Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Roda Dos Livros

Contos à Moda do Porto - Miguel Miranda

Roda Dos Livros, 31.07.16

contosamodadoportoContinuo a descobrir os Contos.

Uma dedicação talvez tardia, mas que possivelmente antes não me daria tanto prazer. Não sei se há momentos mais propícios a apreciar a narrativa curta, se assim for, estou na minha fase de Contos. Parece-me que a vou fazer durar pois já há sempre, pelo menos, um livro de histórias curtas na mesinha de cabeceira.

Quando encontrei este livro numa loja de artigos usados, chamaram-me a atenção a capa e o título, de que gostei de imediato. Depois foi a surpresa de nunca ter ouvido falar de tal colectânea, sendo Miguel Miranda um autor relativamente conhecido, mas de quem, confesso nunca ter lido nada. Antes desta obra.

Por ser pequeno, esta edição é de bolso, coloquei-o mala para quando surgisse uma oportunidade de lhe pegar durante o dia. Numa viagem de regresso a casa li o primeiro conto, um pouco extenso, com cerca de trinta páginas. Logo a partir das primeiras linhas, imediatamente envolvida na narrativa, tive receio que a duração da viagem não fosse suficiente para o terminar. E não podia deixar de saber o final nesse dia. Não podia mesmo. A viagem foi à justa. A vantagem de usar transportes públicos é mesmo poder ler.

A minha relação com os outros Contos foi mais ou menos semelhante. Entreguei-me na ânsia de chegar ao fim, e depois, a umas páginas de terminar, adiava o ponto final. Alguns tive mesmo vontade de reler de imediato. E não houve nenhum que considerasse inferior e tivesse desejado passar à frente. Penso que uma tal unanimidade é rara, pelo menos nunca me havia acontecido.

A qualidade da escrita é extraordinária, as personagens são ricas, bem construídas e todas (umas mais outras menos) têm um delicioso toque grotesco que embala a leitura numa satisfação ímpar. Miguel Miranda surpreendeu-me pela habilidade com que doseia o humor e a ironia, como usa o calão e trabalha o sotaque sem cair no ridículo. Longe de mim considerar o sotaque de Porto ridículo, até porque sou uma grande fã de sotaques (se calhar por não ter), mas colocá-lo por escrito de forma tão realista e verosímil não é fácil, certamente.

Por todos estes motivos, mais aqueles que agora não me lembro, mas que certamente existirão, recomendo que se atirem a estes Contos, todos passados no Porto. Arrebataram o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco e acho indecente que não tenham uma promoção e divulgação à altura. Pelo menos a mim passavam completamente ao lado, se não tivesse havido uma alma com desejo de os partilhar comigo através de uma dessas lojas-depósito. Tristes lugares para enterrar livros, que vou encarando como temporários poisos de renascença.

Leiam que não se vão arrepender. É garantido!

Sinopse

“Histórias urbanas que aconteceram dentro dos olhos do autor e não só. Escorrem da prosa traços em diagonal que ligam numa amálgama as gentes, os seus medos, as suas crenças. O traço vigoroso, polido, limpo de superficialidades com que o autor dotou estes contos, fazem dele um modelar exemplo de imaginação viva e brilhante, garante de uma excepcional e singular comunicação com o leitor.“

Porto Editora, 2014

“Rakushisha” de Adriana Lisboa

Roda Dos Livros, 28.07.16

Rakushisha

Em cada ano, quando começa a Feira do Livro, todos os caminhos da cidade tornam-se meros percursos para os pés de leitores impenitentes como eu se dirigirem para o Parque Eduardo VII sempre que puderem; nunca são precisos pretextos ou razões para ir à feira e nunca se sabe que surpresas maravilhosas lá espreitam, à espera de captar a atenção do leitor incauto. Sim, porque é sem cautelas nem pudores que, depois de se ter comprado aquele livro que constituiu o motivo “oficial” de mais uma visita, se prossegue caminho através dos “cestas” ou mesas de pechinchas disponibilizadas por algumas editoras. E porque, por vezes, os acasos são mesmo felizes, foi assim que encontrei este “Rakushisha”. Não conhecia a autora, nunca tinha ouvido falar deste pequeno romance, fui irremediavelmente atraída pela capa e pelo título e convencida a trazê-lo comigo pela sinopse: Japão, Brasil, haikus, hum...parece mesmo interessante... e assim, mais uma vez, a magia da feira se manifestou e, primeiro intrigada, depois extasiada, mergulhei na prosa belíssima de Adriana Lisboa. Haruki e Celina, dois estranhos que se conhecem por acaso, resolvem viajar juntos para o Japão num percurso não só geográfico mas também de encontro com os seus demónios internos, com as suas dores mais profundas. Ele devido a uma paixão infeliz, ela atormentada por um sofrimento incomensurável que será desvendado, lentamente, ao longo da narrativa. As suas histórias não são originais; o que captura a atenção de imediato é a forma lírica, de uma beleza incomum, verdadeiramente poética, como estas nos são contadas. Outro aspecto interessante é a versão de “choque cultural” apresentada pela autora: Haruki é um brasileiro, filho de imigrantes japoneses, que pouco ou nada sabe sobre o Japão e a sua cultura, para além de não falar japonês. A  viagem será também, de certo modo, um reconhecimento das suas raízes ancestrais, um sentir da alma japonesa, fulcral para que ele consiga capturar a essência da poesia Haiku de Bashō e assim ilustrar adequadamente a edição brasileira da obra daquele poeta japonês. Por seu lado, Celina resolve, apesar de tudo, continuar a caminhar, um pé após o outro, na esperança de uma redenção que a reconcilie com a vida. Não vale a pena continuar a esmiuçar os meandros desta história, melhor mesmo é lê-la e deixar-se enfeitiçar pela escrita maravilhosa de Adriana Lisboa. Foi muito difícil escolher excertos e por isso estes são extensos e dedicados a quem sinta curiosidade por este pequeno grande livro.

Excertos:

“Eu não nasci aqui. Não sei se você está muito interessado em saber. Sou do outro lado do planeta. Pode-se dizer que vim escondida dentro da bagagem de outra pessoa. É como se eu tivesse entrado clandestina, apesar do visto no meu passaporte. De fininho, para que não me vissem, para que não vissem as coisas invisíveis que eu trazia na mala.”

“Estou reaprendendo a andar. Depois da tempestade, da era glacial, da grande seca, a gente pode usar a imagem que quiser, ninguém vai-se importar muito, afinal quem somos nós se não menos que anónimos aqui. Abriu-se esta porta. Agora não dá tempo de te contar como aconteceu. E ainda não sei se andar equivale a lembrar se equivale a esquecer, e qual das duas coisas é o meu remédio, o veneno que tece a morte e a droga que traz a cura. Se vim para lembrar – se vim para esquecer. Se vim para morrer ou para me vacinar. Talvez eu descubra. Talvez nunca seja possível descobrir, desvelar, levantar o toldo, remover qualquer traço de ilusão da ilusão de caminhar.

Seja como for. É só colocar um pé depois do outro.”

“ A viagem nos ensina algumas coisas. Que a vida é o caminhar e não o ponto fixo no espaço. Que nós somos como a passagem dos dias e dos meses e dos anos, como escreveu o poeta japonês Matsuo Bashō num diário de viagem, e aquilo que possuímos de fato, o nosso único bem, é a capacidade de locomoção. É o talento para viajar.”

“Era preciso reconhecer e reverenciar esses momentos. Eles eram rápidos e raros. Momentos em que sem nenhum motivo aparente tudo parecia entrar nos eixos, ajustar-se, encaixar-se. Acabavam-se as perguntas e a necessidade delas. Acabava-se a pressa, o ter aonde ir, o vir de algum lugar. Simplesmente as solas dos sapatos batiam na calçada úmida e pronto, o mundo prescindia de outros significados.

Um pé depois do outro.

Momentos rápidos e raros. Aquele ali se desfez de repente, no cruzamento com a rua do Catete. Haruki notou que perdia alguma coisa, chegou a olhar para trás automaticamente, para ver se dava com um pedaço de si caído na calçada. Mas era o instante que se desmanchava, colher de sal dentro d’água. E Haruki sacudia a colherinha, desmanchava o instante, porque não tinha como ser diferente, se a gente não mata as epifanias elas nos matam, e atravessava a rua na direção familiar da entrada do metrô.”

“A mulher já tinha nome. Celina. E, coerente com esse nome, parecia mesmo alguma coisa volátil a Haruki. Talvez por dentro ela não tivesse ossos nem músculos nem vísceras, mas ar. Um pedaço de céu recoberto pela fina epiderme humana.”

“Se a vida admitisse uma dobra, e mais uma, e outra, sucessivamente até ao infinito, as superfícies estariam mais disfarçadas. Haveria sinuosidades onde se esconder à espera do sono, à espreita da morte. Haveria brechas, como tocas de animais ariscos, onde reparar o sonho, onde costurar na roupa remendos da vida oficial, nos lugares puídos pela ausência. Haveria como fitar a ausência nos olhos sem acordar o dragão que jazia lá dentro. Haveria vãos, alcovas, gavetas onde guardar segredos dentro de revistas velhas, pétalas murchas de flores brevíssimas entre páginas amareladas de livros muito lidos.”

“Ele dormia, na primeira tarde nesta cidade. Naquele momento não era de ninguém, não era sequer de si mesmo, ele era antes uma reconstrução. Um romance. Uma ficção por trás dos olhos fechados. Havia uma dor guardada em algum lugar? Será que todas as pessoas têm uma dor guardada em algum lugar? Se houvesse, de que tamanho seria?

Como medir a dor? Haveria unidades pessoais? Centímetros cúbicos, milhas, hectares? E a dor passaria? Simplesmente a dor choveria na altura certa, que por aqui chamam tsuyu, a estação chuvosa, um pesadelo no início do verão? E depois a umidade da dor evaporaria sob um sol de promessas?”

“Deve haver como me perder, de algum modo. Deve haver como me perder para encontrar aquele lugar no mundo que nunca foi pisado antes, um território realmente virgem. Deve haver um modo, quem sabe, de partir em viagem e não regressar mais. Reduzir-se à mochila que vai às costas e a umas poucas mudas de roupa. Reduzir-se, ou agigantar-se, a uma ausência de casa própria e cidadania, esfacelar o papel pega-mosca do cotidiano e fazer dele mesmo, cotidiano uma aventura infinitamente deslocável. Descolável. Desgrudá-lo do chão. Levantar os pés para caminhar, estudar a bússola e o mapa, mas randomizar todos os gestos. Traçar uma reta, menor caminho entre dois pontos, e picotá-la com a tesoura, apagar trechos com a borracha, dissimular outros com o esfuminho, despistá-la em curvas. De tal modo a esquecer que um dia chegou a ser uma reta, dotada de ponto final. De objetivo. Desobjetivar-se. Esse o território realmente virgem – o único. Assumir como um sentido a falta de sentido da vida. Em todos os sentidos.”

“Durante cem dias me seguiu como uma sombra, e depois por mais cem vezes cem dias, até que eu perdesse a conta deles e o mundo começasse a se medir em passos, um após o outro, para não se desintegrar. O planeta se solidificava conforme eu pisava nele. A lava quente ia virando crosta, ia virando terra. Durante cem vezes cem dias me seguiu como uma sombra e eu estendi durante cem vezes cem dias as mãos a fim de alcançá-la. De tocá-la. De estreitar o seu corpo pequenino e ouvir sua voz reclamando você está me abraçando com muita força, mãe.

Ao despertar, meus olhos estavam secos e eu sentia só a urgência de obedecer ao movimento como um cão labrador de capa amarela que segue seu dono.”

 

«Manual para mulheres de limpeza» de Lucia Berlin :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.07.16

A critica é unânime. Lucia Berlin é largamente aclamada e premiada. No passado mês de Junho, "Manual para mulheres de limpeza", foi o título ganhador do California Book Award, destacando o melhor livro de ficção nos Estados Unidos, e ainda o Prémio Libreter que destaca o melhor livro de literatura estrangeira em Espanha, atribuído pelo Grémio de Livreiros da Catalunha. Os jornais The New York Times e The Guardian atribuem-lhe o selo: "descoberta literária do ano". Por cá, quem o publica é Alfaguara, do Grupo Penguin Random House que reúne 43 das 76 histórias que são conhecidas de Lucia Berlin. Segundo a editora, "um estilo muito próprio", "faz eco da sua própria experiência -- tão rica quanto turbulenta".

A forma esporádica como foi escrevendo deixa na sua escrita a marca do dia a dia, trazendo-nos histórias que sobrevivem tanto à banalidade como ao peso do quotidiano. A realidade relatada nos escritos de Berlin foi associada à sua própria vida. Talvez seja essa autenticidade associada à brutalidade em muitas das partes da sua narrativa que lhe conferem uma importância ainda maior. Os seus contos oscilam assim, tal como a vida, entre episódios peculiares e divertidos, mas também momentos dramáticos e perturbadores que se conhecem por terem pautado a sua atribulada vida.A selecção dos contos foi muito bem feita e até a forma como vão surgindo no livro, permitem-nos acompanhar o passar do anos, mas também, atingir um ponto tal de confusão entre relatos pessoais e ficcionais, ao ponto de o leitor não conseguir dizer ao certo que fio condutor rege estas vidas, mas será preciso?"Que outras coisas perdi? Quantas vezes na minha vida terei estado sentada no alpendre das traseiras, não no da frente? O que teria sido dito que não consegui ouvir? Que amor podia ter havido que eu não senti?São perguntas vãs. (...)"A força da sua escrita sente-se de tal forma que em breves parágrafos e com a energia que nos transmite, passamos a ser testemunhas de cada acontecimento. É como se estivéssemos lá. E termos lá chegado valida cada momento ali descrito. Em alguns deles, Berlin parece contar-nos segredos, como se sussurrasse aquelas palavras, e dessas vezes, a força é mais contida, como que sufocada, mas muito mais profunda. Há dor, drama, muitas lágrimas e medo, nas linhas que rebatem certos acontecimentos aqui expostas ao leitor.Ainda assim, percebe-se o quanto se nega à auto-complacência ou ao ressentimento. Aliás no final, é exactamente isso que volta a ser frisado:"(...) O único motivo por que vivi tanto tempo foi ter largado o meu passado. Fechar a porta à dor, ao arrependimento, ao remorso. Se os deixar entrar, basta uma nesga autocomplacente, zás, a porta abre-se por inteiro e eis que entra uma torrente de dor que me rasga o coração e me cega os olhos de vergonha (...)"Por isso, o melhor fio condutor para todos os seus contos é o humor. Nuns contos será a gargalhada alta e estridente, noutros apenas o leve sorriso que apenas sobe um canto da boca, mas ainda assim, está lá. Sim, é isso. A energia dos seus contos é fruto do humor que coloca em cada relato que faz do que a rodeia ou do que marcou a sua vida."«Sim, agora não parece tão chocante, não é? Que tenham vindo de férias depois de a mãe ter morrido.» «Sabe... é pena que não seja uma tradição. Umas férias pós-funeral, como uma lua-de-mel ou uma festa de boas-vindas a um bebé.»Riram-se as duas. «Herman!», disse a Srª Wacher ao marido. «Depois de nós as duas morrermos, vocês, homens, prometem ir fazer uma férias juntos?»Herman abanou a cabeça. «Não. São precisos quatro para jogar brídege.»Despudorada, meio seca, recheada de análises simples do quotidiano e um bando de gente anónima. São estes os ingredientes destes contos. E se a certa parte, quase no final, lemos: "Tudo o que de bom e mau aconteceu na minha vida foi previsível e inevitável, especialmente as escolhas e as acções que garantiram que agora estou totalmente sozinha." Talvez sejamos levados a pensar que a escrita foi uma companheira de vida e de estrada de Lucia Berlin e que muito do que guardou para os seus contos fossem conversas que nunca chegaram a acontecer, no entanto, talvez o facto de só postumamente ter obtido reconhecimento literário venha aumentar o mito e o drama em torno da sua vida. No entanto, quer-me parecer que viveu consoante os seus desejos, fervilhantes e intensos, e só digo isto pelo que de apaziguador que a sua escrita me transmite.E há ainda outra coisa, Berlin tem contos que são como uma ode à frase de Mae West: «quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou melhor ainda!»
Para ler mais sobre a autora:
Lydia Davis na Sábado e o texto de Isabel Lucas no Público

Histórias Indianas - Cristina Drios

Roda Dos Livros, 17.07.16

historiasindianasEstas histórias encantaram-me. Li-as de uma assentada e com um imenso prazer.

São oito viagens a uma Índia descoberta por um olhar atento aos detalhes. De pequenos pormenores vi nascer personagens que brincaram com a minha imaginação, deixando-me fantasiar enquanto me embalavam no exotismo dos cheiros e dos ambientes.

É permitido saltar da riqueza para a pobreza, ou do calor prazeroso para a humidade sufocante, como quem abre e fecha uma porta. É essa a grande vantagem dos Contos. A rapidez com que se descobrem tantas coisas e a facilidade de regressar, de voltar atrás no caminho para novas e insuspeitas descobertas.

Parece fácil. Mas não é. É sempre mais difícil dar muito quando se escreve menos. Contos são mistérios que tenho vindo, com calma, a descobrir. Que quero estar sempre a ler, independentemente do tamanho de outras leituras que possa ter em curso. É uma arte difícil. Dar tanto ao leitor em menos linhas, em menos páginas, mas proporcionando tanta agitação da imaginação, a nossa contribuição para tornar cada história, cada livro, único e muito pessoal.

Só os melhores Contos o conseguem. São esses que guardamos. Deste livro guardo todos, mas muito especialmente o Obsessão e o 205.

Cristina Drios escreve com uma beleza inspiradora. A narrativa, por vezes densa, marca um ritmo que não se consegue abandonar. Já me tinha conquistado com Os Olhos de Tirésias, e estas Histórias Indianas aumentaram o meu interesse de a continuar a ler. Cá fico na expectativa de novos trabalhos.

Editora Objectiva, 2012

A vida dupla de Mª João, de Maria Manuel Viana

Roda Dos Livros, 16.07.16

19761711_dMRHf

Fiquei fascinada quando li o “Teoria dos limites”, da Maria Manuel Viana e assim que apareceram a Maria João e a Ana B., lembrei-me do que a autora nos contou, aquando da sua visita à Roda dos Livros. Ana B e Maria João são personagens recorrentes nas histórias da escritora. Ora, eu adoro estes mimos, estas histórias cruzadas que são, para além da importância que o escritor lhes dará, piscadelas de olho aos leitores.

Por sorte (e porque a roda dos livros é espetacular) tinha cá em casa este “A vida dupla de Maria João”, coincidentemente a personagem que mais me despertou a curiosidade na sua breve passagem pelo “Teoria dos Limites”.

Neste pequeno livro, que se lê num ápice, pode já ouvir-se, com clareza, a voz da Maria Manuel Viana. E Maria João é fascinante. Um misto de menina e mulher, de sabedoria e inocência, forte e ao mesmo tempo tão fraca. Autodestrutiva por natureza, obcecada para além do normal, é ainda assim (ou por isso mesmo) interessante e dona de uma personalidade que apetece conhecer. E se é verdade que passei metade do tempo com vontade lhe dar estalos, às páginas tantas tinha a certeza que passaria de boa vontade umas horas à conversa com esta mulher.

Não vale a pena pegar neste livro à espera de uma história rocambolesca, de uma vida genial ou de um romance feliz. Este livro é um mergulho na loucura e, pelo menos para mim, foi impossível dissociar-me completamente desta mulher.

Mais uma vez, gostei muito e fiquei com a certeza que quero continuar a ler Maria Manuel Viana.

Sempre vivemos no Castelo, de Shirley Jackson

Roda Dos Livros, 16.07.16

19701266_E1h4b

«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.»

Depois da atração, a curiosidade. Depois da curiosidade, a angústia. E é um enorme privilégio deixarmo-nos conduzir pela mão de uma menina-mulher até às profundezas de uma mente deturpada, olhando através dos seus olhos para a nossa própria imagem desfocada.

Primeiro Shirley Jackson fala-nos do medo e do preconceito. Da coragem de ser diferente. Depois troca-nos as voltas e leva-nos pela mão através da loucura, da inocência e da culpa. A solidão, o sacrifício e o amor também estão bem marcados nestas páginas.

Desde cedo me deixei conquistar por Merricat, uma personagem fascinante, e pelo seu fiel gato Jonas. Com eles acreditei que as palavras têm o poder de tecer uma proteção à nossa volta e com eles odiei Charles.

Nunca vou conseguir escrever nada de jeito sobre este livro porque, por um lado, não vos quero estragar a leitura contando demais, e por outro porque cedo percebi que este seria um dos “meus” livros de sempre.

Fantasia para dois coronéis e uma piscina, de Mário de Carvalho

Roda Dos Livros, 16.07.16

19686487_wjhLE

Confesso que peguei neste “Fantasia para dois Coronéis e uma piscina” um bocado a medo. “Medo” não será, talvez, a melhor palavra. Talvez “Respeito”. O respeito que o nome “Mário de Carvalho” transmite. Não sei que esperava mas não era certamente rir à gargalhada. E a verdade é que me ri muito com este livro. Não porque a história seja divertida, porque se for a pensar bem, não o é, é até uma crítica bastante contundente à nossa sociedade. Não por causa da escrita, que é maravilhosa e apesar de me ter obrigado a, volta e meia, dar uma olhadela ao dicionário, é ligeira e escorreita. Ri porque o “non-sense” de determinadas partes me deixou de boca aberta, ri porque há nestas páginas situações muito bem apanhadas. A cena do Xadrez é hilariante (como quase tudo o que rodeia Emanuel) e as da Baronesa são deliciosas.

O ponto forte deste livro não é a história no seu todo. Este é um caso em que, na minha opinião, as partes são bem mais fortes que o todo. Não tenho dúvidas que a maioria das coisas me passou ao lado (uma só leitura não é suficiente para compreender este livro) mas achei muito interessante ver como o autor usa o domínio da linguagem, seja através do elemento surreal (na cena da estação de serviço ou nas conversas entre o Mocho e Melro, por exemplo) ou da piada.

Neste livro, em que dois coronéis passam o tempo na piscina toda a gente fala, conversa. Conversa gente, conversam bichos, até o narrador conversa. Mas eu gostei especialmente de quando um dos coronéis conta uma história do seu passado e no final o outro diz: “se calhar isso passou-se mas foi comigo”.

A Amiga Genial, de Elena Ferrante

Roda Dos Livros, 16.07.16

090a7-capa-ferrante

Foi durante esse percurso até à Via Orazio que comecei a sentir-me claramente uma estranha, que a minha própria estranheza tornava infeliz. Crescera com aqueles rapazes, achava os seus comportamentos normais, a sua linguagem violenta era a minha. Mas havia seis anos que seguia diariamente um percurso que eles ignoravam completamente, e que eu, pelo contrário, enfrentava de forma tão brilhante que revelara ser a mais competente. Com eles não podia usar nada daquilo que aprendia todos os dias, tinha de conter-me, de certo modo autodegradar-me. Aquilo que eu era na escola, ali era obrigada a pô-lo entre parêntesis, ou a usá-lo à traição, para os intimidar"

 

Lenú conta-nos a sua própria história, contando-nos a história de Lila. Amigas, rivais, cúmplices, duas faces de uma moeda numa vida que se insiste em entrelaçar.

Ferrante é uma exímia contadora de histórias. Ou melhor, Ferrante é uma exímia contadora de vidas, de sentimentos, de emoções. De uma forma pungente pega-nos na mão e leva-nos para dentro da vida desta menina-mulher que é Lenú. E é, na minha opinião, essa maravilhosa capacidade de contadora de histórias que faz dela o fenómeno literário que é.

Este livro (e claro, a tetralogia de que faz parte) é a maior surpresa literária da atualidade. Resisti a lê-lo porque não sou a maior fã de best-sellers, consigo sentir-me sempre a ovelha negra dos leitores e ando, quase sempre, às avessas com a crítica literária. As expetativas são tramadas e o "A Amiga Genial" é a estrela da literatura. Conseguiu-o de duas formas - uma fenomenal campanha de marketing (que inclui o "de mão em mão") e um regresso à literatura clássica (talvez não o devesse chamar assim, mas é a única forma que o sei dizer). E eu fico feliz por ver o sucesso de uma "estória" bem contada.

Senti-me novamente a ler o "Mulherzinhas", de Louise May Alcott (talvez não seja coincidência ser o livro favorito da infância de Lenú e Lila) ou o Terra Bendita de Perl S. Buck, livros que marcaram a minha adolescência. Numa altura em que a literatura contemporânea está numa busca permanente pela novidade e pela diferença, ler este "A Amiga Genial" é como voltar a casa, voltar ao conforto das leituras intemporais.

Talvez por fazer o paralelo entre este livro e o Terra Bendita, fiquei surpreendida por não ter ficado fascinada pelo "A amiga Genial". Para dizer a verdade precisei chegar quase ao fim para me interessar por esta história e apenas por suspeitar que as Lenú e Lila adulta serão infinitamente mais interessantes que as versões infantis. Talvez, mas só talvez, dê uma oportunidade ao resto da série.

A Casa-comboio - Raquel Ochoa

Roda Dos Livros, 09.07.16

acasacomboioLi A Casa-comboio há uns dois meses. Fui adiando este texto, e as memórias desta história foram ficando no fundo das histórias com que vivo todos os dias. Não que tenha esquecido, não se esquecem os livros de que se gosta, e muito menos os que ensinam, preenchendo os espaços para tudo o que temos a aprender.

Não tenho presente os nomes de todas as personagens, nem todos os pormenores desta história, mas não vou esquecer a saga da família Carcomo e o seu percurso pelo mundo.

Este não será um texto brilhante, em grande medida pelas partidas da minha memória, mas é importante (para mim) dizer a quem não leu A Casa-comboio, que o deve fazer.

É, possivelmente, o livro mais conhecido de Raquel Ochoa (o meu exemplar é da sétima edição), que lhe valeu o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa Luís. Gosto da escrita fluída e simples, atenta nos detalhes mas não demasiado elaborada, que permite uma leitura veloz, mantendo o interesse na narrativa e dando o alento necessário para prosseguir, página após página, com redobrado entusiasmo.

Gosto de livros que, como este, me levam para lugares e épocas que não conheci e me deixam o bichinho de querer saber mais. Admito o meu conhecimento superficial sobre a tomada, pela Índia, dos territórios portugueses de Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar- Aveli, e muito agradeço à família Carcomo por me ter deixado entrar na sua casa-comboio e nas suas vidas, e me ter deixado sentir um pouco a dor da perda e do “regresso” a um país que nunca foi o seu. Mas agradeço também o cheiro das comidas e o exotismo das paisagens. E as histórias dentro das histórias só possíveis numa família grande e, por isso, carregadinha das memórias de um passado que tem de ser contado. Agradeço à Raquel por ter contado esta história.

Recomendo que leiam A Casa-comboio. Este livro tem tudo para gostarem dele.

“- A casa-comboio é o ecossistema da nossa família – cientificava Honorato, brincando às frases sérias. Uma casa rectangular, muito comprida, que progredia ao longo de um corredor, com uma pequena sala de visitas à entrada, dando logo acesso a uma cozinha do lado esquerdo, com grandes bancadas de mármore branco onde se podia esventrar javalis e cabras, e uma casa de jantar enorme do lado direito, onde os lugares vagos pediam o crescimento da família. Depois passava-se à ala dos quartos, novamente divididos pelo corredor, dois de cada lado. Por fim, uma divisão já com um varandim, com um espaço utilizado como lavadouro e dois bancos de mármore corridos, frente a frente.” (Pág. 74);

“- Devíamos ter uma vida para ler todos os livros que quiséssemos, outra para escrever tudo o que entendêssemos, uma vida para ouvir música, outra vida para fazer filhos e cuidar deles, outra para viajar.” (Pág. 330);

Sinopse

“Uma família indo-portuguesa. Um século de história. Quatro gerações que evocam 450 anos de aventura mítica, nos quais a Índia longínqua era portuguesa. Em pano de fundo, a partida, o acaso e a sorte de quem se vê constantemente obrigado a fazer as malas, o desenraizamento, a inquietação, o inesperado, a imprevisibilidade dos destinos que se cruzam. A imagem dada pelo título é elucidativa: uma casa em movimento. Uma beleza poética singular. Uma verdadeira revelação.”

Gradiva, 2015

Ouro e Cinza - Paulo Varela Gomes

Roda Dos Livros, 03.07.16

ouroecinzaPor vezes tenho a sorte de ler livros que ficam comigo muito tempo. Não só depois de os terminar, o que acontece frequentemente, e ainda bem, mas enquanto os leio. É raro. Gosto de ler depressa. E muitas (demasiadas) vezes cometo o pecado de ler o final do livro já com a cabeça no próximo. Nenhum autor merece. Mas o leitor também não. Arrependo-me, mas não evito. Não corrijo. Reincido.

Mas quando um livro fica na mesinha de cabeceira alguns meses sem ser por me ter entediado dele, e o levo na mala mesmo sabendo que não terei tempo ou oportunidade de lhe pegar, sei que se entranhou o suficiente para ler umas linhas hoje e outras amanhã, protelando o final com desvios páginas atrás, adiando a distância à contracapa.

Mas esse dia chegou, e li todas as palavras de Ouro e Cinza. Algumas li várias vezes e sei que lerei muitas mais.

Do brilhantismo da escrita, à lucidez do autor, passando pelas paisagens que conheço, e olhando de espanto para aquelas que só vi nestas frases, tudo guardo.

Porque sabe bem pegar num livro de crónicas como este, todo lucidez, com um tratamento objectivo pelas coisas que se olham e, mesmo assim, deliciar o leitor como se fosse um romance. Nem sempre a verdade é bonita, por isso é que fugimos para a ficção, mas um bom texto, aquele que nos ganha, pode ter cinco linhas e ser sobre o que se passa do outro lado da janela. Parece simples. Só é preciso saber escrevê-lo.

Sinopse

«São acerca de quê, estas páginas? Não sei como responder a esta questão. Sentimentos, sítios, ideias, objectos, imagens, climas, bichos, plantas.Escrevi crónicas regulares para jornais e revistas durante trinta anos, desde 1984. Foram milhares e milhares de páginas. Habituei-me ao formato limitado, entre quinhentas e mil palavras por texto, mais coisa, menos coisa, e reparo hoje que, desde as primeiras crónicas, no "Blitz" e no "Jornal de Letras", encontrei uma certa facilidade nesse formato. O facto de serem poucas as palavras nunca evitou que dissesse asneiras, mas teve a grande vantagem de impedir que fossem muito graves. Por outro lado, poucas palavras implicam palavras certas. Aprendi a escolhê-las com cuidado.Colaborei com o "Público" desde que este jornal apareceu, em 1990. Escrevi textos de variados géneros e, entre 2007 e 2013, crónicas regulares que se distribuíram por três séries: "Cartas de Cá" (mais de oitenta), "Cartas do Interior" (mais de cem) e "Cartas de Ver" (cerca de cinquenta). Foram muitas semanas e muita vida, muito ouro e muita cinza. Seleccionei para este livro algumas crónicas das duas primeiras séries, aquelas que ainda hoje me parecem bem, conjuntamente com alguns artigos mais longos, que saíram tanto no "Público" como em outras publicações. Espero que os leitores, tanto os que já conhecem estes textos como aqueles que nunca os leram, gostem da variedade do mundo observada em poucas palavras.» —PVG

Tinta da China, 2014

Pág. 1/2