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Roda Dos Livros

Roda dos Livros - Sugestões de Setembro de 2016

Roda Dos Livros, 28.09.16

Foi (ainda) com cheirinho a Verão que a Roda dos Livros se voltou a reunir. Já tínhamos saudades de voltar a casa (e um grande obrigado à Biblioteca dos Olivais, por nos receber sempre com um sorriso) e partilhar as leituras sublinháveis (como lhes chamou a Catarina) que fizemos no Verão.

Foi mais uma reunião divertida e cheia de boas sugestões de leituras:

roda-setembro

Ana S. - O Coração É um Caçador Solitário, Carson McCullers

Renata - O meu mundo não é deste reino, João de Melo

Sara - A Filha do Leste , Clara Usón

Patrícia - Os Vampiros, Filipe Melo, Juan Cavia

Célia - A Partir de uma História Verdadeira, Delphine de Vigan

Cristiana - Crash, J. G. Ballard

Rui - O Separar das Águas e Outras Novelas, de Hélia Correia

Cristina - Viver sem ti, Jojo Moyes

Isabel - A Rainha do Sul, Arturo Pérez-Reverte

Vera - A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha

Ana B. - O Filho, Philipp Meyer

Márcia - O Livro dos Camaleões, José Eduardo Agualusa

Catarina - Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez

 

E qual é a vossa sugestão de leitura para o maravilhoso Outono que aí vem?

 

Uma Parte Errada de Mim - Paulo M. Morais

Roda Dos Livros, 25.09.16

uma-parte-errada-de-mimTenho o hábito de começar a ler vários livros ao mesmo tempo. Não me incomoda começar um livro sem ter terminado outro(s), acho mesmo que é uma forma de fazer uma triagem. Há os que me levam a lê-los até ao fim e há os que ficam pelo caminho.

Curiosamente, e por estar a gostar tanto de uma das leituras que tinha em curso, no dia em que este livro chegou até mim, decidi (achava eu) que lhe pegaria quando terminasse o outro. Mas apenas por curiosidade (ou fraqueza) decidi ler o prefácio. Enfim, mais duas páginas da introdução não fariam mal nenhum. Dei uma olhada no primeiro capítulo só para ver como começava a coisa. Quando me apercebi o primeiro capítulo estava lido. Mantive, mesmo assim a decisão de o guardar para mais tarde, até porque o primeiro capítulo me foi um pouco doloroso de ler. Ou seja, refreei-me para não passar a noite agarrada ao livro (sim, gosto de leituras dolorosas), de modo a poder dedicar-me, no dia seguinte, a coisas mundanas, como trabalhar.

Mas o bichinho ficou lá. O Javier Cercas que me perdoe.

Acompanhei os ciclos deste livro na altura em que aconteceram, através das redes sociais. Nunca consegui tecer comentários. Confesso que a exposição do Paulo sempre me impressionou. Não sei se lhe chame coragem ou loucura, mas fiquei sempre com uma sensação estranha de me estar a intrometer em algo muito pessoal. Não acho bem nem mal, simplesmente sentia algum desconforto por ler coisas demasiado íntimas. Mas acompanhei. E preocupei-me. Nunca entendi o que o levou a tal exposição. Este livro ajudou-me a perceber.

Bom, mas para quem não sabe nada sobre o livro nem leu os posts (haverá alguém?), este é o percurso de um homem a quem foi diagnosticado um linfoma (grande e agressivo). É o relato dos oito ciclos de quimioterapia. É uma profunda reflexão de vida que vai muito para além da doença, mas que, se calhar, foi possível porque uma série de acontecimentos (incluindo este terrível diagnóstico) proporcionaram essa viagem, não de descoberta, mas talvez, de aceitação.

Ficam já a saber que o livro não é nada lamechas nem propício a choradeiras. Não terá leitores pelo apelo ao sentimento, mas sim pelo racionalismo com que expõe os factos de uma vida em forma de viagem. Sim, profundas viagens ao passado. Algumas até à infância, numa busca de causas ou motivos para ser como é. Outras mais próximas, já na vida adulta, a mesma procura de respostas. Também não é um livro de auto-ajuda. Não aponta o certo nem o errado, nem pretende defender teorias.

É uma descoberta e é a partilha dessa descoberta. É um relato sem medo e de uma lucidez admirável, que se lê de uma penada. Com a sua escrita limpa e fluída o Paulo levou-me rapidamente até à última página, obrigando-me, com a sua acutilância e capacidade de levantar questões, a pensar no meu próprio percurso, a questionar, como ele, o significado que as grandes mudanças (as que aparecem de surpresa e que não escolhemos) podem ter naquilo que somos ou iremos ser.

Profundamente libertador por mostrar com a mesma sinceridade a tristeza e a felicidade, é um livro honesto que se dá a ler sem se preocupar que gostem dele. Exige de quem lê, mas dá em troca, dá muito, eu senti-me claramente a ganhar pelo que ficou comigo depois de o ler.

Impressionou-me a capacidade de resiliência. Ficam comigo os momentos de grande ternura entre pai e filha, a chegada do amor da Isabel, a avó Nana, e a forma carinhosa com que o Paulo se refere aos amigos. E os livros claro, que não há melhor que ter um cancro para se receber pilhas de livros. Não sei se referi o humor negro… uma especialidade!

É um livro de uma luz intensa. Leiam-no!

Sinopse

“Em meia dúzia de meses, Paulo M. Morais ficou sem trabalho, terminou um relacionamento de doze anos e viu-se obrigado a vender a casa. Embora derrotado pelas circunstâncias, queria estar à altura dessa nova etapa de vida e concentrou-se na missão de cuidar da filha pequena e reatar os laços com a avó centenária que o criara. Sobreveio, então, um estranho cansaço, uma exaustão que a médica de família inicialmente atribuiu às pressões de um ano atípico. Podia ser. E, porém, depois de vários sustos e vinte horas nas Urgências do hospital, a verdade veio ao de cima: tinha um linfoma.

Durante o tratamento de oito ciclos de quimioterapia, começou a escrever sobre a sua experiência.

Mas este livro, embora inclua dados sobre os exames, os internamentos ou os efeitos secundários da medicação, está longe de ser um diário da doença; é, antes, uma reflexão magistral sobre a condição humana, escrita com a beleza e a cadência de um romance no qual se aguarda um final feliz.”

Casa das Letras, 2016

"A Vegetariana" de Han Kang

Roda Dos Livros, 18.09.16

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“As profundezas do mar estão livres de todo o mal, são apenas vida e morte, enquanto haveria certamente uma necessidade de se benzerem as linhas, não apenas uma, mas pelo menos dez mil vezes, se tivéssemos de as enviar para as profundezas da alma humana.”

Jón Kalman Stefánsson in “Paraíso e Inferno”

 

Dividida em três partes, a história trágica de Yeong-hye, a vegetariana, vai-se desvendando pouco a pouco, subtilmente, apesar da clareza directa e brutal da escrita de Han Kang. Raras vezes se encontram passagens onde a protagonista exprime os seus pensamentos e emoções; quase tudo é-nos contado através dos olhos de terceiros, como se fosse um documentário, sobre algum acontecimento longínquo ou alguma pessoa já falecida, integralmente constituído por testemunhos daqueles que estiveram de algum modo envolvidos sem estarem no fulcro da narrativa. Neste caso essas pessoas são o marido, o cunhado e a irmã de Yeong-hye e, através dos seus relatos, vai sendo construindo uma espécie de puzzle incompleto de fragmentos do percurso desta. Isto porque os narradores concentram-se essencialmente nas consequências da decisão da protagonista para si próprios, embora se note um certo gradiente nas atitudes: o marido mostra-se totalmente incapaz de qualquer empatia ou compreensão enquanto que o cunhado, dominado pela sua obsessão egoísta camuflada de interesse artístico, tenta perceber o que se está a passar com ela, e a irmã, atormentada pela culpa associada a acontecimentos da infância e adolescência, faz tudo o que pode para a salvar, expressando assim o seu amor por Yeong-hye. Esta permanece quase sem voz ao longo do romance, como se fosse esse o preço a pagar por se ter atrevido a romper a “normalidade” ao recusar comer alimentos de origem animal.

Este é um livro-cebola, feito de camadas e propenso a leituras diversas, suscitando reflexões sobre a violência inerente à vida nas sociedades humanas, sobre a inevitabilidade ou não da sua existência e, claro, sobre a forma como são vistos os que se atrevem a desafiar os padrões de comportamento instituídos. Mas também toca as fronteiras entre consciente e subconsciente e entre sanidade e loucura; entre os perigos de trazer à consciência as pulsões que habitam as profundezas da mente humana e a vontade para as dominar ou para se deixar dominar por elas. Tal como a casca da cebola guarda o segredo dos seus sucos capazes de causar lágrimas, à superfície tudo parecia estar bem, “normal” no quotidiano de Yeong-hye até ao momento do sonho tenebroso que a impele a rejeitar a violência e a leva ao ponto de desejar, literalmente, converter-se numa árvore. Paradoxalmente, o pacifismo subjacente a esta decisão desencadeia reacções violentas tanto do marido como do pai as quais terão consequências dramáticas, gerando assim um sofrimento intenso, as “lágrimas da cebola”, na protagonista. Esta é levada a atravessar o limiar da sanidade pois, ao escolher viver sem exercer qualquer tipo de violência, acaba por atentar contra a sua própria integridade física, rejeitando claramente uma sociedade onde não lhe é permitido viver de acordo com as suas opções. Deste modo, acaba por tornar-se num algoz de si própria.

Na prosa de Han Kang não há eufemismos nem qualquer tipo de contemporizações com excessos de linguagem que possam desviar a atenção do leitor daquilo que ela pretende contar. Contudo, apesar disto, consegue inquietar e emocionar quem lê, ao ponto de ser difícil parar de ler por mais dura que seja a narrativa.

Para terminar, nem só de violência é feito este livro; também há notas de ternura, nomeadamente entre In-hye e o filho e entre as duas irmãs, relembrando que nem tudo são trevas na profundidade do ser humano. Além disso, apesar da componente doentiamente obsessiva do interesse do cunhado por Yeong-hye, o erotismo da relação entre ambos é delicado e interessante, com a sua ligação directa às flores em cuja beleza nos fixamos, esquecendo que elas são, em essência, os órgãos sexuais das plantas.

Excertos:

“Como era possível que fosse tão egoísta? Fixei os seus olhos baixos, a sua expressão calma de autodomínio. Só a ideia de que ela podia ter este lado egoísta, de alguém que fazia o que lhe apetecia, era já inconcebível. Quem diria ela podia ser tão insensata?”

“O frio daquele inverno que estava a chegar ao fim teimava em manter-se, e a minha mulher parecia congelada, ali parada no parque de estacionamento com um casaco leve de primavera. Não tinha dito uma única palavra durante todo o caminho, mas convenci-me de que isso não queria dizer que houvesse qualquer problema. Não há mal nenhum em uma mulher estar calada; aliás, não é isso mesmo que tradicionalmente se espera delas – que sejam sóbrias e recatadas?”

“Agora só posso confiar nos meus seios. Gosto deles, não podem matar nada. Mão, pé, língua, olhar – tudo armas, sei que nada está a salvo delas. Mas os meus seios, não. Com os meus seios redondos está tudo bem. Por enquanto. Então, porque será que continuam a encolher? Já nem sequer são redondos. Porquê? Por que motivo estarei a mudar tanto? Porque está todo o meu corpo a ficar aguçado – será que vou rasgar?”

“A sua voz não tinha peso; as suas palavras pareciam penas. (...) Era o tom calmo de alguém que não pertencia a lado nenhum, uma pessoa que passara para uma terra de ninguém entre estados de alma.”

“O Meu Mundo Não é Deste Reino” de João de Melo

Roda Dos Livros, 11.09.16

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É sempre muito bom quando, ao terminar um livro, se fica com a certeza de que aquela foi apenas uma primeira leitura; de que mais tarde, algures num tempo ainda indefinido, se voltará a pegar nele para o ler novamente de fio a pavio ou simplesmente para recordar passagens favoritas. Foi exactamente isto que aconteceu com “O Meu Mundo Não é Deste Reino”, o meu primeiro encontro com a obra de João de Melo. Sim, provavelmente estarão a pensar: “Mas como? Não leu “Gente Feliz com Lágrimas”? Parece impossível!” (isto partindo da premissa que alguém lerá estes gatafunhos) Não, não li. Apeteceu-me antes começar por este porque tanto o título como a sinopse me atraíram muito mais e não poderia estar mais feliz (sem lágrimas) com a minha escolha. Raras vezes me deparei com um livro de tão grande humanidade combinada com uma imaginação desbragada. Esta encontra-se patente nos múltiplos prodígios engendrados pelo autor através dos quais vamos acompanhando as histórias de uma galeria de personagens arquetípicas, como que emergentes das brumas salgadas da Ilha, incluindo o padre, o regedor, o presidente da Junta, o lavrador rico, o lavrador pobre e espoliado, a mulher diligente e fiel, a bruxa, a mulher vítima de violência doméstica, a prostituta, o curandeiro, o inventor, o professor e o adolescente em turbilhão. O tempo da narrativa também brinca com o leitor através de saltos inquietos, para trás e para a frente, sempre algo indefinido, contribuindo para adensar os mistérios que se vão desenrolando. A cronologia torna-se assim igualmente brumosa e condizente com a atmosfera quase sempre melancólica do romance onde, por várias vezes, os mundos dos vivos e dos mortos se cruzam. Através da prosa encantatória, amiúde lírica, muitas vezes irónica e acutilante, de João de Melo cumpre-se um percurso feito de etapas familiares, as mesmas desde o início dos tempos: vida e morte, alegria e tristeza, ganância e pobreza, bondade e crueldade, amor e ódio, infância e velhice, permanecer e partir. A singularidade está no entrecruzar das vidas das gentes com a geologia da Ilha, caprichosa, irrequieta, volúvel no seu telurismo vulcânico, quase como uma divindade criadora, responsável tanto pela abundância da vida como pela fome e pela morte.

Assim, completa-se o círculo e volta-se ao início; vejo-me a voltar a “O Meu Mundo Não é Deste Reino” de vez em quando, para reler as muitas passagens que me cativaram, para recriar um pouco do espanto e do prazer da primeira leitura, acrescido do bónus de ler um português isento de novas invenções ortográficas aberrantes. Por tudo, muito obrigada João de Melo!

Excerto:

"No dia seguinte, quando amanheceu, assistiram lá de cima ao nascer do Sol. Vindo do fundo do mar, de muito longe, de entre balões de nuvens e faixas douradas de luz, o Sol mais não seria do que uma rosca luminosa que progredisse para o alto, até se aplainar por cima da Ilha e sobre ela deslizar ao longo de um dia, como a esfera projectada para o espaço pelo braço de um lançador. O movimento aparente do Sol assemelhava-se ao da espiral celeste a abrir-se e a rasgar o espaço das sombras espalhadas pela Ilha. Vales, profundamente rachados para o meio da terra, iluminaram-se nas suas fracturas. Também se abriram à luz da manhã os sítios onde os vulcões estavam extintos, assim como os ninhos dos sismos e dos terramotos, assim como as crateras, os pauis, a água corrente das ribeiras, assim como os enrugados da lava raspada pela erosão ou pelas incomensuráveis mãos de Deus. E grandes são as lagoas, de uma cor sem cor, meu pai, com pedras empinadas no meio da água e do silêncio sombrio, e direitas e muito afiadas as árvores com os seus pássaros pousados no silêncio, os pássaros, e ainda e sempre os pássaros da nossa Ilha, tão bela e a perder de vista. José-Maria nunca pudera imaginar-se um habitante de um lugar assim, primitivo na sabedoria e distante na sua ignorância acerca dele. Nunca soubera imaginar que, passando os montes e a cordilheira, podia ver-se de novo o mar, agora do lado oposto ao Rozário, sentado numa pedra lisa como vidro mas raspada pela chuva. Nunca pudera imaginar um mundo assim, com duas faces iguais até na aparência, com o mesmo mar infinito pela frente e uma Ilha com memória de animal cujos membros se tivessem transformado em raízes e acabassem por mergulhar também no fundo da água.– Como imaginar uma Ilha tão bela como a nossa, tão altiva e mil vezes maravilhosa até na sua solidão, meu pai, e ao mesmo tempo tanta gente em sofrimento nela durante toda a vida, quando é certo poder ter sido aqui o Paraíso dos nossos pais da Bíblia, antes de Eva ter pecado?Tomando Maria Água pela mão, encostou-se muito a ela e disse:– Toda a gente e todos os povos e países têm o seu deserto de areia, umas vezes à frente dos olhos e debaixo dos pés até, no território por eles escolhido para morar; outras vezes, vertido para dentro de si, quando olham e descobrem que trazem na alma o cântico negro da sua solidão de muitos séculos, passada de pais a filhos e novamente de filhos a outros filhos de outros homens. Os povos deste mundo, mesmo os mais conquistadores e bárbaros, nunca disputam entre si a terra, apenas se invadem na sua solidão. “

As Histórias Que Não Se Contam - Susana Piedade

Roda Dos Livros, 11.09.16

as-historias-que-nao-se-contamAntes de começar esta leitura fui ver as opiniões do Goodreads, coisa que dou por mim a fazer cada vez mais. As Histórias Que Não Se Contam foi publicado recentemente e, há duas semanas, contava com dois pareceres, um deles com cinco estrelas e o outro sem qualquer estrela, uma leitura que ficou pela metade.

Gosto de livros que provocam opiniões divergentes e, como tal, não podia ter ficado mais entusiasmada para o começar a ler.

A escrita cuidada agradou-me de imediato, assim como um certo mistério que foi dando alento ao virar das páginas. Li todo o livro com uma necessidade constante de perceber. Primeiro queria perceber as histórias de Ana, Isabel e Marta. E depois, mesmo já tendo percebido os motivos de cada uma delas para o sofrimento atroz em que vivem, faltou-me compreender. E mesmo agora, com o livro lido, não compreendo. Nem aceito que a vida possa trazer dor tão imensa. Possivelmente é por isso que estas histórias não se contam.

Uma das histórias mexeu comigo particularmente. Acho que não é spoiler, mas se quiserem partir para a leitura completamente a zero, parem por aqui.

Marta é vítima de violência doméstica. É uma pessoa tão boa, que o facto de ser agredida com violência quase diariamente, arrasou comigo. Ninguém merece ser agredido, quer seja bonzinho ou nem por isso, mas o contraste está tão bem conseguido que é impossível não adorar a Marta e não sofrer por ela e com ela. E quando digo sofrer é mesmo à séria, é perder o sono e dar voltas na cama como se a Marta fosse minha amiga ou a vizinha de baixo, como se existisse na minha vida. Agora existe e não a vou esquecer. Em algumas noites tomei consciência que não podia continuar a ler, se queria dormir teria de optar entre o livro e uma noite de sono.

Susana Piedade estreia-se com um livro que não deixará o leitor indiferente. A escrita é elegante e desempoeirada, as frases formam-se de forma bonita, proporcionando uma leitura com ritmo que não apetece largar. A estrutura, pensada, vai unindo as três histórias devagar, aproximando as três mulheres, permitindo algumas divagações ao leitor, fazendo-lhe nascer vontades de decidir os rumos. É preciso mergulhar numa história para a querer mudar, para se permitir zangar e sofrer. Quem gosta de ler deseja esse mergulho, deseja sentir amores e ódios e, por vezes, uma raiva de fechar o livro. Para o abrir depois de respirar fundo.

As minhas estrelas já brilham lá no Goodreads e são quatro. Há apenas um detalhe que me inibiu de atribuir as cinco estrelas: eu gostava de ter sentido a voz individual de cada uma das mulheres. O livro é escrito na primeira pessoa e eu não senti que houvesse diferenças no estilo ou no discurso, no fundo é quase como se Ana, Isabel e Marta falassem com a voz do narrador, mesmo este não existindo. Pode ter sido intencional, e até se compreende, pois ajuda a tornar mais fortes os elos comuns (que existem, acreditem), mas a mim fez-me falta, senti a necessidade de as identificar, de não as confundir.

Penso que escrever um livro é sempre um acto de grande coragem. Mais ainda quando se expõem temas dolorosos, como os aqui narrados. A autora é assertiva, escreve de forma incisiva e envolvente, sem nunca resvalar para a “história da desgraçadinha”, nem provocar a lágrima fácil.

São histórias que se contam. Têm de se contar. E têm de ser lidas.

Sinopse

“Ana pergunta-se como seria hoje o seu dia-a-dia se tivesse sabido detetar no namorado os indícios da doença que o levou inesperadamente. Isabel, seis meses depois da tragédia que lhe virou a vida do avesso, ainda se sente culpada por não ter chegado a horas ao infantário naquela tarde de chuva. Marta, que ousou abandonar, ainda adolescente, uma casa onde era maltratada, não tem agora a coragem de confessar que o amor em que apostou tudo está longe de ser um mar de rosas. São três mulheres jovens, com a vida inteira pela frente, mas para quem o presente se tornou um fardo difícil de carregar e o futuro um tempo sem qualquer esperança. Quem poderia entender a sua dor incomparável? Para quê, então, contarem as suas histórias?Um acidente acabará por cruzar estas três desconhecidas num lugar onde muitas vidas se perdem, mas que para elas representará sobretudo o nascimento de uma amizade que lhes vai permitir lutarem contra o sofrimento e recuperarem aos poucos o ânimo e a vontade de viver. Porque quanto maior é o drama, maior tem de ser a partilha.Com uma linguagem cuidada e uma estrutura francamente original, este belíssimo romance de estreia, finalista do Prémio LeYa em 2015, traz para a cena questões de grande atualidade que afetam muitas mulheres e não devem ser silenciadas, e lê-se de um fôlego, mantendo o suspense até à última página.”

Oficina do Livro, 2016

Impunidade - H.G. Cancela

Roda Dos Livros, 01.09.16

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Fazer parte da Roda dos Livros tem sido uma experiência enriquecedora a vários níveis, e posso afirmar já, com alguma dose de certeza, que me tornou numa leitora diferente. Não melhor, nem pior, simplesmente diferente; mais atenta a certos aspetos dos livros e mais desperta para o essencial e menos para o acessório. E, depois, tem-me proporcionado contacto com livros e escritores que não teria lido de outro modo. Impunidade, de H.G. Cancela, escritor português, pouco conhecido e pouco discutido, foi um dos livros que me chegou da Roda, catalogado como “difícil, perturbador, opressivo” pelos amigos que o leram e por isso tinha medo de o iniciar, apesar da enorme vontade.

Acho que é bom ler este livro sem saber quase nada do que trata, por vários motivos, mas em especial porque me parece ser daqueles livros que devemos ler sem ideias pré-concebidas e de mente aberta. São vidas de tal modo distantes da nossa (ou, pelo menos, da maioria das pessoas) que é preciso uma boa dose de aceitação (e não resignação) perante aquilo que o autor nos apresenta. Acho que devemos ler com um espírito crítico, mas tendo sempre presente a diversidade de vidas e crenças, bem como do limite ténue entre o que está certo e o que está errado.

Este livro pode tornar-se revoltante por diversas vezes, em especial porque mexe de forma perversa com algo que para mim é intocável, as crianças. O roubar da infância e da ingenuidade chocam-me e revoltam-me, mais do que tudo porque sou mãe. Mas eu sei que é uma realidade e, ainda que não seja propriamente algo sobre o qual deseje muito ler, não consigo deixar de me sentir enriquecida quando reflito sobre tudo aquilo em que acredito ao ler sobre vidas tão moralmente distantes da minha.

Digo sem grandes dúvidas que H.G. Cancela foi dos melhores escritores portugueses que já li, ainda que um livro pareça pouco para o afirmar. Mas muito dificilmente será um acaso. A forma exímia como retrata a obsessão e a amoralidade, muitas vezes consubstanciadas na violência, cativam o leitor e fazem com que seja muito difícil parar de ler. Mas sinto a necessidade de chamar a atenção para o facto de não me parecer que este livro seja para qualquer leitor. Se depois de lerem o que escrevi acharem que é para vocês, gostaria muito de saber o que acharam da leitura.

É de livros como Impunidade que se faz o enriquecer de um leitor, quando as palavras mexem connosco e com os nossos medos e crenças mais viscerais. Foi isso que este livro fez comigo e por isso se tornou uma leitura tão marcante. Um enorme obrigado à Cris pelo empréstimo.

«O poder é sempre proporcional ao mal que produz»,prosseguiu, por fim. Esse seria o único princípio. De todas as formas que o mal assumia, talvez o mais terrível fosse aquele que se afirma na consciente indiferença pela vítima. Que lhe identifica o nome, que lhe conhece o rosto, mas que prefere ignorá-lo como coisa acessória. Aquele para quem a vítima não é um meio nem um fim, apenas processo. Esse mal poderia ou não ter um rosto, mas teria sempre um nome. O nome da vítima.