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Roda Dos Livros

Morreste-me - José Luís Peixoto

Roda Dos Livros, 28.06.16

6816890Não há palavras que sejam suficientes para expressar a dor de perder um pai. É uma coisa tão visceral e devastadora, que se torna num daqueles momentos em que o antes e o depois se vêm separados por um limite inultrapassável. Há pessoas que sentem conforto no partilhar dessa dor, que conseguem facilmente rever-se nas palavras que outrem profere acerca da sua própria experiência, porque as ajuda a sentir que não estão sozinhas e que alguém as compreende; outras há que, por mais que procurem, sempre acharão que a dor é semelhante mas nunca igual, que o que sentem tem origem na sua individualidade e no sentimento único perante quem sempre teve aquele nome simples. P-A-I.

Acredito sinceramente que a maioria das pessoas que leu Morreste-me, de José Luís Peixoto, se terá sentido comovida pelas palavras do escritor-poeta. Seja porque, de facto, elas são comoventes e repletas do sentimento avassalador da perda, seja porque a sensibilidade de ter passado por algo semelhante faz reviver o trauma que se viveu. O passar do tempo atenua esse reviver e traz, muitas vezes, o sentimento de “culpa” pela dor se ir desvanecendo. Eu queria que este livro a trouxesse de volta. Queria chorar, queria sentir. Mas infelizmente não aconteceu. Não por falha do autor, mas porque pertenço ao segundo tipo de pessoas que referi. Considero cada dor uma dor única, irrepetível, e foi por isso que, ao ler este livro, me senti uma intrusa. Talvez não tenho pegado neste livro com o espírito certo, certamente difícil de alcançar dada a minha sensibilidade pessoal.

Foi, ainda assim, um livro que gostei de ler. Fez-me pensar e feriu-me, mesmo que o ferimento não tenha chegado ao coração. E quando as experiências não nos deixam indiferentes, vale sempre a pena. Obrigada, Márcia, pelo empréstimo.

Roda dos Livros - Sugestões de Junho de 2016

Roda Dos Livros, 26.06.16

20160625_171714Neste início de Verão a Roda dos Livros voltou à sua "casa" de sempre, a Biblioteca dos Olivais, para mais uma tarde de conversa animada em torno de uma mesa repleta de livros. Aqui fica a bela pilha de livros constituída pelas sugestões deste mês:

Sónia - "Síndrome de Antuérpia" de João Felgar

Ana - "A Harpa de Ervas" de Truman Capote

Paula - "Cartas reencontradas de Fernando Pessoa a Mário de Sá Carneiro" de Pedro Eiras

Renata - "A Resistência" de Julián Fuks

Cristiana - "Uma Senhora Nunca" de Patrícia Muller

Patrícia - "Teoria dos Limites" de Maria Manuel Viana

Rui - "O Metereologista" de Olivier Rolin e "A Neblina do Passado" de Leonardo Padura

Vera - "Uma boa mulher" de Jill Alexander Essbaum

Isabel - "Cinco Equinas" de Mario Vargas Llosa

Cristina - "Os números que venceram os nomes" de Samuel Pimenta

Ana Borges - "A verdade sobre o caso Harry Quebert" de Joel Dicker

Uma Boa Mulher - Jill Alexander EssBaum

Roda Dos Livros, 25.06.16

UmaboamulherGosto de romances no feminino mas tive alguma dificuldade em escrever este parecer. Uma Boa Mulher é uma mulher como tantas outras, que conheceu apenas uma versão do amor e sente-se triste, solitária e entediada.

Uma americana que deambula pela Suiça onde reside com o marido suíço e os três filhos numa existência confortável em que conta com o apoio da sogra para a ajudar a cuidar da prole sempre que se ausenta para aulas de alemão ou para as consultas de psiquiatria.

Não me identifico com esta mulher mas consigo compreende-la na ausência de sentimento de pertença a um ambiente que considera frio e organizado, de pessoas pragmáticas que não valoriza como amigos e de alguns encontros sexuais ocasionais para matar o tempo.

Uma tragédia marca o desenlace desta historia. E o desaire deste mulher desapegada, quase cruel com os que ama.

Apesar da capa que sugere um romance de literatura cor-de-rosa, não é disso que se trata.

Uma historia banal num mundo quase perfeito que esta mulher não sentia como tal. Uma leitura que acabou por ser envolvente com uma personagem de que não se quer gostar. Um final que surpreende (ou não).

Sinopse: O fascínio e a culpa de uma mulher dividida entre o amor e a luxúria.

Complexo e íntimo, "Uma Boa Mulher" é a história de uma mulher que enfrenta o vazio no seu casamento e procura dar um novo sentido à sua vida. Este é um romance que explora a sensualidade e o desejo em toda a sua força libertadora e subversiva.
Muito elogiado pela crítica internacional e pelos leitores, "Uma Boa Mulher" é um livro profundo e intenso sobre o casamento, a moralidade e o amor-próprio.

Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana

Roda Dos Livros, 25.06.16

Teoria dos limites

Leibniz, matemático e filósofo, diz-nos, entre tantas outras coisas, que "o todo não é a soma das partes mas sim a sucessão, a integração  mais a sua interação". Pegar nisto, na noção de limite e continuidade, na pirâmide de base infinita e transformar tudo em literatura (sobre literatura) é algo assombroso mas perfeitamente possível para Maria Manuel Viana.

Tal como, apesar de uma função não estar necessariamente definida num ponto, o limite nesse ponto pode existir assim todos os personagens deste livro convergem para o Escritor, para o Outro que, enquanto vivo, foi uma âncora na vida de todos estes personagens. Aqui conhecemos, através da sua convergência para este homem, Mariana, Ana Sofia, Ana Lúcia, João Caetano, a Velha Senhora, Ana B e Maria João, e conhecemos as suas perspectivas em relação ao Outro sem, no entanto, o conhecer verdadeiramente.

Depois de me ter sido repetidamente aconselhado pelos Rodistas, rendi-me à escrita desta escritora e a este livro de pouco mais de 150 páginas mas que é do melhor que já li. Sem me querer armar em pedante, tenho total noção que este livro não é para toda a gente, que nem todos os leitores estão interessados neste género de literatura mas tenho a certeza que faria bem a todos lê-lo, obrigar-se a pensar, a refletir nas questões que este livro nos põe. E não tenho dúvidas que cada leitor o lerá de forma diferente. Para mim este é um livro sobre possibilidades, sobre escolhas e consequências. Sobre o que somos, como nos vemos e como os outros nos vêem. Na diferença entre essas três perspectivas. E no esforço que fazemos para que essas perspectivas se aproximem ou se afastem. E no que o que somos e as escolhas que fazemos influenciam os outros, os que, de alguma forma, convergem para nós.

Rio do Esquecimento - Isabel Rio Novo

Roda Dos Livros, 19.06.16

riodoesquecimento

Não foi fácil de ler. A escrita requintada e a prosa descritiva para uma narrativa que remonta ao Sec. XIX levou-me para os romances que li enquanto adolescente e estudante nem sempre apreciados e foi necessário vencer essa resistência involuntária que antecipei para me deixar envolver com personagens que também elas remontam aos grandes dramas de amor do século passado.
 

Bem urdida trama para um pequeno livro que supus ler num fôlego dadas as suas pequenas dimensões mas que me acompanhou durante dias para melhor o apreciar e assim compreender as intrincadas malhas de sentimentos que motivavam as ações das personagens num salto entre o antes e o agora da narrativa sem perder a coerência e a cadencia do tempo e do lugar. A maldade disfarçada que manipula, o ressentimento e amargura que vinga, a teimosia e ambição que enriquece, o sonho que comanda a vida e determina a morte, o desencanto e insegurança que apaga mas não esquece os que permanecem num toque sobrenatural que deu titulo à obra.

Poderoso como gosto adquirido que importa persistir para surpreender com a natureza humana que silenciosamente se manifesta.

Sinopse:

Inverno de 1864. Sentindo a morte a aproximar-se, Miguel Augusto regressa do Brasil, onde enriqueceu, e instala-se no velho burgo nortenho, no palacete conhecido como Casa das Camélias, com a intenção de perfilhar Teresa Baldaia e torná-la sua herdeira. No mesmo ano, Nicolau Sommersen pensa em fazer um bom casamento, não só para recuperar o património familiar que o tempo foi esfarelando, mas sobretudo para fugir à paixão que sente por Maria Adelaide Clarange, senhora casada e mãe de três filhos. Maria Ema Antunes, prima de Nicolau e governanta da Casa das Camélias, hábil e amargurada com a sua vida, urdirá entre todos uma teia de crimes, segredos e vinganças. Subvertendo as estratégias da narrativa histórica, com saltos cronológicos que deixam o leitor em suspenso mesmo até ao final, "Rio do Esquecimento" descreve com saboroso detalhe a sociedade portuense de Oitocentos e assinala o regresso à ficção portuguesa de uma escrita elegante que consegue tornar transparente a sua insuspeitada espessura.

Síndrome de Antuérpia - João Felgar

Roda Dos Livros, 19.06.16

sindromedeantuerpia Gosto cada vez mais de ler romances de autores portugueses. E se antes isso me surpreendia, atualmente não acontece porque espero ler algo francamente bom e com a nossa marca. Personagens com facetas que identifico, em contextos que reconheço e em circunstancias que compreendo. 

A escrita e a capacidade de expressar ideias lúcidas e bem articuladas numa trama que desvendei no inicio, mas que ainda assim me deixou cativa com a caracterização gradual de todas as personagens sem enfado ou decepção, e a confirmação do desfecho que a mestria do autor não desiludiu. Não é uma historia feliz mas é uma historia possível e impõe alguma reflexão. Os juízos de valor e as regras de conduta desta pequena comunidade fascinaram-me.

"Há seres que não se procuram nem fazem falta, mas que não se dispensam depois de os termos. São amuletos que não dão sorte, mas não se jogam fora para não darem azar. E´ por isso que as aldeias devem ter sempre, pelo menos um tolo, para que a tolerância possa ser aprendida e exercida sem se pedir grandes concessões aos valores. Um ganho para a tranquilidade de consciência, que se alcança sem perdas morais a lamentar."                              (pag. 236)  

Sinopse:

No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. 
No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome. 
Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. 
Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.

Síndrome de Antuérpia - João Felgar

Roda Dos Livros, 16.06.16

sindromedeantuerpiaFoi com bastante expectativa que iniciei a leitura de Síndrome de Antuérpia. Depois da surpresa de descobrir Terra de Milagres, no ano passado, tornou-se inevitável esperar, no mínimo, melhor.

Com este novo livro João Felgar continua a surpreender. A fórmula é idêntica em alguns pontos, na medida em que a leitura é rápida e de certa forma compulsiva. A escrita é, pois, fluída, agarrando o leitor.

A mim comoveu bastante a história deste livro, talvez mais do que a anterior. Apesar de não ser tão misteriosa, pois não me foi difícil deslindar a trama, é uma narrativa bastante densa e não raras vezes dura. O universo feminino continua a ser um foco de interesse, penso que Cassilda Alfarro é uma personagem extraordinária e muito bem construída, mas obviamente que a maior curiosidade e interesse cai sobre Célio, o rapaz que desapareceu da aldeia e passados vinte anos regressa com o corpo da mulher que sempre teve dentro de si.

Voltamos ao ambiente rural, o meio é pequeno e todos se conhecem. Amores, intrigas e lutas familiares. O passado sempre ao virar da esquina, como uma sombra ou um fantasma. Os Alfarro de um lado, família poderosa da terra, e o resto do povo do outro, quase como mero espectador de um dia-a-dia governado por quem pode mexer os cordelinhos. Interessante reflexão sobre a vida em comunidade e sobre quem controla o quê. Sobre o medo das coisas que não se controlam e que, inevitavelmente, o futuro leva à frente, sem piedade.

Quando Célio, agora conhecido como Castiça, a tola da aldeia, aparece morto na pedreira, há muito mais além do que aparenta haver. E o que fazer quando o que não podia ter acontecido é já um acto consumado? Poderá quem manda criar a verdade? Será sempre uma mentira para quem sabe o que realmente o que aconteceu.

Síndrome de Antuérpia não é uma lição sobre a tolerância, e penso que não pretende ser. É muitas outras coisas.

É uma viagem ao coração de uma família doente que já nem luta pelas aparências, por não ser preciso, pois cada um dos seus elementos é de uma transparência que não escapa aos anos de “convívio” entre a população. E mesmo não valendo a pena lutar contra a verdade, e o óbvio ser flagrante, continua a alimentar-se a imagem que Cassilda, agora a matriarca, decide que é a correcta.

É também, por exemplo, uma descrição sem paninhos quentes do caminho que Célio percorreu para ser por fora a mulher que sentia por dentro, numa época em que não havia qualquer acompanhamento médico, e só o moveu a vontade de ser feliz e de se aceitar quando se olhava ao espelho. As loucuras a que sujeitou o corpo, sem medo de experimentar, e as terríveis consequências foram uma tortura para si e também para quem lê as descrições do autor. Mas serão certamente uma ínfima parte das dores de tantos Célios. E é isso que na verdade custa – os pensamentos com que o leitor luta depois da leitura. Mas esta luta, quando permanece depois de fechada a última página, é o melhor prémio que um livro pode oferecer.

Síndrome de Antuérpia permanece. Dificilmente se esquece. Leiam-no!

Sinopse

“No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome.

Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.”

Clube do Autor, 2016

Poesia

Roda Dos Livros, 13.06.16

Poesia_livros1A maior parte dos livros lê-se com o cérebro, pensa-se e volta-se a pensar, tecem-se histórias dentro da história, pomos a nossa imaginação a "fazer concorrência" à do autor...

A poesia, a poesia lê-se com o coração. Deixamos o cérebro a "descansar", e as letras, os versos, desenham-se-nos no coração. Mais do que a prosa, é a poesia que nos faz sonhar. Saímos de nós e voamos pela sonoridade das palavras que nos transportam para lá do Universo.

E deixamo-nos levar entre livros... um leva a outro, esse a outro e podemos andar assim a vaguear. "Go with the flow". Olhamos para as nossas estantes e os olhos e as mãos vão por instinto procurar poesia, vamos a uma livraria ou a uma biblioteca e acontece-nos o mesmo. A poesia pode tornar-se um vício.

Depois de ter lido "Vamos comprar um poeta", de Afonso Cruz (opinião aqui partilhada) apeteceu-me fazer uma viagem pela poesia, algo que não fazia desde o lançamento de "Os Armários da Noite", de Alice Vieira.

Comecei por Sophia, que me levou a Alice, que me levou a Pessoa. Todos diferentes, uma mesma paixão.

E em cada um me revi, era eu que estava ali. Aquelas eram as minhas palavras.

E vocês? De vez em quando deixem-se invadir pela poesia! Pois como lemos no "Poeta" de Afonso Cruz:  “A poesia (...) transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com a absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade.” (p. 87)

Ler poesia é, de facto, "fazer abdominais, flexões e alongamentos com a imaginação" in "Vamos comprar um poeta"

100% recomendado! Fica o desafio!

 

Excertos

POESIASophia de Mello Breyner Andresen

ATLÂNTICO

Mar.Metade da minha alma é feita de Maresia (p.28)

MAR

IDe todos os cantos do mundoAmo com um amor mais forte e mais profundoAquela praia extasiada e nua,Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.(...) (p. 29)

AS FONTES

Um dia quebrarei todas as pontesQue ligam o meu ser, vivo e total,À agitação do mundo do irreal,E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde moraA plenitude, o límpido esplendorQue me foi prometido em cada hora,E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,Irei beber a voz dessa promessaQue às vezes como um voo me atravessa,E nela cumprirei todo o meu ser.(p.70)OS ARMÁRIOS DA NOITEAlice Vieira

1o perigo de acumular silêncios emcorredores vazios      ouqualquer outro vício que avida nos traz

é que depois as palavrasmorrem à toasem flores      sem cânticos      semmissa do sétimo dia

e ninguém sabe para que serviramse mataram quem não deviam      ouse ficaram entreos intervalos do sono      fazendo-nostropeçar nelas como emchinelos velhos      roupa da vésperapeças de um puzzle que nuncativemos tempo de acabar

por vezes surge-nos mesmo a tentação deas tapar com os lençóis brancos das arcasonde as avós nos organizavam o futuroe que nunca usávamos porque

eram de linho      e o linhodava muito trabalho a engomarmas rapidamente entendíamos quetambém as palavras davam muito trabalho a desdobrarna nossa língua      eembora uma ou outra ainda tentasse brilharacabavam sempre por encontrar o caminho de saídaonde o rasto dos crimes perfeitos as esperava

sobre elas se abatemos pesadelos das manhãs de domingo      eninguém se lembra de lhes arranjarsignificados para o que deixaram para trásneste estranho país onde continuamente as esperamosno cais das mercadorias fora de prazo

depois tudo acabaninguém lhes coloca a pedracom dia de nascimento e morteninguém procura herdeiros      oucalcinados despojos

cavalos de guerra abandonadosna terra de ninguém(p.13)MENSAGEM E OUTROS POEMAS SOBRE PORTUGALFernando Pessoa

III. AS QUINASQUINTA:D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandezaQual a Sorte a não dá.Não coube em mim minha certeza;Por isso onde o areal estáFicou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomemCom o que nela ia.Sem a loucura que é o homemMais que a besta sadia,Cadáver adiado que procria?(p. 80)

 

Assírio & Alvim, 2013Caminho, 2014Assírio & Alvim, 2014

As Viúvas de Dom Rufia - Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 13.06.16

As Viúvas de Dom RufiaNão houve uma página deste livro que eu lesse sem um sorriso nos lábios. O início, lido ainda numa livraria, tal era a curiosidade com Dom Rufia, elevou a fasquia das expectativas e aguçou a vontade de o levar.

Senti este livro mais próximo de Os Demónios de Álvaro Cobra do que do anterior Mal Nascer, contudo As Viúvas de Dom Rufia é um livro diferente de qualquer um dos anteriores. Assenta num registo cómico muito bem conseguido, que não cansa, tendo também uma pitada bem jogada de malandrice. Dom Rufia, ou Firmino Pote, é uma personagem incrível que atravessa todo o livro com os holofotes na sua direcção. Um pantomineiro de bom coração, que pisca o olho ao leitor e lhe conquista a simpatia, apesar das mil e uma (ou mais) invenções para se tornar rico à custa das mulheres que vai enganado por várias localidades do Alentejo.

Dom Rufia, apesar de analfabeto, tanto se faz passar por médico como por advogado. Descontraído por natureza, sai em beleza das situações mais complicadas, encontrando sempre uma forma de deixar as mulheres (e as famílias, já agora) a seus pés. Nasceu para ser rico e tudo inventa para não ter de voltar ao trabalho duro dos campos. Procura ser visto em locais de prestígio, onde se relaciona com influentes homens de negócios que enrola nas suas patranhas. Firmino tem um enorme jogo de cintura, mantendo as suas mulheres felizes e apaixonadas, todas achando que são a única. O seu charme estende-se ao leitor que, sabendo de todas as suas falcatruas, se mantém ao seu lado, defendendo-o, mesmo sabendo que é inútil, pois a história começa no funeral de Firmino.

Mas mais do que a história encantou-me a escrita. Frases bonitas e criadoras de cenários imaginados, que reli até quase se desfazerem de sentido, tanto as fui desmanchando e repetindo. Senti que as personagens foram planeadas e criadas com esmero, evidenciando um romance pensado e estruturado. O interesse constante na história é mantido com deliciosas guloseimas para os sentidos, sempre com um sentido de humor inabalável.

Pessoalmente acho que é difícil ter graça, talvez por achar poucas coisas engraçadas e me fartar depressa da piada fácil. Valorizo muito quem consegue ser cómico sem cair no ridículo, e acho a comédia mais difícil do que o drama. Carlos Campaniço mostra a sua versatilidade, criando um romance diferente dos anteriores, mas mantendo o estilo que já conhecemos. Estão lá os regionalismos e as expressões de época (início século XX), conjugados com detalhes de vestuário, ambientes e tradições. As Viúvas de Dom Rufia oferece, não só horas de aprazível leitura, como uma verdadeira viagem no espaço e no tempo.

Recomendo sem qualquer reserva!

Sinopse

“Conhecido por Dom Rufia desde moço, Firmino António Pote, criado sem recursos numa vila alentejana, promete a si mesmo tornar-se rico. Negando-se à dureza do trabalho do campo, divide durante anos a sua sobrevivência entre o ócio e alguns negócios frugais. Mas, já nos trinta, munido de assombrosa imaginação, bonito como poucos e gozando de uma enorme capacidade de persuasão, sobretudo entre as mulheres, lobriga várias maneiras de alcançar o seu objectivo, fingindo continuamente ser quem não é. Para isso, porém, é obrigado a viver em vários lugares ao mesmo tempo, dando a Juan de los Fenómenos, um velho chileno em busca de proezas sobre-humanas, a ilusão da ubiquidade.Quando o corpo sem vida de Dom Rufia é encontrado no meio do campo, a recém-empossada Guarda Republicana não imagina as surpresas que o funeral reserva. O aparecimento de uma estranha carta assinada pelo tio do morto é só o princípio da desconfiança de que ali há mão criminosa.Depois do muito aplaudido Mal Nascer, finalista do Prémio LeYa em 2013, Carlos Campaniço regressa à ficção com um romance irresistível e cheio de humor, cuja acção decorre no início do século XX, num Alentejo onde pululam personagens fascinantes e inesquecíveis.”

Casa das Letras, 2016

Pai Nosso, de Clara Ferreira Alves

Roda Dos Livros, 13.06.16

Pai Nosso

Mas livrai-nos do mal

Amén

Ao contrário do que li por aí esta foi, para mim, uma leitura compulsiva. Tivesse tido tempo e teria lido este livro de uma assentada.

Não sei do que estava à espera mas não era disto. Fiquei presa a este livro nas primeiras páginas e não me cansei em nenhuma página. Nem a  (quase) total ausência de notas de rodapé, que tão necessárias teriam sido neste livro, nem a dureza das palavras ou a dificuldade em contextualizar nomes, lugares e acontecimentos fizeram esmorecer a vontade de persistir na leitura.

Não sou a maior fã da Clara Ferreira Alves, não concordo com ela inúmeras vezes e não sou uma leitora fanática das suas crónicas. Mas, sem dúvida, que este Pai Nosso me fez mudar, em parte, a opinião que tenho dela.

Comprei este livro num impulso depois de ter ouvido a entrevista que deu ao Carlos Vaz Marques no Pessoal e Transmissível da TSF (tem um spoiler imenso, não aconselho a que oiçam antes de ler o livro - como raio é que um autor se descai daquela maneira é algo que não consigo compreender - infelizmente parece que está na moda). Mas sei que o iria comprar pela capa, pelo título. Capa magnífica. Só tem, para mim, um defeito. O nome da escritora está demasiado grande. Mas a verdade é que este é um livro da CFA. Juro-vos que "ouvi" este livro com a sua tão característica voz.

A história de Maria, uma fotógrafa de guerra conhecida como "O fantasma", é-nos contada na primeira pessoa. Com ela viajamos de Lisboa a Jerusalém, de Cabul a Londres. Com ela sentimos, amamos, odiamos. Pelos seus olhos conhecemos personagens inesquecíveis, reconhecemos personagens que de ficção parecem ter pouco, sentimos o cheiro do mar ou o calor do deserto. De guerra em guerra, de foto em foto, percebemos o que move aquela mulher e conseguimos imaginar no que pensa enquanto fuma um cigarro e bebe um copo de gin.

Sim, é uma história sobre terrorismo. A guerra chegou à Europa. A maioria de nós lembra-se de tudo (mesmo que apenas menos do que um pouco de tudo) desde a Guerra do Golfo até aos ataques do Daesh que marcam o nosso presente. E este livro veio relembrar-nos, preencher lacunas, questionar-nos uma e outra vez. E mais uma ainda. E contar-nos, não uma, mas muitas histórias.

 Clara Ferreira Alves não perde o tom de jornalista, de cronista mas atinge, enquanto romancista, a voz que eu prefiro ouvir. Sempre gostei de aprender nos livros. De partir da ficção para a realidade. Ou da realidade para a ficção. Neste livro, ambos acontecem.

Rendi-me.

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