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Roda Dos Livros

"Biografia do Língua" de Mário Lúcio Sousa

Roda Dos Livros, 27.08.16

biografia-do-lingua   “Face à emoção que desperta em nós um rosto, uma melodia, uma sequência de palavras, todas as explicações cessam, porque o que se sente é, é assim e é inexplicável.”

Héctor Abad Faciolince in “Os Dias de Davanzati”

Escolhi a citação acima por encontrar nesta frase de Faciolince a tradução perfeita das impressões de leitura deste fabuloso “Biografia do Língua”. Ainda agora, passados alguns meses, permanece uma certa relutância motivada pela certeza de que nada do que possa aqui ser dito será capaz de fazer justiça ao livro. Por isso hesitei, e relutante continuo, em escrever sobre esta maravilhosa fábula utópica criada por Mário Lúcio Sousa. Que me lembre (embora possa estar completamente errada) os livros do género utópico nunca foram tantos nem tão aclamados quanto as distopias. Estas, desde “Nós” de Zamiatine e “Admirável Mundo Novo” de Huxley, passando pelo incontornável “1984” de Orwell, permanecem até hoje um género literário imensamente apreciado, onde destaco, actualmente, as obras de Margaret Atwood e, em língua portuguesa, as de Sandro William Junqueira. Talvez seja mais difícil escrever utopias, talvez seja mais complicado fazê-lo sem deslizar para uma narrativa piegas ou entediante. Não sei... O que sei é que li “Biografia do Língua” com um prazer imenso, deleitando-me a cada passo com uma certa calidez e um certo optimismo nas palavras, algo comum a outros autores lusófonos de África que já li. Mais do que um romance sobre um homem, incomum pelos seus dotes linguísticos e pela sua longevidade, esta é uma fábula deliciosa sobre a arte de contar histórias, sobre o poder destas para criar um mundo diferente, mais acolhedor, mais humano, onde a nossa face obscura parece ter sido relegada para segundo plano, embora se mantenha sempre à  espreita.  Apesar do seu tom optimista, este romance compele o leitor a reflectir sobre questões importantes como a escravatura, a liberdade e a educação bem como sobre as mais literárias de todas, o amor e a morte e fá-lo sem nunca se tornar maçador ou lamechas.

Há livros assim, têm tudo: uma capa lindíssima, um enredo imaginativo e interessante e uma escrita bela, aqui e ali eivada de um certo tom de brincadeira. Deixem-se levar pelas histórias das vidas de Esteban, o Língua, e do condenado à morte, o narrador e, atrevo-me a antever, não se arrependerão.

Os excertos abaixo são apenas algumas das minhas partes favoritas, não conseguem reflectir cabalmente toda a riqueza do livro.Sinopse: O narrador deste romance é um condenado à morte a quem é concedido um último desejo; e o que escolhe é contar uma história, mais precisamente a da vida do Língua, um escravo que falou aos sete meses de idade e teve direito a biografia encomendada pelo rei de Portugal. Dá-se então um verdadeiro milagre: não só a história parece não ter fim, porque a vida do Língua está recheada de episódios em que os detalhes são de extrema importância, como começa a juntar-se cada vez mais gente para a ouvir - são às centenas os que todos os dias chegam à falésia de armas e bagagens, filhos, mulas, araras e macaquinhos, dispostos a fazer do lugar a sua casa só para não perderem pitada do relato. E, enquanto o narrador vai ganhando anos no cadafalso parindo magia, é toda uma comunidade que se vai criando em torno da maravilha de contar histórias, passando a língua a ordenar o tempo em vez do relógio.Inspirado na vida de um homem, talvez o único que viveu o colonialismo, a abolição da escravatura, a guerra da independência, a independência, a ocupação, o capitalismo, o imperialismo e o comunismo, sucessivamente e num mesmo lugar, Biografia do Língua é uma homenagem às pequenas histórias que nos salvam da penosa realidade.Excertos:Excerto_1 Excerto_2 Excerto_4 Excerto_5 Exerto_3       

Fun Home, Uma Tragicomédia Familiar - Alison Bechdel

Roda Dos Livros, 27.08.16

funhomeLer é, de facto, uma experiência maravilhosa. E o que mais me encanta é o tanto que ainda tenho por descobrir. É certo que bate uma certa tristeza pelo tempo, que é sempre pouco para tudo o que há para ler, mas ter consciência das possibilidades inesgotáveis de leitura inquieta-me de prazer, em vez de me deprimir.

Podia pensar que é tarde para começar a ler géneros novos, na medida em que essa curiosidade já me devia ter surgido, mas possivelmente, tudo terá o seu tempo. Depois de Fun Home, uma Tragicomédia Familiar, estou certa de que outras novelas gráficas estarão no meu caminho.

Passei tantos anos presa às palavras que nunca parei para observar outras formas de ler. E nem dizerem que uma imagem vale mais do que mil palavras me tinha feito parar mais de um minuto a escutar tudo o que um desenho pode ter para contar. E foi assim que me deixei levar pela história de Alison Bechdel, que é também a história deste livro.

Claramente autobiográfico, Fun Home revela coragem ou loucura. Ou talvez ambas. Eu acho que é preciso coragem para expor a história da própria família de forma tão clara, abusando do sarcasmo sem temer cair na bizarria. Só uma loucura associada a quem não tem medo, ou o perdeu por necessidade de libertação, permite embarcar numa aventura como esta.

Tudo captamos pelo olhar de Alison (personagem que tem o mesmo nome da autora e não é coincidência), desde a infância até aos dezanove anos, altura em que o pai morre num acidente. Alison é uma menina observadora que vive com os pais e os dois irmãos. Dá-nos a visão de uma família individualista em que os membros se isolam nos seus próprios interesses criando muros entre si. É como se no seu percurso como família se fossem afastando todos uns dias um pouco mais, e quando Alison descobre pormenores do passado dos pais a surpresa atinge-a como um raio, forçando-a a reescrever todo um perfil e tentando encaixar os novos dados nas figuras materna e paterna. Com os anos tende a aproximar-se do pai. A necessidade de se assumir como lésbica coloca o pai no outro lado do espelho (ou dentro do armário) pela sua homossexualidade reprimida. Bruce deixou de esconder as suas preferências da mulher que, conhecendo as aventuras do marido, se refugia numa máscara de indiferença direcionando as suas energias para as peças de teatro que estuda e ensaia sofregamente. A relação de Alison com a mãe é distante, e se ao assumir-se como lésbica aumentou o fosso entre as duas, estreitou, por outro lado, a relação com o pai. Mesmo mantendo a habitual frieza familiar, pai e filha tornam-se grandes parceiros de leitura, partilhando recomendações e opiniões.

Os livros assumem um papel incrível nesta história, chegando mesmo a pautar o percurso das personagens, fieis aos autores que admiram e deixando-se envolver na narrativa de modo intenso e, acima de tudo, real.

Fácil seria resumir este livro como as histórias de uma família de loucos, mas seria incrivelmente redutor. Além disso seria deitar fora todas as extraordinárias análises comportamentais de uma família que é praticamente um laboratório social.

Observar os desenhos provocou-me emoções que habitualmente associo às palavras, e os textos aparentemente curtos confirmaram ser o complemento na medida certa para viver a história.

Recomendo que descubram as tragédias dos Bechdel. Que se envolvam e surpreendam. Que se choquem com a ironia refinada que traça uma linha ténue entre o drama e a comédia.

Sinopse

“Best-seller internacional e obra pioneira, Fun Home descreve a relação frágil que Alison Bechdel manteve com o pai ao longo da sua infância e adolescência. Na sua narrativa, a história íntima e pessoal de uma família transforma-se numa obra cheia de subtileza e poder. 

Exigente e distante, Bruce Bechdel era professor de Inglês e dirigia uma casa funerária - a que Alison e a família chamavam, numa pequena piada privada, a «Fun Home». Só quando estava na universidade é que Alison, que recentemente admitira aos pais que era lésbica, descobriu que o pai era gay. Umas semanas depois desta revelação, Bruce morreu, num suposto acidente, deixando à filha um legado de mistério, complexos e solidão.”

Contraponto, 2012

O livro não tem indicação do nome do tradutor

A Espia do Oriente - Nuno Nepomuceno

Roda Dos Livros, 25.08.16

aespiadoorienteDeparei-me com a trilogia Freelancer na Feira do Livro de Lisboa do ano passado, por sugestão da Patrícia. Li o primeiro volume a grande velocidade, em apenas três dias (quase tão rápido como a Márcia, cuja opinião podem encontrar aqui) e tal como o primeiro, este segundo volume da história lê-se muito rapidamente.

A verdade é que esta história, apesar de complexa, tem poucas personagens e todas com bastante personalidade, o que torna a acção rápida, porque estamos sempre a acompanhar uma personagem importante, e coerente. Fiquei completamente agarrada à leitura, a querer saber o que se iria passar a seguir, sobre tudo quando no auge da luta pelos tão preciosos documentos surge, não se sabe de onde, uma terceira facção. Mistério! Quem são eles e o que querem? Qual é a ligação aos documentos? Entretanto, a passagem da equipa por Courchevel garante umas boas gargalhadas pela descrição dos ataques d' A Diva e do seu séquito. Polvilhar humor numa fase dramática da história não é para todos e o autor saiu-se muito bem. Tudo isto acontece a par da preparação de uma cimeira da União Europeia em Lisboa, para assinatura de um tratado. Não dá para parar de ler. 

O único ponto negativo é que há vários momentos em que acontecem coisas pouco verosímeis e que me fizeram pensar "isto já é um bocadinho demais!". Porém, e ao contrário do primeiro, este segundo volume termina com uma enorme e inesperada reviravolta que nos faz querer começar o terceiro de imediato.

Sinopse

“Dubai, Emirados Árabes Unidos.De férias na região, um investigador norte-americano é raptado do hotel onde se encontrava instalado. Uma nova pista sobre um antigo projecto de manipulação genética é descoberta e a Dark Star, uma organização terrorista internacional, está decidida a utilizar os conhecimentos deste cientista para ganhar vantagem.Contudo, de regresso à Europa, uma das suas operacionais resolve trair o sindicato do crime e oferece-se para trabalhar como agente dupla ao serviço da inteligência britânica. O mistério adensa-se quando esta mulher, de nome de código China Girl, impõe como única condição colaborar com André Marques-Smith, o director do Gabinete de Informação e Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros português e espião ocasional.Obrigados a trabalhar juntos para evitarem um atentado a uma importante líder europeia, uma atmosfera tensa, de suspeição e desconfiança, instala-se de imediato entre os dois. Mas que segredos esconderá esta mulher, cujo próprio nome é uma incógnita? Serão as suas intenções autênticas? Será o espião português capaz de resistir à sua invulgar e exótica beleza?Vencedor do Prémio Literário Note! 2012, Nuno Nepomuceno regressa com A Espia do Oriente, o segundo livro da série Freelancer. Por entre os cenários reais de Budapeste, Berlim, Londres, Courchevel, Dubai e Lisboa, o autor transporta-nos para um mundo de mentiras, complexas relações interpessoais, e reviravoltas imprevisíveis. Uma reflexão profunda sobre os valores tradicionais portugueses, contraposta com a sua já habitual narrativa intimista e sofisticada, e que vai muito além do tradicional romance de espionagem.”Topbooks, 2015

Uma História de Amor e Trevas - Amos Oz

Roda Dos Livros, 21.08.16

umahistoriadeamoretrevasQuando a lista de livros por ler é grande, acontecem os inevitáveis adiamentos. Uma História de Amor e Trevas era, possivelmente, das minhas leituras mais adiadas. Veio cá para casa há tempo suficiente para o meu olhar se cruzar com a sua lombada dezenas de vezes. Nos meus olhos sempre a promessa de lhe pegar em breve. Demorou algum tempo. Anos, pronto, que outras leituras se atravessaram na frente das suas mais de seiscentas páginas.

Este é mais um livro para o qual criei expectativas elevadíssimas. Penso que quanto mais adiava a sua leitura, mais elevava a fasquia, colocando-o nos píncaros. Acho que todo o leitor tem a visão do livro perfeito, aquele verdadeiramente inesquecível e completo. Para mim este livro assumiu esse papel. Não há qualquer motivo específico para isso acontecer, talvez um palpite levado ao extremo, uma premonição, uma fantasia. Seja como for, devia tê-lo lido há mais tempo, teria evitado estas especulações e poderia, quem sabe, tê-lo apreciado mais.

Seja como for, e para que fique bem claro, o livro é excepcional e Amos Oz escreve que é obra. Lê-se com enorme prazer e o interesse aumenta (obviamente) por se tratar de uma autobiografia. Talvez eu estivesse à espera de saber mais sobre Oz adulto, a sua entrega à escrita e evolução enquanto escritor. Mas é na voz de Amos menino que nos chega a história da sua família e, consequentemente, a história da criação do Estado de Israel.

Aprendi muito. Na verdade, era assustadoramente ignorante e, se por um lado, as descrições são, talvez, demasiado exaustivas, por outro permitiram-me captar todos os detalhes.

Ainda não vi o filme adaptado deste livro, mas sei que se foca na mãe de Amos. Na realidade, no livro o autor também o faz. A relação com a mãe é fundamental e a sua morte marcou as escolhas de Amos de uma forma irremediável. Se numa primeira fase a revolta o fez voltar as costas à literatura, o tempo cimentou os ensinamentos e as memórias da família, que se entregava à cultura e ao saber com uma intensidade ímpar.

Gostei muito, mas queria ter gostado mais. Tem, a meu ver, páginas a mais. Curiosamente soube-me a pouco.

Sinopse

“Farsa e dor, história e humanidade integram este retrato mágico de um escritor que testemunhou o nascimento de uma nação.

Amor e trevas são duas poderosas forças que se cruzam e acompanham a história de Amos Oz, que nos guia numa fascinante viagem ao longo dos 120 anos de história da sua família e dos seus paradoxos.Um relato impregnado de ruído e fúria, nostalgia, perda e solidão. Em busca das raízes remotas da sua tragédia familiar, Amos Oz desvenda segredos e "esqueletos" de quatro gerações de sonhadores, intelectuais, homens de negócios fracassados, reformistas, sedutores antiquados e rebeldes ovelhas negras. Uma ampla galeria de grotescos, patéticos, ingénuos, trágicos e extravagantes personagens, homens e mulheres, todos eles participantes do cocktail genético e das circunstâncias quase surrealistas do nascimento do homem que um inevitável momento de revelação transforma em romancista.

Um relato escrito na primeira pessoa por um homem que testemunhou o nascimento do seu país e que viveu na íntegra a sua turbulenta história. Celebridades históricas materializam-se em personagens autênticos, de David Ben-Gurion, um dos fundadores do Estado de Israel, ao lendário líder das organizações clandestinas e primeiro-ministro Menahem Begin, passando pelo gigante da poesia hebraica moderna, Saul Tchernichovsky , ou o laureado com o Nobel de Literatura, S. Y. Agnon.”

Asa, 2007

Tradução de Lúcia Liba Mucznik

A Mão de Fátima - Ildefonso Falcones

Roda Dos Livros, 19.08.16

 amaodefatimaEste livro foi uma grande e boa surpresa. Comprei “A Mão de Fátima” há três anos, porque uma amiga que me conhece muito bem me disse que ia adorar, que era a minha cara - um romance histórico e ainda por cima religioso! Fiz-me ao livro cheia de vontade mas rapidamente comecei a lentinficar, a não conseguir progredir. Há muitos nomes. Algumas personagens têm nome cristão e nome muçulmano o que não facilita e chega mesmo a criar um efeito lista telefónica - demasiadas personagens e pouca acção. 

Porém, e tendo em conta de quem vinha a recomendação, insisti, uma e outra vez e eis que depois do pequeno pântano cheguei a uma planície de bom chão e temperatura amena. Passada a fase inicial, “A Mão de Fátima” revela-se um romance daqueles que queremos devorar para saber o fim da história. As reviravoltas na história de Hernando e Fátima empurram-nos para a frente, página após página, para descobrir qual será, afinal, o seu destino. E quando achamos que a história já não pode virar outra vez (a favor, ou contra), o autor dá-nos a volta e faz-nos ficar mais uma noite sem dormi para descobrir o que se passa. 

Pessoalmente, aprendi muito sobre as guerras religiosas no Sul da Península e fiquei com muita vontade de saber mais. 

Foi a minha primeira leitura de Ildefonso Falcones e gostei bastante da escrita, embora a tradução, sobre tudo no último terço, possa ser bastante melhorada até porque tem algumas gralhas.

Vale muito a pena! Se alguém parou na fase inicial, pelos mesmos motivos que eu, não desistam, vão ser recompensados!

Sinopse

"A história de um jovem dividido entre duas religiões e dois amores, em busca da sua liberdade e da do seu povo, na Andaluzia do séc. XVI.1568. Depois de derrotados por Isabel, a Católica, a comunidade muçulmana andaluza sobrevive com muitas dificuldades, sob a constante repressão dos Cristãos, mas depressa o descontentamento dá lugar a uma sanguinária revolta.Entre os revoltosos encontra-se Hernando, um jovem desprezado pelo seu próprio povo e maltratado por Brahim, o seu padrasto. Dotado de uma extraordinária habilidade para lidar com animais, Hernando salva a vida ao filho de uma jovem belíssima, Fátima. Dividido entre a fé que lhe foi incutida e as atrocidades que vê serem cometidas em nome de Alá, o seu coração impele-o a ajudar um nobre cristão, obtendo a sua eterna gratidão.Porém, a sua coragem e honestidade também lhe granjeiam alguns inimigos, sobretudo o seu cruel padrasto que, aproveitando-se da morte do rei, consegue condenar Hernando à escravatura e desposar a bela Fátima, o grande amor do enteado. Brahim, na qualidade de lugartenente do novo monarca, parece inatacável, e Hernando parece condenado à desgraça…"

Bertrand Editora, 2010

Teoria dos Limites - Maria Manuel Viana

Roda Dos Livros, 18.08.16

 O que é e7afe-teoriadoslimites-mmva realidade? Para cada um de nós, é a percepção que dela temos. E como é construída essa percepção? Maria Manuel Viana parte da teoria das mónadas, de Leibniz, para propor uma construção teórica que, ela mesma, não pretende ser mais do que uma das possíveis formas de ver a questão.E se cada um de nós fosse uma mónada, uma partícula simples e minúscula que funciona como um espelho, conjugando tanto as imagens reflectidas pelas outras mónadas que a rodeiam como as que formam a sua própria essência? Assim, a nossa concepção do mundo seria formada por uma combinação das nossas próprias percepções com as percepções daqueles com quem contactamos; mais: a nossa natureza de espelho multifacetado permitir-nos-ia ter uma imagem prévia das diversas reacções possíveis a uma situação e escolher entre elas, optando entre uma atitude e o seu oposto; e mais ainda: poderíamos transitar de uma opção para outra por influência de qualquer circunstância fortuita e, no limite, entre o ocorrido e o que poderia ter ocorrido.Este é, obviamente, um ponto de partida sublime para a construção de uma obra literária. E a autora aproveita-lhe todas as potencialidades, apresentando-nos as vivências diferentes mas complementares de um mesmo acontecimento (a morte de um familiar) pelos diversos membros da família, e, de caminho, tecendo um verdadeiro tratado de filosofia acerca da construção da personalidade, das opções de vida, dos afectos, da auto-estima, e, claro, dos limites... dos limites nas suas mais variadas acepções.Não houve um único ponto da leitura desta obra em que não me tenha sentido a aprender e a enriquecer-me. Foram muitas as vezes em que tive de repetir a leitura de frases para lhes apreender o sentido e as implicações, e não tenho, de modo algum, a pretensão de ter compreendido tudo. Mas, apesar da complexidade do tema, da repetição dos mesmos factos vistos por diversos ângulos e das referências filosóficas que ultrapassam em muito a minha bagagem cultural, desde Leibniz aos filósofos chineses, nunca experimentei um momento de cansaço ou de esmorecimento de interesse. A autora sabe como ninguém despertar a face inquisidora do leitor e confrontá-lo com dúvidas e questões que o impelem a prosseguir nesta descoberta surpreendente cada vez com mais avidez.Deixo aqui apenas uma das dúvidas que o livro me suscitou: se a justificação para a literatura ser apelidada de "experiência dos limites" ou "experiência limite" é o facto de a literatura ser uma experiência sobre os limites, e se a realidade é muito mais inverosímil do que a ficção, não será antes a vida a "experiência dos limites" ou "experiência limite" por excelência, e não será a literatura antes uma mónada da vida, reflectindo-lhe as diversas cambiantes, combinando-as, permitindo a opção entre elas e até a substituição das que foram pelas que poderiam ter sido? E, no entanto, não será a própria vida constituída por mónadas e, como tal, também influenciada pela literatura? Excerto:"Os mundos não são paralelos, essa é uma imagem de má ficção científica. No final do século XVII, Leibniz, o filósofo de quem partem todas estas construções, escreveu um livro, a Teodiceia, onde, para exemplificar a noção de livre-arbítrio, propõe que se imagine uma pirâmide, a que chamou o palácio dos destinos, dividida por uma espécie de andares, em que cada um dos habitantes pode ver o seu duplo, todos os seus duplos, uma infinidade de duplos e seguir as atitudes e acções desses outros antes de escolher as suas. É por isso que se chama a Pirâmide dos possíveis, sendo que a base tende para o infinito, onde se acumulam os mundos imperfeitos, e o topo é o mundo absolutamente perfeito. Não tem, portanto, nada a ver com planetas ou mundos habitados por aliens ou marcianos à espera de uma oportunidadezeca para invadirem a terra e se tornarem donos do mundo." (pág. 123). Teodolito, 2014

Viver depois de ti - Jojo Moyes

Roda Dos Livros, 14.08.16

viverdepoisdetiHá momentos em que uma leitura diferente é necessária. Que não tenha particularmente a ver com o que mais se gosta, nem com a necessidade de saber mais ou aprender coisas novas e diferentes. Às vezes é preciso um livro que, mesmo não acrescentando grande coisa ao que já sou e tenho, me leve para longe. Que me leve com ele para dentro de muitas páginas fáceis de ler. Que me faça companhia, me mexa com as emoções, e me distraia de coisas em que não quero pensar.

Por vezes são necessárias pausas, intervalos na busca constante; por vezes é necessário descansar a cabeça e calar os pensamentos.

Para esta tarefa, não pensar, para mim algo bastante difícil, escolhi Viver depois de ti, da Jojo Moyes. O filme adaptado do livro estreou esta semana, parece que é daqueles de chorar baba e ranho, e eu pensei porque não experimentar um page turner lamechas para me atormentar um pouco com as desgraças dos outros?

A leitura agarrou-me de imediato (conforme esperado) e lido o primeiro capítulo já delineava uma série de coisas que, obviamente, iriam acontecer. E aconteceram. E soube-me bem esta certeira previsibilidade. Como também me deliciou a entrega à leitura e a forma como me envolvi na vida das personagens. Sinceramente era mesmo o que estava a precisar, e que sorte ter, mesmo à mão, um livro que, neste momento, me satisfez a 100%.

Li as cerca de quatrocentas páginas em três ou quatro dias, pois na verdade o livro é de consumo muito fácil. Uma vez envolvida na trama fui caindo, feliz, nos ganchos lançados pela autora no fim de cada capítulo e ao longo de todo o livro. Em resumo, não queria parar de ler, e para esse efeito o livro está mesmo muito bem conseguido. No Goodreads leva quatro estrelas minhas, não pela qualidade literária, mas por ter cumprido (com distinção) o propósito da sua leitura.

Não vos vou maçar com detalhes da história, para isso deixo a sinopse. Além do mais não vai ser difícil encontrar comentários, opiniões e críticas ao livro, bem como o trailer do filme, pois neste momento fala-se dele por todo lado.

Penso ver o filme, mas agora vou retomar a pilha de livros iniciados que está na mesa de cabeceira.

Esta pausa foi muito boa!

Sinopse

“Louisa Clark é uma jovem com uma vida banal - um namorado estável, trabalhador e uma família unida - que nunca saiu da aldeia onde sempre viveu. Quando fica desempregada, vê-se obrigada a aceitar um emprego em casa de Will Traynor, que vive preso a uma cadeira de rodas, depois de um acidente. Ele sempre tinha vivido de um modo trepidante - grandes negócios, desportos radicais, viajante incansável - agora tudo isso ficou para trás. Will é mordaz, temperamental e autoritário, mas Lou recusa tratá-lo com complacência e em breve a felicidade e o bem-estar dele tornam-se muito mais importantes do que ela esperaria. No entanto, quando Lou descobre que Will tem planos inconfessáveis para a sua vida, ela luta para lhe mostrar que ainda assim vale a pena viver.Em Viver depois de ti, Jojo Moyes aborda um tema difícil e controverso, com sensibilidade, obrigando-nos a refletir sobre o direito à liberdade de escolha e as suas consequências.”

Porto Editora, 2013

Um Postal de Detroit - João Ricardo Pedro

Roda Dos Livros, 13.08.16

Postal DetroitEu estava mesmo convencida que não haveria nada que me pudesse fazer não gostar deste livro. E não posso dizer que não gostei. Mas não posso afirmar que gostei tanto como esperava.

Quando se lê um segundo livro de um autor, e se gostou bastante do primeiro, espera-se mais. E, se calhar, foi essa expectativa que acabou por me deixar desapontada.

Mas vamos por partes. João Ricardo Pedro mantém a grande forma, a escrita é irrepreensível, acho mesmo que apurou o estilo. A leitura é deliciosa, o texto está cheio de revelações surpreendentes, de ideias saídas de uma imaginação admirável.

A trama começa bem, parte de um acontecimento real, o choque de dois comboios em Alcafache, em 1985. Marta desaparece nesse dia, a sua mochila é descoberta no meio dos destroços do acidente. O narrador é o irmão de Marta, traumatizado desde esse dia. Excelente premissa, a meu ver.

A narrativa flui conforme esperado. Penso que grande parte das pessoas já sabe que, à semelhança do O Teu Rosto será o Último, deste livro também não se retira qualquer conclusão. Se no livro anterior achei uma certa graça ao final inesperado, que na verdade não é final algum, desta vez confesso que não achei muita piada. A fórmula repete-se. É um livro cheio de gente, com muitos caminhos, muitas vezes labirínticos. Se calhar fui eu que não percebi o objectivo, mas o que é certo é que não saí do labirinto.

Li até ao fim, coisa que raramente faço quando um livro me desilude, o que significa que, para mim, o autor escreve que é uma maravilha. Fiquei só a aproveitar o brilhantismo da escrita, mesmo estando a apanhar bonés da história. Dá, sem dúvida, muito mérito a João Ricardo Pedro, mas desta vez não me chegou. Não sei se vale a pena insistir nesta fórmula. Mas enfim, quem sou eu? Afinal de contas não percebi nada…

Sinopse

“Em Setembro de 1985 dá-se um choque frontal de comboios em Alcafache. Algumas das vítimas mortais, presas nas carruagens a arder, nunca chegam a ser identificadas. No dia seguinte, a mãe de Marta recebe um inesperado telefonema informando que a mochila da filha - estudante de Belas-Artes - apareceu entre os destroços.Partindo dos cadernos de desenho de Marta - uma espécie de diários visuais que espelham um quotidiano tão depressa sórdido como maravilhoso -, o narrador deste romance tenta recriar os passos da irmã nos tempos que antecederam o acidente. E, enquanto o faz, dá-nos a conhecer um leque de figuras absolutamente inesquecíveis, entre as quais se contam prostitutas, boxeurs, polícias e assassinos, mas também anjinhos de procissão, médicos e senhoras da caridade. E, claro, ele próprio - o mais ausente dos cadernos de Marta.Depois do celebrado O Teu Rosto Será o Último, que venceu o Prémio LeYa em 2011 e foi traduzido em cerca de dez línguas, incluindo chinês e árabe, João Ricardo Pedro regressa à ficção com um romance delirante e avassalador sobre a ténue fronteira que existe entre sanidade e loucura e os laços perturbadores que tantas vezes unem a vida à arte.”

D. Quixote, 2016

A Gramática do Medo, de Maria Manuel Viana e Patrícia Reis

Roda Dos Livros, 09.08.16

gramática

"esta semana trocamos, fazes de mim e eu de ti"

Sara Santiago e Mariana Sampedro. Mariana e Sara. Duas mulheres que são o avesso uma da outra, a metade uma da outra. Iguais e diferentes. Tão diferentes quanto duas pessoas podem ser sendo iguais.

Um livro a que preciso voltar. Páginas que preciso reler. É demasiado fácil dizer que é um livro sobre o medo, isso é óbvio pelo título. É demasiado redutor dizer que é um livro sobre a amizade ou sobre o amor, apesar de ser isso tudo. É óbvio que é um livro que enaltece as palavras, a literatura, que joga com a realidade e ficção (e como se diz às páginas tantas "cabe ao leitor e espectador a terrível tarefa de discernir ficção e história").

Acho que é o tipo de livro que terá um significado diferente para cada leitor. Para mim é um livro sobre o auto-conhecimento. A procura e luta para nos (re)conhecermos. O quão nos castigamos por vezes e como nos iludimos. Sobre as várias partes de nós. A necessidade de morrer e voltar a nascer. A vida como circunferência e não como linha recta.

 Arrisquem. Leiam este livro. Falem sobre ele. Discutam as vossas interpretações do que aqui se conta. Há tanto para falar. Quando (antes da página 50) comecei a desenvolver uma teoria sobre o final, achei que me ia desiludir se "acertasse" mas a verdade é que, apesar de achar que acertei em cheio, não me desiludi nem um bocadinho, adorei todo este puzzle. E se já tinha decidido que queria ler tudo o que a Maria Manuel Viana escreveu, agora tenho que ler também tudo o que a Patrícia Reis escreveu. A  expectativa de ter tantos livros bons para ler é maravilhosa.Em Português e no Feminino escreve-se muito bem*."...agora sou eu quem te pede para de encontrares, se me encontrares, como eu preciso, posso salvar-nos e seremos um, entendes?* não por aqui, claro. Fico sempre com a sensação de que quanto mais gosto de um livro menos consigo transmitir isso. Por isso deixem-me resumir: Este livro é brutal (em vários sentidos). Leiam.

Submissão - Michel Houellebecq

Roda Dos Livros, 08.08.16

Um dia, ouvi o seguinte comentário acerca de um livro de Houellebecq: "Já sei que me vai irritar, mas não vou conseguir não o ler." Na altura, não percebi o motivo de tanta irritação. Agora, depois de ter lido algumas obras deste autor, julgo começar a perceber: o problema está no seu talento para submissãodesenhar retratos crus de vidas com as quais é muito provável que o leitor se identifique, pelo menos neste ou naquele aspecto, revelando-lhes as fragilidades, os dilemas e muitas vezes o desencanto que lhes está subjacente. Ora, ninguém gosta que lhe arranquem a máscara de palhaço feliz... daí a face mal-amada de Houellebecq, com a qual, aliás, ele parece conviver bastante bem.No meu caso, esta atitude provocadora tem um efeito um pouco diferente, talvez devido à minha eterna predilecção por quem se atreve a agitar as águas: diverte-me e, sendo levada a cabo por um escritor tão magistral como este, faz muito mais do que divertir-me: fascina-me. Não é todos os dias que deparamos com uma caricatura, aplicável a nós e/ou a alguns dos que nos rodeiam, realizada com tal mestria, construída com um tal domínio da palavra escrita, que nos maravilha ao mesmo tempo pela agudeza do raciocínio e pela excelência da forma literária.Neste livro, Houellebecq volta a aplicar a fórmula que o celebrizou e o torna inimitável: pega num tema actual (aqui já não o liberalismo, mas o islamismo), começa por abordá-lo da forma comummente aceite, e depois, com uma subtileza admirável, vai deixando uma pista aqui, outra ali, uma interrogação subentendida, a sugestão de um efeito perverso, um pormenor com implicações imprevistas... e, quando damos por nós, estamos de livro suspenso no ar, com o olhar perdido no espaço e a mente em turbilhão, questionando tudo o que sempre demos por adquirido, levantando hipóteses impensáveis, estabelecendo relações nunca antes enunciadas entre conceitos e transportando vivências da esfera política para a das relações interpessoais e vice-versa, num delírio de intercâmbio entre causas e efeitos que não conseguimos interromper; nem queremos fazê-lo, porque, numa época em que tudo é servido pré-pensado, pré-mastigado e pronto a engolir sem o menor esforço, é refrescante encontrar algo que nos abane e nos recorde que o pensamento não está morto - nem o nosso, nem o de quem escreve para nosso deleite.O que mais me admirou ao concluir a leitura deste livro foi, não só a coragem do autor em superar, mais uma vez, a sua já proverbial audácia, ousando enveredar por caminhos em que poucos se aventurariam, mas também a ausência das habituais reacções de indignação perante o que seria a interpretação mais óbvia da obra, e que é oferecida de bandeja a quem queira fazer dela uma leitura apenas superficial. Quase se consegue ver o sorriso irónico do autor ao estender ao público um prato de fast-food requentada, instigando as reacções de dignidade ofendida dos gourmets de pacotilha, para só depois lhes chamar a atenção, com a maior candura, para a cegueira que acabaram de demonstrar: "Tem toda a razão, meu caro, só foi pena não ter reparado no filet mignon que estava escondido aqui por baixo..." Só vejo uma explicação para esta parcimónia no rasgar de vestes: os leitores ligeiros já desistiram de ler Houellebecq...Como não adorar Houellebecq? Eu cá não sei. Só sei que vou reler o Extension du Domaine de la Lutte com a maior urgência (é o meu livro preferido dele, mas não sei se já está traduzido em português; infelizmente, julgo que não). Há poucos prazeres mais requintados do que o de seguir o pensamento de uma alma rebelde, inquisidora e inconformista, exposto com clareza e inteligência. E o de continuar, dias e dias depois de terminada a leitura, a reflectir sobre as problemáticas levantadas, recordando pormenores que à primeira vista não eram muito relevantes, mas depois, no quadro de tudo o que foi dito, desatam a apontar em direcções totalmente inesperadas. O que se pode pedir mais de um livro? Sinopse:(...)"Submissão convida a uma reflexão sobre o convívio e o conflito entre culturas e religiões, desafiando a relação entre Ocidente e Oriente e entre cidadãos e instituições. Um romance que, como é habitual nas obras do autor, se adianta ao seu tempo e coloca questões prementes, hoje mais relevantes do que nunca. Michel Houellebecq confirma-se nestas páginas como um pensador temerário, capaz de detectar as grandes tensões do nosso tempo, interpretando-as com lúcida ironia.Uma fábula política e moral surpreendente, Submissão é o romance mais visionário e simultaneamente mais realista de Michel Houellebecq." Alfaguara, 2015Tradução de Carlos Vieira da Silva 

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