mesmo que admitir publicamente que nunca tomou banho.- Qual é a sua regularidade? (...)- Uma vez por dia? Uma vez por semana? (...)- E quando acaba, sente que o trabalho foi completo?- Ah, a completude! Não era isso o Caminho para a Iluminação?" Se desejar banda sonora, clique aqui.

“Human Acts” de Han Kang

Roda Dos Livros, 17.10.16

human_acts

Depois de ter lido “A Vegetariana” fiquei com uma curiosidade imensa sobre a obra de Han Kang. A forma como a autora conseguiu exprimir emoções fortíssimas através de uma escrita depurada, paradoxalmente crua e delicada, impressionou-me muitíssimo e gerou ganas de voltar a lê-la. E assim cheguei a “Human Acts”, ainda não publicado em Portugal. Embora não seja habitual, creio que se impõe agora um parêntesis sobre o facto histórico que constitui o fulcro deste romance. Após o final da Guerra da Coreia em 1953 e até 1987, a Coreia do Sul foi dominada por um regime ditatorial em que os direitos humanos foram, como é habitual nestas situações, ignorados e violados. Estava-se em plena Guerra Fria e a península coreana era dos principais palcos da luta pela supremacia mundial em que se envolveram os Estados Unidos da América e a União Soviética. Por isso há quem diga que na génese do chamado Levantamento ou Massacre de Gwangju terá havido influência da vizinha Coreia do Norte, ontem como hoje, um dos regimes mais brutais e repressivos do nosso planeta. Talvez tenha havido; não sei se foi assim pois não sou historiadora nem especialista em assuntos asiáticos. Tanto quanto pude apurar através de uma pesquisa breve, após o assassinato do general Park Chung-hee, que tinha chegado ao poder em 1961 através de um golpe de estado, no final de 1979, surgiram em vários pontos do país movimentos pró-democracia, envolvendo sobretudo estudantes universitários e sindicatos ligados a trabalhadores fabris. Contudo, depois da ascensão ao poder do General Chun Doo-hwan, a Lei Marcial foi imposta em todo o país e o regime tornou-se ainda mais repressivo. Em 18 de Maio de 1980, na sequência de um protesto de estudantes contra o fecho da Universidade de Jeonnam, gerou-se um movimento de contestação, inicialmente totalmente pacífico, envolvendo também estudantes de níveis de ensino não superior bem como trabalhadores das fábricas, activistas pró-democracia e outros cidadãos de Gwangju. Chun reage a esta situação enviando tropas do exército e pára-quedistas para dispersar as manifestações. Os militares carregaram sobre as pessoas, usando cassetetes, baionetas e disparando indiscriminadamente, tendo havido também “snipers” nos telhados para atingir pessoas que tentavam fugir. O número exacto de vítimas é desconhecido pois muitos corpos foram levados pelos militares e queimados ou enterrados em valas comuns em locais desconhecidos. Em resposta, os cidadãos da cidade invadiram esquadras da polícia e arsenais, obtendo assim as armas com que fizeram frente ao exército, o qual se retirou para a periferia da cidade a 21 de Maio. Durante alguns dias houve uma calma relativa mas na madrugada de 27 de Maio, os militares entraram na cidade com tanques e helicópteros, lançando assim uma ofensiva que esmagou o movimento e colocou Gwangju definitivamente sob seu controlo. Na sequência destes acontecimentos milhares de pessoas foram presas e barbaramente torturadas pelo regime de Chun. Hoje muitos consideram que a tragédia de Gwangju foi o início do caminho rumo à democratização da Coreia do Sul, a qual veio a tornar-se realidade em 1987.

É quase absurdo dizer que este é um romance belíssimo porque o seu foco é uma tragédia imensa cujos ecos ainda hoje se fazem sentir na sociedade sul-coreana. Não obstante, este é um livro de uma beleza e de uma força impressionantes. Dividido em sete capítulos diferentes, a narrativa é-nos apresentada por sete personagens diferentes: um rapaz de 15 anos à procura de um amigo desaparecido, um fantasma de um rapaz assassinado, uma editora encarregue de levar os manuscritos para visto prévio da censura, um preso político, uma antiga trabalhadora fabril também presa política, a mãe de um rapaz assassinado e o(a) escritor(a). Han Kang não tem contemplações, escreve de forma absolutamente clara, sem eufemismos nem apaziguamentos de linguagem e no entanto, frequentemente poética. Retrata muito claramente violência extrema que esteve em causa, a matança indiscriminada de civis desarmados e o sofrimento atroz dos sobreviventes, a braços com sentimentos de culpa e stress pós-traumático, bem como das famílias a quem foi negada a possibilidade de realizar os rituais fúnebres aos seus mortos, muitos dos quais permanecem ainda hoje “desaparecidos”. E emociona profundamente. Creio ser impossível ficar indiferente a este livro. É um testemunho poderoso e inquietante que me deixou com estas perguntas na cabeça: O que são os “actos humanos”? A violência fria e atroz dos agressores? Ou a coragem, a resistência e a força dos cidadãos de Gwangju? Se calhar ambos; pena é que a História do Homo sapiens sapiens (nome presunçoso e mentiroso) continue a ser um rol de sangue derramado com alguns laivos de compaixão e esperança, aqui e ali.

Sinopse:

Gwangju, South Korea, 1980. In the wake of a viciously suppressed student uprising, a boy searches for his friend's corpse, a consciousness searches for its abandoned body, and a brutalised country searches for a voice. In a sequence of interconnected chapters the victims and the bereaved encounter censorship, denial, forgiveness and the echoing agony of the original trauma. Human Acts is a universal book, utterly modern and profoundly timeless. Already a controversial bestseller and award-winning book in Korea, it confirms Han Kang as a writer of immense importance.

 

Velocidade Pessoal - Rebecca Miller

Roda Dos Livros, 16.10.16

velocidadepessoalNão é fácil explicar o que me atraiu nos Contos de Velocidade Pessoal, mas a verdade é que houve sempre algo que me fez voltar a este livro, mesmo tendo várias leituras em curso. À semelhança do que se passa com livros maiores, que nos prendem, e pedimos inconscientemente, a nós próprios, “só mais uma página”, dei por mim a pedir “só mais um Conto” de cada vez que terminava cada uma destas histórias curtas.

São sete Contos, sobre sete mulheres, cada um com o nome da mulher que é personagem principal. Histórias isoladas, excepto em dois casos, o Julianne e Bryna que, completando-se, oferecem uma visão diferente e interessante deste tipo de histórias.

Rebecca Miller foi-me conquistando com a sua linguagem simples e crua. Talvez tenham sido as personagens banais, daquelas com quem convivemos e que se podem cruzar connosco na rua, que me convenceram. São mulheres a quem atribuímos um rosto, não só pela sua construção e caracterização admiráveis, mas também pela proximidade que vão ganhando junto de quem lê este livro.

Uma leitura fácil e envolvente, mas que vai muito além do simples entretenimento. Gostei bastante.

Sinopse

Livro de contos, que constitui a estreia literária de Rebecca Miller (n. 1962, filha do escritor Arthur Miller), e o jornal Washington Post classificou como o melhor livro de 2001. São sete histórias, quase todas retratos de mulheres de meia idade, histórias que acabam por se ligarem entre si, completando-se.

Relógio d’Água, 2004

Tradução de Nuno Bon de Sousa

"Adoração" de Cristina Drios

Roda Dos Livros, 06.10.16

   adoracao

“(…) nessas catorze majestades, que combinam o raro prodígio das trevas de que são feitas com a paz que a sua contemplação oferece, como se a precipitação de toda a angústia que cabe no coração de um homem tivesse como resultado a conquista da felicidade por parte de quem a contempla. (...) O que pintou Rothko em The Houston Chapel? Talvez os mistérios de um deus severo: a dor psíquica transmutada em beleza.”

Ricardo Menéndez Salmón in “A Luz é Mais Antiga que o Amor”

Primeiras impressões: palavras iluminando uma primeira página, engendrando desde logo o encantamento, e uma capa belíssima. Superficialidades, talvez. Ou talvez não. “Chiaroscuro”; a escuridão parindo luz. Luz apartando a escuridão. A técnica do mestre Caravaggio parece a metáfora perfeita para ilustrar o ser humano em todo o seu esplendor e em toda a sua miséria; a luta intestina e interminável dos impulsos, dos desejos, das emoções e das razões. Cristina Drios conduz-nos de forma exímia pelos meandros de uma narrativa imaginativa dividida em três tempos diferentes, feita de segredos inconfessáveis, de mistérios adensando-se em frases perfeitas. Amiúde, passagens de uma beleza e de uma lucidez espantosas, espelhos reflectindo as profundezas da essência humana, contrapartida escrita das imagens excessivas, tremendas, atrozmente belas pintadas pelo mestre italiano. Não vou aqui esmiuçar detalhes da história, isso seria estragar o prazer da leitura a potenciais leitores. Digo apenas que li este romance rapidamente por ter sido difícil lê-lo mais devagar, porque não me apetecia deixar as suas páginas preenchidas pela luz das palavras da Cristina e porque tinha de saber como é que tudo aquilo se resolveria no fim. O resultado disto é que me vejo a reler este “Adoração” um qualquer destes dias para poder saboreá-lo com mais calma e assim prolongar o prazer da leitura em redor da jovem siciliana do final do século XX que descobre um facto terrível, do fantástico Duque de Nottempo, obcecado com a obra de Caravaggio, e da mulher encurralada numa gaiola dourada. Não vale a pena dizer mais nada. A não ser que este “Adoração” merece, sem dúvida, ser lido. Muito mais do que estas impressões apressadas de uma leitora impaciente. Apenas uma achega, caso não conheçam a obra de Caravaggio procurem umas imagens e contemplem-nas. Assim, este texto fará, talvez, algum sentido.

Excertos:

“Quando as ruas se estreitaram num emaranhado confuso, pendiam, de cada lado, edifícios oitocentistas, velhas senhoras aristocráticas que havia muito tinham penhorado as jóias mas que apesar dos vestidos coçados e da pele enrugada no pescoço, esticavam a cabeça com orgulho. Os pombos compraziam-se em fazer-lhes ninhos nos bigudis enquanto o sol espreitava pelas nesgas das claraboias partidas. Nesses palácios escalavrados viviam agora famílias numerosas. Ocupavam os pisos até às águas-furtadas, as varandas e os passeios com a vozearia e a roupa batida a vento nos estendais. Os velhos passavam os dias a jogar dominó e a dormitar estendidos nas lonas das cadeiras, revezando-se nessas tarefas cansativas, enquanto as crianças corriam atrás de uma bola, entre duas balizas que eram muitas vezes as pernas dos avós. Enquanto isso, as mulheres lavavam e estendiam a roupa, conversavam entre elas do terceiro andar para o rés-do-chão, acendiam o lume no fogareiro e ralhavam ao mesmo tempo com os velhos e as crianças.”

“Ao contrário do que acontece com outras obras, não somos nós que olhamos, são as personagens que nos olham. Admirai uma dessas telas e vereis que sois observado, de outra dimensão, ao mesmo tempo íntima e intangível, porque, na verdade, descobrireis que é aí, no território da genialidade e do fracasso, que Deus espreita. Quanto a mim, Matteo Mattei, duque de Nottetempo, não terei o perdão de Deus nem o dos homens: sou apenas mais uma obra do primeiro, rudimentar e imperfeita, que nada deixa aos segundos.”

“Dizeis que amais a arte, a pintura e a música, a representação e a dança, e porém tudo isso visto de perto é tão insípido como um gole de água morna ou um insecto esmagado. Preferis sangue, suor, lágrimas e dor aos risos, à alegria e à inocência. Achais que o sublime não chega ao pé do espectáculo do escabroso humano. Porque, como eu, sois feitos por dentro de vísceras mais do que sinceridade, de carne mais do que castidade e de sangue mais do que pureza. Na verdade sois feitos daquilo que o Caravaggio nos seus quadros pinta, sois feito de luz e sombra, de vida e de morte, de culpa e perdão.”

“Nunca se sabe o que pode subir à superfície quando se remexe no lodo de águas paradas: nada há mais perigosamente traiçoeiro do que o socrático “conhece-te a ti mesmo”. Deixai-vos, pois, ficar a boiar no conforto da superfície de vós mesmos. Não queirais saber qual é a criatura ignóbil, o pequeno monstro, que provavelmente se vos deparará quando imprudentemente abrirdes a vossa própria caixa de Pandora.”

“Para pintar o ser humano é preciso conhecê-lo. (...) Há que conhecê-los vivos, ardentes, palpitantes, em pranto, em suor, nus por fora e por dentro. Há que conhecer-lhes os torpores e as fúrias, a pequenez e a grandeza das almas que os habitam, a sua intrínseca, mísera e inútil humanidade. Aquilo que sentem e pensam no amor, quando adoecem, sofrem e se minam, quando suspiram e se agitam em estertores antes de agonizarem, expirarem e morrerem.”

“A grandeza de um artista mede-se pela sombra que a sua obra deita sobre todas as coisas. A sombra da obra do Caravaggio excede a altura das sombras do maior obelisco, do mais alto pináculo de catedral, das labaredas das fogueiras nas praças públicas, ombreando com a das montanhas, o vôo dos pássaros migratórios, as nuvens nos céus. Mede-se com todas as coisas do Bem, da obra humana e da natureza, porque com as coisas do Mal, apenas o Diabo e os seus discípulos se podem medir. Todavia, não está a salvo da mesquinhez e da maledicência, da zombaria e da inveja, baixezas que rastejam de ventre colado ao chão e raramente levantam a cabeça e os olhos. Não está a salvo dos medíocres. Nós, comuns mortais, sem obra nem valia, medimo-nos apenas pela largueza da nossa sombra na terra, a do nosso carácter. De certa forma, isso salvaguarda-nos.”

    

A Partir de Uma História Verdadeira - Delphine de Vigan

Roda Dos Livros, 05.10.16

apartirdeumahistoriaverdadeiraNormalmente não escrevo sobre os livros de que gosto menos. A verdade é que não costumo prosseguir uma leitura que não me entusiasma, e daí não fazer sentido comentar livros que não terminei.

Neste caso o livro foi lido até ao fim. Apesar de me entediar em algumas partes, a expectativa de um final imprevisto e fascinante manteve-me crente de que valeria a pena prosseguir com a leitura.

Foi-me muito recomendado, as estrelas do Goodreads brilham sem parar, e são frases como estas (contracapa) que me fazem acreditar que há livros que podem fazer uma grande diferença:

“Thriller diabolicamente perverso. Vertiginoso mise en abyme psicanalítico.”

Uma pessoa até esfrega as mãos antes de se atirar ao livro.

Mas na verdade, e infelizmente (para mim), foram quase quatrocentas páginas de uma história que é uma cópia descarada de muitas outras. Ou deverei dizer que tem influências? Só para não parecer tão mal… Menciono apenas três, que foram as que comigo permaneceram durante toda a leitura em flasbacks constantes. Temos diversas cenas do filme Jovem procura companheira, numa versão fraquinha que até mete dó. Há frequentes tentativas de “passear” pelo O Escritor Fantasma, de Zoran Zivkovic, e o mais descarado pastiche (mal feito) vai para Misery, de Stephen King. Até a situação do pé partido é igual.

Bom, mesmo assim continuei. Sempre à espera do grandioso e surpreendente final. À medida que vejo passar as últimas páginas e o texto vai reduzindo para o inevitável fim, apercebo-me que não vai haver espaço para qualquer reviravolta. E assim cheguei à última página, certa de que me teria escapado alguma coisa. Li o final três vezes. Era mesmo só aquilo.

Deixo aqui a sinopse só por piada.

Sinopse

“A história é contada na primeira pessoa, com Delphine, a narradora, como uma das duas personagens. Todos os nomes são de pessoas reais: o da autora/narradora, o dos filhos, do namorado… A história é aparentemente autobiográfica e, no entanto, torna-se a certa altura um jogo de espelhos, em que é difícil discernir entre realidade e ficção. Nada previsível, cheio de surpresas, com um suspense crescente (chega a ser atemorizante), mantém o leitor literalmente agarrado até ao fim(*). Delphine crê que a sua incapacidade de escrever terá coincidido com a entrada de L. na sua vida. L. é a mulher perfeita que Delphine gostaria de ser: muito bonita, impecavelmente cuidada, de uma grande sofisticação e inteligência. L. está também ligada à escrita - é escritora-fantasma. L. insinua-se lenta mas inexoravelmente na vida de Delphine: lê-lhe os pensamentos, adivinha-lhe os desejos e necessidades, termina-lhe as frases, torna-se totalmente indispensável - é a amiga ideal. Mas, aos poucos, sabemos que ela conseguiu isolar Delphine (afastando toda a gente), que lhe lê os diários, a correspondência, que se faz passar por ela! E quer demover Delphine de escrever o livro que esta está a preparar, obrigando-a a escrever a obra que ela (L.) quer: Introduz-se, assim, na vida da amiga de forma insidiosa, permanente, por fim violenta, controlando tudo. É aqui que há um volte-face na intriga - até aí muito perto do real - e uma possibilidade autobiográfica. O fim é maravilhosamente surpreendente.”

Quetzal, 2016

Tradução de Sandra Silva

Os Malaquias - Andréa del Fuego

Roda Dos Livros, 02.10.16

osmalaquiasEu estava de saída para o Folio, no dia 22 de setembro, quando num impulso, voltei atrás e tirei Os Malaquias da estante.

Já o tenho há três anos e, apesar da curiosidade, foi ficando para trás, preterido por outras leituras. Já desconfiava que seria um óptimo livro, foi vencedor do Prémio José Saramago 2011, sendo que os prémios nem sempre são indicativos seguros de que um livro me vai agradar. Mas a verdade é que gostei muito. E quando assisti à sessão, no dia 23, com Andréa del Fuego e Afonso Cruz (moderação de João Paulo Sacadura), sobre o lugar do fantástico na literatura lusófona actual e a criação de universos imaginários, já ía a meio do livro.

Os Malaquias foi o meu companheiro do Folio (falamos de livros, entenda-se), e foi uma excelente opção. Durou exactamente os dias que tive disponíveis para o festival, e ficará sempre associado ao evento.

Em relação à história e à escrita, posso dizer-vos que são ambas surpreendentes. O início do livro é de ficar sem pinga de sangue, e basta ler a primeira página do segundo capítulo para saber que o argumento tem um potencial incrível, e que Andréa tem um estilo único (e espectacular). Não resisto a deixar-vos aqui a dita página, para que se impressionem (espero eu).

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Esta é a premissa, três crianças sozinhas numa casa onde os pais morreram fulminados por um raio. Desafio-vos a lerem este livro, a deixarem-se levar por um realismo que não sei se é mágico, mas que é de uma irrealidade incrível e estranhamente verosímil. Acredito nas palavras de Andréa. Acredito numa aldeia que desapareceu debaixo de água, mas que, mesmo assim, continuou a acolher habitantes. Acredito que um homem pode desaparecer dentro de um bule, através do passador. Acredito em todas as histórias que me fazem ficar presa a um livro até o terminar e que, já agora, me proporcionam uma viagem de fazer esquecer o que está ao redor.

Gostei ainda mais do Folio por me ter feito, finalmente, descobrir Os Malaquias.

Sinopse

“Serra Morena. Um raio esturrica o casal, em luz e carne. Os filhos ficam órfãos, com destinos diferentes. Antônio, o menino que não cresce. Nico, o patriarca engolido por um bule de café. Júlia, a menina em fuga permanente. Um lugar onde as sombras da terra e da água convivem. Onde a morte e a vida são o mesmo mundo. Um poema seco à humanidade de cada um de nós.Uma escrita áspera mas poética, desenhada com a vertigem das memórias da família Malaquias, e que evolui como tributo pessoal da autora aos seus antepassados.Transcendental e mágico, este romance do insólito revela-se uma leitura para o coração.Um livro forte, aclamado, invulgar.

Vencedora do Prémio Literário José Saramago 2011Finalista do Prémio São Paulo de Literatura e do Prémio Jabuti, na categoria romance, ambos em 2011.”

Porto Editora, 2012